18/11/2003 6/24

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MÍDIA DE PIRES NA MÃO
Ivson Alves

"Chorando na rampa - II", copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 17/11/03

"‘Em casa sem pão, todo mundo grita e ninguém tem razão’, dizia minha vó Sinhá, que Deus a tenha em sua glória. É uma frase que ilustra, com a síntese característica dos ditados populares, o fato de que quando falta dinheiro raramente um grupo, por mais unido que seja, resiste a fissuras. Se esse grupo já não é lá muito coeso por ser composto por empresas vivendo no regime capitalista, então a tendência é que as fissuras se tornem rachaduras mesmo. Pois é a falta de união o segundo ponto que ameaça a concessão da ajuda que os conglomerados de comunicação pediram ao BNDES.

A origem da fissura são as diferentes situações econômicas vividas pelas empresas. Algumas, como as Organizações Globo, a RBS e a Abril (mas longe de serem só elas), estão com a corda incomodando os seus colarinhos corporativos. Elas precisam muito que o sétimo de cavalaria econômico do BNDES chegue rapidamente para salvá-las dos índios-credores que já fizeram um círculo em volta das carruagens.

Outras empresas de comunicação, no entanto, não estão em situação tão complicada. Devem, não se nega, mas por não terem que arcar com custos tão altos e, principalmente, contarem com geração de caixa mais constante vindo de circuitos fora do negócio comunicação, conseguem administrar as dívidas e até crescer um pouco. Dentro deste grupo, destacam-se a Record e, num patamar mais abaixo, o SBT.

Este último grupo de empresas está até a fim de receber a ajuda emergencial do BNDES, é claro, mas o que é realmente estratégico para ele é que seja aberta uma linha de crédito normal, dessas que financiam outros setores da economia. Com ela, essas companhias teriam condições de fazer um planejamento de mais longo prazo e até, se der na telha, atrair sócios estratégicos, tudo com o fito de crescer.

Pois é essa ameaça - que grupos hoje menores ganhem musculatura, cresçam e apareçam - que os conglomerados mais poderosos que não andam na base do ‘balança, mas não cai’ estão temendo. Eles operam nos bastidores para que somente o tal empréstimo de emergência saia a fim de que eles se salvem, mas os outros não aproveitem o dinheiro para crescer (afinal, quem deve mais vai receber mais e a distância que hoje existe se manterá). Se saírem as duas linhas, os menos envidados poderão até se dar ao luxo de não pegar um empréstimo de emergência e usar o da linha comum - que normalmente deverá ter prazos mais longos, menor necessidade de garantias e juros mais baixos - ficando capitalizados e prontos para crescer em cima dos concorrentes maiores em situação de pindaíba.

Há ainda um terceiro probleminha para que o BNDES estenda a mãozona em direção aos grupos brasileiros de mídia. Mas fica para a próxima coluna.

Mudando de lado - A jovem coleguinha de um jornal do Rio liga para a assessoria da Secretaria de Segurança em busca de uma informação. ‘Olha só, vê isso no Hoje (o jornal do início da tarde da Globo), que está tudo lá’ é a resposta. Obviamente inconformada, a coleguinha insiste. ‘Ah, não enche! Se quiser, vê no Hoje, se não quiser, dane-se. Eu estou atrasado para o meu curso e não vou chegar atrasado por tua causa’, ouve a jovem, segundos antes de ter o telefone batido na cara. O curso a que referia o assessor é um preparatório para um concurso para o cargo de delegado de polícia."

 

OPERAÇÃO ANACONDA
Luís Nassif

"Desdobramentos do caso Anaconda", copyright Folha de S. Paulo, 11/11/03

"A operação Anaconda pode ser fundamental para o aprimoramento do Judiciário, desde que não seja instrumentalizada por outros poderes. Um Judiciário independente é fundamental para a consolidação do processo democrático. E a maior parte da categoria é composta por profissionais honestos, tão vítimas do anacronismo administrativo do Judiciário quanto os clientes dos serviços jurisdicionais.

O próprio processo de prisão do juiz João Carlos da Rocha Mattos, por aprovação unânime dos desembargadores, o voto da juíza, o profissionalismo com que foi conduzida a investigação, sem vazamentos antes do tempo, são provas disso. Aliás, se a Operação Anaconda tivesse sido comandada pelo exibicionismo de alguns procuradores brasilienses, teria resultado em três dias de manchetes furadas e nenhuma prova apurada.

O momento da reforma do Judiciário é agora, desde que seja por meio do fortalecimento das forças modernizantes internas do próprio Judiciário.

A grande questão a ser discutida é essa: por que um poder, em que a maioria dos membros é séria, não conseguiu forças para enfrentar adequadamente a sua banda podre? Há pelo menos dez anos a fama de Rocha Mattos não é boa. O máximo que a Justiça Federal conseguiu, no entanto, foi congelar sua carreira, impedindo sua promoção. Durante algum tempo com ameaças de divulgação de dossiês e quetais, ele conseguiu intimidar muitos juízes sérios. E conseguiu porque, mesmo sendo sérios, sabiam que, nas mãos de jornalistas aliados, os dossiês poderiam ser letais.

É importante anotar esse ponto. Foi a complacência com dossiês que deu força a chantagistas de toda espécie e criou uma cumplicidade perigosa entre jornalistas de escândalos e suas fontes. Nas degravações dos grampos dos juízes suspeitos, aliás, aparece pelo menos um jornalista que se propõe a obter informações sobre as investigações no Ministério Público Federal, para repassá-las à sua fonte. Ligou, de fato, a procuradores querendo informações sobre o tema. E não era de nenhum programa sensacionalista de televisão.

Por todas essas implicações, é importante começar a adotar o comportamento da ‘tolerância zero’ em todos os níveis. Do lado do Judiciário, há que haver ações que rompam a inércia que imobilizava os juízes de bem. E a questão de um conselho que avalie as ações administrativas, sem se imiscuir na independência do juiz, tem que ser discutida sem preconceitos do lado dos juízes e sem tentativa de manipulação política do lado do Executivo.

Do lado da imprensa, há que ter uma avaliação rigorosa sobre o jornalismo de escândalo, sabendo separar os repórteres que se dedicam profissional e seriamente a ser fiscal da sociedade daqueles que fazem pactos com o diabo. Finalmente, há que abrir espaço para as muitas experiências inovadoras que estão surgindo em vários tribunais, de uso inteligente de ferramentas de gestão e de tecnologia, para que essas forças renovadoras possam florescer e contribuir para um Judiciário mais eficiente."

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