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ELEIÇÕES EUA
Howard Kurtz
"Tudo o que se leu estava errado", copyright O Estado de S. Paulo / The Washington Post, 21/01/04
"Tudo bem, são muitas pessoas espertas com opiniões sobre o que ocorreria e o que isso tudo significa. Ou, pelo menos, o que isso tudo significa neste momento. Ou o que poderia significar dependendo de como as coisas correrão em New Hampshire.
Quando candidatos insistem que mantêm suas chances, apesar de pesquisas desfavoráveis e dos prognósticos da mídia, a maioria das pessoas entende que eles apenas tentam manter o ânimo de seus partidários. Mas algumas vezes eles sabem algo sobre aqueles que escrevem e sua capacidade de dizer tolices. Muitos eleitores tomam decisões tardiamente, os indecisos se decidem mais tarde e aqueles apontados como fora da disputa semanas antes - que o digam John Kerry e John Edwards - continuam tendo uma chance.
O impressionante desempenho em Iowa de Kerry e Edwards - e a derrota de Howard Dean - vem sendo descrito pela mídia como uma ‘surpresa’, uma ‘dramática reviravolta’ ou uma ‘maravilhosa revolução’. Uma vez que ninguém verdadeiramente sabia o que ocorreria em Iowa, o resultado foi significativamente uma surpresa porque a imprensa há meses vinha trombeteando e espetáculo que seria de Dean e Dick Gephardt.
Em vez disso, os US$ 40 milhões e os zilhões de voluntários de Dean não valeram muito e o apoio a Gephardt desmoronou. Kerry obteve mais do que o dobro dos votos de Dean. E, para dizer isso de forma indulgente, você não leu isso aqui primeiro. Em outras palavras, tudo o que se leu sobre o caucus de Iowa em novembro e dezembro estava errado. A imprensa teria feito melhor se desse longas férias a todos os seus repórteres. O Quarto Poder, no caso de Dean, errou duas vezes: o subestimou em 2003 e o superestimou em 2004.
Agora, a mesma imprensa está empenhada em mostrar como todos estavam errados sobre Iowa, sobre como isso embaralha as cartas para New Hampshire e tudo o mais.
E, pelas próximas 48 horas, a mídia falará que Kerry está surgindo! Edwards está surgindo! Dean está sumindo! Mas já no fim de semana em New Hampshire, quando Dean deve estar firme na liderança das pesquisas, tudo mudará. Ou não."
Milton Coelho da Graça
"Kerry venceu mesmo sem botox", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 22/01/04
"Sílvio Berlusconi, primeiro-ministro da Itália, tem 67 anos. Sumiu por mais de duas semanas e reapareceu com menos rugas e achando que parece ter só 57. Levou uns apertos em volta dos olhos, talvez um pouco de botox nas bochechas, uns implantes de cabelo, uma repuxada nas orelhas. Seus assessores dificilmente distribuirão uma detalhada nota à imprensa sobre este tema.
Como explicou seu médico em entrevista ao jornal La Stampa, nestes tempos em que a sociedade tanto se preocupa com a imagem, a cirurgia plástica tornou-se compulsória para o sucesso do político.
Talvez John Kerry também tenha dado algum jeitinho no visual, mas nunca se teve notícia disso. E ele é feio paca, como define minha neta Clarinha. Segundo pesquisas feitas horas antes dos caucus (kó-kó-aus, bate-papo animado, na língua dos índios algonquians) no estado de Iowa, os quatro candidatos a candidato presidencial do Partido Democrático estavam empatados, mas Kerry disparou e levou 38% dos votos. Ou seja, pesquisas e boa imagem, dois ingredientes dominantes do atual raciocínio eleitoral na democracia representativa, não funcionaram em Iowa.
São pouco mais de 2,2 milhões de eleitores no Estado, dos quais pouco mais de 500 mil têm carteirinha do Partido Democrático. Cerca de 70 mil (apenas 3% do eleitorado e 15% dos democratas registrados) enfrentaram o frio de rachar desta época do ano e se reuniram nos caucus, uma reminiscência do século 18. Em quase dois mil lugares diferentes - num boteco, numa escola ou na casa de um deles - conversam e votam para decidir quem deve ser o candidato do partido à Presidência dos EUA. É claro que conhecem bem as caras dos candidatos e, pelo menos um pouco, as idéias. Cada um diz o que acha e o bate-papo só acaba quando um candidato tem a maioria absoluta.
O sistema só funciona se as pessoas tiverem real interesse na política, em participar. Nos Estados Unidos - como também em outros países -, pouco mais da metade dos cidadãos acha importante votar, quanto mais escolher candidatos. É natural, portanto, o progressivo abandono do caucus pela maioria dos 51 estados americanos, que prefere convenções ou eleições primárias, em clima de happening. Só em 14 estados, o Partido Democrático mantém a velha prática e os republicanos, em 12.
Iowa não é uma boa amostra do conjunto dos EUA. Apenas duas de suas cidades estão entre as 239 em todo o país que têm mais de 100 mil habitantes. Sua população é 95% branca, quatro ou cinco vezes menos negros do que a média nacional. Mais de 40% vivem em áreas rurais, o dobro do que ocorre no resto do país. E seus eleitores têm uma cabeça política meio esquizofrênica: costumam votar nos candidatos democratas para Presidente e nos republicanos para deputados (quatro dos cinco representantes do estado fazem tudo que Bush manda).
Por isso, a maioria dos analistas não acredita que Kerry consiga vencer a longa corrida para ser o candidato de seu partido. Ele é rico, mas não tanto como o médico Howard Dean ou o advogado John Edwards, que já tinham muito dinheiro e ainda casaram com mulheres ricas. Nem tão certinho, bonitinho e sorridente como eles. Lutou no Vietnã, mas não chegou a general como Wesley Clark, que, por razões táticas ou financeiras, decidiu não participar da batalha em Iowa. O eleitor americano gosta de fardas e quanto mais estrelas, melhor.
Isso tudo junto constrói a imagem (se necessário, com ajuda de botox e bisturi), que o bondoso médico de Berlusconi aponta como ‘compulsória’ para o sucesso político em nossa moderna sociedade da informação.
Mas o kó-kó-aus dos algonquians nos ajuda a manter confiança no processo democrático e na racionalidade política do povo americano, que, apesar da propensão a delírios militaristas, petrolíferos e até religiosos, mantém-se fiel ao princípio do poder pelo povo, do povo e para o povo. Acredito firmemente que o brado xiita por eleições livres e imediatas no Iraque abala muito mais a alma americana do que bombas e patriotas-suicidas."
ECOS DA GUERRA
Antonio Brasil
"Jornalistas ‘encaixotados’", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 23/01/04
"A guerra do Iraque divulgou uma nova forma de cobertura internacional. Pela primeira vez, as imagens do conflito foram transmitidas ao vivo via Internet pelos jornalistas ‘embedded’ com as tropas americanas. A tradução é difícil e ainda nao existe um consenso sobre a melhor palavra para descrever essa nova estratégia de cobertura jornalística. Os correspondentes ‘embedded’ estariam engajados, embutidos ou até mesmo encaixotados com as tropas americanas. Em verdade, tanto faz. Os jornalistas sempre dependeram da boa vontade dos donos do poder para acesso a maioria dos grande eventos. Eles são os verdadeiros donos da festa.
Embedded ou in bed?
Mas segundo a crítica, alguns jornalistas teriam exagerado nesse engajamento e estariam mais do que ‘embedded’. Ele estariam ‘in bed’ com as tropas que deveriam cobrir. É uma piada ou trocadilho de mau gosto que denuncia a controvérsia e os riscos dessa nova estratégia para o futuro do jornalismo. Até que ponto um correspondente deveria ou poderia se envolver com os militares ou políticos para ter acesso a um evento importante? Em tempos de controle e censura da mídia, a justificativa para o engajamento dos jornalistas é de que não existe alternativa. Ou se enquadra, ou o jornalista não participa ou testemunha esses eventos. Se correr o bicho pega, se ficar... a crítica não perdoa.
Vale tudo
Em busca de alternativas, alguns jornalistas independentes ou mesmo ‘parquedistas’ pagaram com a própria vida na última guerra do Iraque. Eles estavam em busca de mais notícias e menos controle. Liberdade de imprensa, distanciamento, objetividade e isenção, passaram a ser conceitos ‘discutíveis’ e flexiveis. Variam conforme a cara e o histórico profissional do jornalista e principalmente variam conforme a linha editorial da empresa para quem eles trabalham. É um jogo complexo de interesses que envolve muita negociação com muitas concessões da parte dos jornalistas, é claro! Hoje, mais do que nunca, os donos do poder apostam no ‘encaixotamento’ do jornalista para garantir uma cobertura mais ‘simpática’. Mas parece que a moda pegou. Nos últimos dias, a imprensa americana divulgou com destaque a atuação dos correspondentes ‘engajados’ na guerra pela presidência americana. O problema que assim como na guerra do Iraque, alguns desses jornalistas já estariam ‘in bed’, quero dizer, ‘embedded’ com os candidatos a candidato democrata. Algumas questões éticas e profissionais estariam sendo novamente criticadas. Essa proximidade ou promiscuidade dos jornalistas com a máquina das campanhas eleitorais tem causados muitas vítimas. Mas, pelo jeito, vale tudo na luta pelos pela preferência do público americano.
O sucesso da MSNBC
Em um cenário de muita competição, os jornalistas contam com o apoio das assessorias dos candidatos para garantir acesso 24 horas aos bastidores da campanha. Nessa guerra pela intimidade dos candidatos, a MSNBC saiu na frente. A MSNBC é uma nova empresa de jornalismo que combina o poder de uma rede de televisão americana, a NBC com os recursos e agilidade da Internet com o apoio de uma empresa gigante da informática, a Microsoft de Bill Gates. Seus jovens produtores viajam nos ônibus dos candidatos e estão sempre em busca de notícias e curiosidades sobre a campanha eleitoral. Eles cobrem de tudo e trabalham muito. Desde os exercicios fisicos matinais dos candidatos até as reuniões de campanha ou as comemorações durante as vitórias. Gravam notícias para o rádio, televisão e ainda transmitem notícias ao vivo para o site da Internet.
Assim, como seus colegas durante a guerra no Iraque, esses jornalistas também carregam videofones - câmeras digitais e notebooks - para transmitir suas matérias dia e noite via internet. Alguns deles chegam a trabalhar 17 horas por dia. Mas o maior problema desses jornalistas é como evitar o envolvimento excessivo e até certo ponto inevitável com seus objetivos jornalísticos. Eles ainda enfrentam as pressões e as tentativas de manipulação por parte dos jornalistas marqueteiros ‘engajados’ na campanha dos candidatos. Esses jornalistas fizeram a sua opção pela política e pelo dinheiro, mas ainda tem o poder de impressionar ou mesmo ‘intimidar’ os novos jornalistas ‘embedded’. Eles possuem intrumentos poderosos para controlar e influenciar a cobertura, principalmente da imprensa ‘nanica’ ou independente.
Problemas com a ABC
Na semana passada, no entanto, houve um problema com o jornalista encaixotado da ABC News. A assessoria do candidato queria impedir a divulgação de uma notícia que envolvia um de seus assessores em caso de denúncia de violência familiar. Os jornalistas marqueteiros tentaram convencer o jornalista a desistir da pauta e jogaram pesado. O jornalista foi alertado pelos assessores de que perderia seus privilégios, o seu lugar especial no ônibus de campanha. Eles recomendaram que ele desistisse da matéria. A questão se tornou polêmica, mas após muitas negociações e concessões, nada foi resolvido. A discussão continua e o trabalho dos jornalistas ‘encaixotados’ continua gerando controvérsias. Quais seriam os limites dos jornalistas na cobertura de uma campanha presidencial? Qual é o preço que o jornalismo estaria disposto a pagar pela proximidade ou intimidade da vida dos candidatos?
Para que tanta notícia?
Alguns críticos culpam o noticiário 24 horas nas TVs a cabo e na Internet. Eles precisam sempre de uma grande quantidade de notícias todos os dias e não se importam muito com esse preco ético ou financeiro. O público também teria a sua parcela de culpa. Estariam mais interessados em saber sobre a dieta ou os exercícios físicos dos candidatos a presidência do que nas suas propostas políticas.
Pelo menos, não se pode alegar as questões de segurança nacional e patriotismo para justificar a manipulação da cobertura. A campanha presidencial americana só está começando, mas a polêmica sobre as vantagens e desvantagens dessa nova cobertura tende a crescer. O jornalismo embedded, engajado ou encaixotado se tornou uma realidade. Do Iraque a Iowa, pelo jeito, pouca coisa mudou. A curiosidade ou interesse do público justifica tudo. O jornalismo continua arriscando seus próprios princípios por uma cobertura total. Mas afinal, ‘para que tanta notícia’?"
PORTUGAL
José António Saraiva
"Os jornalistas", copyright copyright Expresso, Lisboa (http://online.expresso.pt), 20/1/04
"Eu costumo dizer que não tenho muitas das qualidades dos jornalistas - mas não tenho, também, muitos dos seus defeitos.
Talvez por não ser jornalista de raiz.
Como se sabe, formei-me em Arquitectura e antes de vir para o EXPRESSO como subdirector trabalhei 15 anos como arquitecto.
Isso pode contribuir para que tenha em relação ao jornalismo uma certa distância - que se traduzirá, aqui e ali, numa posição mais crítica.
Julgo, contudo, que seria saudável todos os jornalistas serem capazes de olhar o exercício da profissão com algum distanciamento.
Assim como há advogados bons e maus, médicos bons e maus, há jornalistas bons e maus.
Há jornalistas sérios e pouco sérios.
Há jornalistas com princípios e sem princípios.
Há jornalistas com talento e sem talento.
Por isso, não faz sentido um jornalista proteger outro só pelo facto de ser jornalista.
Pelo contrário: é bom que se comece a separar o trigo do joio e não se confunda o mau com o bom jornalismo, o jornalismo sério com o jornalismo sensacionalista, o jornalismo com regras com o jornalismo sem regras, o jornalismo que respeita a dignidade das pessoas com o jornalismo que salpica de lama toda a gente.
O jornalismo que o EXPRESSO faz não tem nada que ver com o jornalismo que se faz em alguns jornais.
Em relação a esse tipo de jornalismo, não devemos ser cúmplices - temos de ser críticos.
Para o jornalismo melhorar, é necessário que se comece a denunciar os excessos e os atropelos.
Juntar comida boa com comida estragada não dá comida assim-assim - dá comida estragada.
Juntar todo o jornalismo no mesmo saco conduzirá inevitavelmente ao descrédito de todos os jornalistas."
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