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JOEL SILVEIRA / BIOGRAFIA
Gonçalo Júnior
"Histórias que dão prazer" copyright Gazeta Mercantil, 16/12/01
"As memórias que o jornalista Joel Silveira, 83 anos, contou em boa parte dos seus 40 livros publicados em 60 anos de profissão são imprescindíveis para quem quer ou precisa conhecer o filé da vida política e cultural brasileira nesse período. Por filé entendam-se os mais importantes acontecimentos que definiram os rumos da história. Muitos deles, Joel cobriu como repórter. Se se considerar que ele fez parte do primeiro time do jornalismo nacional, numa época em que repórteres confundiam notícia com trocas de favores e benefícios pessoais - a exemplo de Assis Chateaubriand, David Nasser e Edmar Morel, entre outros -, seus testemunhos ganham ainda mais importância. Conhecido como ‘Víbora’ da imprensa - apelido dado por Assis Chateaubriand - por seus perfis e reportagens demolidoras, Joel saiu com a honra preservada dessa época.
Nunca foi santo, faz questão de frisar. Prefere se calar a fazer perfis lisonjeiros de quem um dia lhe prestou um pequeno favor ou desfrutou de sua amizade, não importa de que lado estivesse. Nos perfis que escreveu para este jornal nos dois últimos anos, declinou de sugestões por estes motivos. Os relatos de Joel têm alguns diferenciais: sua incomum capacidade de guardar dados, datas, nomes e fatos nos mínimos detalhes; e têm o sabor dos grandes cronistas que fizeram escola na imprensa nacional. Por mais conhecido que seja um episódio, quando contado por ele, dá um prazer especial de conhecê-lo de novo. E se tal fato não teve muita importância para a história, acaba por ganhar contornos de um bom papo de ponta de calçada. É a impressão que passa quando se lê a primeira parte de ‘Memórias de Alegria’, que traz o veterano e inconformado jornalista na melhor forma, contando histórias como ninguém sabe fazer.
Os militares mal tinham derrubado João Goulart quando Joel foi designado pelo ‘Diário de Notícias’ para cobrir uma história que prometia render: os militares queriam a qualquer custo a cabeça do governador goiano Mauro Borges, acusado de ‘conluio’ com a esquerda. O repórter conseguiu entrar no Palácio, mas só saiu dali sete dias depois. E se transformaria no único meio de comunicação do governador com o resto do Brasil. ‘Aquela semana no atordoado e insone Palácio das Esmeraldas de Goiânia, (...) não tenho vergonha de dizer, foi dos momentos mais excitantes (e até dos gloriosos) da minha vida de tão poucas glórias. Era uma delícia para meus ouvidos escutar toda manhã, a toda hora, o grito de guerra do governador Mauro Borges: - Indique-se uma porta legal pela qual eu possa sair daqui e eu saio. Mas, no grito, ninguém me tira!’
O título do livro é mais que apropriado: são momentos de alegria pessoal, da certeza de estar do lado correto como profissional e de encontros com amigos, muitos deles, ilustres. Histórias, enfim, que lavaram a alma do jornalista entre as décadas de 1930 e 1980. Em um terço do livro, Joel fala do ano de 1964, nos meses que se seguiram à queda de João Goulart. Além do cerco ao governador goiano, ele reproduz de modo resumido a série de artigos intitulada ‘A Feijoada’, publicada no ‘Correio da Manhã’ por Paulo Francis. O título tem a ver com uma memorável feijoada oferecida pouco antes do golpe, onde teria sido acertado o desfecho do movimento. Joel estava entre os presentes e fez um relato histórico em todos os sentidos.
Assim ele descreveu o ambiente: ‘Havia os notórios falastrões, cuja palavra fácil e enraivecida já feria os nossos ouvidos havia muito tempo, repetindo os mesmos slogans, as mesmas tiradas, as mesmas furibundas ameaças. A maioria, contudo, quase se acotovelando para bramir seu grito de guerra antes dos outros, era composta de uma arraia-miúda, que, jamais poderíamos adivinhar, fosse capaz de tanta impetuosidade verbal e tanta sofreguidão ‘revolucionária’.’ A revanche dos militares demoraria um pouco, mas viria de modo implacável, com sua prisão no dia da decretação do AI-5, em 1968. Joel conta que foi arrancado da cama com 40 graus de febre e foi colocado na mesma cela que o colega Carlos Heitor Cony.
Além do seu talento nato para a reportagem - com aguçado faro para saber onde estava a notícia -, Joel sempre foi um sortudo. Em alguns momentos, provocou fatos históricos, noutros, estava no lugar na hora certa. Um outro episódio desse período confirma isso. Graças a uma reportagem sua, acabou por criar um problema nacional. O personagem da história era o jovem governador sergipano Seixas Dórea, deposto pelos militares. Dórea fora preso e seu paradeiro era desconhecido. Sua mulher, então, pediu a Joel que tentasse localizá-lo a partir de alguma fonte sua junto ao governo. Foi encontrado num quartel, em Salvador, de onde seria levado para a ilha de Fernando de Noronha. O repórter voltou com uma bomba: além de uma entrevista, os originais do livro ‘Eu, Réu sem Crime’, no qual Dórea dava sua versão para a sua destituição do poder. Ou seja, ele não sabia por que fora derrubado. O livro quase provocou uma tragédia ao ser lançado em Belo Horizonte, em razão de um cerco à livraria por grupos de direita. Joel estava no olho do furacão, ao lado do ex-governador, e relatou tudo com emoção.
Os amigos mais queridos são relembrados com a reunião de crônicas publicadas em jornais, principalmente na ‘Gazeta Mercantil’. São eles José Lins do Rego, João Condé e Graciliano Ramos, entre outros. Alguns textos são crônicas saborosas, como as que dedica ao Rio de Janeiro, cidade que escolheu para morar desde 1938. Há um episódio intrigante nesse sentido, ocorrido dois meses antes da posse do presidente Tancredo Neves. O general Ernani da Silva pediu a Joel que intermediasse um encontro com o presidente na casa do jornalista. Enquanto a conversa acontecia, aparecia um convidado inesperado: Paulo Francis. Joel jamais descobriu como ele ficou sabendo do papo que deveria ser ‘o mais sigiloso possível’. E Francis morreu sem contar.
O livro seria irretocável, não fosse a lamentável edição. Não compromete o estilo do autor, mas pode criar confusão na cabeça do leitor. Há erros grosseiros de digitação, de revisão e, pior, de datas. A impressão que dá é de que o livro não foi lido uma única vez antes de ir para a gráfica (não há impresso, no volume, o nome do revisor). Se tivesse ocorrido o contrário, seria possível evitar, por exemplo, que se repetisse em artigos diferentes o primeiro encontro entre o repórter e o presidente Getúlio Vargas. Ou que se afirmasse que o Ato Institucional 5 foi decretado em 1967 - na verdade, foi em 1968, dezembro, dia 13, uma sexta-feira, por sinal. Outro absurdo: sabe-se que o escritor José Lins do Rego morreu em 1956. Num dos artigos, ele protagoniza um episódio em 1974. O velho e bom memorialista merece mais respeito."
COBRAS CRIADAS / DAVID NASSER
Augusto Nunes
"Já não se faz imprensa assim. Ainda bem" copyright Jornal do Brasil, 15/12/01
"Ele escrevia admiravelmente. Criava metáforas tão imaginosas e exatas que poderiam ser infiltradas sem retoques num texto de Nelson Rodrigues. Desengonçado ao mover-se, compunha com a máquina de escrever um conjunto de tal forma elegante e harmonioso que, se pudesse cavalgá-la, venceriam qualquer concurso de equitação. As palavras desciam do cérebro para as mãos em procissões copiosas e belas. Com a coordenação motora prejudicada por uma doença que o surpreendera na infância, impunha-se ao instrumento de trabalho com o vigor de atleta olímpico. Escrevia bem, escrevia muito, escrevia como poucos literatos escrevem. Já não se fazem repórteres como David Nasser.
Ainda bem. Porque esse brasileiro que nasceu na cidade paulista de Jaú, viveu uma infância pobre no Rio e uma adolescência difícil em Caxambu foi também outra evidência de que um mesmo indivíduo pode exibir, simultaneamente, muito talento, bastante sensibilidade, nenhum escrúpulo, alguma misericórdia e excessiva brutalidade.
De volta ao Rio já adulto, tornou-se repórter no jornal O Globo, virou celebridade na revista O Cruzeiro, enriqueceu com o que publicou (ou deixou de publicar) e conheceu o ocaso profissional - sempre cercado de afagos, bajulações e até respeito - na redação da Manchete. Morreu de câncer em 1980, aos 63 anos, no Rio. Deixou uma obra espalhada por 17 livros, além da fortuna em imóveis e fazendas legada à mulher, Isabel, paixão de uma vida inteira.
A remontagem da biografia de David Nasser, que se confunde com história da revista O Cruzeiro e faz um corte na imprensa brasileira do século 20, exigiu dois anos de pesquisas e 103 entrevistas do jornalista Luiz Maklouf Carvalho. Ao fim dessa maratona, Maklouf, nascido em Belém em 1953 e repórter há 30 anos, produziu um livro excelente, a começar pelo título. Cobras criadas movimenta um elenco de craques (David Nasser brilhou num mundo repleto de ‘‘cobras’’ em jornalismo) que às vezes pareciam tão confiáveis quanto urutus. Terminada a leitura, fica claro que o Brasil viveu nas décadas de 40 e 50 a era do ilusionismo. Nela, houve um templo chamado O Cruzeiro e David foi seu profeta. Sobretudo depois de 1943, quando encontrou o parceiro ideal no francês Jean Manzon, outro gênio da mistificação.
Numa entrevista concedida à revista Manchete em 1965, publicada com o título ‘‘O rei David’’ na tentativa de minar a concorrente com a contratação do entrevistado, o jornalista resumiu o capítulo inicial de suas aventuras com o fotógrafo. ‘‘Naquele tempo, ninguém fazia reportagens, no sentido literal da palavra’’, afirmou Nasser. ‘‘Quando o Manzon chegou aqui, era como um tenista de primeira classe ensinando um tenista de província - eu. Aprendi muito. Em primeiro lugar, aprendi a vencer a timidez, Depois iniciei-me nos truques da profissão. O Manzon, embora não sendo um homem de cultura, possui extraordinária sensibilidade jornalística, acima do comum.’’
Manzon era sensível, superlativo e sem compromisso com a verdade, três características que Nasser trouxera do berço. Num dos primeiros textos, contara que seu avô libanês fora pastor de ovelhas até a partida do último filho. Tivera dezenas. Então, abandonou a mulher. ‘‘Foi viver numa caverna até os 105 anos, alimentando-se de leite de cabra e de azeitonas que guardava na terra.’’ Ninguém na família avalizou a versão. Tampouco interessavam a Nasser tais avais.
O retraído jornalista ainda jovem gostava da sem-cerimônia do parceiro. Esse traço de temperamento derramou-se no episódio da reportagem que mostra o médium Chico Xavier, entre muitas outras imagens pitorescas, audaciosas ou amalucadas, sentado na banheira de sua casa. Como havia a dupla vencido a timidez do médium? Coisas de Manzon. O francês abusado lhe perguntara se haveria chances de algum espírito baixar enquanto Chico tomava banho. O médium aceitou submeter-se à ousadia. Nenhum espírito desceu. A tiragem da revista subiu espetacularmente.
Em 1954, a própria publicação registraria a importância do homem que apareceria no expediente como ‘‘repórter principal’’. Com o título ‘‘David, o Repórter’’, oito páginas abrigam parágrafos atulhados de adjetivos adulatórios e, acreditem, 81 fotos. Isso mesmo, oitenta e uma, enfatiza Maklouf para não parecer David Nasser. Algumas enormes, outras miniaturizadas, pouco importa. Nenhum repórter no mundo mereceu homenagem desse porte.
A ordem para a festa de papel fora expedida pelo próprio Chatô, admirador declarado do repórter que chamava carinhosamente de ‘‘beduíno de uma figa’’ ou ‘‘turco louco’’. Para Chatô, as páginas preenchidas pelo afilhado lembravam ‘‘um bazar oriental, pela abundância do colorido e pela riqueza da mercadoria exposta’’. O chefe via mercadoria em toda parte. Nasser, que se tornaria integrante do condomínio associado até brigar com João Calmon e transferir seus elogios aos governos militares para a revista Manchete, aprendeu a enxergar também. Talvez por isso tenha perdido de vista o que é reportagem de verdade."
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"O bom letrista que criava maus folhetins" copyright Jornal do Brasil, 15/12/01
"O repórter fabricou bons momentos de ficção: ninguém sabia descrever tão minuciosamente paragens ou tipos nunca vistos. O escritor produziu literatura de má qualidade. Mas nenhuma reportagem do jornalista conseguiu o sucesso de público alcançado por Giselle: a espiã nua que abalou Paris, invenção de David Nasser (ilustrada por vedetes fotografadas por Jean Manzon) anunciada como testemunho merecedor de credibilidade. Publicado em 59 capítulos pelo Diário da Noite, o folhetim transformou o jornal em campeão de vendas no segundo semestre de 1948. Editado como livro de bolso nos anos 60, depois de retoques cirúrgicos que lhe melhoraram a forma, superou a marca dos 500 mil exemplares.
Multidões de adolescentes se iniciaram nos prazeres da leitura (e do sexo solitário) excitados com as aventuras de Giselle Montfort, a francesa que, presa num cabaré, rolara ‘‘de prisão em prisão, de cama em cama, satisfazendo os apetites bestiais dos oficiais nazistas’’. Em Cobras criadas, Freddy Chateaubriand, diretor do Diário da Noite, contou que a nota de abertura apresentava o texto como ‘‘um documentário traduzido do original francês pelo jornalista italiano Carlo Tancini, agora de passagem pelo Rio’’. Engodo. ‘‘Nunca houve Giselle, ela nunca abalou Paris’’, divertiu-se Freddy. ‘‘O Manzon trazia as fotos não sei de onde e o David escrevia com aquela facilidade’’.
Aquela facilidade na lida com palavras faria de David Nasser, também, um ubérrimo letrista. Sem saber cantar, sem dominar qualquer outro instrumento além da máquina de escrever - de cujas teclas conseguia extrair formidáveis bemóis e sustenidos, graves ou agudos -, ele criou as letras de 231 músicas, gravadas entre 1939 e 1968. Com Herivelto Martins, assinou uma espécie de hino à mãe (‘‘Ela é a dona de tudo,/ela é a rainha do lar...’’) ou monumentos à dor-de-cotovelo (‘‘Eu amanheço pensando em ti./Eu anoiteço pensando em ti...’’). Com Benedito Lacerda, eternizou a normalista ‘‘trazendo um sorriso franco/ no rostinho encantador’’. Com o lutador de boxe Rubens Soares, conquistou seu primeiro sucesso, Nega do cabelo duro. Com esses e outros parceiros talentosos, construiu a obra que lhe assegura um vistoso capítulo na história da música popular brasileira.
O repórter ficou antigo. O ficcionista nunca existiu. O letrista David Nasser, este ficará."
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"Nascidos um para o outro" copyright Jornal do Brasil, 15/12/01
"O repórter era um Jean Manzon das palavras. O fotógrafo era um David Nasser dos textos. O filho de imigrantes árabes materializava miragens com a competência de um beduíno milagreiro. O destino juntou-o ao parisiense cujas câmeras mágicas eram capazes de documentar, com idêntico brilho, o real, o recriado ou o imaginário.
Entre 1943 e 1952, nove anos de convívio atestaram que aqueles parceiros haviam efetivamente nascido um para o outro. Trocaram afagos e estocadas. Prometeram-se o adeus irrevogável para reaproximar-se semanas mais tarde, entre juras de amizade eterna. Estrelas da mesma grandeza, reverenciados por patrões, jornalistas e leitores, disputaram espaço nos letreiros como artistas temperamentais. Faz sentido. Nasser e Manzon foram os mais festejados artistas da imprensa no Brasil dos anos 40 e 50.
Os trabalhos da dupla eram identificados com a aparição dos nomes no alto da página, lado a lado, nunca superpostos, em letras do mesmo tamanho. Numa inversão da regra segundo a qual o repórter tem precedência, o fotógrafo freqüentemente irrompia à frente do desfile. Fotos de Jean Manzon. Texto de David Nasser. Essa fórmula vigorava quando as fotos eram de tal modo impressionantes que reduziam todos parágrafos, títulos e legendas a adereços. Muito vistosos, mas adereços. Foi assim na reportagem em que o deputado Barreto Pinto, convencido pelo francês sedutor a exibir-se na intimidade, topou posar de cuecas, entre outras situações desconcertantes.
Não foi assim na reportagem sobre os xavantes do Alto Xingu, avistados por homens brancos pela primeira vez. Pelo menos era o que garantia o texto de Nasser, ilustrado por fotografias cuja qualidade reforça a suspeita de que não foram feitas por Manzon: ele apenas teria tornado publicáveis, com truques que dominava, trechos do filme cedido por amigo piloto da FAB. Se não fizera as fotos, até o exuberante francês acharia um exagero exigir precedência na ordem de entrada em cena.
Manzon chegara ao Brasil para escapar aos barulhos da Europa em guerra. Já se tornara conhecido na França, graças a fotos em revistas do primeiro time. Morreu em São Paulo em 1990, depois de ter migrado do jornalismo para a área de documentários repletos de esplêndidas imagens e elegias ao governo do momento. Seus bens foram divididos entre os herdeiros gerados por muitas mulheres na roleta do cassino desativado do Hotel Copacabana Palace. Ele a comprara anos antes. A cena merecia ser fotografada por Jean Manzon."
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"O coração do império também era de papel" copyright Jornal do Brasil, 15/12/01
"Numa edição de outubro de 1954, o humorista Millôr Fernandes, que há tempos já esbanjava talento na redação da Rua do Livramento com o pseudônimo Vão Gôgo, incluiu na seção ‘‘O Pif-Paf’’ uma sibilina advertência: ‘‘Esta publicação não se responsabiliza pelas opiniões emitidas pela revista O Cruzeiro’’. Fê-lo bem. Ali trabalhavam lado a lado jornalistas éticos, outros nem tanto e, eventualmente, rematados larápios. Sobretudo, convinha não esquecer que o dono dos Associados, o imenso império de comunicações que tinha na revista semanal seu coração de papel, era Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, o Chatô. Para conhecer as profundezas cinzentas desse personagem mitológico, recomenda-se a leitura de Chatô, o belo livro do jornalista Fernando Moraes. Mas alguns episódios ajudam a compreender a alma do homem que David Nasser chamava de ‘‘O Velho Capitão’’. E convidam a subscrever-se o aviso de Millôr.
Numa campanha eleitoral dos anos 50, o repórter Jorge Ferreira promoveu minuciosas investigações até colher evidências de bandalheiras patrocinadas pelo governador de São Paulo, Adhemar de Barros. Feliz com o resultado das apurações, escreveu o texto, entregou-o ao chefe e informou Chateaubriand sobre a excelência jornalística do que logo chegaria às páginas de O Cruzeiro. Esperou sentado, semanas inteiras. Intrigado, quis saber se havia algum problema. ‘‘Meu filho, você é um bom repórter, mas escolha um lugar em que queira passar uns seis meses, porque eu passei a sua reportagem nos cobres’’, esclareceu Chateaubriand. Nos anos seguintes, os próprios jornalistas se encarregariam de agir no mercado em que o patrão enriquecia havia muito tempo.
Houve muitos, entre os quais David Nasser. ‘‘Poucas figuras foram tão nefastas ao jornalismo quanto ele’’, afirmou Samuel Wainer (que confessa ter cedido a tentações com bastante freqüência) em Minha razão de viver, seu livro de memórias. ‘‘David Nasser é a prova acabada de que é possível enriquecer utilizando em proveito próprio os instrumentos oferecidos pela profissão.’’ No apogeu da revista, os salários não provocavam exclamações. O que alguns recebiam por fora.
Nenhuma página da imprensa tão brasileira era tão cobiçada, nos anos 50, quanto as daquela revista que demorara a ganhar musculatura. O Cruzeiro nasceu em novembro de 1928 e morreu melancolicamente em 1975, assassinado pela ação conjunta de maus gestores, vendedores de matérias jornalísticas e ineptos vocacionais. Sobreviveu claudicante até o final de 1950, quando roçou a faixa dos 50 mil exemplares, uma proeza para aquele país rural e desafeito a leituras. Entrou na cesta básica do andar de cima do Brasil a partir de 1943, o ano da chegada da dupla David Nasser e Jean Manzon. Foi então que Chatô descobriu estar no controle de outra máquina de influenciar pessoas, fazer amigos (ou e inimigos, quando interessava) e ganhar dinheiro.
A tiragem cresceu quase verticalmente, mas jamais se saberá a que altitudes O Cruzeiro realmente chegou. Diretores e funcionários da revista sempre garantiram que, na semana do suicídio do presidente Getúlio Vargas, foram impressos (e vendidos, emenda a turma da circulação) 720 mil exemplares. ‘‘Tiragem pela qual nos responsabilizamos’’, comunicava a frase sob as cifras. Não havia os institutos verificadores que hoje amedrontam mentirosos eventuais. Mas como duvidar do que dizia a revista que os leitores esperavam pousar nas bancas com a ansiedade de noivo de antigamente? Como contestar um mero número, se tudo o que a revista dizia era lei?
O ofidário da Rua do Livramento já reunia espécimes raros antes da chegada de Nasser e Manzon - e seguiria atraindo outras cabeças admiráveis nos anos seguintes. Lá estavam o humorista Nássara, Alceu Penna com suas garotas. Fernando Lobo tratava de música. No time dos literatos jogavam Otto Maria Carpeaux, Murilo Rubião, Adalgisa Nery e Graciliano Ramos. O crescimento do espaço reservado aos repórteres juntaria sob o mesmo texto gente como Joel Silveira, Arlindo Silva, Mário de Moraes. Ao lado dessa equipe brilhante cintilariam humoristas do porte de Péricles e Carlos Estêvão.
Como tudo isso pôde sucumbir à septicemia generalizada que mataria a revista nos anos 70? O repórter Luiz Maklouf Carvalho agora sabe. Quem ler Cobras criadas saberá."
CACCIOLA EM LIVRO
Leão Serva
"Entrevista de Salvatore Alberto Cacciola a
L.S." (trechos), copyright Último Segundo <www.ig.com.br>,
15/12/01
"(...) Um personagem crucial do seu livro, explícita
e implicitamente em diversas passagens ou quase em todas as passagens,
é a imprensa e também nessa entrevista o Sr. já
fez referências ao papel dela. Eu pergunto: o Sr. preserva
algum representante da imprensa, algum setor ou indivíduo
que tenha tido um comportamento, digamos, que julga correto?
Cacciola – O meu caso foi um caso tão atípico em relação ao comportamento da imprensa que, quando me refiro à imprensa, me refiro à imprensa como um todo. É claro que a ‘Veja’, através do seu jornalista Policarpo Júnior, eu diria que é a mais forte, é a principal. Eu diria que foi a que teve o comportamento mais desleal, mais desumano, mais absurdo, fazendo acusações sem nenhuma prova e não reconhecendo e não colocando, escondendo e protegendo o Luís Cézar Fernandes. A palavra é horrível..., nem vou falar..., mas... de forma bastante suja, vamos chamar assim, e muito bem colocada no livro, com base em todas as reportagens que a revista ‘Veja’ fez. Então eu diria que a imprensa como um todo agiu de forma exagerada, me transformando no bandido-mór do Brasil, mas a maior motivação, o start e a coisa mais absurda quem fez sem dúvida nenhuma foi a ‘Veja’. Mas a imprensa como um todo colaborou e contribuiu para criar essa minha imagem negativa, com base inclusive em tudo que eu tenho guardado e está lá até dito na orelha do livro pelo próprio Fernando Moraes.
A imprensa tem um comportamento muitas vezes esquizofrênico, um comportamento que vai e vem, muitas vezes ela massacra, metralha um certo tema ou personagem, e depois faz uma expiação de culpa. Isso aconteceu, por exemplo, no famoso caso da Escola de Base, em que a imprensa quase inteira massacrou aqueles professores e depois toda a imprensa passou a publicar sempre artigos mostrando como ela mesma foi errada. O senhor já sente na imprensa hoje os primeiros sinais de mea culpa ou de autocrítica?
Cacciola – Eu não estou esperando e nem estou preocupado em ver a imprensa admitindo um mea culpa. Estou muito mais preocupado em que a imprensa tenha a capacidade de, com base na leitura do meu livro, poder perseguir o que eu estou dizendo no livro, que é o fato real. O fato real é o que o governo fez naquela segunda e naquela terça, sabendo que ia desvalorizar o dólar. Isso está muito bem claro. Então eu gostaria muito que a imprensa pudesse agora esquecer um pouco o Cacciola e tentar de fato esclarecer isso que eu estou colocando no livro. Porque o que eu estou colocando no livro está no relatório da CPI, assinado por aqueles senadores. Ou eles são míopes ou são 100% incompetentes. Pelo amor de Deus, eu nunca vi uma coisa dessas no mundo, o Senado assinar um relatório daqueles e crucificar o Cacciola como o único culpado. É impossível que a imprensa não tenha um jornalista competente, esclarecido, que entenda o que aconteceu e corra atrás. É o Watergate lá dos Estados Unidos. Que tenha um jornalista desses, pelo amor de Deus, é isso que eu peço. Agora, você há de convir, com todo o respeito que eu tenho pela imprensa e você também que é um jornalista, você há de convir que esses jornais botam esses garotos e essas meninas totalmente inexperientes, recém-formados, pagando um salarinho de fome, para tomar conta de um caso desses. Aí botam aquelas manchetes absurdas e vai ficar por aquilo mesmo, porque eles não têm a competência de entender um caso desses. Agora, se tiver alguém na imprensa ou algum órgão da imprensa que tenha de fato alguém competente que queira perseguir essas minhas acusações, que são reais, não são inventadas, você vai ver que o desdobramento desse caso vai ser outro completamente diferente. E talvez lá na frente vá ter um mea culpa em relação ao Cacciola. (...)"
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