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PATRULHA EM AÇÃO
Orville Schell

"Conservadores acusam mídia americana de ser liberal", copyright The New York Times/O Estado de S.Paulo, 23/3/03

"Os ataques ao World Trade Center e o subseqüente envolvimento militar dos EUA na Ásia Central fizeram com que nós, americanos, percebêssemos, de modo chocante, como na verdade dependemos do noticiário para nos mantermos informados sobre as complexas questões globais. Agora, com a guerra contra o Iraque, e com os Estados Unidos tentando redefinir seu papel de liderança no mundo, somos alertados sobre como é crucial recebermos um noticiário justo e acurado em nossa casa, especialmente num momento de preocupações sem precedentes quanto à segurança interna, o ressurgimento do patriotismo e de partidos políticos cada vez mais agressivos.

Mas, em vez de nos preocuparmos em saber como o jornalismo poderia ajudar melhor os EUA, nestas horas decisivas, estamos desviando do assunto e estamos divididos por uma barreira de acusações por parte de conservadores acerca da tendência liberal da mídia.

Nos últimos anos, vários livros, que foram bem vendidos, acusaram, incansável e teatralmente, importantes organizações jornalísticas, entre as quais The New York Times, de serem irremediavelmente liberais. Entre esses livros figuram Parcialidade: uma Fonte da CBS Mostra como a Mídia Distorce o Noticiário, do ex-repórter de TV Bernard Goldberg; Mentiras dos Liberais sobre a Direita Americana, da crítica de mídia Ann Coulter; e A Nação de Savage: Livrando os EUA do Ataque Liberal sobre as Nossas Fronteiras, Língua e Cultura, de Michael Savage, responsável por um programa de entrevistas de rádio.

Agora, Eric Alterman, analista de mídia do jornal The Nation, entrou no jogo. Num livro impressionantemente bem pesquisado e documentado, Que Mídia Liberal? A Verdade sobre Tendências e o Noticiário, ele provocativamente classifica esta visão conservadora de miragem.

Segundo Alterman, o que os americanos realmente deveriam temer é a mais bem organizada, mais poderosa e eficiente máquina de propaganda da direita, que coloca o rótulo de liberais em grupos de pesquisas, organizações religiosas, grupos noticiários de cunho ideológico e personalidades conservadoras.

Alterman diz que, ‘para milhões de americanos que continuam a acreditar que a mídia é genuinamente liberal – ou que conservadores e liberais estão envolvidos numa luta limpa e relativamente equilibrada –, os liberais travam uma batalha quase sem esperanças, na qual são, de longe, numericamente superados’.

Ele atribui esse desequilíbrio e a conseqüente inclinação para a direita aos novos padrões de propriedade dos meios de comunicação e à ascensão de uma verdadeira aristocracia de entrevistadores, de talk-shows direitistas e eruditos, cuja disciplina partidária e atitude em relação a convidados liberais mantêm os conservadores ‘ligados’, dando, em decorrência, a seu movimento coletivo a aparência de unidade e clarividência.

‘Os indivíduos conservadores tendem a ver o mundo em preto e branco, o bem e o mal’, observa Bill O’Reilley, entrevistador do programa O’Reilly Factor, da rede Fox. ‘Os liberais vêm o mundo na cor cinza. Em qualquer formato para esse tipo de programa de entrevistas, você tem de ter um ponto de vista forte. Se você não provocar controvérsia e agitação, as pessoas não ouvirão nem verão o programa.’

De outro lado, os liberais não costumam ver a si próprios como representantes de algum movimento ideológico. Alterman sugere que, em vez de enfatizar a disciplina, a organização e a uniformidade de mensagem, eles apóiam a autocrítica, a diversidade e o princípio de justiça, o que os torna competidores mais fracos, principalmente nessa espécie de concurso de gritaria que caracteriza cada vez mais o rádio e a TV nos EUA.

Embora esta indisposição para gritar possa ser vista como uma virtude nos círculos liberais, no combate entre o mundo barulhento dos conservadores versus a ‘luta na lama’ da mídia liberal, isso representa uma desvantagem.

Mas, segundo Alterman, o que realmente abate os liberais e os torna competidores menos eficientes é o fato de que, com freqüência, eles são psicologicamente ‘intimidados por uma combinação de crítica conservadora e autocensura patriótica’. Por exemplo, ele sugere que na eleição presidencial de 2000 a elite da mídia assimilou de tal forma a falsa mensagem de seu próprio ‘liberalismo’, que perdeu a capacidade de se defender de modo convincente.

Embora Alterman se defina como liberal, ele está ansioso por livrar-se do estigma liberal e enfrentar fogo com fogo, tomando escritores neoconservadores como Andrew Sullivan, Michael Kelly e Charles Krauthammer, os quais, segundo afirma, ‘possuem o talento para a criatividade malévola, como se fosse uma doença contagiosa’. Ele não é mais delicado em relação aos criadores do estilo de TV da rede Fox, desdenhando executivos como Roger Ailes – ex-assessor de Ronald Reagan e de George Bush pai, e atual presidente da Fox News – por misturar plataformas políticas com fundamentalismo de mercado. Ailes teria afirmado que ‘as pessoas estão interessadas em notícias – e as mesmas garotas continuarão dançando nos programas de auditório’.

Mas Alterman não se opõe a assinalar as tendências freqüentemente conservadores de organizações classificadas como liberais, tais como The Washington Post, The New York Times e a CBS. Howard Kurtz, o colunista de mídia de The Post, Frank Bruni, repórter do Times, e o âncora da CBS Dan Rather são incluídos nessa lista de quem faz algo menos que críticas construtivas.

Porém, Altman não considera os jornalistas os principais responsáveis pelo perigoso estado de grande parte do noticiário. Citando Tom Johnson, o ex-editor do Los Angeles Times e mais tarde presidente da CNN, ele assinala que, no fim, ‘são os donos dos meios de comunicação que decidem a qualidade do noticiário’.

Boa parte da ira de Alterman é reservada para os noticiários de rádio e TV, principalmente para as estações de TV a cabo. ‘Praticamente em todo o comando do jornalismo de TV nos EUA, descarados conservadores dominam, deixando os solitários liberais darem a cara para serem espancados por gangues de direitistas’, escreveu ele.

Depois de combater com os delatores direitistas, Alterman finalmente conduz o debate de volta ao ponto em que deveria terminar: a mídia americana está preparada para a tarefa de manter esta democracia suficientemente informada para tomar decisões inteligentes?

‘O atual momento histórico do jornalismo está longe de ser bom’, conclui.

‘Esses ataques irresponsáveis sacrificam o tipo de informação de que os cidadãos precisam para entender o contexto político, social e econômico de suas vidas.’

No fim, para a maior parte da mídia, o desafio não é tanto fugir ao irritante debate sobre a tendência conservadora e a tendência liberal, que está sendo conduzido pelo jornalismo responsável. Como observou Harold Evans, ex-editor do Times de Londres, ‘o problema enfrentado por muitas empresas de comunicação não é continuar no ramo, mas continuar no jornalismo’. E este é o subtexto do interessante livro de Alterman."

 

Lourival Sant’anna

"Tomba na TV estatal iraquiana a primeira vítima: a verdade", copyright O Estado de S.Paulo, 20/3/03

"No que podem ter sido as suas últimas horas de transmissão sob controle de Saddam Hussein, a TV estatal iraquiana dedicou ontem sua programação à propaganda de guerra: declarações de autoridades menosprezando as aptidões bélicas dos americanos, iraquianos e estrangeiros jurando lutar para defender o Iraque, mensagens patrióticas e orações.

Um major do Exército iraquiano entrevista dois sírios, um magro, de túnica, e outro rotundo, de farda camuflada, dizendo que vieram ao Iraque para a jihad – a defesa da religião muçulmana contra o que o próprio George W. Bush chamou de uma ‘cruzada’, lembram eles, referindo-se à expressão usada pelo presidente americano depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. Bush depois se arrependeu da infeliz analogia.

Um líbio e um egípcio também fazem declarações semelhantes, enquanto as câmeras mostram homens fardados fazendo, sem grande entusiasmo, ‘exercícios militares’, pendurados numa corda. ‘Saddam é o líder dos mujaheddin (combatentes da liberdade)’, diz um deles. ‘Vamos vencer, inshallah (se Deus quiser).’ De repente, o intérprete contratado pelo Estado toma um susto:

‘Esse aí é meu vizinho!’ Jordaniano de origem palestina, Farad al-Afakhani, abastado dono de supermercado, aparentemente deixou tudo para ir lutar a jihad no Iraque. A sessão de bravatas continua. Com um obus de fabricação russa em cada mão, um combatente diz que ‘uma é para Bush e outra para Blair’.

Corta para a gravação de uma entrevista com o ministro da Informação iraquiano, Mohamed al-Sahhaf. Um locutor a introduz dizendo que o ‘Ministério da Informação’ dos EUA (um órgão até então desconhecido) avisou a todos os parentes dos 250 mil soldados enviados para o Golfo que, se algum militar for morto, não é para contar para ninguém: aparentemente, os americanos querem escamotear suas baixas.

Al-Sahhaf aparece, comentando a ‘notícia’. ‘Será que Bush está pedindo para enterrarmos todos os soldados americanos em valas comuns?’, ironiza ele. ‘O que poderemos fazer para mostrar que eles não morreram? Porque se eles serão mortos se invadirem o Iraque, não resta a menor dúvida.’ Al-Sahhaf insiste no tema, com um sorriso sarcástico: ‘Pela lei, como poderemos tratar esses soldados? Como mercenários?’ De acordo com o ministro, os americanos estão dizendo para seus soldados que a ocupação do Iraque será um ‘passeio’.

Usando um expediente parecido ao apelo de Bush em seu discurso de segunda-feira, Al-Sahhaf adverte os soldados americanos a ‘não invadir o Iraque, porque serão mortos’.

Bobão – O ministro conta que, quando a ex-primeira-ministra turca Tansu Ciller visitou o ex-presidente americano George Bush, pai do atual, em seu rancho no Texas, perguntou-lhe por que não mandou as tropas ocuparem Bagdá. Bush-pai teria respondido: ‘Porque não somos loucos de mandá-los para o inferno de Bagdá.’ Agora, comenta Al-Sahhaf, ‘esse bobalhão do Bush-filho resolveu mandar as tropas para cá.’

E conclui: ‘Vamos preparar um cemitério para eles.’ A entrevista termina e por algum tempo a TV mostra imagens de paisagens e monumentos do Iraque, numa espécie de videoclip. Noutra gravação, uma longa oração é recitada, com uma foto de Saddam rezando, mãos juntas, rosto contrito.

Começa o telejornal da 1 da tarde, ‘transmitido direto do Castelo do Desafio’. O locutor informa que o Conselho Nacional Iraquiano se reuniu e decidiu ‘defender o Iraque e lutar contra os americanos’. Saadoun Hamadi, presidente do Partido Baath, de Saddam, e o único do país, declara: ‘Estamos prontos, organizados. Todo o mundo ficará do lado do Iraque, porque é o lado da razão.’ A tarde e a noite são dominadas por imagens de líderes tribais e religiosos expressando seu apoio ao presidente – ‘Saddam é o Iraque e o Iraque é Saddam’ – e convocando à jihad.

No noticiário das 7 da noite, o locutor diz que ‘o bobalhão do Bush’ – dificilmente o nome do presidente americano é pronunciado sem esse adjetivo – ‘está se metendo num assunto que não é dele, mas do povo iraquiano’.

Noutro assunto que também parece ser dos iraquianos, porém, o telejornal não toca: a suposta fuga seguida de morte do vice-primeiro-ministro Tareq Aziz.

Enquanto o locutor vitupera contra os americanos, outras emissoras árabes mostram uma coletiva ao vivo de Aziz, para desmentir a história. Se numa guerra a primeira baixa é a verdade, então esta já começou."

 

Público

"Luta contra o terrorismo foi pretexto para violar liberdade de imprensa", copyright Público, 20/3/03

"Muitos governos aproveitaram o pretexto da luta contra o terrorismo para violar a liberdade de imprensa, acusou ontem o Instituto Internacional de Imprensa, no seu relatório anual relativo a 2002.

‘Ao longo do primeiro ano após os atentados do 11 de Setembro, a guerra contra o terrorismo continuou a trazer perigo para a liberdade de imprensa’, sublinha o organismo de defesa da imprensa, com sede em Viena, e que reúne órgãos de informação de 15 países.

O balanço do IPI dá conta da morte de 54 jornalistas no ano passado e de infracções à liberdade de imprensa cometidas em 176 países. ‘Em todo o mundo, os governos aproveitaram o pretexto da guerra (contra o terrorismo) para defender os seus próprios interesses a curto prazo. Muitos países aplicaram leis restritivas, reduziram a livre circulação de informação, prenderam jornalistas, encerraram ‘media’, e suprimiram os dissidentes em nome da luta contra o terrorismo’, lamenta o IPI.

A América do Sul continua a ser a região mais perigosa do mundo para os media, sublinha o relatório, onde foram mortos 22 jornalistas, 15 dos quais por terroristas de extrema esquerda e de extrema direita na Colômbia. Na Europa foram mortos dez jornalistas, e a Rússia mantém-se como o país mais perigoso da região ao registar a morte de oito jornalistas, três dos quais investigavam crimes de corrupção e crime organizado.

‘Quase todos os países da Europa introduziram novas leis anti-terroristas após o 11 de Setembro, o que tornou mais difícil o trabalho dos media’, refere o relatório.

Na Ásia, o IPI regista o assassínio de 13 jornalistas. A Indonésia e as Filipinas também tomaram medidas contra o terrorismo e, em países como o Cazaquistão, Tadjiquistão e Uzebequistão, os media ‘foram reprimidos impunemente’. Seis jornalistas foram mortos no Médio Oriente e no Norte de África.

Em relação aos Estados Unidos, ‘o reforço dos poderes da luta contra o terrorismo e a crescente vigilância aumentou os receios sobre a manutenção do equilíbrio entre a segurança e a liberdade’, escreve o IPI. No Canadá, a organização sublinha a inquietude suscitada pelo controlo editorial exercido por poderosos proprietários."

 

Nelson de Sá

"Ferramenta política", copyright Folha de S.Paulo, 20/3/03

"Semanas atrás, a TV a cabo C-Span, que transmite conferências e outros eventos políticos (até mesmo a posse de Lula) e que se pode assistir com qualidade na internet, apresentou um desabafo do editor do ‘New York Times’.

Dramaticamente, ele pediu de seus colegas que reajam contra o ‘esforço enérgico’ que vem sendo feito para estigmatizar como ‘liberal’, ideológico, o legado histórico da cobertura com isenção nos EUA:

– Nós que trabalhamos em publicações e TVs com mentalidade isenta temos sido passivos em denunciar as agendas dos que usam o jornalismo como ferramenta política, ao mesmo tempo em que apontam o dedo contra os que praticam jornalismo equilibrado.

Falava indiretamente da Fox News e demais vozes da News Corp., do ultraconservador Rupert Murdoch, mas também de grupos lobistas menores, como o Media Research Center.

O MRC já está em campo para a guerra contra o Iraque, constrangendo coberturas, principalmente de televisão, que não se ajustem à política de George W. Bush.

Anteontem, divulgou um ‘relatório’ contra a rede ABC e seu âncora canadense, Peter Jennings, por cobrirem sem criticar os protestos ‘radicais’ dos pacifistas e por fazerem ‘propaganda iraquiana’, sem falar do apoio à França.

É parte do ‘esforço enérgico’ que vem acuando toda a mídia americana, sobretudo depois do 11 de setembro.

Aos poucos, o debate sobre a cobertura da guerra se espalha pelos canais americanos, mas anda tão estranho quanto a própria cobertura.

A Fox News dizia ontem, por exemplo, que não é ilegal que os militares do país mintam aos jornalistas, se for necessário para vencer. E que, é claro, a cobertura de seus quatro concorrentes, sobretudo a ABC, é ‘antiamericana’.

Dias antes, uma dúzia de republicanos pediu declaradamente ‘censura’ à cobertura na frente de guerra.

Em outra direção, já se levanta aqui e ali a questão recorrente das últimas guerras americanas: as agências de notícias e as TVs vão mostrar as imagens mais cruas dos efeitos dos ataques? Os corpos?

Tem gente nos EUA, caso da ABC, que ainda diz que esta é a guerra com maior liberdade de cobertura desde o Vietnã. E com uma vantagem: a tecnologia em vídeo vai permitir uma guerra ‘ao vivo’.

Já estão todos lá, junto às tropas americanas. Até a Al Jazeera está com as tropas. E todos têm seus videofones e telefones por satélite.

Isso, do lado americano. Do outro lado, sobraram uns poucos, para constar.

Para quem acredita que Fox News e MRC são coisas de outro mundo, vale registrar que o Brasil já tem seus MRCs, com propósitos abertamente iguais -ou seja, constranger a mentalidade isenta."

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