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COBERTURA DA GUERRA
Alvin e Heidi Toffler

"A guerra da terceira onda", copyright O Estado de S. Paulo, 14/10/01

"Este conflito depende menos de conquista territorial e mais de supremacia da informação

As mídias do mundo estão repletas de descrições de como a campanha contra o terrorismo afetará a economia global. Contudo, pouco se diz de como a economia global influenciará o futuro da guerra.

Em nosso livro War and Anti-War (1993), escrevemos que, quando surge novo tipo de economia, com todas a circunstâncias concomitantes, sociais e culturais, muda também a natureza da guerra. Assim, a revolução agrária de 10 mil anos atrás, que lançou a Primeira Onda de transformações econômicas e sociais da história humana, introduziu a guerra da Primeira Onda.

A guerra da Primeira onda foi caracterizada por ataques ‘hit-and-run’, com ações visando a resultados específicos, seguidos de recuo rápido - pequenos ataques - e violência cara-a-cara, o confronto direto. Os camponeses, tipicamente, não lutavam por uma nação, mas por um líder militar supremo que os remunerava, geralmente, apenas com alimentação. Os soldados travavam a maioria dos combates durante o inverno, quando não eram necessários na lavoura. As campanhas eram de curta duração. A organização era imprecisa, nivelada e com características de rede. A coesão das unidades era sólida, com membros da família freqüentemente lutando lado a lado. A comunicação entre si era principalmente por contato pessoal. Os homens lutavam pela ‘honra’ de macho, para mostrar coragem. A guerra era pessoal. Mesmo quando compartilhavam uma religião ou ideologia fanática, muitas unidades militares eram subornáveis e podiam mudar de lado.

A história apresenta numerosas exceções ao padrão genérico, mas essa foi de fato, por milhares de anos, a forma predominante de guerra em todo o mundo.

Essa guerra da Primeira Onda é hoje o que os afegãos melhor sabem fazer.

A revolução industrial - segunda grande onda de mudanças sociais e econômicas da história - trouxe consigo uma forma de guerra totalmente nova: a guerra da Segunda Onda. A era a máquina criou a metralhadora. A produção em massa tornou possível a destruição em massa. O recrutamento criou exércitos massificados. A tecnologia padronizou o armamento. Soldados e oficiais receberam treinamento. A organização tornou-se burocrática. O controle passou a ser feito de alto abaixo, por graduações sucessivas de oficiais. Os sistemas de armas ficaram cada vez maiores e mais letais - porta-aviões, formações blindadas, frotas de bombardeiros, mísseis nucleares.

Depois de sua derrota no Vietnã, contudo, as forças militares dos EUA, paralelamente à economia, afastam-se da fabricação em massa, começam a desenvolver a nova forma de guerra da Terceira Onda, que se afastou das antigas concepções industriais sobre a guerra em massa. Tanto a economia quanto as forças militares necessitaram de uma vasta infra-estrutura eletrônica.

A guerra da Terceira Onda, como escrevemos em War and Anti-War, depende menos da ocupação territorial e mais da ‘supremacia da informação’. Esta supremacia pode significar importar em destruir o sistema de comando e controle do inimigo ou seus equipamentos de radar e vigilância. Mas requer também conhecermos mais sobre o adversário do que ele sabe sobre nós.

Significa privá-lo de ‘olhos e ouvidos’ - tecnológicos e humanos - e significa supri-lo de informações que enganem seus planejadores e modelem suas suposições estratégicas, para tirar proveito dos erros deles.

Significa também, como prevíamos então, dar mais destaque à ‘guerra de nichos’ - operações especiais, aviões-robôs, armas inteligentes, miras de precisão, forças de reação rápida e ‘coalizões profundas’ que vão além de um conjunto de nações, incluindo corporações, organizações religiosas, ONGs (organizações não-governamentais) e outros parceiros, visíveis ou encobertos.

Acima de tudo, a guerra da Terceira Onda, segundo escrevemos, exigiria uma profunda reestruturação dos serviços de inteligência, distanciando-se do destaque dado pela Segunda Onda ao caráter de massas, salientando a captação de dados por meios técnicos, maior dependência de espiões humanos, captação de dados com metas pré-determinadas, análises muito melhores, maior contato com ‘clientes’ e maior participação deles, disseminação mais rápida das ‘ramificações’ existentes e um uso muito mais sofisticado das informações não confidenciais de ‘fonte aberta’ disponíveis na Internet, imprensa, televisão e outros veículos de comunicação.

As agências de captação de informações, escrevemos, precisariam também fazer uso de sistemas de software que pudessem ‘concentrar a atenção em grupos terroristas, buscando relações ocultas em múltiplas bases de dados...

Presumivelmente, combinando tais dados com informações extraídas de contas bancárias, cartões de crédito, listas de assinantes e outras fontes, esses sofwares podem ajudar a apontar com precisão grupos - ou indivíduos - que se encaixem num perfil terrorista.’

Evidentemente, a forma de guerra da Terceira Onda se equipara melhor ao desafio do Afeganistão, seus terroristas e seus fascistas religiosos do que com a antiga forma de guerra da Segunda Onda que ajudou os EUA a ganhar a guerra fria.

O Taleban controla (parcialmente) um país que nem sequer completou a transição da Primeira Onda, da existência nômade para uma economia agrária.

Contudo, ironicamente, os terroristas que ele apóia se estendem pelo resto do mundo e fazem uso oportunista de tecnologias da Terceira Onda - cartões de crédito, Internet, sistemas de viagem integrados, simuladores de vôo sofisticados e muito mais - na esperança de finalmente restaurar o mundo islâmico do século 7.º.

A coalizão mundial antiterror organizada pelos Estados Unidos e as Nações Unidas contém países com economias de todos os diferentes níveis de desenvolvimento, Primeira Onda, Segunda Onda e Terceira Onda.

O que vemos hoje, entretanto, no absoluto contraste entre o Afeganistão e a América, não é o choque de religiões mas um ‘conflito de ondas’ - a primeira guerra da Primeira Onda contra a Terceira Onda, claramente definida."

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"A batalha da mente", copyright O Estado de S. Paulo, 14/10/01

"Em todo o mundo, críticos da América, inclusive alguns de seus relutantes aliados, manifestam ruidosamente apreensões de que Washington possa se empenhar no que eles chamam de política externa ao estilo ‘cowboy’ - um bombardeio irresponsável do Afeganistão em revide aos revoltantes ataques terroristas em Nova York e Washington.

Se o governo Bush fosse tão brutal como é acusado de ser, o mundo poderia já estar livre inteiramente do regime fascista-religioso do Taleban. Um único míssil Tomahawk ou uma bomba dos EUA poderiam ter eliminado todos os 600 mulás governantes, quando se juntaram numa conferência em Cabul em setembro, na qual repudiaram os pedidos de Washington para entregar Osama bin Laden.

Depois de fazerem explodir estátuas budistas, prender equipes cristãs de ajuda, emitir histéricos ataques de caráter anti-semita contra os judeus e afrontar os hindus com seu apoio a terroristas islâmicos na Caxemira, o regime está tentando ativamente, assim como Bin Laden, comprometer todo o mundo muçulmano numa jihad, não somente contra os Estados Unidos, mas contra todos os não-muçulmanos. Felizmente, a despeito das manifestações pró-Taleban em várias partes do mundo, a maioria esmagadora dos muçulmanos do mundo não é constituída de fanáticos, terroristas ou inimigos cheios de ódio. Mas, nas suas fileiras, há um grande número de indecisos.

Eles experimentam uma sensação de injustiça histórica, que remonta a meio milênio atrás ou mais. Tendo adotado várias ideologias seculares, na esperança de melhorar de vida - nacionalismo, socialismo, pan-arabismo, para enumerar alguns - sem chegar a lugar algum, agarram-se à pior de todas as ideologias: não o islamismo, mas o ‘reversionismo’.

Reversionismo é a nostalgia patológica de um mundo pretensamente melhor, que existiu em alguma ‘idade de ouro’ no passado. É a rejeição, não meramente do futuro mas do presente. O Taleban, com sua impetuosa ofensiva em direção ao século 7.º é a sua mais extrema manifestação.

CONCEITOS DE IMAGEM REFLETIDA

Na batalha contra as idéias do Taleban e de Bin Laden, a informação e o serviço secreto se tornam centrais. A campanha antiterrorista precisa ganhar a guerra pela conquista das mentes.

Hoje os Estados Unidos e o Taleban (com ou sem Bin Laden) estão tentando ganhar aliados. Washington está apelando a governos. O Taleban e Bin Laden apelam para as ruas.

O Taleban e Bin Laden buscam unir o ‘umma’ - todo o mundo islâmico. Samuel Huntington, num livro polêmico, prevê que a principal guerra do futuro poderia ser, de fato, ‘o Ocidente contra o resto’. Esta é a imagem refletida no espelho que o Taleban e Bin Laden desejam: um Islã unido contra todo o resto. (Hutington, naturalmente, não estava interessado em provocar um conflito mundial; Bin Laden e o Taleban estão.) Ao citarem o Corão, seletivamente, para legitimar seus assassinatos em massa, eles retratam todo o mundo exterior como um inimigo sitiando o Islã, liderado pelo maior de todos os infiéis, os Estados Unidos. A vitória nesse conflito dependerá em grande medida do sucesso que cada lado tenha ao defini-lo.

No coração do conflito está, conseqüentemente, o que os especialistas em guerra da informação chamam de administração da percepção. Se a propaganda de Bin Laden tiver sucesso em persuadir os muçulmanos de que se trata de uma guerra contra o Islã, as chamas do terrorismo se propagarão em todo o mundo; Bin Laden, vivo ou morto, ganhará, e os regimes muçulmanos moderados estarão ameaçados, da Malásia ao Marrocos.

Os Estados Unidos e seus aliados têm uma tarefa informativa mais difícil, mais sutil. Precisam deixar clara a distinção entre religião e terror. E precisam transmitir essa mensagem, não somente a diplomatas e líderes, mas para as almas e para as ruas, onde os estômagos de milhões de pessoas empobrecidas e sem instrução recebem fogo em vez de comida.

Para essa tarefa decisiva, não ajudam as referências ingênuas como ‘cruzada’ a uma campanha global antiterrorista ou o menosprezo do Islã manifestado publicamente pelo boquirroto primeiro-ministro Silvio Berlusconi.

O presidente George W. Bush tem declarado reiteradamente que o objetivo é esmagar os terroristas e seus patrocinadores, e não causar dano ao Islã. Mas o que se necessita é uma ofensiva global de paz mais ampla e teologicamente mais sofisticada que tranqüilize o ummah, trate-o com dignidade e o convença de que o Taleban e Bin Laden são apóstatas e hereges abomináveis que profanam o Corão.

RÁDIO E RUMOR

Ao banir a televisão, o Taleban deixou seu povo, predominantemente analfabeto, dependente de um único veículo, o rádio.

A coalizão antitaleban deve bloquear todas as transmissões do Taleban, com interferências, e montar a Radio Corão - uma rede de emissoras multilíngües que não faria nada mais do que citar, repetindo sempre, passagens do Corão conclamando à paz, juntamente com mensagens com essa mesma finalidade, dirigidas por líderes muçulmanos de todo o mundo.

A coalizão mundial contra o terror precisa criar também as próprias emissoras, destinadas a desmentir boatos venenosos disseminados por jornais paquistaneses e afegãos, de que os ataques terroristas foram na realidade executados pela Índia, ou pelos judeus, ou pelos próprios Estados Unidos.

Poderíamos também contar com um exército de hackers dos EUA ou de outros países prestando trabalho voluntário para identificar os sites da Web que dão origem a essas mentiras propagandísticas, desmantelá-los ou fazê-los atuar contra si mesmos.

Além de alimentar as mentes, os EUA deveriam continuar a alimentar as barrigas, especialmente dos refugiados de ambos os lados da fronteira afegã-paquistanesa. Embora os EUA já sejam o maior doador de alimentos para os famintos afegãos, deveriam aumentar dramaticamente esse apoio. Fardos carregados de alimentos podem ser lançados com precisão por aviões em vôo baixo. Mas cada saco com alimentos pagos pelos EUA deveria ter dentro dele ou nele estampada uma bandeira americana - e não, de forma idiota, como é o caso atualmente, com as letras USA em inglês. (Os beneficiários são na maior parte analfabetos em sua própria língua, imaginem em inglês).

Outros artigos necessários, também como camisetas, tendas, utensílios de cozinha, folhas de plástico, produtos farmacêuticos, roupas de bebês, e assim por diante, deveriam ostentar as estrelas e listras, de modo a que ninguém ficasse em dúvida quanto à fonte desses socorros. Mas os doadores deveriam distribuir, junto com isso, pilhas baratas e aparelhos de rádio pré-sintonizados em estações antitaleban.

A má notícia é que a maldade, cada vez mais criativa, sem dúvida inspirará outros ataques no futuro. E não apenas por clones do Taleban. Há grande quantidade de outros movimentos fanáticos no mundo. Os países ainda não experimentaram um ataque químico ou biológico ou uma guerra cibernética. E pequenos ataques - como o da lancha lançada contra o navio USS Cole e o de um punhado de fanáticos contra o World Trade Center - podem causar imensa destruição assimétrica.

Tudo isso é verdade, mas a raça humana tem um instinto de sobrevivência poderoso e resistente que a afasta da beira da catástrofe. Certamente, um dos fatos mais surpreendentes de nossa época é que nem uma única arma nuclear, das dezenas de milhares que existem, muitas das quais guardadas negligentemente, foi usada para matar quem quer que seja durante quase 60 anos que se seguiram a Hiroshima e Nagasaki.

Parece impossível - e esse período de sorte pode chegar ao fim - mas isso não foi apenas resultado do acaso. Em todo o mundo, nos exércitos e nas polícias, bem como em salas de aula e movimentos pela paz, há seres humanos trabalhando duro e se esforçando arduamente, dedicados à busca da paz. Sua capacidade cerebral, vigor e prudência triunfarão.

O reversionismo - a tentativa de impor o passado - garante pobreza perpétua, fomes periódicas, patriarcado, controle totalitário da vida cotidiana e anos de vida truncados. Eis porque, em devido tempo, à medida que o mundo se move para o amanhã, Bin Laden e o Taleban desaparecerão no buraco negro do esquecimento, o lugar que lhes cabe.

Alvin e Heidi Toffler, co-autores do livro sobre a criação de riqueza, a ser lançado em breve, escreveram best-sellers como ‘The Third Wave’’, ‘Future Shock’,’ ‘Powershift,’’ and ‘Creating a New Civilization.’’ A empresa de consultoria estratégica, Toffler Associates, presta assessoria a empresas e governos em muitos países. (c) 2001, Alvin Toffler. Distribuído pelo Los Angeles Times Syndicate International, divisão da Tribune Media Services."


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