JORNALISMO CULTURAL
Ana Maria Bahiana
"Conjurando os deuses antigos", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 11/11/03
"Registro, com extremo interesse e curiosidade, a chegada da revista OutrasCoisas, mais conhecida como A Revista do Lobão. Registro e não me detenho com mais vagar porque ainda não consegui achar um exemplar - o que, por si só, já diz alguma coisa sobre o projeto, ou seja, define seu tamanho e alcance.
São 20 mil exemplares tirados deste número um, leio na Folha Ilustrada - 20 mil, nos idos tempos neolíticos da imprensa alternativa, era o ‘número mágico’, o limite que, se alcançado e mantido por mais de dois números, definia senão o sucesso, pelo menos as chances de sobrevida de uma publicação. Achei significativo que OutrasCoisas tenha definido neste ‘número mágico’ o alcance inicial de suas ambições.
Acho interessante, em OutrasCoisas, a tentativa de unir algo que, a essa altura, é tradicional - a postura ‘alternativa’ numa mídia impressa, e não na Internet, que hoje é seu reino - com um elemento novo - a venda de Cds em banca, um ‘pulo do gato’ que abre uma nova porta no confuso labirinto do negócio de produzir e vender música. Acho bem-vinda, tambem, a chegada de uma nova voz, alegremente dissonante, no coro de blá-blá-blá insosso que tem dominado o que deveria ser nossa polifonia de jornalismo cultural.
Outras coisas em OutrasCoisas são, para mim, menos atraentes - a redação salpicada de colaboradores não pagos, o mandato básico de vender o disco, e não o conteúdo da revista. Quem se apega postura da obrigatoriedade do diploma deve provavelmente estar apoplético com a fartura de não-jornalistas nos quadros do título. Isso, sinceramente, me incomoda nada - muito menos, com certeza, que as duas coisas acima.
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Quem se interessar por uma outra versão atual desta mesma tradição de imprensa alternativa deve checar a revista Arthur .(http://www.arthurmag.com/)
Obra de uma garotada esperta de Los Angeles - obviamente saudosa do que não viveu, fenômeno cada vez mais comum - Arthur propoõe-se a resgatar a essência do primeiro momento da imprensa indie americana - Crawaddy! , a Rolling Stone 1967-1977 - e fazê-la palatável à geração da internet. Num interessante uso de mídia mista, a Arthur pode baixada ou comprada (por um valor nominal) por assinatura (inclusive no exterior) eliminando tanto a banca quanto a tediosa leitura na tela do computador - importante porque, como as ‘deusas’ da imprensa que invoca, a Arthur gosta de textos longos, cartuns elaborados e ilustrações no capricho.
Na edição que está no ar - a sétima -My Bloody Valentine e Sun Ra se unem a Peaches e a um apanhado da cena alt.rock americana, enquanto o recem-falecido ator Charles Bronson tem sua persona dissecada como ‘o Buda das Sombras’ num alentado ensaio.
A Arthur acaba de ser eleita ‘revista do ano’ pela bíblia da cultura alternativa americana, o Utne Reader.
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E para quem quer saber: Jack Valenti, Zeus de um olimpo bem diferente, dignou-se a receber o jornalista Lorenzo Soria, presidente da Associação dos Correspondentes Estrangeiros em Hollywood. Segundo carta enviada por Soria aos seus colegas, Valenti foi ‘cortês e aberto’ e se mostrou ‘quase contrito’ por ter vetado o envio de fitas com os filmes do ano aos jornalistas que votam para prêmios. Nada foi decido na reunião mas, segundo Soria, ‘ainda há uma esperança’.
Enquanto isso, a Associação de Críticos de Chicago suspendeu seus prêmios deste ano, alegando, como a de Los Angeles, ‘total impossibilidade de exercer uma escolha informada e livre’."
MERCADO & SINDICATO
Eduardo Ribeiro
"Sindicato volta a ter papel estratégico", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 12/11/03
"Chamo a atenção dos colegas para a mudança que começa a despontar no movimento sindical dos jornalistas brasileiros, a partir dos acontecimentos de São Paulo.
Desde os efervescentes movimentos contra a ditadura, no pós-morte de Vladimir Herzog, em 1975, até a histórica greve de 1979, o Sindicato dos Jornalistas do maior Estado do País, em que pese todos os esforços feitos pelas várias diretorias que se sucederam, desde então, nunca logrou pleno êxito no desafio de mobilizar a categoria.
De certo modo desinteressada, a categoria, no caso paulista, sempre olhou com ceticismo e com um certo desdém para a atuação do Sindicato, culpando-o, de certo modo, por todos os males que a afligiam. Fossem quais fossem as razões - discordâncias ideológicas, medo de perder o emprego, desinteresse mesmo etc - o fato é que por todos esses anos um dos maiores e mais complexos desafios dos colegas que aceitaram a missão de conduzir o Sindicato foi e continua sendo o da mobilização das redações.
Nesse sentido, a grave crise que afeta a mídia brasileira está sendo decisiva para resgatar a imagem e o papel estratégico do Sindicato junto às suas bases nos veículos.
Fred Ghedini, Amilton Vieira e cia, do sindicato paulista, desdobram-se para dar conta de tantos encontros, reuniões e debates, que passaram a se somar à atividade cotidiana da entidade. Agora, porém, com dois novos ingredientes que dão ao mandato sindical (imagino) novos horizontes: maior mobilização na base e respeito profissional inclusive nas hostes patronais.
Um dos mais nítidos e recentes exemplos foi a supreendente freqüência de colegas na assembléia inaugural da campanha salarial de 2003, na área de rádio e TV. Tida como uma das mais avessas no quesito mobilização, rádio e TV sempre enfrentou, de quebra, uma maior truculência patronal. Este ano, no entanto, parece que os ventos da crise mexeram com todos - patrões e empregados e desse modo tivemos, de um lado, o desejo das empresas em iniciar as negociações bem mais cedo do que normalmente ocorria e, de outro, uma participação praticamente recorde de jornalistas de rádio e TV no movimento: quase 200 colegas assinaram às atas da assembléia, nas várias sessões realizadas, e rejeitaram a proposta das empresas de rever para baixo o dissídio de 2002 (propõe oficializar o reajuste de 7,5% contra os cerca de 13% concedidos pela Justiça do Trabalho) e de conceder para o dissídio deste ano (2003/2004) 10%, contra uma inflação estimada de 14%, no período que compreende o reajuste.
Rejeitar a proposta é do jogo, até mesmo porque realmente é muito ruim o acordo proposto e se não houver melhora a diretoria do Sindicato certamente proporá novamente ir à dissídio, o que, para as empresas, tende a ser muito pior, pelas sentenças favoráveis que têm sido dadas aos trabalhadores em vários episódios. As questões que saltam aos olhos, neste caso, são: 1 - A mobilização excepcional, sobretudo considerando-se que por anos e anos os colegas de rádio e TV nunca compuseram um quórum significativo - ao contrário, quantas assembléias vexatórias se viu realizar no Sindicato com a presença de meia dúzia de gatos pingados, deixando a diretoria numa situação embaraçosa para negociar; 2 - O interesse do Sindicato das Empresas em acelerar as negociações (fruto sobretudo do resultado adverso do último dissídio), certamente na esperança de selar um acordo menos prejudicial financeiramente para elas.
Vamos ter ainda esta semana nova assembléia, e será possível observar se essa mobilização é realmente consistente.
Mas esse é apenas um exemplo. Há outros. O Grupo O Estado de S.Paulo (Estadão, Jornal da Tarde e Agência Estado), que passa por um intenso processo de reestruturação, desde a decisão de afastar toda a família da operação, meses atrás, resolveu apoiar uma negociação histórica com o Sindicato, permitindo que pela primeira vez fosse realizada dentro de suas instalações uma assembléia de jornalistas para discutir questões trabalhistas e salariais. Isso ocorreu na última quinta-feira (06/11), com a presença de mais de 200 profissionais das três redações do prédio do Bairro do Limão (só ficaram de fora os colegas da Rádio Eldorado). Essa era uma situação até bem pouco tempo atrás impensável, sobretudo pelas relações tensas que sempre existiram de parte a parte. Não houve acordo, pois a proposta foi considerada muito tímida pela maior parte dos jornalistas, mas as portas permaneceram abertas. A empresa quer pagar 7% de reajuste (praticamente metade da inflação no período) e, em troca, dá uma estabilidade de três meses para a equipe, tendo como limite a remuneração máxima de R$ 2.500 - ou seja, se alguém for demitido nesse período, receberá a título de bonificação o valor de até R$ 7.500 (dependendo do momento em que a dispensa for efetivada e do salário da pessoa). Outro compromisso que a empresa aceita assumir é de, caso precise demitir depois desse prazo, não ultrapassar 7% do atual efetivo. Mostrou-se também disposta a reabrir negociações em seis meses, para avaliar a conjuntura e até antecipar parte dos reajustes futuros se os negócios do grupo melhorarem, antes desse prazo. Os funcionários preferem amarrar o compromisso não em número de vagas, mas sim na massa salarial, até para evitar substituições com objetivos de achatamento salarial. A empresa aceitou a ponderação, propôs-se a analisar a situação e vai para uma nova rodada de negociação.
Se a proposta está longe do ideal, mostra que através do diálogo e de uma relação transparente se pode chegar a acordos que minimizem perdas de parte a parte, garantindo, num momento de crise como esse, de um lado empregos preciosos, e, de outro, a continuidade dos negócios e menores prejuízos para a qualidade dos produtos.
De todas, a mais complicada negociação é a que se arrasta há cerca de três anos na Gazeta Mercantil, ainda longe de um final feliz. Muitos erros foram, ali, cometidos de parte a parte, mas o prejuízo maior ficou efetivamente com os empregados e demais credores. E se em determinado momento se chegou a crucificar o Sindicato pelos acontecimentos infaustos de negociações anteriores, hoje isso mudou até pelo reconhecimento de que a entidade tem, sim, legitimidade para conduzir as negociações e interceder de forma direta na defesa dos interesses dos jornalistas.
Vários outros exemplos poderiam ser citados, e me restrinjo a São Paulo por ser a base que acompanho mais de perto, mas os exemplos certamente se multiplicam pelos outros estados brasileiros, a começar pela Fenaj que tem tido uma atuação vigorosa e permanente em vários episódios envolvendo a categoria, como o ataque de uma juíza à obrigatoriedade do diploma, na questão da regulamentação profissional, na criação do Conselho Federal de Jornalismo e também no recente episódio envolvendo o Conselho Federal de Medicina e a Resolução que foi sarcasticamente apelidada nos meios jornalísticos de a ‘mordaça dos médicos’.
É, a meu ver, muito bom esse resgate histórico, por vários motivos:
* Finalmente mostra que categoria e sindicato são uma coisa só, dependentes mutuamente;
* Diminui a resistência embrutecida e irracional contra a presença do sindicato nas redações e demais locais de trabalho (o Sindicato deixa de ser visto como um fardo e passa a ser visto como aliado efetivo)
* Resgata o verdadeiro papel do Sindicato particularmente para as camadas mais jovens da categoria que pouco ou nada sabem da instituição
* Joga luz e bom senso numa relação que sempre foi muito marcada pelo confronto e pelos antagonismos da mais valia entre patrões e empregados
* Abre novos canais de negociação e entendimento - com possibilidade de ganhos mútuos
* E pode unir, de uma forma consistente, os jornalistas e estes com os demais colegas das áreas de comunicação, como gráficos e radialistas - sonho antigo da constituição do Sindicato da Comunicação, reunindo em torno de uma única entidade todas as categorias envolvidas na produção
Organizados os jornalistas certamente serão mais fortes e poderão contribuir ainda mais para que esse venha a ser um país mais justo. Desorganizados seremos prezas fáceis dos inescrupulosos de plantão. Nada melhor, pois, que apoiar os sindicatos e lutar para que sejam cada vez mais atuantes e representativos."
JB
/ NOVOS PRODUTOS
"O Jornal do Brasil anunciou a criação de dois novos produtos. A primeira novidade tem estréia marcada para o dia 23.
Batizado de Caderno H, circulará aos domingos. Trata-se de um suplemento especialmente editado por Hildegard Angel.
A partir de 13 de dezembro, sai a Revista Vida. O novo produto será editado por Marcia Peltier e Danielle Nogueira, prevista para circular aos sábados."