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FOTO POLÊMICA
Eugênio Bucci
"Uma facada no olhar", copyright Jornal do Brasil, 16/03/02
"Na quarta-feira, o Jornal do Brasil estampou em sua primeira página uma foto da agência France Presse. Repugnante. Nela, o corpo de um jovem sem camisa, pendurado de cabeça para baixo, com os braços escorrendo para o chão, tem o ventre esfaqueado por um outro jovem, que está de costas para o fotógrafo. Não foi apenas o JB que deu destaque à foto. A Folha de S. Paulo publicou-a, também na primeira página, com enorme destaque. São dois palestinos em cena, a legenda informa, o que aumenta o choque de quem vê o quadro. Dois palestinos! O palestino que jaz de ponta-cabeça, prossegue a legenda, teria colaborado com Israel.
Na quinta-feira, todas as cartas de leitores no JB, doze ao todo, repudiaram a publicação da imagem. Foram protestos enérgicos, implacáveis. O que é compreensível: a simples visão daquele horror nos agride, nos fere, talvez nos rebaixe um pouco. Ontem, sexta-feira, mais cartas. Já não eram unânimes, porém. Algumas, poucas, viram coragem e acerto na decisão editorial de dar tanto espaço (um quarto da primeira página, praticamente) a um ritual tão vil. A leitora Márcia Souza, de São Paulo, foi uma das que divergiu da maioria. ‘Pelos critérios dos que se manifestaram ontem na seção Dos Leitores’, escreveu Márcia, ‘jamais deveriam ter sido publicadas as fotografias que documentam os horrores ocorridos nos campos de concentração nazistas da Segunda Guerra Mundial. (...) Mostrar a realidade é o papel de qualquer jornal honesto. Se a realidade é violenta, devemos saber disso.’
O argumento é correto. Mas é também um argumento traiçoeiro e, sobre isso, vale a pena pensar um pouco mais. Realidades violentas nos atropelam todos os dias. Nem por isso, o melhor jornalismo é aquele que promove a espetacularização da violência. Ao contrário, esse é o jornalismo sensacionalista, é o mau jornalismo. O sensacionalismo é sempre um olhar preconceituoso sobre o mundo. Transforma em show tudo o que possa carimbar como ‘desvio’ de comportamento (daí sua insistência em temas com apelos sexuais), ridicularizando o pobre protagonista do grotesco. O sensacionalismo vive de fuçar feito cão de rua o lixo das delegacias e dos hospícios para apedrejar com o riso e com o escárnio os miseráveis que se dilaceram em suas desgraças particulares. Essas desgraças particulares não deveriam nunca ser manchete. Deveriam apenas ser tratadas com generosidade, amor e discrição. Só isso.
Portanto, não é a qualquer forma de violência que o jornalismo deve dar destaque. A violência que deve ser noticiada - que é de interesse público - é aquela que indica, mais que uma anomalia individual, a degeneração dos direitos de todos, a degeneração mesma da possibilidade do convívio pacífico e democrático. O que acontece hoje entre Israel e Palestina é esse tipo de violência. Diz respeito a cada um de nós. É preciso que lá exista paz. Se lá não houver paz não são ‘eles’, os ‘outros’, que terão fracassado, mas a humanidade inteira. É o sonho democrático que terá fracassado. O jornalismo não tem partido, é verdade, mas tem uma causa: o aperfeiçoamento democrático, a plena vigência das liberdades civis, a coexistência pacífica e profícua entre seres diferentes e iguais ao mesmo tempo. A arma do jornalismo é a notícia, e a notícia, às vezes, é uma atrocidade. O jornalismo contribuiu para o fim da guerra do Vietnã mostrando atrocidades. O jornalismo vem investigando a horrenda corrupção no Brasil, assim como a impunidade e sua prima pobre, a criminalidade de rua, mostrando cenas horrorosas. Pilhas de dinheiro sem origem sobre uma mesa de escritório, por exemplo.
Nessa perspectiva, e só nessa, a violência é notícia, sim. Do mesmo modo que foi notícia, com imagem e tudo, a violência da morte do jovem Carlo Giuliani durante uma manifestação antiglobalização, em Gênova, dia 20 de julho de 2001. Ver uma cena horripilante numa capa de jornal é, às vezes, um sofrimento, mas é o que a democracia cobra de nós. É preciso abrir os olhos. É preciso saber receber essa facada no olhar. Quem sabe ela nos ensine a ver o muito que falta, o muito que ainda desprezamos. A fome na África, por exemplo - a fome que temos condenado a ser eterna porque a condenamos a ser invisível. Fiquemos, por ora, com a facada em Ramala. Ontem mesmo os jornais já noticiavam progressos da paz entre Israel e Palestina. Tenho certeza de que, em parte, esses progressos se devem à publicação, pelo mundo inteiro, das imagens violentas de Ramala."
Nilo Dante
"Cadáveres imperdoáveis", copyright Jornal do Brasil, 16/03/02
"O cemitério da imprensa brasileira está cheio de ilustres cadáveres prematuros cujo singelo pecado foi decepcionar o leitor, isto é, o mercado. Para minha geração, os exemplos mais dolorosos são o Correio da Manhã e o Diário de Notícias, gigantes da República que, em determinado momento dos anos 1960, cometeram o supremo equívoco de cambiar suas características essenciais por posturas antagônicas às de seus leitores.
Em jornal, como em tudo mais, a primeira regra é estar vivo, desde que você não seja um muçulmano delirante, disposto a explodir-se contra um ícone do capitalismo em troca de 72 virgens e as boas vindas de Alá no portal do paraíso... E os jornais que se dispõem a contrariar os sentimentos do leitor (e as verdades inquebrantáveis do mercado) tendem a pôr em risco aquilo que de mais precioso possuem, isto é, seus espaços, seu conceito e seus leitores.
Isto posto, refiro-me à foto do cadáver palestino que dominou a primeira página da Folha de S. Paulo e do Jornal do Brasil desta quarta-feira, com o único adjetivo que me ocorre: impublicável.
E por quê?
Em primeiro lugar, porque se trata apenas do flagrante (de mau gosto) de um dos atos mais execráveis de que é capaz a espécie humana: a covardia. A superlativa covardia de esfaquear-se... um morto! Em segundo, porque nem o morto nem a abominável personagem que esfaqueava o cadáver são notícia. Em terceiro, porque ocorrências do gênero são banais em campos de batalha como este em que se transformou o território no qual judeus e palestinos deveriam conviver em harmonia. Há muito tempo. Cada qual em sua pátria. Ou, para nem ir tão longe, comuns se fizeram no campo de batalha em que a Cordilheira do Narcotráfico transformou o Rio, ou o que restou dele...
É claro que se o morto fosse Yasser Arafat e o esfaqueador Ariel Sharon - ou vice-versa - aí sim, estaríamos diante de uma ‘notícia’ verdadeiramente sensacional, de perfeito interesse do leitor. Publicar-se-ia a foto, com toda propriedade, em tamanho ainda maior. Antes desta fantasia sinistra, a vida real - e o melhor jornalismo do mundo - nos serviram terríveis momentos da História em fotos tais como (1) a de Mussolini pendurado pelos pés, linchado em uma praça de Milão; (2) a do vietcongue executado a tiros por um coronel do Vietnã do Sul; (3) a da meninazinha vietnamita nua - o corpo cheio de queimaduras, o choro pungente - fugindo em desespero daquele horror infernal; (4) a do jovem laosiano no ato de ser assassinado a facadas por um guerrilheiro juvenil do Khmer Vermelho, e que ocupou a capa da revista dominical do Times de Londres. Do Times de Londres! Ou, para ficarmos mais perto, (5) aquela foto dos cadáveres imperdoáveis do Carandiru.
O episódio da quarta-feira escapa, infelizmente, à perspectiva da denúncia-de-iniqüidade (ou da injustiça, da violência invicta) que se supõe uma das razões de ser do nosso tristonho ofício. Invade o perigoso sítio em que editores, bem intencionados embora, sobrepõem seu eventual arrebatamento ao interesse específico do leitor. E aí se chega à insidiosa síndrome da grande imprensa brasileira, cuja agenda ‘politicamente correta’ navega, não raro, ao largo da agenda do leitor.
Exemplos? Pois não. Tome-se o deambular de alguns de nós pelos labirintos da injustiça social, que impõe combater todo tempo, sim, mas que não deve justificar o avanço da criminalidade impune, muito menos a inoperância da polícia e a ausência de justiça. Tome-se a ingenuidade que alveja vagos demônios internacionais de momento mas poupa os nacionais que erigiram e mantém a mais cruel concentração de riqueza de que há notícia, desde a primeira Revolução Industrial.
Então!
Com todo o respeito pelos colegas da Folha e do nosso JB, ficou-me a impressão de que cometeram, ambos, um simples ato de desamor para com 99% de seus leitores. Isto não é o melhor que pode acontecer a um jornal como a Folha de S. Paulo, colosso paulistano que bordeja, há anos, o panteão da Grande Importância Nacional. Nem para o Jornal do Brasil, veterano ocupante deste mesmo panteão."
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