COMUNICAÇÃO EMPRESARIAL
Carlos Chaparro
"Corporação ou processo?", copyright revista Comunicação Empresarial nº 48, 3º trimestre de 2003, <www.aberje.com.br>
"Pediram-me para comentar o artigo de Ricardo Noblat, publicado na edição nº 47 de Comunicação Empresarial, no qual ele defende o ponto de vista de que assessor de imprensa não é jornalista. Embora considere essa uma discussão inútil, viciada em círculos, aceitei a incumbência. O artigo de Ricardo Noblat é uma pequena coletânea de equívocos que, em alguns casos, tendem à idiotice gerada pelo cruzamento entre o preconceito e a preguiça intelectual. E quem duvidar pode reler o texto. Por exemplo: achar que o dinheiro que paga o jornalista das redações tem origem mais digna que o dos salários do assessor de imprensa, mais do que ingênua, é obtusa - e não vale a pena perder tempo com esse tipo de questão nem com esse tipo de visão.
O mesmo se pode dizer da idéia de que só o jornalista da redação tem compromisso com a verdade e com a cidadania, como se a nobreza de caráter, a dignidade profissional e as razões éticas do agir humano fossem bens exclusivos de certos ambientes e de certas pessoas. Quanto ao argumento com que Ricardo Noblat encerra o seu arrazoado, que coisa lamentável ver o diretor de um jornal diário importante subscrever a afirmação de que ‘no dia em que um assessor de imprensa for capaz de distribuir notícias contra seus clientes, estará fazendo jornalismo’. Mesmo deixando de lado a maluquice do raciocínio, não há como não perguntar: quem acreditaria nesse assessor de imprensa? E que tal aplicar o mesmo raciocínio aos profissionais das empresas jornalísticas? - ou seja: que só serão verdadeiramente jornalistas no dia em que também espalharem ao mundo as burlas jornalísticas praticadas em suas próprias empresas.
Predicados x mitos
Já agora, mais uma pergunta: como ser independente e livre um jornalismo que se assuma impiedoso e de oposição? Entretanto, para a discussão ou para a reflexão, acrescento algumas idéias, em outra linha de raciocínio:
a) Bem mais do que profissão com limites definidos, jornalismo é uma linguagem de interações complicadas e um processo de embates discursivos, convenientes e indispensáveis à democracia.
b) Como linguagem, pelas razões que lhe dão lógica, pelos efeitos que produz, ou pode produzir, e pelo antagonismo dos interesses envolvidos, o jornalismo tem na veracidade a sua característica de essência. Sem ela, fracassa. Ora, se a veracidade é condição de sucesso do jornalismo, todos os sujeitos nele intervenientes, e não apenas os que atuam nas redações, têm de ser tributários dessa virtude indispensável. Fonte que mente, distorce ou de qualquer outra maneira burla os pressupostos da linguagem jornalística, deve ser repudiada, tanto quanto o jornalista que, nas redações, com ou sem simulações, engana os leitores.
c) Como processo de confrontos discursivos, o jornalismo se alimenta dos discursos particulares, que para ele convergem. Sem os discursos particulares, o jornalismo não se materializa, nem como linguagem nem como espaço público de confrontos. Ou seja: sem a manifestação das fontes, que produzem os fatos, as cenas e as falas noticiáveis (discursos particulares), os jornalistas das redações não têm o que dizer nem o que fazer.
Numa época tecnológica, política e cultural em que qualquer pessoa ou instituição pode espalhar ao mundo suas próprias notícias, é muito mais importante preservar os predicados da linguagem e do processo do que os mitos da profissão. E ter bons jornalistas nas fontes é uma das maneiras, das mais eficazes, de preservar a qualidade da informação, desde a origem. (*) Carlos Chaparro é professor de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da USP"
Mario Vitor Santos
"Jornalismo, receita para a extinção", copyright revista Comunicação Empresarial nº 48, 3º trimestre de 2003, <www.aberje.com.br>
"A crise que atinge os meios de comunicação pode conduzir a vários cenários, não excludentes entre si. Eles interessam mais pelos reflexos que poderão ter na forma como o jornalismo é exercido. O primeiro cenário tem um nome sugestivo: ‘Vamos voltar para o crime’, o retorno a uma situação profissional anterior à evolução registrada na imprensa nos anos 70 e 80. Até essa época vigorava o estilo Chateaubriand de exercício da profissão. O salário pago pelas empresas jornalísticas era tão baixo que a grande maioria dos profissionais não conseguia viver só com ele. O duplo ou triplo emprego era generalizado. Repórteres de polícia trabalhavam como escreventes em distritos policiais. Escreventes, como setoristas de polícia. O jornalismo chapa branca, além de problema ético, introduzia graves distorções, comprometia ainda mais a qualidade e a isenção dos noticiários.
Assis Chateaubriand recomendava aos repórteres que lhe vinham pedir aumento de salário o uso da credencial de imprensa como forma de obter recursos junto a autoridades, empresas, fontes e órgãos públicos. Em escala muito mais ampla, Chateaubriand usou o mesmo expediente para construir sua cadeia de veículos de comunicação. Há, portanto, um componente de achaque na gênese do moderno jornalismo brasileiro. Nos anos 70 e 80, o jornalismo no Brasil desenvolveu-se nos campos econômico, gerencial e ético. As empresas e os profissionais passaram a ter condições de impor determinados padrões de conduta e de pagamento. O duplo emprego praticamente acabou nas grandes redações de São Paulo e do Rio. O jornalismo chapa branca deixou de ser uma instituição.
Hoje em dia, o retorno ao múltiplo emprego é não apenas uma possibilidade, mas quase uma imposição da acentuada redução dos salários e da deterioração dos vínculos trabalhistas. A conseqüência é uma descaracterização dos veículos, uma tendência ainda maior à homogeneização. Isso só vem agravar o quadro de empobrecimento, num outro plano dos meios de comunicação: o contato com a mídia nos dias de hoje é um exercício de simplificação e infantilização. O jornalista mais parece um especialista em descrição, em transmissão de idéias fáceis e ligeiras, de consumo agradável ou irrelevante. O profissional ocupa-se mais em disfarçar ou adornar, dissimular a gravidade das situações e a complicação das conjunturas. Como dizia Danton Jobim, basta verificar a cesta de lixo de um diretor de jornal ou noticiário de TV e lá estará um manancial de notícias, bem mais complexo e inadequado ao pensamento-padrão nos dias de hoje, suficiente para editar um novo jornal, só de ‘verdades que não se dizem ou não se devem dizer’. O outro cenário leva o nome de ‘Crise pouca é bobagem’. As empresas estão em crise, pior que elas o paradigma jornalístico. A saída é assumir que os meios de comunicação, especialmente os meios impressos jornalísticos, tendem a se voltar a públicos restritos, aproximar notícia, análise e opinião, explicitar o caráter militante que tanto se esforçam por disfarçar. Extinguir o poder do marketing vazio. Acreditar na inteligência, na construção de um público formado em torno da informação, com base em noções de relevância, de transformação das estruturas atrasadas do país, no papel integrador e desestabilizador que está na base da criação e da identidade do jornalismo. (*) Mario Vitor Santos é coordenador de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero e ex-ombudsman da Folha de São Paulo."