22/07/2003 5/15

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SAÍDAS PARA A MÍDIA
Eduardo Ribeiro

"Sinuca é de bico, mas é preciso sair dessa", copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 21/07/03

"Semanas atrás, sob o (cafona, na opinião de alguns leitores) título de ‘O coração de um demitido’, reproduzi neste espaço a carta de despedida de um colega da Folha de S. Paulo, incluído na lista de demissões anunciada pelo jornal. Vi naquele texto o espelho do que estava acontecendo com centenas de colegas, que, sem culpa pela grave crise, eram as principais vítimas dela. Foi um dos artigos de maior repercussão da coluna, por razões óbvias. O desemprego é o nosso atual flagelo e tem atingido dimensões anormais, exageradas e desanimadoras.

É terrível o que está acontecendo com o mercado. Profissionais de boa cepa, da melhor qualidade, simplesmente não encontram trabalho (nem falo em emprego, porque aí já seria até um luxo diante da atual situação). Não há editor empregado que não receba pelo menos dez ou vinte currículos e pedidos de empregos - por dia!

A situação hoje é melhor do que ontem e a nossa esperança é de que seja pior do que amanhã. Há uma pequena reação a caminho, como temos mostrado neste mesmo espaço, em outros artigos, mas a verdade é que as empresas brasileiras, as grandes empresas editoriais, estão literalmente quebradas. Pode haver uma ou outra exceção, mas no geral o quadro é assustador. Ou seja, não dá para esperar muito delas, enquanto persistir esse quadro de insolvência. Como o capital estrangeiro, esperto que é, ficou com um pé atrás - vendo o desmazelo com que as empresas brasileiras eram e são administradas -, não há solução de mercado capaz de reverter a situação. As dívidas das empresas são impagáveis.

Um colega nosso, que já dirigiu algumas das mais importantes redações do País, revelou, em off, que não vê saída para a mídia, a não ser via ajuda governamental: ‘Se o governo não entrar, a mídia brasileira quebra e com ela pode ir embora a democracia...’

Grave? Gravíssimo! Diz esse executivo que a questão crucial será encontrar e impor uma fórmula de negociação séria, altiva e moralizadora. ‘Se o governo cair na tentação e na esparrela de dar um jeitinho aqui e outro acolá, para salvar, não a empresa, mas os empresários, aí será a desmoralização completa, inclusive do próprio governo’.

Vivemos, como se vê, uma sinuca de bico. Mas precisamos sair dessa e encontrar caminhos próprios de sobrevivência. Nossa crise mais terrível é a humana, porque a empresarial passa, mas as pessoas acabam ficando no meio do caminho.

Se tempos bicudos como esses nos embrutecem, temos de lutar contra esse embrutecimento, dando ao nosso olhar, às nossas ações, o sentido da solidariedade. Aliás, sem ela, as coisas estariam ainda pior. Mas é preciso avançar mais, para que possamos minorar tanto sofrimento e desesperança existente.

Querem uma prova? Reproduzo abaixo e-mail que recebi hoje de uma colega, com um currículo que a levaria tranquilamente a qualquer bom veículo de comunicação ou para qualquer assessoria (corporativa ou agência). É uma situação de impotência e de desespero que não podemos aceitar como normal. Qualquer pequena ação, nesse momento, será grande demais para algumas pessoas. Um frila, um projeto, um texto, uma revisão, uma dica, um trabalho dividido... ou mesmo um tempinho para ouvir e conversar com as pessoas, tentando ajudá-las a encontrar caminhos.

Deixo a conclusão (e eventuais ações) por conta de cada um. Segue o desabafo:

‘Prestes a completar quarenta anos, quando chega com mais força a famosa crise existencial, quando o medo do futuro já começa a pesar mais profundamente, unindo-se tudo isto ao desemprego que assola o mercado, sou eu mais um na fila dos que procuram trabalho em vão. No meu caso, especialmente, a Lei de Murphi parece ter se instalado bem no meio do meu caminho e vai além da crise jornalística. A sensação é de profundo desespero e da mais absoluta falta de dignidade.

Desespero sim, por faltar o Norte; por não saber e não querer fazer outra coisa da vida, a não ser a de exercer a profissão que escolhi e para a qual fui preparada. Medo, por estar absolutamente ciente de que tantos vivem a mesmíssima situação que a minha, o que amplia a desesperança. Tristeza, pelo abalo involuntário daquilo que nos dignifica: o trabalho.

Aos 40, o desemprego já não representa mais o vazio de há dez anos. Hoje ele é mais pesado, porque junto a ele soma-se a sensação de fracasso. A sensação de que quase nada foi caminhado. Voltar atrás e buscar uma nova profissão já parecem tarde; e reunir forças pra continuar a busca já não soa tão sensato.

Caminhar ao léu e deixar o barco correr e tentar, tentar e tentar, me traz a impressão de que vou morrer na praia. Ouvir os nãos ou frases do tipo ‘você é ótima, seu currículo é excelente, mas o perfil não bate’, todas as desculpas soam falsas diante da necessidade do trabalho. Não há emprego pra todos. E quando ele aparece, será ‘dado’ aos amigos dos amigos. Parece ser assim. E o tempo passa...

Não sei, ao certo, qual a minha intenção ao enviar-lhe isto! Talvez tenha partido para a mendicância profissional. Ou quem sabe tenha criado uma nova forma de dizer que preciso de trabalho, que gosto do que faço e o faço bem. Ou será que estou sendo mais ousada e querendo dizer que vocês, empresários da comunicação, perdem muito por não me oferecerem uma oportunidade? Seja lá o que for, o fato é que já cheguei ao fundo e agora preciso tentar subir, fazer o que gosto e recuperar a dignidade."

 

GOVERNO LULA
Clóvis Rossi

"A síndrome de Jayson Blair", copyright Folha de S. Paulo, 18/07/03

"Jayson Blair é aquele jornalista de ‘The New York Times’ demitido, com escândalo, por inventar histórias ou por copiá-las de outros jornais e assumi-las como suas.

Temo que o jornalismo brasileiro venha sendo infectado por um tipo de mentalidade parecida.

Pego, para exemplificar, o caso do terno usado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no jantar de gala oferecido pelo rei da Espanha em contraponto à casaca vestida pelos espanhóis presentes.

Ficou no ar se houve ou gafe ou uma tola resistência ideológica.

Bobagem. Desde os primeiros acertos sobre a agenda da visita, o Itamaraty dissera ao governo espanhol que a casaca caíra em desuso fazia tempo no Brasil e que, portanto, cada delegação deveria usar o padrão habitual (casaca x terno escuro).

Não foi feita a mais leve objeção, até porque os espanhóis deixaram claro que havia antecedentes de outros chefes de Estado que usaram terno porque assim recomendava o seu próprio cerimonial.

Tão simples que a mídia espanhola não deu nem uma mísera vírgula para o contraste. Ou seja, quem está habituado à pompa e, por isso, deveria ficar chocado com o comportamento supostamente bárbaro da comitiva brasileira nem o notou.

E não é que os jornais da terra tenham ignorado a visita de Lula. Bem ao contrário. Tanto que, ontem, os dois principais jornais espanhóis (‘El País’ e ‘El Mundo’) deram o principal título de capa para a ‘aliança estratégica’ decidida entre os dois governos, além de editoriais -aliás, simpáticos em ambos os casos.

O caso da casaca x terno ilustra, temo, uma certa tendência para o espetáculo em vez da informação, para o frívolo em vez do essencial, para a interpretação apressada em vez da devida checagem.

Se é assim, sinto dizer aos companheiros que nem dá para culpar os patrões e os chefes, os suspeitos de sempre. São no máximo cúmplices, porque a síndrome começa com os que estamos na linha de frente, como Jayson Blair."

 

Ivson Alves

"A mídia, Braudillard e a galinha gaúcha", copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 21/07/03

"Um grande do Conselho me alertou para uma sutil e pra lá de pertinente crítica à mídia contida no excelente ‘O Homem que Copiava’, do gaúcho Jorge Furtado, que me fez refletir. Se você não viu o filme ainda, lamento, mas para prosseguir tenho que contar a parte final dele (se você já o assistiu, pode pular o que vem a seguir):

Na parte final, o protagonista André (Lázaro Ramos) e a namorada Sílvia (Leandra Leal) resolvem matar o pai canalha e tarado dela (todo mundo é meio amoral na fita. Afinal, o diretor está copiando o Brasil...). André traça o plano e convence (sem muito esforço) o casal amigo Cardoso (Pedro Cardoso) e Marinês (a acachapante Luana Piovani) a colaborar. Cardoso fica encarregado de um detalhe que André considera fundamental para o sucesso do esquema: levar uma galinha para o local do crime. Ninguém entende o porquê do insólito pedido e André não explica. Só repete que a galinha é essencial para que os assassinos não sejam molestados.

Cardoso leva a galinha para o apartamento do pai de Sílvia, onde eles a colocam num armário e armam uma bomba incendiária usando um botijão de gás de cozinha, uma lâmpada incandescente quebrada e um refrigerador (uma parte muito instrutiva da película, aliás). Na Hora H, André desiste do crime, mas Sílvia prossegue com o plano e a bomba explode na cara do pai dela.

No dia seguinte, ao abrir o jornal, lá está a notícia, mas Cardoso nota uma coisa estranha: mais da metade da matéria e a foto que a ilustra são da galinha. ‘Quase não falam do morto!’, exclama, perplexo. Essa era, é claro, a intenção de André e nela está a crítica de Jorge Furtado.

Como o personagem era um homem que copiava, ele usou de um expediente que viu se repetir ‘n’ vezes na mídia: o uso de símbolos para mascarar o fato realmente importante ou a questão verdadeiramente essencial. Uma troca documentada teoricamente por Jean Braudillard, não por acaso apontado pelos diretores de ‘Matrix’ como o inspirador do blockbuster americano (o francês, no entanto, não gosta dessa homenagem, pois acha o filme bobo).

Esta atração irresistível pelo simulacro - ao qual nem se procura mais resistir; ao contrário, busca-se a todo instante - transforma a nossa mídia em atriz de um faz-de-conta: o personagem finge que faz algo importante, ela finge que informa e o leitor/telespectador/ouvinte pouquinha coisa mais esperto finge que acredita que está bem informado. Os menos espertos, esses coitados, acham que estão mesmo sabendo das coisas. Uma articulação que sempre existiu na Contigo e congêneres (como se viu há pouco), mas que espalhou-se qual praga por todos os veículos e todas as editorias.

Exemplo da hora que ilustra bem esta questão fora da tela foi dada pelo também gaúcho Luis Fernando Veríssimo na semana passada em sua coluna no Globo. O escritor comparou o escândalo que a mídia fez com o fato de o presidente Lula ter posto um boné do MST durante a audiência que concedeu aos sem-terra com a naturalidade com que foi tratada a atitude do presidente de Supremo, Maurício Corrêa, na defesa dos interesses dos juizes. Para a mídia, Lula pôs em perigo as instituições democráticas ao botar um simples boné, mas Corrêa estava perfeitamente dentro de suas prerrogativas institucionais ao se portar como líder sindicalista de toga.

Essa falta de um mínimo de senso crítico faz com que quem deseja (ou precisa) aparecer na mídia brasileira simplesmente começasse a agir como o personagem principal do filme de Furtado. Todos passaram a levar sua galinha debaixo do braço para mostrá-la quando querem parecer que estão fazendo algo relevante, mas sem correr o risco de deixar transparecer o que poderia ser embaraçoso. Essa jogada faz com que o noticiário pareça um show de mafuá, no qual os ‘artistas’ não são lá muito bons, mas conhecem uns truquezinhos para iludir o distinto público, contando com o alegre auxílio do mestre de cerimônias.

Assim, tome de presidente usar paletó em vez de fraque em recepção real e botar boné e agasalho de delegação olímpica (como tem veículo de comunicação querendo os Jogos Olímpicos de 2012 no Rio, então tudo bem, ele pode pôr boné); vamos de governadora nomeando o marido secretário de segurança e lhe dando beijo na posse; ataquemos de prefeito dizendo que beleza é fundamental para cidade ser sede de Jogos Olímpicos; focalizemos artistas acusando de ‘dirigismo cultural’ governo que quer dar algum sentido público ao dinheiro doado a eles via renúncia fiscal; e, claro, não deixemos longe das luzes economistas que prevêem déficits monstruosos para daqui a 30 anos em diferentes orçamentos, mas sempre tomando o cuidado para não perguntarmos a eles o que vai acontecer com a economia daqui a 30 meses...

Os mais cínicos vão dizer que é assim mesmo e não dá para lutar (os cínicos sempre dizem isso, já notou?). Tudo bem, pode até ser. Mas pelo menos os jornalistas, se ainda querem manter o pouco do respeito da sociedade ainda tem por eles - sem contar a capacidade de se olhar no espelho todos os dias -, deveriam enfrentar a questão de frente, e não se contentarem em ficar como figurantes no fundo da cena, babando com e para os canastrões do momento."

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