|
CONFIANÇA NA MÍDIA
Comunique-se
"Brasileiros confiam mais no jornal do que na TV", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 14/01/04
"As notícias publicadas no jornal são mais confiáveis do que aquelas veiculadas na TV. Essa é a opinião dos brasileiros formadores de opinião, da classe média-alta, de acordo com a primeira edição no Brasil do ‘Estatuto Anual sobre confiança’, organizado pela Eldeman – multinacional norte-americana de relações públicas. A China também aparece pela primeira vez na pesquisa, ao lado do Brasil, da França, do Reino Unido, dos EUA e da Alemanha.
O levantamento, feito entre dezembro de 2003 e janeiro de 2004, contou com a entrevista de 1.200 formadores de opinião, dentre eles 150 brasileiros, entre 35 e 64 anos, com nível universitário e um salário anual superior a US$ 75 mil.
Para 35% dos brasileiros entrevistados, o jornal é o veículo com mais credibilidade, seguido pela TV, que ficou com 34% dos votos. Já na China, a televisão está muito na frente na preferência dos entrevistados quando a questão é confiança, com 56%, seguida pelo jornal, com apenas 20%."
LEITURAS DE VEJA
José Paulo Lanyi
"Reportagem conspiratória", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 14/01/04
"Desde o fim de semana, é possível afirmar estas verdades científicas:
a) A morte da princesa Diana foi um acidente corriqueiro; quem aventar assassinato é um imbecil - inclua-se aí o pessoal da polícia britânica que ousa investigar o caso;
a) O presidente americano John Kennedy foi assassinado pela vontade individual de Lee Harvey Oswald. Ele agiu sozinho. Ponto final.
Num mundo em que nem as chamadas certezas científicas estão ao largo das inquirições, a revista Veja sobressaiu no campo do pensamento: tascou um ouriço de ‘teoria conspiratória’ goela abaixo dos que consideram uma hipótese diversa.
Sou dos que pensam que as reportagens são apenas reportagens. Há de se precaver: o manto da ‘interpretação’ dos fatos pode induzir a uma autoconfiança deletéria.
Na Cásper Líbero, no início da década de 90, deparei com os três tipos básicos de orientação de um texto de mídia impressa (vale hoje para a Internet): jornalismo informativo, jornalismo interpretativo e jornalismo opinativo. É certo que a primeira modalidade chega a ser redundante - se não é informativo, não é jornalismo.
A interpretação é uma arte que demanda algumas virtudes, como prudência. Pode virar opinião. Pior: o que a gente ostenta como verdade pode ser ‘achismo’ com base em evidências. Jornalistas também deveriam saber: evidência não é prova - nem para atacar, nem para defender.
Daí a minha surpresa ao ler o artigo ‘O Enigma da Princesa’, da Veja (14/01). É de supor que a revista mais tradicional do País lance mão de fatos insofismáveis e inquestionáveis para concluir pelas teses conspiratórias sobre a morte de Diana. Nada disso.
Para a Veja, se a polícia francesa definiu ‘o óbvio’ (ou seja, ‘a culpa da tragédia foi do motorista, Henri Paul, convocado improvisadamente para a tarefa, que dirigia bêbado e sob o efeito de tranqüilizantes’), quem seremos nós para pensar em uma hipótese menos convencional - ainda que, na Política, tanta coisa pareça anticonvencional?
A Veja tem outra ‘prova’ para o seu leitor: classifica de ‘bizarra premonição de Diana’ o conteúdo de uma carta escrita por seu ‘mordomo e confidente’ Paul Burrel.
Como é de conhecimento público, Burrel divulgou uma suposta carta escrita por Diana quase um ano antes de sua morte. Ela estaria temerosa de que pudesse ser vítima de um acidente de carro por obra de um defeito intencional nos freios.
O jornal Daily Mirror (sim, sensacionalista até a medula) acabaria revelando a identidade de um suposto bandidão: o príncipe Charles. Assim, ele ficaria livre para se casar com a sua amante Camilla Parker-Bowles. ‘A suspeita de que o herdeiro da Coroa tivesse planejado o assassinato da mãe de seus filhos não é sequer admitida por ninguém sério’, diz a reportagem, tirando um barato involuntário da cara das autoridades inglesas, que, como a própria Veja reconhece, ‘...até que o processo seja formalmente encerrado (...) serão obrigadas a investigar todas as suspeitas’.
Pergunta-se: em que mundo lilás a revista vive? Cadê o ceticismo, não só diante de um foco, mas em todas as direções?
Esta frase é uma prova e tanto da inocência do príncipe: ‘...Charles não tem poder para matar ninguém, exceto raposas’. Concluímos do lado de cá:
a) O herdeiro da coroa britânica é um pobre-coitado, é um joão-de-garrincha, é um zé-ninguém;
b) Pelo raciocínio da revista, todos os assassinos do mundo são potentados (menos o, literalmente, potentado Charles).
A revista optou pelas verdades científicas expostas lá no início. Sobre o assassinato de Kennedy, descarta, peremptória, a participação da CIA, da Máfia, do FBI e do vice-presidente Lyndon Johnson em um suposto complô. É a canetada da verdade. Uma só frase para definir as suspeitas como obra de gente delirante que não aceita com naturalidade a morte dos famosos.
Voltemos a Diana. A última afirmação do texto faria a promotoria sorrir: ‘Se ela temia mesmo ser morta num acidente de carro, por que não usava o cinto de segurança, que quase com certeza absoluta lhe teria permitido escapar viva?’.
‘Quase com certeza absoluta’ é uma frase que diz tudo. Ou nada. É um breviário do artigo de opinião com ares de reportagem ‘interpretativa’.
Além de atolar na hipótese, despreza a espontaneidade do comportamento humano, capaz, por exemplo, de se desmanchar em afagos no banco de trás - o que, aliás, dependendo da companhia, é muito bom.
Se a gente quisesse entrar na brincadeira da revista, diria que a frase também desmente a paranóia da princesa - ainda que supostamente ciente da ameaça, ela não usava cinto de segurança.
Não vou cair nessa. A minha opinião, aliás, é de que Diana morreu por acaso, por acidente. Mas não descarto nada, ao contrário do que fez o semanário. Embora discorde de certos argumentos do texto da Veja, não veria problema em que se publicasse o seu mesmíssimo artigo em um espaço de opinião.
Chamá-lo de reportagem é um equívoco. O que a Veja produziu nada mais foi do que a teoria conspiratória da teoria conspiratória."
LÍDERES SEM LEITURA
Milton Coelho da Graça
"Dona Laura e Kotscho estão numa boa", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 15/01/04
"Bush não gosta de ler e não lê jornais, segundo revela a veterana e confiável revista americana New Yorker. Dona Laura assumiu essa tarefa e, no breakfast, conta ao maridão o que andam dizendo a respeito dele. É claro que a turma da Comunicação da Casa Branca também prepara o seu clipping, assessores e cientistas políticos escrevem duas ou três páginas analíticas do que andam dizendo sobre o governo os mais importantes dos 1100 jornais diários do país.
O tempo é a mais implacável influência sobre o comportamento humano. E tempo de presidente vale muito mais do que o ouro da sabedoria popular.
Em Brasília, o veterano repórter Ricardo Kotscho cuida do mesmo trabalho de dona Laura e dos assessores de Washington. Lula também não é chegado nem tem paciência para leituras. Gosta mesmo é do Jornal Nacional e, de vez em quando, dá uma olhada no resumo especial feito pela Radiobrás. Mas confia mesmo é no antigo companheiro de 20 anos.
Acredito que Schroeder, Berlusconi, Chirac, Koizumi, Putin e Hu tenham esquemas parecidos.
Mas será que jornais são apenas isso, o que dizem sobre o poder? Jornalistas certamente têm mais necessidade de ‘saber das coisas’ e mais tempo disponível do que presidentes e ministros. Leio diariamente três jornais em papel e mais quatro ou cinco na Internet. E sempre encontro em qualquer um deles algo surpreendente, algo além do que eu ‘queria saber’.
Costumo dizer a meus alunos da Unicarioca que esse é o segredo de conservar leitores. O jornal (ou revista) deve oferecer tudo aquilo que se tornou parte da vida de cada um deles – as colunas do Elio Gaspari, as matérias sobre esporte, as novidades econômicas e vocabulares do Joelmir, as informações sobre cultura e arte, fofocas da Joyce. Mas deve sempre ter a preocupação de oferecer algo inesperado. Enfim, jornal deve ser como a vida, sempre igual e sempre diferente.
Acho que, por isso, ler jornal é mais do que obrigação, é prazer. A CNN criou um belo slogan: Viver é saber (to live is to know). É pouco, acho que viver é aprender. Saber pode ser caminho para a arrogância. Prazer mesmo é aprender.
Fico com pena do Bush e do Lula por não terem tempo de ler. Kotscho e dona Laura é que se divertem."
JUSTIÇA MIDIÁTICA
Boaventura Santos
"A qualidade da acusação", copyright Agência Carta Maior (www.agenciacartamaior.com.br), 14/1/2004
"Os processos judiciais midiáticos confrontam-nos com um dilema: todos os comentadores, analistas e políticos responsáveis estão de acordo em que a Justiça deve ser feita nos tribunais e não nos meios de comunicação, mas todos usam estes últimos para o afirmar.
Os processos judiciais midiáticos confrontam-nos com um dilema: todos os comentadores, analistas e políticos responsáveis estão de acordo em que a Justiça deve ser feita nos tribunais e não nos meios de comunicação, mas todos usam estes últimos para o afirmar. Um dilema a que eu, obviamente, não escapo. Já que é assim, o proveito da atenção dada pelos meios a este tipo de casos reside na possibilidade de levar a um público mais amplo as análises da Justiça que normalmente ficam confinadas aos operadores e aos estudiosos do sistema judicial.
O processo Casa Pia [caso de pedofilia que envolve personalidades portuguesas] integra-se naquilo que designo por Justiça dramática. Trata-se de casos em que a natureza dos crimes e a notoriedade dos presumíveis criminosos fazem com que sobre eles incida a atenção dos meios de comunicação social. Ainda que esta visibilidade pública cubra uma fração infinitesimal do trabalho judiciário, é suficientemente recorrente para não parecer excepcional e mesmo para parecer corresponder a um novo padrão de intervencionismo judiciário. Os casos de Justiça dramática transformam-se rapidamente em símbolos de justiça ou de injustiça e o seu desenrolar e desfecho em prova pública do bom ou mau desempenho do sistema judicial. Estes casos ocultam todo o trabalho judicial que extravasa deles, inclusive o que respeita a outros casos de Justiça dramática. É da natureza destes casos não partilhar a ribalta. Foi, por isso, que o caso da Universidade Moderna desapareceu dos meios no momento em que surgiu o caso Casa Pia. Tais factos bastariam para justificar a análise serena e detalhada destes casos. Mas duas outras razões podem ser aduzidas, ambas respeitantes aos estereótipos sociais sobre o que é crime e quem é criminoso. A primeira é que os casos de Justiça dramática referem-se em geral a crimes (corrupção, crime organizado, pedofilia) muito diferentes daqueles que constituem a rotina do controle social e presidem à formação e ao preparo técnico dos investigadores (crime contra a vida, furto e roubo). A segunda é que os presumíveis criminosos são indivíduos ou organizações com muito poder social e político que, para além de fugirem ao estereótipo do criminoso, têm poder suficiente para virar o público contra o sistema judicial e para criar divisões profundas no seio deste.
A Justiça dramática levanta assim dois problemas: a vontade política para investigar, acusar e julgar e o preparo técnico para o fazer eficazmente. No caso Casa Pia está neste momento em causa a qualidade da investigação e da acusação. Estas, para serem de boa qualidade, têm de saber ‘armar-se’ contra uma defesa que se adivinha forte. Têm que saber blindar o processo contra erros grosseiros de investigação e contra questões de ordem formal, obrigando a defesa a centrar as suas forças na discussão do mérito da causa (o réu cometeu ou não o crime?) e não nos formalismos processuais (foram ou não cumpridas todas as regras do processo?). Aliás, disto também beneficia a própria defesa, pois que, nestes casos, o réu absolvido por razões processuais é sempre um réu meio condenado perante a opinião pública.
O Estatuto do Ministério Público permite a constituição de equipes especiais para garantir a qualidade da investigação e da acusação em casos que particularmente o justifiquem. Foi o que se fez, por exemplo, no caso das FP25 [grupo político responsável por atentados em Portugal na década de 80]. Nessa altura, o MP constituiu uma forte equipe de magistrados que chegou a ser apelidada, nos meios forenses, de ‘equipe imbatível’, que imprimiu uma grande dinâmica e coesão a toda a atividade de investigação. O resultado foi um total sigilo e uma investigação célere e eficaz. Em breve saberemos se o caso Casa Pia é revelador da mesma vontade política e do mesmo preparo técnico que caracterizaram a investigação e a acusação no caso FP25. (Boaventura Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Portugal)"
|