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VIOLÊNCIA & MÍDIA
Marcus Barros Pinto
"Cinema Legal", copyright Jornal do Brasil, 21/07/03
"Na manhã de sexta-feira fui a uma sessão matinal de Tiros em Columbine - filme de Michael Moore, Oscar de Melhor Documentário - a convite da governadora Rosinha Matheus e do secretário de Segurança, Anthony Garotinho. Eu, todos os comandantes da Polícia Militar, delegados da Polícia Civil, secretários de Estado e alguns jornalistas.
Os anfitriões se atrasaram. Marcada para as 10h30, Garotinho chegou às 11h - quando começou a exibição - e Rosinha ao meio-dia. Na meia hora de espera, os comandantes de batalhões da PM perto dos quais me sentei reagiam ora com irritação, ‘por ter muito o que fazer’, ora com humor - ‘ia dizer que fui ao cinema com a governadora, mas estão todos aqui’. O melhor foi um deles que, ao atender ao celular, explicou: ‘Não estou no batalhão. Estou no Cinema Legal.’ Mais perfeito, impossível.
O documentário, brilhante, historia o massacre de estudantes em uma escola no interior dos Estados Unidos por dois colegas armados até os dentes. E esmiúça as razões de tal ocorrência em uma autópsia realista da sociedade americana. Ao longo da exibição - no dia em que os jornais do Rio estampavam na primeira página a morte de 11 traficantes de Vigário Geral - as cenas captadas pelo vídeo do refeitório e da biblioteca da escola de Columbine remetiam ao tiro na Universidade Estácio de Sá que paralisou Luciana Gonçalves. Moore jamais poderia fazer tal documentário no Rio. As fitas, aqui, foram adulteradas.
A razão do convite foi revelada depois dos créditos finais do filme. Rosinha considerou o documentário excelente para ‘nortear o que pensamos e o que fazemos’ e chamou a todos a uma reflexão. Deu o mote: ‘a cultura do medo é maior do que aquilo que ocorre na realidade’. O coronel Jorge da Silva, do Instituto de Segurança Pública, manteve o diapasão. ‘É preciso entender como se forma a insegurança subjetiva.’ Citou uma passagem do filme na qual uma autoridade afirma: num período em que os índices de criminalidade caíram 20%, a exposição na mídia cresceu 600%. ‘Quem se aproveita da exploração do medo?’, perguntou, arrancando da platéia, a essa altura com maioria de comandantes da PM e delegados da Polícia Civil, aplausos intensos.
Em seguida Garotinho assumiu o microfone. Disse não haver fórmula pronta para combater a violência, mas sugeriu caminhos: ‘Não disseminar o medo, não ser passivo diante das desigualdades, não acreditar em tudo o que se vê ou que se lê.’ Bingo! O ex-secretário Josias Quintal deu seqüência à cantilena: ‘Qual o papel da mídia? Ela forma opinião. Com enlatados, reportagens sensacionalistas, tudo visando apenas ao lucro’. Os aplausos se intensificaram. Citou o filme Cidadão Kane, no qual um barão da imprensa chegou a ‘criar uma guerra entre dois países para vender mais jornal’. O alvo estava claro. Bem como a razão do convite à ‘reflexão’.
Enquanto a secretária Helena Severo retocava o batom, um professor do Estado sugeriu que o governo criasse um jornal, ‘já que esta mídia que está aí não vai mudar, só quer saber de ganhar dinheiro’. Novas manifestações da platéia, que portava legalmente pistolas automáticas presas à cintura.
Adriana Bittencourt, repórter do Jornal do Brasil, se identificou e perguntou ao deputado Josias Quintal se ele não se incomodava em criticar a decisão do Congresso de não controlar o uso de armas depois de ter tido sua campanha financiada por uma empresa produtora de munição. ‘Vejam como a mídia é sensacionalista’, reagiu, sob aplausos e gritos de guerra, entre os quais se ouviu claramente: ‘Lincha a mídia!’
Foi o suficiente para Garotinho propor que o Instituto de Segurança Pública organize o seminário ‘Mídia e violência urbana’. Então, o que se verificava naquela sala de cinema poderia ser debatido ‘sem emocionalismo ou confrontação’. Novos aplausos. Que inspiraram o secretário de Segurança a expor mais abertamente sua opinião sobre o tema: ‘A mídia trata pobre como traficante e rico como viciado. Dão tratamento jornalístico diferenciado. No subúrbio, qualquer ação é de bandido. Na Zona Sul, são rapazes que invadem a casa de um juiz. A mídia tem um papel importante na insegurança subjetiva. Todo dia a imprensa do Rio cobra a autoria de um crime. Em São Paulo, não se pergunta, na primeira página, quem matou o segurança do filho do presidente da República. E encerrou o que chamou de catarse.
Cara governadora, caro secretário, aceito o convite para o seminário. Mas fica combinado que deixaremos, antes dos detectores de metal, canetas e pistolas. De armados, bastam os espíritos."
JORNAL DA IMPRENÇA
Moacir Japiassu
"Velhos prazeres", copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 17/07/03
"Nessas noites invernais, quando a preguiça dá as mãos à falta do que fazer, costumo reler velhas paixões da juventude e deixo para Janistraquis a faina de organizar nosso anárquico, caótico arquivo. Pois esta madrugada, quando revivia o amor de Jacques e Jenny em Os Thibault, ao som do Estudo número 3 de Chopin, fui miseravelmente interrompido por estrepitosa gargalhada do meu inoportuno secretário: ‘Considerado, olhe o que achei!’, gritou-me o sacana, a brandir nas mãos cópia de uma mensagem que nos chegou pela Internet há meses e que imaginávamos perdida.
Tratava-se de uma contribuição de nossa considerada leitora Leticia Sallorenzo, que num dia do verão passado, já escassas as águas de março, nos enviou uma, digamos, confidência. Foi assim: a moça passava as mãos e os olhos no Jornal da Família, de O Globo, quando deparou com um título que era ‘uma coisa enoooooorme e vermeeeeelha’, como ela mesma descreveu, para logo em seguida garantir que fora ainda maior e, por que não dizer, mais duro, o seu desapontamento:
‘Eu, que acreditava entender um pouquinho só do assunto da reportagem, me interessei e resolvi me aprofundar. Mas fiquei em dúvida. É que, lá pelas tantas, a cidadã que redigiu o prodígio explicou que ‘o hiperorgasmo está na moda e pode ser alcançado também através de livros, como Hiperorgasmo, do mestre De Rose, fundador da Universidade de Yôga’.
Temo perguntar como se dará tal fenômeno, pois a inviabilidade advém do formato do supracitado objeto... Pensando bem, não vou comprar esse livro, não. Prefiro ficar com o meu namorado, que é bem mais anatômico!’.
Janistraquis deu boas gargalhadas e festejou: ‘Considerado, essa Leticia é, como se dizia antigamente, ‘da pá virada’!!!’.
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Com x contra
Sempre de olho arregalado nas páginas do Correio Braziliense, o que, evidentemente, cobre de glórias o jornal, Roldão Simas Filho, diretor de nossa sucursal no Planalto (não confundir com o palácio), leu esta notícia na página de esportes: ‘O acidente aconteceu quando o Fiat Tipo que (o zagueiro Marcelo) dirigia bateu violentamente com (sic) um ônibus da Viação Acari.’
‘Com ou contra?’, provoca Roldão; ‘Na verdade’, explica, ‘o zagueiro bateu com o Fiat Tipo contra o ônibus. Observamos que a preposição contra vem sendo banida do uso e substituída, indevidamente, pela preposição com. Parece que ninguém quer ser do contra... É mais um exemplo de como estamos perdendo o domínio e o uso correto da nossa língua’. Janistraquis não deixou por menos: ‘Considerado, do contra mesmo só aquele professor lá da... ah!, deixa pra lá.’
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Cearense imortal
Depois de marcar presença na missa que marcou os 80 anos da já falecida dona Luíza Távora, viúva do coronel Virgílio Távora, ex-governador biônico do Ceará, o colunista social Lúcio Brasileiro, de O Povo, de Fortaleza, escreveu:
‘Os cinco que compareceram à missa: ex-prefeito Luiz Marques, Clícia Sá, Lúcia Dummar, jornalista Paulo Tadeu e cadeira voadora do Cláudio Pereira. Aliás, certa vez perguntei na televisão a Aldemir Martins quantos ele achava iriam ao meu enterro, se um dia morresse - e o grande artista respondeu: se eu não vier de São Paulo, serão apenas sete.’
Celso Neto, diretor de nossa sucursal no Ceará, garante que o colunista faz parte daquela plêiade de jornalistas que se acha imortal; afinal, somente se referiu ao próprio enterro para sepultá-lo em dúvidas: ‘se um dia morresse’, pairou. Janistraquis viu a lista dos cinco que foram homenagear a falecida, ficou sabendo que Cláudio Pereira é chamado de ‘cadeira voadora’ por ser o mais ágil paraplégico da região e concluiu: ‘Considerado, quanto ao Lúcio Brasileiro, não sei; porém, dos mencionados por ele, imortal mesmo só o nosso muito considerado Aldemir Martins.’
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Silepse e solecismo
Nosso esperto leitor Cacá Amadei leu um titulão pra lá de otimista, encravado na Folha On-line: Nasce o primeiro burro clonado do mundo. Contrariado, Cacá desabafou: ‘Não sou cientista, mas uma rápida observação do mundo que me rodeia obriga-me a duvidar do feito; esse que acaba de nascer não pode ter sido o primeiro!!!’. Meu secretário concorda inteiramente com você e não se refere apenas ao mundo que rodeia o amigo: ‘Se o Cacá fizesse uma peregrinação pelo bizarro universo situado entre a silepse e o solecismo, por exemplo, encontraria uma verdadeira e espantosa linha de montagem’.
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Tom & Jerry
Na editoria de Ciência do Estadão, o diretor de nossa sucursal paulistana, Daniel Sottomaior, leu o seguinte texto:
‘Ao estudar a influência da proteína beta-catenina no desenvolvimento de tumores, um dos pesquisadores injetou-a em ratos de laboratório alterados geneticamente, esperando que depois de um tempo começassem a desenvolver tumores em uma parte do dorso que tinha sido ‘barbeado’.
Daniel, que quando era criança não largava os desenhos de Tom & Jerry, declarou, atônito: ‘Barbearam o pobre rato! Imagine a cena: o pesquisador senta o rato na cadeira, lhe traz toalhas quentes ao focinho, afia a navalha... Sim, o tradutor tentou se salvar pelas aspas, mas não era preciso. Bastaria escrever que parte dos pêlos do dorso foi raspada.’
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Nota dez
A melhor notinha da semana saiu na coluna de Tutty Vasques no site No Mínimo:
‘Em nota aqui publicada no domingo, creditamos a Santo Expedito o dom das causas impossíveis exclusivas de São Judas Tadeu. Leitores reagiram indignados, com razão. Santo Expedito é, na verdade, especialista em causas urgentes, o que, cá pra nós, torna ainda mais misteriosa sua aparição em calcinha de Vera Fischer.’
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Errei, sim!
‘VIVA O RACISMO! - O ‘olho’ da manchete de página do Diário Catarinense dizia: ‘Maurício José Lemos Freire, titular do primeiro órgão do mundo a tratar especificamente de casos de racismo, deu palestra em escola de Joinville’. Aí, o título botou tudo a perder - Delegacia defende crime racial. Meu secretário ficou indignadíssimo: ‘Considerado, que diabo de delegacia é essa que defende o crime racial? Quer dizer que se um monstro qualquer espancar um doce crioulinho como aquele Kennedy da falecida novela Pátria Minha, é só correr para a delegacia que estará a salvo?!?!?’. Parece que é. Fascistas de todo o mundo, acorrei!’ (maio de 1995)"
LÍNGUA PORTUGUESA
Deonísio da Silva
"Advogados e brocardos", copyright Jornal do Brasil, 20/07/03
"Foi a rainha Dona Maria I, de Portugal, quem decretou que os advogados faziam jus ao título de doutor. Antes deles, apenas os médicos e os professores tinham direito a tal tratamento, numa época em que a palavra ‘doutor’ estava mais de acordo com a sua origem etimológica.
Com efeito, procede do verbo latino docere, ensinar, de onde, aliás, o português tirou docente. Médicos e professores ensinavam sempre. Enquanto os primeiros prescreviam aos doentes o que fazer para recuperar a saúde, os segundos empenhavam-se em ministrar lições com o fim de afastar de seus alunos o terrível fantasma da ignorância. Ou, em outras palavras, as primeiras letras, as quatro operações e pouco mais.
A ordem de entrada dessas palavras na língua portuguesa é muito curiosa. ‘Doutor’ veio primeiro. Já estava no português do século 13. ‘Professor’ entrou dois séculos depois. E ‘docente’ chegou à língua portuguesa na segunda metade do século 19. Alguns lustros depois viria ‘discente’, pois se há quem ensine, haverá quem queira aprender e vice-versa.
Mas ainda na Idade Média, a escola já tinha instituído o trivium e o quadrivium, completando as sete artes liberais em dois momentos. O trivium era composto de três matérias: gramática latina, lógica e retórica. E o quadrivium considerava indispensáveis também a aritmética, a geometria, a música e a astronomia.
Sábios romanos! Não foi à toa que dominaram o mundo por tantos séculos. Valeram-se das armas, mas igualmente das letras, da cultura. Está aí nosso Direito, por exemplo, repleto de brocardos latinos.
‘Brocardo’, aliás, tem origem controversa. Tornou-se sinônimo de provérbio por força da grafia latina do sobrenome alemão Burckard.
Houve vários Burckard, um dos quais foi contemporâneo de Martinho Lutero, a quem protegeu na célebre questão das indulgências. Outro foi bispo de Worms, na Alemanha, e viveu no século 11. Este foi o primeiro a escrever brocardos no atacado, reunindo em 20 volumes um vasto repertório de regras eclesiásticas, muitas delas resumidas em frases.
Desde então, brocardo passou a sinônimo de sentença, máxima, axioma, provérbio. O poeta neoparnasiano Hermes Fontes comentou nos versos Ciclo da perfeição um dos mais célebres brocardos: ‘Tens uma árvore e um livro: falta um filho/ clama a exigência do brocardo’. E depois dele tornou-se voz corrente dizer que a vida do homem pode ser resumida a três projetos: ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Exceto para os censores, que seria fazer um aborto, proibir um livro e derrubar uma árvore.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recheia seus pronunciamentos de brocardos. Comentando o primeiro deles, ‘Lulinha, paz e amor’, escreveu Emir Sader: ‘O lema traduziu - como precursor dos provérbios presidenciais - uma construção ideológica que busca transmitir certos valores políticos e ideológicos mediante expressões populares aparentemente inquestionáveis, porque supostamente depositárias de uma sabedoria secular, que garantiria sua veracidade. (Mas qual dos dois provérbios é mais verdadeiro: ‘Quem espera, sempre alcança’ ou ‘Quem espera, desespera’? ‘Apressado come cru’ ou ‘Quem tem fome, tem pressa’, como dizia o Betinho e continuamos a dizer com ele?)’.
Para entender os brocardos, tanto os do presidente Lula quanto os outros, precisamos com freqüência de cicerones. E aqui registramos mais uma vez nosso débito latino.
‘Cicerone’, como é o caso de ‘brocardo’, veio de um nome, o advogado e senador romano Cícero. Dada a grande eloqüência do célebre orador, os italianos passaram a designar ‘cicerone’ o guia turístico."
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