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CASO DANIEL PEARL
Robert Fisk

"O repórter virou um soldado", copyright Jornal do Brasil / The Independent, 24/02/02

"O assassinato de Daniel Pearl é tão revoltante quanto ultrajante. Mas por quê ele foi morto? Porque era um ocidental, um Kaffir? Porque era americano? Ou porque era um jornalista? No Paquistão e no Afeganistão, somos Kaffirs, descrentes. O clérigo muçulmano que me procurou em uma vila de refugiados afegãos em de Peshawar, em outubro, foi parado por um homem que apontou para mim e perguntou: ‘Porque você conversa com esse Kaffir na nossa mesquita?’ Semanas depois, uma multidão enfurecida com a morte de parentes em um ataque errado dos B-52 tentou me linchar. Me tomaram por americano.

Há 25 anos sou testemunha da lenta, dolorosa e perigosa erosão do respeito ao nosso trabalho. Tínhamos, e temos, o hábito de arriscar nossas vidas, mas jornalistas raramente eram alvos deliberados. Éramos testemunhas imparciais escrevendo a História. Mesmo as milícias mais sujas sempre entenderam. ‘Proteja-o, ande perto, ele é um jornalista’, ordenou um chefe palestino no Líbano, quando entrei na ardente Bhamdoun, em 1983.

Mas no Líbano, na Argélia e na Bósnia, a proteção começou a se desintegrar. Repórteres viraram reféns - Terry Anderson, da AP sumiu por sete anos - enquanto jornalistas argelinos eram degolados por grupos islâmicos nos anos 90. Adesivos com a palavra Imprensa nos nossos carros em Sarajevo eram um convite aos franco-atiradores sérvios.

Onde erramos? Suspeito que começou no Vietnã. Nas Guerras Mundiais, jornalistas usavam fardas. Mas eram países em conflito e repórteres de nações oficialmente em guerra. Com uniformes, recebiam tratamento pela Convenção de Genebra. Vestidos como civis, viravam espiões.

Foi no Vietnã que os repórteres, com uniformes e também armas - atiravam nos inimigos da América - apesar de oficialmente os EUA não estarem em guerra, o que lhes permitiria trabalharem à paisana. No Vietnã, repórteres foram mortos por serem repórteres. Mas o hábito de querer ser só testemunha da história mudou. Quando os palestinos deixaram Beirute em 1982, repórteres franceses usavam o kafieh, lenço típico árabe. Quando os repórteres israelenses chegaram, portavam pistolas.

Então, na Guerra do Golfo, em 1991, repórteres de tv americanos e ingleses começaram a transmitir de capacete e roupa camuflada. No Curdistão, usavam roupas curdas. No Paquistão e no Afeganistão, ano passado, gorros pachtun. Porque? O que fazia Walter Rodgers, da CNN, em um uniforme de marine em Kandahar? Depois Geraldo Rivera, da Fox, chegou a Jalalabad com uma pistola, ‘para matar Bin Laden’. Era a última linha: o repórter virara soldado.

Em dezembro, fiquei assustado quando um jornal americano publicou que eu merecera ser surrado. O artigo, de Mark Steyn, tinha um título assim: ‘O multiculturalista cumpre sua obrigação’. Minha sina, naturalmente, fora a de explicar que os B-52 haviam matado os parentes dos afegãos. Faria o mesmo se estivesse do outro lado. Essa vergonhosa e antiética manchete foi publicada no jornal de Daniel Pearl, The Wall Street Journal.

Não foram os repórteres em fardas camufladas - como Rodgers em seu ridículo capacete de marine, ou Rivera com sua pistola ou mesmo eu, com minha máscara contra gás há dez anos - que ajudaram a matar Pearl. Mas estamos ajudando a erodir o escudo de neutralidade e decência que nos salvava. Se não pararmos, como protestar quando outros colegas forem seqüestrados e acusados de serem espiões?"

 

Nahum Sirotsky

"Ameaças de morte pelo celular de Daniel Pearl", copyright Último Segundo, 24/02/02

"A mídia do Paquistão informa que a equipe que investiga a morte de Daniel Pearl, o jornalista americano, ficou com seu celular e tem recebido através dele numerosas ameaças de morte. Daniel foi degolado dez dias após ser seqüestrado. Seus assassinos, um grupo extremista islâmico do Kashimir, disseram que cumpriram dever sagrado de matar um judeu.

Pearl era filho de israelenses naturalizados americanos, o que se soube juntamente com a confirmação de sua morte. O pai, professor universitário na Califórnia, pedira à mídia americana para nada revelar sobre suas conexões israelenses. Foi atendido. Um jornal israelense, no entanto, vazou a informação.

Felizmente, a revelação foi posterior à divulgação do vídeo em que a degola do colega foi mostrada. Daniel vinha mostrando sua coragem pessoal há anos na cobertura jornalística do Afeganistão e Paquistão. Seu nome de família, Pearl, é obviamente judeu.

Quando se lançou na guerra contra os americanos, Bin Laden anunciou seus principais objetivos: os ‘cruzados (americanos) e os judeus’. Ele decretava que fossem mortos onde surgisse a oportunidade. Há inúmeros grupos islâmicos cumprindo sua vontade. O Paquistão, pelo que li em sua mídia, em língua estrangeira, convoca todos estrangeiros a se manterem alerta, pois correm perigo. Nas suas operações, os grupos extremistas têm o duplo objetivo de desmoralizar o governo por colaborar com os americanos e matar os não maometanos.

Há até a suspeita de que o al Qaeda tenha influenciado na degola de Daniel, o repórter do Wall Street Journal atraído pela promessa de entrevistar o líder do grupo que o assassinou. Os americanos descobriram que Bin Laden está vivo e o Al Qaeda se reorganiza para novas operações. Ele está numa área periférica do Afeganistão.

Curioso é que, segundo o Centro de Proteção ao Jornalista, uma organização internacional privada, têm morrido mais colegas na investigação de corrupção de políticos do que em guerra. Já no caso da emergência do terrorismo como ameaça internacional, o comportamento diante da mídia depende do objetivo.

O propósito do terrorismo é criar medo, pânico, e ele procura realizar suas ações de forma a conquistar maior repercussão. A mídia conta o que houve e multiplica os efeitos. O vídeo da degola de Daniel é assustador e inesquecível pelo seu retrato da crueldade preconcebida dos fanáticos.

Na guerra, a morte do jornalista acontece como a de um soldado com uma diferença. O soldado vai à frente fisicamente preparado, treinado e armado. O repórter leva sua coragem e nada mais. Não pode levar arma alguma. As leis de guerra - ha! ha! ha! - dizem que jornalista preso, uma vez identificado, deve ser liberado. De forma geral ele é detido e, não raro, por longo tempo, como suspeito de espionagem. O salário não compensa o risco. A gente vai porque tem de ir. E se tem azar, é isto.

Os assassinatos por civis são os piores. Os colegas que partem para investigar crimes de corrupção são os que mais se arriscam. O corrupto é um indivíduo sem escrúpulo algum e sem consciência. Compra serviços de profissionais. Há muito matador brasileiro que vive muito bem. Há muitos, muitos anos, conheci um que tinha 110 marcas no cabo de sua espingarda, que era conhecida por papo amarelo. Era grileiro.

O caso de Carne Seca, de um morro carioca, foi o mais perigoso em minha vida. A fotografia dele, espalhada pela cidade, era representação precisa de meu rosto, como também do então diretor geral da Estrada de Ferro, Jurandir Pires Ferreira. Ambos temíamos que a polícia nos confundisse. No caso de Carne Seca, uma cobra, ela não pararia para pedir identidade. Ele era perigoso demais.

Ao ir ao gabinete do almirante Amaral Peixoto, presidente do então PSD, partido político, no centro do Rio, fui recebido a pancadas logo na entrada. Fiz escândalo e apareceu um secretário do Amaral Peixoto que me salvou. E eu lá fora para uma entrevista sobre questão política. O CPJ não deve ter incluído em suas estatísticas os colegas brasileiros dos pequenos jornais, os mais perto dos ladrões, e os mais corajosos dentre todos."


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