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ITÁLIA
Boris Fausto
"O fenômeno Berlusconi", copyright Folha de S. Paulo, 15/01/04
"Como entender o fenômeno Berlusconi, por duas vezes à frente do governo italiano, não obstante a descarada confusão que faz entre seus interesses privados e a esfera pública, em benefício dos primeiros?
Uma explicação simples consistiria em dizer que o primeiro-ministro italiano magnetiza uma grande parte da sociedade, graças ao poder que detém nos meios de comunicação. De fato, ‘IL Cavalieri’ é o homem mais rico da Itália, controlando um vasto império financeiro, imobiliário e, especialmente, três canais de televisão. A explicação faz sentido sob muitos aspectos, pois, como ninguém ignora, o poder da mídia, em particular da televisão, é um dado integrante da sociedade contemporânea, a tal ponto que a construção de imagens, o recorte das notícias, a ênfase nesta ou naquela figura têm um impacto enorme nas mentes e nos corações, para usar uma expressão que se tornou banal, mas nem por isso menos verdadeira.
Usando sobretudo seus canais de televisão, Berlusconi contribuiu poderosamente para despolitizar o debate na mídia italiana e modelou os gostos e inclinações de um eleitorado fiel, com uma forte concentração entre mulheres que assistem à televisão por longas horas. Mas esse é o lado ‘soft’ do fenômeno Berlusconi, que se associa também ao clientelismo sob formas extremas, à corrupção de membros do poder público, no Parlamento e no Judiciário, à intimidação de opositores na mídia, a acusações de entendimento com a máfia.
Não é o caso de multiplicar os exemplos. Mais importante é tentar entender como um homem com essas características, à frente de um partido personalista (Forza Italia), por ele talhado sob medida, exerce tanto poder na história recente da Itália. Mesmo porque, por maiores que sejam os trunfos de quem controla a mídia, há algo mais na sociedade do que um poder avassalador fabricante de imagens, de um lado, e mentes em branco, prontas a receber mensagens sedutoras, de outro.
Um livro escrito por Paul Ginsborg, historiador inglês e professor na Universidade de Florença -’Italy and Its Discontents’-, resenhado por Alexander Stille, em ‘The New York Review of Books’ (outubro de 2003), explora aspectos importantes das razões da ascensão de Berlusconi.
Ginsborg conta a história de uma televisão italiana fortemente monopolista e politizada até meados dos anos 70. Na década de 50, havia uma única emissora, a RAI 1, dominada pela Democracia Cristã, a que se seguiram outras, influenciadas por socialistas e comunistas. A televisão privada foi autorizada somente em 1976, com uma base local. Por aí penetrou a empresa de Berlusconi, gozando de poderosos apoios políticos, saltando leis e etapas, até chegar ao império constituído pela hoje denominada Mediaset. Com o faro da modernidade, por mais discutível que seja, ele atraiu cada vez mais espectadores, com programas de prêmios, filmes americanos, novelas e, principalmente, shows de uma gritante vulgaridade.
Um aspecto importante das observações de Ginsborg diz respeito aos setores sociais em que o primeiro-ministro tem particular influência. A análise vai no sentido de assinalar a existência na Itália de um amplo estrato social de pequenos empresários, comerciantes e industriais. Esse setor, assim como o composto pelos profissionais, sistematicamente encontra formas de sonegar impostos, disso resultando que os assalariados pagam uma das mais altas taxas impositivas de todo o mundo. De passagem, isso não nos soa familiar?
Tais setores de classe média encantam-se com a capacidade de manipulação de Berlusconi, com o mito do vencedor e, em sua maioria, tendem a perdoar os imensos ‘pecados’ do líder, pois não estão isentos de culpa eles próprios, ainda que em escala infinitamente menor. A observação, guardadas as muitas diferenças, não nos soa também familiar, se pensarmos nos líderes populistas da nossa direita?
Um último aspecto a ser apontado refere-se às alternativas ao poder de Berlusconi, para que não se pense em uma ‘inata fascinação italiana’ por figuras de seu talhe. Sua primeira vitória, em 1994, acabou em um estrepitoso fracasso, e ele foi obrigado a renunciar, em apenas oito meses, diante de denúncias de corrupção de funcionários, políticos e juízes. Mas a coalizão de centro-esquerda que o sucedeu acabou não se sustentando, enquanto ele reconstruiu sua imagem, apoiando-se na rede dos aderentes próximos, de jornalistas a membros do Parlamento.
A coalização durou mais de seis anos, mas não conseguiu manter-se no poder, em parte como resultado de seus próprios erros. Berlusconi voltou com muito mais força, garantindo seu poderio pela via de uma legislação que lhe concede privilégios e lhe dá base legal para eternizar seus oligopólios.
Por ora, parecem frágeis as possibilidades de alteração desse quadro, não obstante alguns resultados de eleições locais, a recente anulação judicial da lei que lhe garantia imunidade e sintomas de insatisfação entre outras forças componentes do governo, como é o caso da ex-fascista Aliança Nacional, liderada por Gianfranco Fini.
Mas tudo indica que é cedo para falar de uma reviravolta."
Sophie Arie
"Fo é processado por peça que satiriza o líder", copyright O Estado de S. Paulo, 15/01/04
"Um membro do Força Itália, partido do primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, está processando o Nobel de Literatura Dario Fo por difamação em sua nova peça. O senador Marcello Dell’Utri pede 1 milhão de euros por danos resultantes de alegados ‘ataques pessoais infundados’ feitos por Fo na peça satírica L’Anomalo Bicefalo (O Anômalo Bicéfalo).
‘Dario Fo sempre foi um grande artista. Ninguém questiona isso’, disse o advogado de Dell’Utri, Pietro Federico. ‘Mas isso não é sátira. É perseguição. A sátira deve fazer as pessoas rirem de fatos reais. Mas Fo está oferecendo informações falsas. Ele é negligente. Isso causa danos à honra de meu cliente.’
‘Faço sátira há 40 anos’, disse Fo terça-feira. ‘Isto é um paradoxo. É grotesco.’
‘Essa gente quer calar todo mundo’, afirmou a mulher de Fo, Franca Rame, ao jornal La Repubblica.
Na peça, Fo e Rame fazem os papéis de Berlusconi e sua mulher, Veronica Lario. O personagem de Fo é baixo e gordo e gesticula e reclama de seus problemas para a esposa. Seu amigo Vladimir Putin, o presidente russo, vem à Itália para ficar numa vila siciliana, mas é baleado por rebeldes chechenos.
Parte do cérebro de Putin é implantada em Berlusconi, transformando-o num homem confuso, bebedor de vodca, que fala russo e se preocupa com alguns homens bloqueados num submarino.
Na peça, o primeiro-ministro é atacado por todos os motivos, da baixa estatura à aprovação de leis em benefício próprio, passando pela direção de um monopólio de mídia e pela censura às críticas contra seu governo.
‘Estamos cansados’, disse Fo, de 77 anos. ‘Mas achamos que não poderíamos ficar sentados vendo o que está acontecendo na Itália.’ Como os críticos de Berlusconi vêm sendo boicotados pela emissora estatal Radiotelevisione Italia, Fo reclama que os artistas estão sendo metaforicamente ‘defenestrados’ da RAI do mesmo modo que os dissidentes esquerdistas eram literalmente lançados pelas janelas das delegacias nos anos 70, quando o autor escreveu a célebre peça Morte Acidental de um Anarquista.
Em referências a Dell’Utri, que está sendo julgado por supostamente lavar dinheiro da Máfia por meio da empresa de publicidade Publitalia, de Berlusconi, Fo acusa o senador de ligações com o crime organizado e o narcotráfico. Um mafioso arrependido, Antonino Giuffre, alegou que o siciliano Dell’Utri, um fundador do Força Itália e ex-parceiro de negócios de Berlusconi, ajudou a convencer a Máfia a apoiar o partido no início dos anos 90.
Dell’Utri sempre negou todas as acusações e o governo de Berlusconi desmentiu as alegações sobre a Máfia. Fo planeja transmitir seu espetáculo ao vivo para telões em teatros no país todo. Os advogados de Dell’Utri também entraram em contato com a TV via satélite Sky Italia para convencê-la a não transmitir L’Anomalo Bicefalo, o que está programado para este ano.
‘Se essa peça chegar à TV, os danos serão de pelo menos 2 milhões de euros’, disse Federico."
Jason Horowitz
"Farsa, tragédia e comédia em palco italiano", copyright Folha de S. Paulo / The New York Times, 18/01/04
"As cortantes sátiras de Dario Fo sobre as autoridades e os poderosos o conduziram ao topo das letras italianas, um pináculo decorado com um prêmio Nobel. Em sua nova peça, no entanto, o autor escolheu para usar como alvo aquele que é seu alvo favorito, o primeiro-ministro Silvio Berlusconi (que na semana passada perdeu sua imunidade, em decisão da Corte Constitucional da Itália, e agora pode ser julgado em processo no qual é acusado de corrupção), de uma altura consideravelmente mais modesta. Aproximadamente 75 centímetros, para ser exato.
‘No começo da tirada esquerdista [‘A Anomalia de Duas Cabeças’] explica-se que Berlusconi passou por uma cirurgia de emergência na qual foi transplantada parte do cérebro do presidente russo Vladimir Putin para a cabeça dele. (...) Isso foi inspirado pela amizade entre os líderes, que tendem a usar roupas combinadas durante suas conferências de cúpula’
‘Membros do partido político de Berlusconi tentaram obter uma cópia do texto de ‘A Anomalia de Duas Cabeças’ antes mesmo de saberem que era sobre o primeiro-ministro’
Fo passou mais de metade de uma encenação lotada de sua peça ‘A Anomalia de Duas Cabeças’ retratando Silvio Berlusconi como uma espécie de anão tirânico.
‘Não somos tão cruéis com relação a ele’, disse Fo, que trabalha na peça e continua ágil mesmo aos 77 anos de idade. ‘Dizemos somente que ele é uma espécie de anão, como se fosse uma marionete.’
Para criar o efeito, Fo fica em pé em um fosso por trás do palco principal, com os seus braços escondidos por pequenas calças listradas e as suas mãos manipulando pequenos sapatos lustrosos.
E como se o sapateado dele pelo palco na forma de uma espécie de boneco de ventríloquo libertado não fosse absurdo o bastante, a premissa da peça envolve uma reviravolta que acaba conseguindo ser ainda mais surreal.
No começo da tirada esquerdista em larga medida improvisada e de estrutura muito livre contra o primeiro-ministro conservador, explica-se que Berlusconi passou por uma cirurgia de emergência, na qual parte do cérebro do presidente russo Vladimir V. Putin foi transplantada para a cabeça dele. Isso acontece depois que terroristas tchetchenos atacam os dois líderes a tiros enquanto eles se preparam para dormir praticando caratê em quimonos que são combinados.
Laços russo-italianos
A sátira foi inspirada pela amizade entre os líderes, que tendem a usar roupas combinadas durante suas conferências de cúpula (chapéus de pele em dachas russas e calças de linho em vilas da Sardenha).
Berlusconi enfureceu muitos políticos europeus em uma entrevista coletiva no mês passado ao defender as ações de Putin contra os separatistas da Tchetchênia.
Além daquilo que Fo menciona no palco como o número do ‘Dr. Jekyll e Mr. Hyde’, com referências ao gosto que Berlusconi veio a adquirir pela vodca e memórias dos tempos da KGB, a peça coloca em destaque uma preocupação muito real na vida cultural contemporânea da Itália.
Críticos como Fo sentem que o poder político e a imensa influência cultural de Berlusconi -o primeiro-ministro é um magnata da mídia e a pessoa mais rica de seu país- criam um conflito de interesse que acaba servindo de ponto de origem à censura.
‘É um momento difícil para a sátira’, disse ele no camarim, antes do espetáculo. ‘Berlusconi tem suas mãos em toda parte. A sátira precisa ter a tragédia como base. Bem, a Itália agora é verdadeiramente trágica. Nunca estivemos tão por baixo.’
E o mesmo se aplica a Berlusconi, na peça, o que o teria deixado muito insatisfeito com a forma pela qual é retratado.
‘Há um comediante italiano que trabalha dentro de um buraco’, declarou o primeiro-ministro durante uma entrevista, ‘para criar a impressão de um anão demoníaco’.
‘Não acredito que eu seja um anão’, afirmou.
‘A nova geração come melhor e pratica mais esportes que eu, mas sou um italiano médio.’
Berlusconi também argumentou que a esquerda ‘ataca o governo e especialmente o primeiro-ministro da Itália continuamente’.
Fo rebateu dizendo que ele e outros satiristas são as verdadeiras vítimas. Disse que membros do partido político de Berlusconi haviam tentado obter uma cópia do texto de ‘A Anomalia de Duas Cabeças’ -que ele interpreta ao lado de Franca Rame, sua mulher e constante colaboradora. ‘Antes mesmo que soubessem que se tratava de Berlusconi’, afirma Fo.
Fo disse ter recusado entregar o texto a uma reunião de diretores de teatro que ele classifica como ‘politicamente motivada’, em Milão, embora afirme que a produção da peça não foi atrapalhada de maneira alguma.
Sátiras
Funcionários próximos a Berlusconi dizem que até mesmo a acusação de que o primeiro-ministro interfere é absurda, apontando que há muita sátira sobre ele na Itália. As primeiras páginas dos jornais italianos rotineiramente exibem caricaturas do primeiro-ministro e charges nas quais ele é satirizado. Os programas de humor e sátira da TV italiana dão grande destaque a Berlusconi com regularidade.
Mas os críticos geralmente alegam que há muitos outros lugares em que a sátira não encontra lugar. Nas últimas semanas, o presidente italiano se recusou a assinar uma lei aprovada pelos aliados de Berlusconi no Parlamento Italiano que possibilitaria uma futura expansão das propriedades do primeiro-ministro no setor de mídia, enquanto as emissoras estatais de televisão suspenderam os programas de alguns humoristas depois que o grupo midiático controlado por Silvio Berlusconi os classificou como ‘propaganda política’ e ameaçou realizar abertura de processos.
‘Eles não os censuraram, simplesmente; os enxotaram’, afirmou Fo.
A família de Silvio Berlusconi controla grandes editoras e empresas de distribuição de filmes, jornais e três dos sete canais nacionais de televisão italianos. Três dos demais canais são controlados pelo governo.
O espetáculo
Apesar de todas as suas graves acusações, ‘A Anomalia de Duas Cabeças’ tem uma levada quase de vaudeville. O espetáculo consiste em larga medida de piadas de gordo, baixinho e careca sobre o primeiro-ministro e seus assessores. Há também ataques praticamente escatológicos não somente à política de Silvio Berlusconi mas também à sua vida pessoal e à sua ética.
E é exatamente por isso o que os fãs de Fo esperam; é isso o que desejam.
Em uma das noites do espetáculo, os compradores no saguão do teatro arremataram cerca de 5.000 (por volta de R$ 17.700) em produtos relacionados a Dario Fo, como seus livros, suas pinturas e seus vídeos.
‘O Papa e a Bruxa’, uma sátira a outro dos alvos prediletos de Fo, vendeu bastante. Os produtos de maior sucesso, no entanto, são mesmo aqueles que atacam Berlusconi.
No começo do espetáculo, Rame disse à platéia que o casal planejara descansar e se recuperar pacificamente de algumas doenças, mas que as novas leis adiando o julgamento de Berlusconi por corrupção e expandindo seus interesses de negócios os haviam trazido de volta.
‘Não tínhamos escolha a não ser voltar ao palco’, afirmou.
Retorno
Os 1.400 espectadores que lotaram o teatro para aquela apresentação pareciam gratos por isso. O espetáculo de três horas de duração vendeu todos os ingressos para sua temporada de uma semana na capital italiana, e o casal saiu em turnê pela Itália para mais outras 50 apresentações.
No entanto, dentre os espectadores havia quem considerasse que a peça sequer fosse necessária.
‘A essa altura, a realidade tornou-se sátira’, disse Augusto Derrone, 59.
‘A Itália é sempre mais surrealista, e a sátira não tem espaço para fazer seu trabalho.’ (Tradução Paulo Migliacci)"
Folha de S. Paulo
"Fo é processado por sátira a Berlusconi", copyright Folha de S. Paulo, 18/01/04
"O senador Marcello Dell’Utri, do mesmo partido do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, Forza Italia, está processando Dario Fo por difamação na peça ‘A Anomalia de Duas Cabeças’, informou o jornal britânico ‘The Guardian’ na quarta-feira passada.
A indenização pedida é de 1 milhão pelos danos causados por ‘ataques infundados e pessoais’.
Segundo o advogado do senador, Pietro Federico, ‘Dario Fo sempre foi um grande artista. Ninguém questiona isso. Mas isso não é sátira. É perseguição. A sátira deve fazer as pessoas rirem de fatos reais. Mas Fo está oferecendo informações falsas. Ele é negligente. Isso causa danos à honra de meu cliente’. Ao que Dario Fo respondeu: ‘Faço sátira há 40 anos. Isto é um paradoxo. É grotesco’.
Prêmio Nobel de Literatura em 1997, o diretor, dramaturgo e ator Dario Fo ganhou fama internacional com suas sátiras e farsas políticas. Os principais alvos de seus textos são o capitalismo, o imperialismo e a corrupção no governo italiano.
Nascido em Sangiano, perto de Milão, Fo enfrentou momentos de repressão durante a carreira. Censurado, exilado da TV por 15 anos e proibido de entrar nos EUA, foi processado pelo menos 47 vezes e preso, acusado de subversão, em 1974. A cada provocação, rebatia com críticas aos adversários.
Entre as peças representadas no Brasil estão ‘Morte Acidental de um Anarquista’ e ‘Não Roubarás’. Seu ‘Manual Mínimo do Ator’ foi publicado em 1998."
Jornal do Brasil
"Desigualdade na Lei", copyright Jornal do Brasil, 15/01/04
"A derrota sofrida esta semana pelo primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, perante a Corte Constitucional da Itália, chega ao Brasil como exemplo que devia ser meditado e - quando possível - seguido. Lá, decidiu-se que era inconstitucional a lei de imunidade, que vinha impedindo a reabertura de processo criminal contra Berlusconi, acusado de corromper juízes e obter decisões para favorecer suas empresas, na década de 80, em processo de privatização.
A convicção da mais alta instância da Justiça italiana - ao decretar o fim do privilégio para o primeiro-ministro - era que a imunidade violava o princípio constitucional da igualdade de todos perante a lei. Agora, Berlusconi, mesmo sendo o homem mais rico e mais poderoso da Itália, vai ter que sentar no banco dos réus como qualquer mortal.
O Brasil devia mirar-se no exemplo dos juízes italianos que não pouparam a pose, o dinheiro nem o cargo de seu primeiro-ministro. Deram ao mundo a lição de que uma democracia não deve comportar a existência de cidadãos de primeira e de segunda categorias.
A Constituição Federal brasileira assegura que todos são iguais perante a lei. Mas o que se vê na realidade não é bem assim. Alguns são sempre mais iguais do que outros. Há situações de privilegiamento mascarado de prerrogativas de cargo ou de função. Parlamentares, autoridades e militares integram a lista dos desiguais. Para esse grupo de cidadãos de primeira existe o foro especial.
Em 2001, o Congresso Nacional ainda tentou dar uma amenizada na situação de desigualdade. Aprovou emenda à Constituição que foi saudada como o fim da imunidade parlamentar para crimes comuns. Mas preservou o foro especial. Que seja, embora o ideal é que só fosse usado no julgamento dos crimes de responsabilidade, para que não sirva de escudo ao bandido investido de autoridade.
Bom mesmo seria que todos os cidadãos tivessem tratamento igual diante dos olhos vendados da lei. A Itália acaba de mostrar ao mundo que a justiça não repele a democracia."
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