18/11/2003 2/24

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GOVERNO LULA
Denis Lerrer Rosenfield

"Raios", copyright O Estado de S. Paulo, 17/11/03

"Raios, sim, caem várias vezes no mesmo lugar. As investidas do MST, CPT, PC do B e de alas do PT contra os produtores rurais expressam um movimento mais amplo contra o capitalismo e a democracia em nosso país. Sob a égide da ‘inclusão social’ - essa expressão de uma nova língua que tomou conta da consciência nacional - se organizou toda uma articulação que de social só tem o nome. Não se trata, evidentemente, de negar a necessidade de equacionar nossa aguda miséria social, mas de situá-la em seu domínio específico: o do crescimento econômico e o do emprego, aliados amedidas distributivas na área rural. O problema consiste, porém, na transplantação de uma questão social para a arena política, sobretudo se esta se apresentar sob o manto revolucionário.

Esses grupos não advogam pela resolução dos problemas sociais, mas pela sua exacerbação, pois desta depende a conquista do poder. Em lugar de ‘inclusão social’, poderíamos dizer ‘resolução dos problemas sociais’, com a vantagem de termos uma expressão universal que não seria partidariamente marcada. Uma vez que essa formulação ‘pegou’, procura-se agora ampliar a significação de um outro vocábulo dessa língua, a saber, o ‘latifúndio’, como a praga a ser extinta.

Neste se misturam acepções que recortam desde uma grande propriedade rural improdutiva até as empresas capitalistas mais produtivas, as do agronegócio, que mudaram o panorama agrícola e a própria pauta exportadora brasileira.

Os que se abrigam sob essas expressões estão imbuídos de um profundo sentimento anticapitalista e antidemocrático. Em ato realizado no teatro da PUC de São Paulo, conforme noticiado no site do PC do B, foi dado prosseguimento a um movimento nacional patrocinado por MST, CUT, UNE e Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, visando a atingir os meios de comunicação que criticam o lado político e revolucionário dos movimentos ditos sociais. Aliás, representantes de Cuba estiveram presentes, certamente por ser esse país exemplo de liberdade de expressão! A finalidade desse ‘encontro’ de nostálgicos do ‘socialismo real’ é clara: constranger, ameaçar e boicotar as vozes livres.

A esses meios de comunicação estaria reservado ‘um espaço no quinto dos infernos, que é para onde eles merecem ir, disse na ocasião, sob fortes aplausos, João Paulo Rodrigues, membro da coordenação do MST’. Os pastores do comunismo pregam a extinção dos ímpios, dos que não compartilham o seu credo, que, no Brasil, adquire os nomes de ‘teologia da libertação’, ‘filosofia da libertação’, ‘marxismo cristão’ e outros, numa estranha mistura, pois as religiões tradicionais, salvo a do Estado, foram proibidas nos países do ‘socialismo real’. Para eles, não há dúvida: trata-se de ‘ocupar o latifúndio dos meios de comunicação’, pois a nova língua inventa essa expressão com o intuito de destruir as empresas e a própria democracia.

Para a imposição desse novo/velho ‘pensamento único’ se torna necessário criar condições para inviabilizar as grandes empresas de comunicação que não compartilham desse credo. Do campo agrícola ao digital, a luta é uma só. Raios, sim, podem ter as mesmas causas. No século 20, o comunismo começou com uma generosa proposta social, depois postulou que essa proposta era incompatível com o capitalismo e, por fim, criticou a democracia como sendo uma forma burguesa de exploração, devendo ser extinta. Criou-se, primeiro, uma justa indignação com a situação de miséria de certas camadas sociais, capturando setores de intelectuais, jornalistas, estudantes e políticos. Difundiuse, no momento seguinte, a idéia de que as empresas capitalistas, sobretudo as maiores e mais produtivas, seriam responsáveis pela ‘exclusão social’, quando são, na verdade, os motores de uma sociedade desenvolvida.

Por fim, partiu-se para o desmonte das instituições republicanas e democráticas. Em nosso país, há um caldo de cultura propício à mistura dessas três etapas, fazendo da ‘inclusão social’ o mote político de um comportamento que procura destruir o capitalismo. Manifestações e documentos desses ‘movimentos’ e partidos têm um nítido teor anticapitalista. Eles se baseiam num ‘esquecimento’, o de que só as sociedades capitalistas desenvolvidas, com grandes empresas, foram capazes de resolver os problemas sociais.

Os EUA e países europeus são a prova dessa relação intrínseca entre capitalismo, democracia e condições materiais e justas para toda a população. Os países que romperam com o capitalismo, como a ex-União Soviética, o Camboja e Cuba, entre outros, desembocaram em extermínios, fuzilamentos e o silêncio dos cemitérios. Entre nós, o amálgama se acentua com uma crítica da democracia aliada à defesa de uma ‘outra democracia’, dita direta ou participativa, que não é nem uma nem outra, sendo, na verdade, um instrumento de conquista do poder. Vende-se a idéia de que a democracia se resolve numa mera questão de números, quando é um sistema de delegação de poder baseado nas liberdades econômica e política. Quando os meios de comunicação se tornam a bola da vez, há algo muito preocupante, pois se trata de calar os que se posicionam contra as tentativas de destruição da liberdade de opinião. Não pode haver equívoco possível. Por meio da crítica do ‘latifúndio’, agrícola ou dos meios de comunicação - e, por que não, amanhã, de qualquer empresa? -, esconde-se um propósito de eliminação da democracia.

O exemplo do ‘socialismo real’ não deveria abandonar nossas mentes, sob o risco de cairmos num regime de trevas. Atenção com os raios!"

 

Painel do Leitor, Folha de S. Paulo

"Brasil", copyright Folha de S. Paulo, 13/11/03

"‘Após ler o editorial ‘O futuro da retomada’ e as colunas ‘Fagueiros e façanhudos’, de Vinicius Torres Freire, e ‘Show externo’, de Otavio Frias Filho (Opinião, pág. A2, 6/11), confesso que não pude evitar um sorriso faceiro. Em mais de 20 anos de leitura desta Folha, jamais a havia visto em tamanha encruzilhada editorial. Esta Folha apostou tudo no fracasso do governo Lula e, agora, cautelosa para não ficar falando sozinha, começa a dar seus primeiros passos em direção à ‘reconciliação’. Foi hilário ver aquele editorial acendendo uma cautelosa vela ao crescimento sustentado -do qual o governo vem falando desde o começo do ano e que só mereceu sátira do jornal. Vinicius Torres Freire conjecturando -sem nenhuma afirmação mais peremptória, tão ao seu estilo- e pedindo prudência na política cambial. Quem diria? Mas não era a prudência o principal pecado do governo Lula? E Otavio Frias Filho, coroando a página 2, com muito cuidado -e não sem uma criticazinha ácida aqui ou acolá para temperar- tece loas à política externa. Tudo ali, um do ladinho do outro. E, no dia seguinte, quiçá para consolidar a mudança de postura, uma ode ao PT com o editorial ‘Acordo razoável’, abandonando de vez a linha ‘o PT e Lula traíram o povo mudando seu programa para governar’ e inaugurando a linha ‘todos juntos em defesa do futuro do Brasil’. Finalmente, pois estava ficando chato ler os articulistas. Nós -leitores do jornal e eleitores de Lula que continuamos a acreditar no governo- e o ‘Manual da Redação’ agradecemos.’ Francisco Carlos Balthazar (Criciúma, SC)"


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