|
TERROR & HORROR
Roberto Romano
‘Civilização cristã e ocidental? O desafio do Islã’, copyright Correio Braziliense, 17/9/01
‘Ódio e vingança são péssimos conselheiros na política’ (Bismarck)
Tenhamos cautela quando se transforma a carnificina guerreira em espetáculo global, onde os homens aprendem a lição da morte genérica. Depois que experimentamos a violência do fato bélico no Golfo Pérsico, a virtualidade engoliu o real, maquiando-o com imagens tecnologicamente produzidas para iludir bilhões de seres humanos. A fria racionalidade técnica, a serviço das mais revoltas paixões, produz mortes em escala do inferno. Nos dias de hoje a mídia televisiva desempenha o papel de mobilizadora da vingança e do ódio, paixões mais brutas dos indivíduos e das massas. E isto se transformou em ‘razão de Estado’ para o governo Bush.
Quem assiste à CNN e possui saber histórico, não esquece a técnica, usada por Bismarck, de falsificar fatos e documentos, tendo em vista fins estratégicos. ‘Falsificar’ é a palavra. Não se trata de pura mentira: quando ‘jornalistas’ censuram imagens, dados, história, até mesmo a geografia e a cultura, em particular no que se refere à religião, eles usam o método de propaganda batizado por E. Auerbach como ‘a técnica do holofote’. A retórica propagandística age como se o mundo fosse um palco. O jornalista ilumina alguns cantos do cenário, deixando os demais na sombra. O fato que recebe luz exclusiva pode ser verdadeiro, mas não é toda a verdade. Ora, diz Auerbach, ‘da verdade faz parte toda a verdade’. Procurar o todo leva tempo, o que impossibilita a tarefa de contrabalançar a mídia que age como instrumento de propaganda.
O alvo desta última não é informar, mas remeter mentes e corações para a luta contra o ‘inimigo’. Deste modo, diz Auerbach, agiu a imprensa dominada por Goebbels, com resultados conhecidos.
O que fez Bismarck? Em outubro de 1892 ele confessou ter modificado a forma de um telegrama que se destinava ao entendimento entre o rei da Prússia e o líder francês. Um texto ameno, quase um pedido de paz entre as nações, foi reduzido pelo Chanceler de Ferro em declaração de guerra, com alguns cortes feitos na base do lápis, apenas suprimindo-se frases. Diabólico: o texto que o chanceler ‘enfeitou’, antes de chegar até o Kayser, estava em todas as manchetes da imprensa européia. Assim, só restava a guerra aos governantes, base histórica de todos os horrores que sucederam no século 20. Sem a imprensa, o truque de Birmarck não seria eficaz.
Piorada a situação é isto o que ocorre no conflito entre os EUA e o mundo que não reconhece a sua hegemonia imperial. Hoje, Bush não precisa usar o lápis para falsificar notícias, nem tem necessidade de holofotes que iluminem apenas parcelas do verdadeiro: a CNN e a mídia fazem isto para ele.
A doutrinação para a guerra não é de inteira responsabilidade da imprensa. Além de Hollywood, o mercado da morte adestra a inteligência de milhões para apoiar a violência. De 1978 a 1983, foram vendidos 1.573.627 jogos de guerra nos EUA, e mais de 10 milhões foram exportados, ao mesmo tempo dando lucros aos industriais da morte imaginária e preparando a mente de crianças e de adultos para o ‘conflito final’. Estas vendas lucrativas aumentaram de modo assustador nos últimos anos. Comentando o fenômeno, um especialista em análise social da guerra mostra que nos war games desaparecem ‘o medo, o pavor, a fuga, a deserção, mas também somem o heroísmo e o sacrifício, que nos jogos permanecem incompreensíveis, não situáveis, pois são meras interferências irracionais com as quais não se sabe o que fazer. É significativo, deste ponto de vista, o status que os jogos de guerra reservam aos civis: nenhum’. (Pozzi, E.: ‘Giochi di guerra e tempi di pace’, in La Crítica Sociologica). As vítimas de amanhã, e de sempre, são os civis, tanto nos EUA quanto no Iraque, no Afeganistão, em toda parte.
Desde longa data a guerra contra o Islã tem sido o mote das falas cristãs ‘piedosas’. Num texto do século 16, Erasmo de Rotterdam assinala, no relativo à beligerância contra os turcos: ‘É de fato ruim para a religião cristã se a sua sobrevivência depender deste gênero de defesa’ (Adágio: ‘Só ama a guerra quem a desconhece’). Hoje, o islamismo é o movimento religioso que mais cresce no mundo. Se os cristãos, ou os que parasitam o cristianismo no poder político, militar, econômico, insistirem na guerra santa, os conflitos bélicos serão a única ‘promessa de futuro’.
Após a ruína da URSS, surgiu no mundo um bloco hegemônico, os EUA. Mas ocorre também a emergência de uma federação concorrente, a União dos Estados Europeus. Ambos espreitam a possível frente estatal reunindo a China e países menores, podendo incluir o Japão. Nas lutas econômicas entre esses blocos se define o futuro da política no mundo. Por enquanto, o vácuo gerado pelo fim da URSS assegura aos EUA uma situação privilegiada. Eles mantêm tropas e escritórios de comercio no mundo inteiro. Mas semelhante status é dinâmico e tende a se modificar.
Permeando todos os países, no Ocidente e no Oriente, o islamismo aumenta as suas multidões de fiéis. Os terroristas jogam com este elemento. Eles contam empurrar o poderio bélico dos EUA contra todo o Islã, e não apenas contra eles. Deste modo, quanto maior a violência imperial americana, maior o ódio que pode ser gerado, contra aquele país, em bilhões de seres humanos. ‘A América desempenha hoje o papel que foi da Inglaterra no final do século 18: como os ingleses na época, nós, americanos, nos tornamos, sem o desejar, os defensores da civilização contra os inimigos da ordem, da justiça e da liberdade, e das tradições de civilidade. Temos deveres imperiais, o que requer intelectos imperiais para a sua execução’.
Estas frases de Russell Kirk na conservadora Burke Newsletter, de 1962, tornou-se o lema do governo Bush. Desde os anos 60 do século 20, os EUA aumentaram a sua arrogância, mesmo perdendo guerras que custaram vidas preciosas de seu povo. Sua atuação no mundo ‘livre’ ligou-se ao terrorismo de Estado, aos golpes contra as democracias que não aceitaram o seu mando. E isto custou muitas vidas na América do Sul, na África, no Oriente. Em número maior do que as ceifadas em Nova York nesta semana.
A ideologia imperial e guerreira, que neste instante se rearticula em clima de vingança, pode conduzir aquele país à catástrofe, nela envolvendo o mundo.
A saída estratégica, em termos religiosos, para os EUA encontra-se na capacidade de seus estadistas, os seus ‘intelectos imperiais’, de desarmar a armadilha preparada pelos seus próprios agentes (como a CIA) e pelas forças do terror. Eles já caíram em parte nela, ao apoiarem bin Laden contra a URSS. Para fugir à tentação xenófoba e maniqueísta de transformar cada islamita em inimigo, os EUA precisam relativizar a sua ‘missão’ de impor ao mundo a crença na sua própria superioridade, unida ao sacrossanto ‘cristianismo ocidental’.
Caso contrário, ele terá dentro e fora de seu território multidões de seres humanos que, adeptos do Corão, hoje recusam apoio aos terroristas. Mas se a massa de bombas e a voragem arrogante do Estado americano consumir países árabes, certamente muitos islamitas de agora podem engrossar as tropas dos que, armados de facas e canivetes ou de armas modernas (não raro vendidas pelos próprios EUA), minarão o império, fazendo-o implodir em prazo não muito longo, se pensarmos em termos históricos. Para conseguir a guerra, a mídia e o governo Bush abrem as comportas do ódio e da xenofobia.
Estes venenos intoxicam a alma americana. Um povo doente de orgulho e desejo de vingança não enxerga, nas brumas do presente, os seus reais inimigos. Pior se o governo que o representa é movido pelas mesmas paixões. Cegos, já dizia Cristo, conduzem cegos ao abismo. Nada mais. (Roberto Romano da Silva é professor de Ética e Filosofia Política da Unicamp)"
O Estado de S. Paulo
"Cobertura dos atentados reafirma a força da TV", copyright O Estado de S. Paulo, 14/09/01
"Mais uma vez, a televisão mostrou sua força como veículo em tempo real, na cobertura dos atentados terroristas nos Estados Unidos, em 11/9, status que parecia ameaçado com a concorrência da internet. Redes de TV de todo mundo derrubaram suas grades normais para mostrar as imagens de destruição do World Trade Center (WTC), em Nova Iorque, e do Pentágono, em Washington. Nos EUA, três redes de TV aberta cancelaram seus programas regulares e devotaram tempo integral à cobertura dos fatos. O mesmo aconteceu com os canais a cabo, como CNN, Fox News e MSNBC. Em contrapartida, grandes sites internacionais de notícias ficaram travados, congestionados ou reduziram o uso de áudio e vídeo, para não sobrecarregar a navegação. O site de pesquisas Google chegou a recomendar aos usuários que buscassem fatos novos na TV e no rádio, como registrou ‘AcessoCom’, na edição de 13/9. A cobertura da rede de TV norte-americana CNN (Cable News Network) destacou-se. O canal, que garante ter sido o primeiro a exibir imagens dos ataques, não havia divulgado os números de audiência até 12/9, mas esperava recorde histórico.
Eficiência tecnológica
O sinal da CNN foi usado por TVs de vários países em único dia, incluindo as brasileiras, superando toda a célebre cobertura da Guerra do Golfo, em 1991. A emissora mobilizou toda a sua equipe de quatro mil profissionais na realização da cobertura da tragédia nos Estados Unidos. Algumas delas trabalharam 48 horas sem parar desde o momento do acidente. Além disso, foi a primeira a exibir imagens dos bombardeios no Afeganistão, em 11/9. O presidente da CNN International, o jornalista inglês Chris Cramer, admite que a surpresa e dimensão dos ataques complicaram o planejamento e impediram análises profundas da cobertura. ‘Não era um dia propício a discussões mais sofisticadas sobre jornalismo’. Segundo ele, a eficiência da cobertura jornalística do acontecimento se deve aos recurso tecnológicos utilizados pela CNN. Há vários anos, a empresa usa telefones via satélite e câmeras de vídeo muito leves. ‘O avanço da tecnologia permite resultados impressionantes’, observa. Cramer contou ao ‘Valor Econômico’ que os vídeos amadores apresentados durante a programação foram feitos por pessoas que estavam perto do local do acidente e por cinegrafistas de pequenas agências de notícias.
Marco de audiência
A cobertura dos atentados ao World Trade Center foi um marco de audiência na televisão brasileira. A edição de 11/9 do ‘Jornal Nacional’, da Rede Globo, registrou maior índice de audiência do programa em 2001. Com meia hora a mais que o habitual, invadindo o horário em geral destinado à novela ‘Porto dos Milagres’, o jornalístico mais visto da TV teve 52 pontos de média, e 60 de pico na Grande São Paulo. O atentado superou as coberturas do ‘JN’ sobre o seqüestro de Silvio Santos (28/8) e a da morte de Jorge Amado (6/8), ambas com 45 pontos de média. A audiência do JN expressou o desempenho da programação dos canais abertos durante todo o dia, em que 45% das residências paulistanas ficaram sintonizadas no caso entre as 9h30 e 16h30. A média no horário é de 39%. Cada ponto no ibope representa 46 mil casas com TV na Grande São Paulo.
Tratamento de show
Apenas os canais de TV paga (GloboNews, CNN, BBC e Band News) mantiveram, em 12/9, a cobertura em tempo integral do atentado, iniciada no dia anterior . A televisão aberta voltou à sua programação normal e, quando retratou o fato, centrou-se em reconstituições, no resgate de feridos, nos depoimentos de sobreviventes e na caça aos suspeitos. Segundo o ‘Estadão’, Band e Record fizeram de seus programas de entretenimento uma extensão de seu jornalismo. Na falta de fatos novos, predominou a criatividade do show. No programa ‘Melhor da Tarde’ (Band), a cobertura transformou-se num misto de entrevistas e enquetes pueris (‘O atentado vai afetar sua vida?’). Já o ‘Note & Anote’, da Record, exibiu o relato de um sobrevivente do incêndio do Joelma, na São Paulo dos anos 70.
Imagens que chocam
As impressionantes imagens mostradas pelas TVs sobre os atentados assustaram crianças e jovens, principalmente as norte-americanas. Nos Estados Unidos, a emissora local de Los Angeles, KTLA5 colocou no ar uma psicóloga para orientar os pais a lidarem com essa situação. O temor de um novo conflito bélico também atinge jovens brasileiros, assombrados com os acontecimentos nos EUA. Para o psiquiatra, psicanalista e pesquisador de saúde mental da Fiocruz, Marco Aurélio Jorge, o jovem atual é globalizado e o ataque aos EUA, apesar de distante geograficamente, atingiu-o diretamente. ‘Essas imagens entraram em sua casa e o afetaram, porque ele também é um civil e vulnerável ao terrorismo, como as vítimas dos EUA’, disse ele ao jornal ‘O Globo’.
Indústria paralisada
Os atentados paralisaram a indústria do entretenimento norte-americana. Na Flórida, a Disney determinou o fechamento de seus parques temáticos em todo o mundo, com medo de que Mickey Mouse e outros símbolos da gigante do entretenimento dos EUA fossem possíveis alvos. Shows, incluindo o de Madonna em Los Angeles, foram cancelados, bem como premiações como o Latin Grammy Awards. Executivos de Hollywood decidiram adiar a estréia de pelo menos um filme e emissoras de TV trocaram programas cujo enredo trata de terrorismo contra norte-americanos. A Disney protelou a estréia do novo filme de Tim Allen, ‘Big Trouble’, sobre moradores de Miami às voltas com traficantes de armas e bandidos. Já Sony Pictures retirou dos cinemas e da internet o trailer de nova aventura do ‘Homem-Aranha’, devido a uma cena em que um helicóptero com bandidos é apanhado numa teia gigante armada entre as duas torres do World Trade Center."
OESP
"Destruir o Sistema terrorista", copyright O Estado de S. Paulo, 13/09/01
"Em seu terceiro, mais elaborado e expressivo pronunciamento, na noite de anteontem, a respeito da imensa tragédia causada pelo terrorismo em solo norte-americano - cuja dolorosa contagem, da multidão de mortos e feridos, ainda está longe de terminar -, o presidente George W. Bush ressaltou dois pontos que bem traduzem o ânimo e a capacidade de reação de uma poderosa sociedade, que se viu atingida em seus melhores valores. Quando disse que ‘ataques terroristas podem atingir as fundações de nossos maiores prédios, mas eles não podem abalar os fundamentos da América’, Bush fez emergir dos primórdios da grande nação do Norte os princípios dos Pilgrim Fathers, que, egressos da intolerância religiosa então imperante no velho continente, vieram ao Novo Mundo para montar, a partir da segunda década do século 17, uma sociedade plural, capaz de absorver conflitos e convicções divergentes, com o que montaram um sistema de organização político-social que se tornou a Democracia mais bem-sucedida que a História da Humanidade até hoje registrou.
E, quando disse ‘não faremos distinção entre os terroristas que cometeram esses atos e os que lhes deram abrigo’, George W. Bush comunicou ao mundo a verdadeira dimensão que deverá ter esta nova guerra que os Estados Unidos se dispõem a travar, em resposta à ‘silenciosa cólera’ do povo norte-americano, e que significa mais do que ‘trazer para a Justiça’ os responsáveis pelos brutais atos terroristas deste inesquecível 11 de setembro. Significa, na verdade, combater e destruir todo um sistema de organização que, graças a grandes recursos e alta capacidade de operação, propiciaram atentados dessa natureza e dimensão.
Em artigo que reproduzimos em nossa edição de ontem, o ex-secretário do Estado Henry Kissinger se refere ao fato de um ataque como aquele exigir planejamento sistemático, boa organização, muito dinheiro e uma boa base, não sendo possível improvisá-lo ou planejá-lo em constante movimento (a que têm de submeter-se os conhecidos terroristas mundiais, em razão da própria segurança). Por esse motivo, Kissinger propõe que os Estados Unidos não se limitem, como fizeram em situações anteriores, depois de sofrer atentados, a lançar alguma ação retaliatória ‘que deveria, supostamente, equilibrar os acontecimentos, enquanto se partia à caça das pessoas que o cometeram’.
Como, desta vez, o ataque ao território norte-americano deixou clara, na avaliação de Kissinger, a ameaça ao modo de vida norte-americano e à sua ‘existência como uma sociedade livre’, a reação terá de ser um ataque ao sistema que produziu esse terrorismo, para destruí-lo - assim como a resposta ao ataque a Pearl Harbor só terminou com a destruição do sistema que o gerou. E o sistema terrorista, hoje, significa ‘partes organizadas em uma base global e que pode operar de maneira sincronizada’.
O que Kissinger quis dizer com isso é que, por mais que os atentados de terça-feira pareçam ter a marca do megaterrorista Osama bin Laden, claro está que uma coordenação eficiente daquela espécie exigiria uma participação de Estados organizados. E Henry Kissinger parece traduzir com precisão a intenção - e a extensão reativa - manifestada pelo presidente Bush, ao afirmar: ‘Mas qualquer governo que abrigue grupos capazes desse tipo de coisa, prove-se ou não que eles estejam envolvidos nos fatos de ontem (terça-feira), terá de pagar um preço. E um preço exorbitante.’ Não temos qualquer dúvida de que os Estados Unidos cobrarão caro, muito caro, pela brutalidade sofrida. De fato, influentes analistas norte-americanos estão pedindo que o Congresso faça imediatamente uma declaração formal de guerra contra o país - mesmo que ainda não se saiba qual foi - de onde partiram os terroristas.
É claro que isso também deve levar-nos a outra ordem de preocupação, quanto a mudanças substanciais de comportamento - do governo e da própria sociedade norte-americana - depois da histórica tragédia. É que a necessidade de entrar - pela primeira vez depois da guerra com os ingleses, que culminou com o incêndio de Washington em 1812 - numa guerra em seu próprio território e contra inimigo desconhecido, forçosamente conduzirá a um sentimento de exacerbada autoproteção, que poderá levar a um rigoroso fechamento de fronteiras, justamente da sociedade que até hoje se mostrou a mais aberta do mundo. Muito a propósito, o New York Times adverte em editorial que os Estados Unidos devem fazer uma cuidadosa análise da situação para poder enfrentar a crise sem sacrificar as liberdades. Essa é uma situação realmente nova, de evolução imprevisível, para a nação mais poderosa do mundo - e com a qual todos os povos do Planeta terão de conviver."
Haroldo Ceravolo Sereza
"‘Realidade está à frente da ficção’, diz Clancy", copyright O Estado de S. Paulo, 13/09/01
"O best seller Tom Clancy, autor de Jogos Patrióticos e Perigo Real e Imediato, escreveu um livro em que um grupo de terroristas japoneses lança um Boeing 747 sobre o Capitólio, matando o presidente dos Estados Unidos e os parlamentares. Principal representante do chamado tecno-thriller, ele, no entanto, se nega a aceitar que tenha, em Ordens do Executivo, de 1996 (publicado no Brasil em 1999 pela Record), sugerido ou ao menos previsto os atentados de anteontem em Nova York e Washington. ‘A realidade está sempre à frente da ficção’, disse ontem ao Estado, por telefone, de Maryland.
‘Não sei por que estão ligando para mim; não sou um especialista’, despistou Clancy, que dá palestras para a CIA e o FBI e que se transformou em leitura obrigatória da cúpula do governo republicano de Ronald Reagan, depois que o presidente elogiou Caçada ao Outubro Vermelho durante uma entrevista coletiva. Daquele governo, pelo menos uma figura de destaque continua a dar ordens em Washington: o general Collin Powell.
Clancy afirmou que esta é a maior tragédia que já viu e que não tem muito mais o que acrescentar. Sempre com frases curtas, afirmou que não pretende utilizar os fatos de anteontem em um romance: ‘Eu não usaria, talvez outros possam usar; simplesmente não considero apropriado.’ Também não quis comentar os artigos escritos por Gore Vidal sobre o atentado de Oaklahoma: ‘Não posso falar por ele.’ ‘Definitivamente, ficção não tem absolutamente nada a ver com a realidade’, continuou.
Romances de espionagem sobre terrorismo se transfomaram numa das maiores fórmulas de sucesso da indústria editorial. Em volumes de muitas páginas (Ordens do Executivo tem 1.022 na versão brasileira), costumam ser absolutamente detalistas, narrando não apenas cada pequeno passo dos terroristas, mas também cada movimento dos agentes do governo para persegui-los (claro que o tema é tratado por autores mais ambiciosos, nem sempre com bom resultado: o protagonista de Leviatã, de Paul Auster, é um terrorista norte-americano que põe uma bomba na estátua da Liberdade. Este, porém, não é um romance de espionagem, mas uma obra em que a grande questão é entender as motivações psicológicas do personagem).
É longa a relação dos escritores do gênero com os serviços secretos. Em 1970, o jornalista Frederick Forsyth estava desempregado (depois de cobrir a guerra de Biafra para a agência de notícias Reuters) quando decidiu escrever um livro sobre um atentado frustrado contra o general e presidente francês Charles De Gaulle. Nascia O Dia do Chacal. Em 1972, o próprio escritor financiou e participou do organização de uma tentativa de golpe de Estado para depor o presidente Macías Nguema da Guiné Equatorial. Segundo o jornal Sunday Times, o objetivo era criar uma nação para abrigar os refugiados de Biafra. Oito anos depois do fim da guerra, ele publicou um livro sobre o conflito (não sobre o golpe), A História de Biafra, também lançado no Brasil.
O inglês John Le Carré, autor de inúmeros livros de espionagem sobre a Guerra Fria, dos quais o mais famoso é O Espião Que Saiu do Frio (1963), também trabalhou como agente de serviços secretos britânicos até 1964. Ele reconheceu, em 1993, que recebeu ‘treinamento para matar’ - mas nunca usou, porque era ‘contra a violência’. Várias vezes, Forsyth descreveu o trabalho de escritor de livros de espionagem como o de um repórter. Declarou inclusive ter fontes entre os terroristas, embora não recorresse a elas com tanta freqüência. Já Robert Ludlum, outro campeão de vendas e autor de As Ilusões do Escorpião, diz que não tem relações com serviços secretos e que teve três colegas de faculdade que entraram para a CIA, mas ele nunca lhe passaram informação alguma.
Autores desses livros costumam, portanto, estar muito bem informados sobre as possibilidades e capacidades técnicas tanto de terroristas quanto dos governos. Se governantes como Reagan dão atenção a eles, não há razão para acreditar que os terroristas também não os leiam e utilizem suas informações e sugestões.
Mas, seguramente, essas obras servem mais aos governos que a seus contestadores. Na guerra ideológica, estão geralmente do lado do Estado, mostrando que, mesmo nas crises, no final ele se reorganiza (em geral, depois de revidar o ataque). Também costumam justificar a vigilância sobre a população e os gastos militares como males necessários para prevenir a ação de grupos radicais.
Durante a Guerra Fria, a rivalidade entre União Soviética e Estados Unidos foi o principal objeto dessas obras. Mesmo livros como o O Dia do Chacal, em que um indivíduo é conduz a trama, e Cães de Guerra, também de Forsyth, sobre mercenários, questões ideológicas compunham o enredo. Com a perestroika e o desmoronamento do império soviético, a partir da segunda metade dos anos 80, os romances de espionagem passaram a ter como mote o terrorismo islâmico e o tráfico de drogas - colocando árabes especialmente (mas também latino-americanos e muçulmanos em geral) na posição de grandes ameaças à estabilidade do mundo. No período em que a economia do Japão crescia num ritmo mais veloz que a norte-americana, também os japoneses passaram a ser uma ameaça, como mostra o romance de Clancy.
De um modo geral, pode-se dizer que os presidentes das grandes nações, especialmente dos Estados Unidos, são as principais vítimas dos grupos terroristas nos romances. Mas a ameaça pode ser ainda maior (e mais ‘realista’): Dominique Lapierre e Larry Collins publicaram um livro em 1984 (O Quinto Cavaleiro) sobre uma ação para evitar a explosão de uma bomba atômica em Nova York. O atentado seria orquestrado pelo fantasma de plantão da época: o coronel líbio Mouammar Kadhafi.
Pensando mais concretamente, mas sem esquecer que se trata de ficção, convém estar atento ao que ocorrerá nos próximos dias nos EUA. No romance de Clancy, além de lançar um avião sobre o Capitólio, também é disseminado, no interior do país, o vírus Ebola, dessa vez pelos velhos inimigos iranianos. A essa altura dos fatos, torce-se apenas para que pelo menos metade da história não tenha ultrapassado a realidade."
Marcelo Bernardes
"Alguns, como o ‘Collateral Damage’ têm cenas com terroristas e bombas", copyright O Estado de S. Paulo, 13/09/01
"Arnold Schwarzenegger vê mulher e a filha morrer num ataque terrorista contra um arranha-céu no centro de Los Angeles. Disposto a fazer justiça com as próprias mãos, ele tenta o impensável: a cooperação da mulhe do terrorista, interpretada pela bela atriz italiana Francesca Neri. Nome do filme: Collateral Damage. Estréia nos cinemas: marcada para o dia 5 de outubro.
Tim Allen, Rene Russo e Stanley Tucci é o trio que tem sua vida transformada depois de encontrar uma bomba dentro de uma mala que vai parar na cabine de um avião comercial. Título da comédia: Big Trouble. Data de estréia: em duas semanas.
Essas atrações cinematográficas dos estúdios Warner Bros. e Disney, agora suspensas por tempo indeterminado, mostram o quanto a imaginação de Hollywood cruzou a tênue linha da realidade. Mas em momento errado. Os atentados de terça-feira em Nova York e Washington agora estão fazendo todas as companhias de entretenimento americanas reverem sua linha de lançamento para que qualquer tema ou referência a explosões de prédios, acidentes aéreos e atentados terroristas sejam evitados.
‘Uma cena de Big Trouble envolve uma bomba num avião, mas a detonação dela é evitada pelos personagens. Mesmo assim, estamos cancelando o lançamento do filme’, explicou Vivian Boyer, porta-voz da Disney.
As grandes emissoras americanas também revisaram sua programação desta semana e retiraram alguns filmes de sua grade.
A rede ABC exibiria na noite de sábado o filme O Pacificador, com George Clooney e Nicole Kidman. Por envolver um ataque terrorista ao prédio das Nações Unidas, em Nova York, a emissora trocou o longa por uma comédia de Sandra Bullock. Já a Fox cancelou dois filmes: Independence Day (por sinal, um filme muito citado no depoimento das pessoas que fugiram da queda das torres do World Trade Center), que passaria na noite de domingo, cedeu lugar para a comédia Quem Vai Ficar com Mary?; e X-Files - O Filme, que tem ataque terrorista em seu prólogo, foi trocado por Nove Meses, comédia com Hugh Grant.
Já o estúdio Sony Pictures retirou dos cinemas e da Internet o trailler do filme Homem-Aranha, dirigido por Sam Raimi, que estréia somente em maio de 2002. No promo dessa produção (cena apenas para conscientizar o público da atração do próximo verão que não seriam usadas dentro da história), um helicóperto carregando vários assaltantes de banco fica preso numa gigantesca teia de aranha feita pelo herói do filme entre as torres gêmeas do WTC.
Operação: Swordfish, filme com John Travolta, em cartaz em vários países, entre eles o Brasil, pode ser cancelado nos EUA, como ocorreu ontem na Inglaterra. O filme lida com um terrorista e uma bomba que destrói um quarteirão de Los Angeles.
Por falar em cinemas, a maioria das companhias exibidoras americanas ainda manteve suas salas fechadas ao público ontem. A rede United Artists, por exemplo, reservou todas as salas de seu multiplex na região da Union Square, Baixa Manhattan, para os desabrigados da tragédia. Todos os 23 espetáculos da Broadway também permaneceram cancelados ontem, assim como o lançamento do filme Sidewalks of New York, comédia assinada pelo cineasta independente Edward Burns, que atrairia vários convidados ilustres.
Séries televisivas rodadas na cidade, como Nova York Contra o Crime e Third Watch estão com suas produções interrompidas por tempo indeterminado. Por conta da cobertura da tragédia, as quatro grandes emissoras americanas estão adiando a estréia da esperada temporada de inverno, na qual são apresentados dezenas de programas novos.
Vários dos filmes da nova temporada de inverno de cinema - quando estréiam os títulos mais sérios e com potencial para o Oscar - começariam a ser divulgados para a imprensa americana e internacional a partir de domingo na cidade.
Além do filme de Schwarzenegger (esse por razões de conteúdo ofensivo), outros estúdios cancelaram entrevistas com Michael Douglas, Liv Tyler, Cate Blanchett, Ian MacKellen e Ben Stiller por conta dos atentados.
‘É um cancelamento temporário porque ninguém quer viajar de avião neste momento, até mesmo atores, diretores e jornalistas’, disse Maureen O’Malley, assessora do estúdio Warner Bros., em entrevista ao Estado.
As entregas dos prêmios Emmy (o Oscar da TV) e do Grammy Latino continuam suspensas por tempo indeterminado. Só a direção do Grammy, que seria entregue na noite de terça-feira, tinha investido cerca de US$ 4 milhões na produção do evento, a ser apresentado por Jennifer Lopez e com indicação para artistas como Gilberto Gil, Omara Portuondo, Christina Aguillera e Caetano Veloso."
|
|