26/08/2003 6/21

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FUROS NO JORNALISMO
Augusto Nunes

"Reflexões de inverno", copyright No Mínimo (http://nominimo.ibest.com.br), 25/08/03

"‘Só haverá esperança de salvação enquanto existirem homens dispostos a dizer o que está acontecendo’, escreveu Hannah Arendt. A essa frase costumam agarrar-se jornalistas visitados pela sensação de que, apesar da busca obsessiva de mecanismos de controle, a edição sem erros será sempre um sonho impossível. ‘Perdemos mais uma batalha’, dizia a cada final de expediente, enquanto capturava o paletó, o jornalista Giannino Carta. A frase de Giannino, um brilhante genovês incorporado à história do jornal O Estado de S. Paulo, resumia a certeza de que, no dia seguinte, algum tipo de incorreção - factual, ortográfica, estilística - estaria eternizado nas páginas.

Mais tarde, Mino Carta popularizaria outra lição destinada a compor uma perfeita parceria com a frase de seu pai: é preciso ser cético no pensamento, mas otimista na ação. Aplicada ao cotidiano dos homens de imprensa, a frase sugere que, se coleções de jornais talvez estejam condenadas a recordar seqüências de combates frustrados, é fundamental travá-los, sempre, como se a vitória estivesse permanentemente ao alcance das mãos. Pouco importa se a edição sem erros é fantasia irrealizável. O jornal tem de persegui-la todos os dias.

Uma das normas que regem os trabalhos na redação de Zero Hora estabelece que notícias publicadas com exclusividade por concorrentes devem ser reproduzidas pelo jornal. E ressalva a obrigatoriedade da menção ao autor do furo, sem sinuosidades nem camuflagens - mesmo se informações adicionais obtidas por profissionais de ZH tenham redimensionado o fato, ou modificado seus contornos. Em países menos primitivos, a regra é antiga. No começo dos anos 70, o The New York Times não procurou esconder de seus leitores que o Caso Watergate começara a tomar forma, na véspera, nas páginas do The Washington Post. Admitido o furo, mobilizou um punhado de repórteres na caçada a informações exclusivas, que seriam igualmente reproduzidas pelo concorrente.

Todo jornalista provido de alguma auto-estima sabe que é melhor dar ‘furos’ do que levá-los. Mas a ocultação de fatos relevantes representa um duplo delito. Além de antiética, essa omissão configura claramente um crime de lesa-leitor - o verdadeiro dono do jornal. Nenhum fato importante, independentemente de quem o tenha localizado com primazia, pode ser subtraído a seus destinatários para alimentar a fogueira das vaidades que arde em tantas redações. Lastimavelmente, o Brasil continua onde o via Tom Jobim: muito longe.

Dura é a vida dos jornais independentes, condenados à eterna vizinhança do muro das lamentações que ecoa o formidável berreiro dos políticos. Pode ser reduzido a choro, mas não se deve sonhar com o completo sumiço dos ruídos. Pais da Pátria brasileira, segundo o sábio baiano Antônio Balbino, não querem dos jornais coberturas equilibradas nem imparciais. Querem é o apoio explícito, a adesão incondicional. A vassalagem. É perfeitamente explicável, portanto, o patético comportamento de candidatos que procuram atribuir seu mau desempenho a perversas manobras conspiratórias envolvendo jornais e institutos de pesquisa, vinculados por subterrâneas, solertes, suspeitíssimas cumplicidades. Em países civilizados, candidatos derrotados costumam reconhecer que perderam porque não tiveram competência para ganhar. No Brasil, os vencidos sempre culpam os outros.

Dura, insista-se, é a vida dos jornais independentes. Dura, mas decididamente estimulante. Ataques injustos, berreiros, espertezas, truques ou mesmo infâmias compõem parte do preço a ser pago por um jornal decidido a defender o direito de informar corretamente. Quando políticos se queixam, leitores não têm queixas a fazer."

 

A GINGA E O JOGO
Augusto Nunes

"O monarca da crônica esportiva", copyright Jornal do Brasil, 23/08/03

"A ginga e o jogo, Armando Nogueira, Objetiva, 200 páginas, R$ 28,90

A quem vai comentar qualquer livro de Armando Nogueira, recomenda-se usar com parcimônia imagens forjadas com palavras. É um modo de fugir a comparações com o cronista insuperável em pintar o aparentemente irretratável, valendo-se de vogais e consoantes urdidas com desconcertante maestria entre vírgulas e pontos sempre exatíssimos.

Deixar tais imagens por conta de Armando é, além de sinal de prudência, justa reverência ao jornalista-escritor que consegue tornar mais belo o que até então parecia esteticamente perfeito. Sem modificar o que viu, mas descrevendo com a alma o que foi visto, ele amplia o encanto da jogada irretocável, a inverossimilhança deste drible ou daquela finta, a magia do lance pinçado pelos gênios do esporte no mundo dos sonhos.

Como reafirma a coletânea de crônicas reunidas pela Editora Objetiva em A ginga e o jogo, os textos de Armando Nogueira igualam ou mesmo superam a beleza da cena que lhes serviu de inspiração. Trata-se de um grande cronista em tempo integral, seja qual for o tema tratado, como atestam parágrafos antológicos sobre telefones, mendigos do Rio, amigos como Otto Lara Rezende ou a utopia de voar.

‘Quando menino’, conta, ‘eu costumava sobrevoar em sonhos a floresta de Xapuri, montado no pescoço de um regador de jardim. Sei que voar não é da índole dos regadores, mas me lembro perfeitamente que o meu tinha asas e voava com o ar gracioso de um albatroz’. Convertido nos últimos tempos à tribo dos apaixonados por ultraleves, a bordo desses pequenos aparelhos vem varando nuvens. Mas nunca deixou de viajar com a mente, de preferência pelo universo formado por estádios, pistas, ginásios, quadras e sinaleiras aquáticas. Alcançou altitudes que o transformaram no maior cronista esportivo do Brasil.

O altar do devoto Armando Nogueira já esteve circunscrito aos deuses dos gramados. Com o tempo se tornou mais ecumênico, embora permaneçam nos nichos maiores e especialmente vistosos duas antigas divindades: Garrincha e Pelé. Em entrevista recente, Armando revelou que a manchete com que sonha o jornalista é a seguinte: ‘Garrincha ressuscitou’. Sobre o legendário camisa 10, escreveu há quase 30 anos: ‘Se Pelé não tivesse nascido gente, teria nascido bola’. Muito mais escreveria sobre os dois maiores craques da história do futebol, sem se preocupar em eleger o melhor: ‘Garrincha e Pelé são incomparáveis e o que a mim me importa, de verdade, é que tive a ventura de vê-los, íntegros, na sua sublima inspiração. Pelé, magnífico, na arte de fazer um gol de placa, e Garrincha, estonteante, no mistério de aturdir o instante do drible’.

Devoções recentes, muitas originárias de esportes com os quais passou a conviver mais estreitamente, enriqueceram e diversificaram o altar. As jogadoras de basquete Hortência e Paula, que deixaram as quadras há poucos anos, foram canonizadas pelo cronista. Na despedida de Paula, depois de mencionar a atacante, ele reverenciou a grande armadora da Seleção Brasileira.

‘Primeiro, foi Hortência, de tantas cestas perfumadas’, lastimou. ‘Agora, é Paula, Maria Paula das mãos adivinhas (...) Paula, das mãos que inventam cintilações. Das mãos que adivinhavam os caprichos da bola. Das mãos que regiam o jogo como se fosse um balé. (Alguém dirá que não é?)’.

Permanentemente contemporâneo aos 76 anos, esse prisioneiro feliz das boas lembranças segue inquieto à caça de talentos que surgem em todas as modalidades. Emociona-se ao ver surgir um Diego, um Robinho, os moços guerreiros do vôlei. Brasileiríssimo, o nosso marquês de Xapuri é capaz de festejar os triunfos do australiano Ian Thorpe, ou lastimar a prematura desclassificação da Argentina numa Copa do Mundo.

Tolerante com craques um tanto descuidados como Romário, só não contém a ira santa frente a cafajestagens ou safadezas de cartolas, além de escorregões imperdoáveis de atletas. Armando Nogueira tem a alma do grande esportista.

Nenhum dos seus amigos se surpreendeu com a resposta dada por Armando ao estudante de jornalismo interessado em saber qual seria, naquele momento, a maior personalidade do esporte brasileiro. ‘Lars Grael’, respondeu Armando. O iatista campeão, de volta às águas depois do acidente em que perdera a perna, acabara de ganhar uma regata nas imediações de Ilhabela, no litoral paulista. No texto em que recorda o episódio, o cronista menciona um caso igualmente sublinhado pelo heroísmo e fala do lutador dos mares. Os dois parágrafos finais:

‘Timoneiro intrépido, ele nos dá um exemplo de espírito olímpico que, certamente, vai além, muito além, do universo esportivo.

Lars Grael, navegante, vaga-avante, velas enfunadas - serena exaltação da vida’.

Que Armando Nogueira continue a escrever por nós, dizemos todos."

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