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AMERICANOS FICHADOS
Alberto Dines
"Sua Majestade, a Xenofobia", copyright Jornal do Brasil, 17/01/04
"O piloto norte-americano Dale Hersh voltou para casa e agora vai pensar no seu futuro: dificilmente comandará outro vôo internacional. Sossegaram os briosos patrícios que já se preparavam para invadir os Estados Unidos em represália ao obsceno dedo em riste na foto do fichamento. Amainaram as exaltações. Exceto a alegria das 24 idosas do asilo de Cumbica, perto do aeroporto internacional de São Paulo, que ainda regozijam-se com os 36 mil reais que, literalmente, caíram do céu - por decisão judicial, coube-lhes a multa paga pela American Airlines.
Encerra-se assim o múltiplo vexame protagonizado pela xenofobia. De um lado, a sua versão arrogante e grosseira, manifestada por um aeronauta esquecido da sua condição de profissional de relações internacionais. De outro, a patriotice delirante e rastaqüera que levou um jornal paulistano na quinta-feira a explorar o caso em manchete como ‘ofensa ao Brasil’.
O resíduo é preocupante. Remete-nos à ridícula ‘guerra da lagosta’ que o Brasil travou contra a França de Charles de Gaulle em 1962. Faz lembrar a violência popular, 20 anos antes, em 1942, contra os estabelecimentos comerciais de propriedade de alemães (caso do Bar Adolpho, na Rua da Carioca, Rio, por isso rebatizado como Bar Luiz), em represália contra o afundamento de cargueiros brasileiros por submarinos nazistas. Se o quebra-quebra na famosa casa de chope acabou por produzir uma história de sucesso comercial, o linchamento de alemães legalmente admitidos no país é um capítulo inglório na história de uma sociedade que se considera ‘cordial’.
Desse preconceito contra o estrangeiro - o gringo - não escapou até um intelectual do porte de Mário de Andrade, um dos pais da Arte Moderna, que, no afã nativista, esqueceu sua condição de escritor para distribuir cotoveladas contra os ‘invasores’, como fez com o poeta franco-suíço Blaise Cendrars, entre outros.
A xenofobia é uma caricatura do patriotismo e do nacionalismo, tal como a xenofilia distorce e compromete o cosmopolitismo e o universalismo. E na história da xenofobia brasileira há um episódio reconstituído pelo grande historiador José Honório Rodrigues que vale a pena recordar (*).
Ernest Hambloch, cônsul inglês no Rio e jornalista (correspondente do Times de Londres), viveu um quarto de século no país, que conhecia de ponta a ponta e cuja história dominava como poucos. A designação ainda não existia mas hoje poderia ser considerado um autêntico brasilianista.
Em 1935, publicou nos EUA e na Inglaterra um interessante estudo sobre o sistema político brasileiro, intitulado, com a típica ironia britânica, de Sua Majestade, o Presidente do Brasil. Breve e fundamentada comparação entre o Segundo Reinado e a Primeira República (1889-1934), onde escancaravam-se os defeitos do nosso presidencialismo e suas desastrosas conseqüências na esfera social e econômica.
Acontece que Getúlio Vargas e/ou seus conselheiros acharam que o livro dirigia-se contra o então chefe da nação, naquela ocasião já visivelmente seduzido pelas tentações totalitárias. Acontece também que naquele momento a Ação Integralista Brasileira - o partido fascista brasileiro - tinha grande penetração na classe média com a sua pregação em nome do trinômio ‘Deus, Pátria e Família’ e o grito de guerra indígena, ‘Anauê’.
A Benito Mussolini, o ditador italiano que servia de modelo dos fascistas brasileiros, não interessavam as boas relações do Brasil com a Inglaterra. Por isso enviou aos correligionários locais mil libras esterlinas (uma fortuna na época) para ‘desacreditar os ingleses proeminentes no Brasil’.
Hambloch foi escolhido por causa do livro: imediatamente publicou-se uma edição pirata, quase apócrifa, assinada por um tal de Brasil Líbero, onde, a pretexto de traduzir e resumir as avaliações do inglês, simplesmente distorcia-se todo o seu sentido. Chamou-se o panfleto Esmagando a Víbora: Crítica do Volume ‘His Majesty, The President’. Afronta ao Brasil , e vendeu sucessivas edições.
As ruas centrais do Rio foram inundadas de cartazes, os estudantes de direita movimentaram-se para quebrar as vitrinas de todas as empresas inglesas, a polícia foi acionada. Hambloch teve que esconder-se e, depois, deixar o país.
Hoje essa ‘Afronta ao Brasil’ poderia ser endossada por qualquer intelectual-fundador do PT e as conclusões sobre as revoluções feitas em nome do povo contra o povo seriam assinadas por qualquer radical de esquerda. Sobretudo, aqueles que, como Hambloch, acreditam que ‘a economia é uma ciência maldita’.
As víboras que hoje precisam ser esmagadas são a demagogia, a irracionalidade e as simplificações. Sua Majestade, o Presidente do Brasil foi uma valiosa contribuição à idéia parlamentarista infelizmente esquecida. Seu epílogo poderia chamar-se ‘Sua Majestade, a Xenofobia’, uma advertência para os perigos da exploração doentia da dignidade e do civismo.
(*) Ernest Hambloch, Sua Majestade o Presidente do Brasil, introdução de José Honório Rodrigues (Editora UnB, 1ª edição, 1981)."
Nelson de Sá
"‘Rio loves you’", copyright Folha de S. Paulo, 14/01/04
"Na descrição da Globo, George W. Bush recebeu por escrito a proposta de Lula, para suspender o ‘fichamento’ de lado a lado, e:
- Foi evasivo... Prometeu examinar.
Na descrição dada pela rádio Bandeirantes, Lula ‘fez uma brincadeira’ afirmando que os americanos poderiam isentar os brasileiros de visto, como já ocorre com outros, e:
- Bush considerou um bom argumento. Afirmou que vai analisar.
Já na descrição da Jovem Pan, Bush só recebeu a proposta ‘e se limitou a sorrir’.
É certo que a controvérsia do ‘fichamento’ tomou proporção excessiva. Mas ela apenas reflete a ‘tensão’ entre os dois países, para usar uma expressão da BBC Brasil.
Tensão que percorreu todo o ano de 2003 e que deve crescer em 2004, segundo ‘analistas’ ouvidos pelo canal britânico num evento em Nova York.
De um deles, do instituto Inter-American Dialogue:
- O Brasil não deve gastar o tempo de Powell (secretário de Estado americano) em temas que não são importantes, como acontece no caso do fichamento dos turistas.
Se o tempo de Powell não deve ser gasto pelo Brasil, imagina o que pensa o analista sobre meia hora de Bush.
Na Globo, quem também está irritada com o que chamou de ‘briguinhas’ é Míriam Leitão, que declarou:
- O que vem preocupando diplomatas do Brasil e dos EUA com quem eu conversei, nestes últimos dias, é que agora tudo é motivo para desentendimento entre os dois maiores países do continente.
E os americanos, afinal de contas, são ‘o segundo maior fluxo de turistas para o Brasil’. Sobretudo o Rio.
Então, a partir de agora, tudo pelos turistas no verão carioca. Desde ontem, segundo o Jornal Nacional, um americano recebe ao chegar:
- Uma rosa vermelha, um pingente com o desenho do Pão de Açúcar e uma camiseta com a mensagem, escrita em inglês, ‘o Rio te ama’.
Como no Havaí. Os turistas ‘gostaram’:
- Um americano em férias vestiu ontem a camiseta do Rio e disse que a declaração de amor dos cariocas tocou o seu coração.
Vem aí o Carnaval. Oba, oba."
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"O gesto", copyright Folha de S. Paulo, 15/01/04
"Ganhou manchetes em toda parte. Os jornais da Record e da Band falaram em ‘gesto obsceno’.
O Jornal Nacional evitou, mas deu as imagens e a primeira manchete:
- Comandante de avião americano faz poses e é detido.
E assim a telenovela do ‘fichamento’ andou mais um capítulo, avançando para muito além do que merecia.
O gesto, o gesto. De um agente da PF, no JN:
- Esse gesto é internacionalmente conhecido como obsceno.
Falou-se em ‘incidente diplomático’, na Globo. O piloto, ‘vaiado’ no aeroporto, poderia sofrer o diabo:
- Ele é acusado de crime de desacato à autoridade, com pena prevista de seis meses a um ano de prisão.
CNN, Fox News e outros canais americanos cobriam os planos espaciais/eleitorais de George W. Bush e não deram a menor atenção ao gesto, mas a BBC registrou.
E a Globo chegou a anunciar os próximos capítulos:
- O secretário Powell vem em fevereiro, quando o assunto será discutido.
No fim, ao que parece, tudo se limitou a multa e um pedido de ‘desculpas’.
Mas o antiamericanismo, é evidente agora, ganhou com o ‘fichamento’ a desculpa que buscava -e vai tomando ares irracionais.
A reforma para juntar PT e PMDB no governo segue lenta e reprimida. Ontem, Lula se reuniu com o ‘núcleo duro’, mas, segundo a CBN:
- A assessoria informou que a pauta não é a reforma.
A cobertura é pressionada a fingir que nada está acontecendo. No dizer do próprio Lula, na Globo:
- Não quero fazer da reforma a coisa mais importante que temos a fazer.
Fora o ‘fichamento’, no momento é, sim.
Não é por outra razão que Olívio Dutra e Benedita da Silva, ameaçados, não param de dar entrevistas.
Dia após dia, Marta Suplicy e Geraldo Alckmin disputam São Paulo na cobertura.
Ontem, o governador almoçou num restaurante ‘popular’, passeou com Zé do Caixão e insinuou que vai mudar do Morumbi para o ‘centrão’, segundo a Jovem Pan.
Anteontem, a prefeita foi à zona leste e criticou o governo estadual pela falta de policiamento nos ônibus.
Segunda, os dois se defendiam das críticas de que eles só fazem gastar com obras eleiçoeiras. Vai assim até outubro."
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