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COBERTURA DE GUERRA
Ivan Angelo

"Duas coisas sobre várias coisas" copyright Jornal da Tarde, 15/12/01

"Duas coisas sobre o vídeo de Bin Laden que ficaram meio escondidas nos comentários das emissoras de tevê e que poderiam ajudar o público a pensar.

Uma é a idéia da morte como martírio e punição. O xeque que visita Bin Laden conta que outro xeque saudita, Bahrani, dizia aos jovens no momento após os ataques na América: ‘Vocês estão pedindo o martírio e se indagam para onde devem ir.’ Alá os incitava a ir. O mesmo xeque visitante fala sobre Mohammed Atta, que liderou a operação contra o World Trade Center: ‘Ele foi um dos homens piedosos da organização. Ele tornou-se um mártir. Que Alá abençoe sua alma.’ E sobre os mortos nos ataques na América: ‘Aquelas pessoas não eram inocentes.’ (Reparem que os xeques Laden, Bahrani e o visitante são sauditas; reparem que há jovens islâmicos pedindo o martírio, que a fonte de onde os xeques saíram continua fluindo e que exemplos enaltecidos por eles não faltam; reparem que os que morrem do lado oposto não são inocentes, nem as crianças.) Outra coisa é a estranha religiosidade dos personagens, intrigante mesmo. A idéia de martírio é cara às religiões. Foi a força dos primeiros cristãos, mas não é o mesmo martírio que este, fundado no desejo de levar junto, para a morte, o maior número possível de pessoas. O martírio, para aqueles cristãos, era passivo, não uma forma extrema de combate. Os do vídeo parecem todos homens de fé, piedosos. Agradecem a Deus a todo momento. Alá, para eles, é Deus, o mesmo Deus de Abrão, Moisés e Jesus. Bradam: graças a Deus, louvado seja Deus, Deus é grande, que Deus o abençõe.

Pensar sobre isso pode dar mais força à tolerância.

As diferenças entre Cabrini e Datena

Duas coisas sobre o ‘Brasil Urgente’, apresentado por Roberto Cabrini, na Band, no mesmo horário do ‘Cidade Alerta’, apresentado por José Luiz Datena, na Record. Uma é que, ao completar duas semanas no ar, o programa de Cabrini tem um saldo positivo de denúncias, cobranças, prestação de serviço e melhora de audiência da emissora no horário. Ainda cabem acertos, mas vai indo bem. Outra coisa é que o programa chegou a um ponto em que ficam claras as diferenças entre ele e o ‘Cidade’, mais antigo. A principal é o jornalismo investigativo, que levanta assuntos com foco no interesse da população. Datena nunca foi investigativo, ele cobre determinadas áreas, principalmente a policial. Nesta, o ponto de vista é o da polícia. Cabrini busca a objetividade. Outro dia mostrou um policial chutando um preso já subjugado. Cena que não se vê no concorrente. Como apresentador, Cabrini está mais bem adaptado ao papel, embora o fundo musical continue a procurar um ‘popular’ exagerado.

A apresentadora de volta à reportagem

Duas coisas sobre repórteres. Uma é que não adianta estar no local dos acontecimentos se não tiver garra e idéias. Outra é que mesmo estando na bancada de um telejornal fazendo o papel de âncora, o repórter sente o apelo de ir buscar a matéria. Ana Paula Padrão deixou a bancada de apresentadora do ‘Jornal da Globo’ e foi fazer o que a repórter que estava lá não conseguia. Suas reportagens sobre o Afeganistão pós-Taliban estão primorosas, mostradas no ‘Jornal Nacional’. Sabe que as notícias quentes da guerra chegam pelas agências, e busca o ângulo seu, histórias das pessoas, cata personagens com sensibilidade: o ex-lutador de luta-livre que apanhou muito nas prisões e não consegue mais trabalhar; fotos de antes e depois; o guia da reportagem que ela fez lá há um ano, agora de terno e suéter, todo prosa; o mercado paralelo do dinheiro; o envelhecimento precoce das pessoas, a mulher que guarda a foto de como era há cinco anos, a foto do bigodudo engenheiro militar hoje um senhor alquebrado, o reaparecimento das velhas máquinas fotográficas, a paisagem. Tudo com excelentes imagens de Hélio Alvarez."

IstoÉ

"Alá, meias-verdades e videoteipe" copyright IstoÉ, 14/12/01

"O campeão de audiência deste fim de ano nas tevês americanas é um vídeo de péssima qualidade, no qual uma confraria de homens barbudos sussurra em árabe. Nada menos do que 90% dos aparelhos de tevê dos Estados Unidos - e incontáveis mais ao redor do mundo - estavam sintonizados, na quinta-feira 13, para assistir exatamente a este espetáculo dúbio. Nele, Osama Bin Laden, o inimigo público número 1 de Tio Sam, confraternizava com uma seleção de ‘mais procurados’ pelo FBI, CIA, etc. Admitia a seus convidados a responsabilidade pelos atentados terroristas do dia 11 de setembro. O teipe tem características amadorísticas similares àquelas do pornô caseiro: imagens granuladas e desfocadas, nas quais gente mal ajambrada mantém animada relação. O resultado, também neste caso, não deixa de ser obsceno. A produção é do departamento artístico da al-Qaeda, o grupo terrorista islâmico, e a distribuição ficou a cargo do Pentágono, organização que não costuma titubear em despejar bombas, mas relutou em lançar esta. O enredo do filme, no entanto, já era conhecido. A novidade é que Osama, réu confesso, admite autoria e participação no roteiro. De modo professoral, mesclando informações preciosas, dando graças a Deus (repetidas como um bordão de comédia) e boas risadas, o saudita recorda a operação que abalou seu maior inimigo. Há referências à pelada - partida de futebol, entenda-se - e premonições provando que seus seguidores são bidus (sem conotações racistas, é claro).

O teipe mostra primeiro o encontro de potentados do fundamentalismo islâmico, com um sheik saudita fazendo uma visita de cortesia a Osama. O lugar do encontro, supõe-se, foi numa casa na cidade de Kandahar. Na conversa, Osama diz, ao pé da letra: ‘Calculamos antecipadamente o número de baixas entre o inimigo, baseando-nos na posição das torres. Calculamos que seriam atingidos três ou quatro andares. Eu era o mais otimista de todos. Devido à minha experiência nessa área, pensei que o incêndio causado pelo combustível do avião derreteria as estruturas de ferro e faria ruir a área atingida pelo avião e os andares acima, apenas.’ Depois do plano, a ação: ‘Nós sabíamos (Osama é daquelas pessoas que falam na terceira pessoa do plural) na quinta-feira anterior (6) que o evento se daria naquele dia (11).’

No vídeo, é feita uma série de relatos de premonições sobre os atentados, tanto pelo hóspede quanto pelo anfitrião. A se acreditar nos testemunhos, as tragédias nos EUA foram antecipadas em sonho por líderes muçulmanos radicais, mujahedins, e até donas-de-casa, a ponto de Bin Laden dizer que ficou preocupado com tanta profetização acurada, com medo de que seus planos vazassem ao inimigo. Uma destas visões, feita por ninguém menos do que o lugar-tenente Abu-Al-Hasan Al-Masri, fala de um sonho no qual uma equipe da al-Qaeda vai jogar uma peleja de futebol contra os americanos. Osama descreve o sonho: ‘Nosso time entrou em campo e viu uma equipe de pilotos americanos. De todo modo, nós ganhamos a partida (risos).’ Também se esclarece que parte dos sequestradores nem sequer imaginava seu destino final antes de entrar nos aviões. ‘Somente Mohammad (Atta) sabia de todos os detalhes. Os irmãos que conduziram as operações apenas sabiam que se tratava de uma ação que os transformaria em mártires (risos).’

Caçada - Ao mesmo tempo que seu vídeo fazia sucesso de público ao redor do planeta, Osama se via isolado e em via de encontrar o Criador a quem ele tanto se refere na fita. ‘A guerra não acabou’, lembrou o secretário de Defesa americano, Donald Rumsfeld, desmentindo conclusões apressadas de alguns. Pelas encostas e interiores das montanhas de Tora-Bora, ao Sul do país, os corpos de guerreiros da al-Qaeda acarpetavam as trilhas que levam às cavernas-fortalezas locais, que se imaginam ser os últimos redutos de Bin Laden. Mas há quem diga, como o jornal Christian Science Monitor, que o saudita já teria trocado de endereço e tenha agora um código de endereçamento postal no Paquistão. ‘Nós acreditamos que Osama está dentro de uma das cavernas de Tora-Bora’, insistiu Rumsfeld na quinta-feira 13. ‘Tora-Bora cairá até segunda-feira 17, e aí nós veremos se Osama está mesmo enfiado naquele buraco’, disse a ISTOÉ um major de Fort Bragg. ‘Já coletamos material genético que poderá identificar o corpo de Osama. Ele anda com sósias por toda parte aonde vai. Esses clones têm até características dentárias semelhantes ao original’, acrescenta o major."


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