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REALITY SHOWS
Gabriel Priolli

"Festa do hipercapitalismo", copyright Época, 25/03/02

"Entre telespectadores que simplesmente os amam e críticos que adoram odiá-los, os reality shows seguem seu glorioso desfile pela televisão brasileira, no esplendor dos altos índices de audiência, dos recordes de faturamento publicitário e do monopólio dos debates sobre programação. Nuvens passageiras que teimam em não passar, para a perplexidade das pitonisas equivocadas, eles conclamam a inteligência a deixar a histeria de lado e analisá-los com a objetividade. Para constatar, entre outros aspectos, que:

É equivocado supor, na variante sexual do voyeurismo, a motivação principal do público que assiste a esses programas. A despeito do desejo latente nos participantes, os reality shows são pudicos e castos, e há menos sexo neles que nas novelas das 7. O que leva o telespectador a vê-los, portanto, é a mera curiosidade, a pura bisbilhotagem, ancestral impulso que pode ser inconveniente e até condenável, mas não é doentio, salvo as devidas exceções.

Reality shows são programas familiares. Atingem com igual impacto todas as faixas etárias e podem ser vistos coletivamente na sala de estar. Se têm algo que, eventualmente, provoca constrangimentos à moral e aos bons costumes do brasileiro médio são os palavrões que escapam nas edições ao vivo, e apenas nelas. Mas a linguagem despoliciada dos jovens, reconheçamos, não é propriamente estranha ao cotidiano de milhões de famílias. Nem faz os lares ruírem.

Mais que um formato de ocasião, reality shows são um novo gênero - universal - de programação de TV, que deverá desdobrar-se numa infinidade de novos produtos. Depois de explodir, Casa dos Artistas e Big Brother podem declinar até morrer, como ocorreu com No Limite, mas haverá mais e mais sucedâneos. É o que ocorre no mundo todo.

Reality shows põem em crise a teledramaturgia. Demonstram que o telespectador quer narrativas, sim, mas que a ficção disponível na telinha já não o satisfaz. Isso vale para a novela brasileira, a sitcom e o filme americano, ou a minissérie européia - sem prejuízo de eventuais sucessos, como de O Clone. A incessante repetição de temas e fórmulas, conseqüência da produção em escala industrial, vai matando aos poucos a ficção televisiva. Autores e roteiristas estão convidados a repensar tudo em seu trabalho.

Reality shows são o produto de ponta da cultura globalizada. Caríssimos, mobilizam um volume enorme de capitais. Universais, vendem-se em qualquer parte com a mesma aceitação. Multimídia, forjam celebridades instantâneas e descartáveis para alimento da imprensa, da publicidade, da indústria do disco e do espetáculo. São a festa do hipercapitalismo.

Buscar fórmulas de qualificá-los, dotando-os de mais imaginação e densidade cultural, é melhor política que tachá-los de ‘baixaria’ e ir chorar no cantinho contra a degradação moral do mundo. Formas evoluídas de reality shows são possíveis e necessárias, posto que as degradadas já estão surgindo. Basta ver a Casa dos Desesperados, de Sérgio Mallandro, novo lar da vulgaridade nas noites de sábado."

 

Pedro Alexandre Sanches

"Globo prepara ‘reality show’ com novos talentos musicais", copyright Folha de S. Paulo, 23/03/02

"A guerra de ‘reality shows’ que se espalha pelas televisões vai respingar na música popular brasileira. Enquanto o SBT sonha inventar as Spice Girls nacionais com o anunciado ‘Popstars’, a Globo saca discurso bem diferente, de revelar novos talentos musicais sob as palavras-chave ‘seriedade’ e ‘qualidade’.

A rede adquiriu direitos sobre o programa ‘Operación Triunfo’, criado pela Endemol -a mesma dos quiproquós de ‘Big Brother’ e ‘Casa dos Artistas’-, e que foi sucesso na Espanha.

Seguindo, com pequenas alterações, as regras de lá, a Globo reunirá numa ‘academia’ 11 artistas amadores, semiprofissionais, independentes ou sem gravadora.

A seleção, segundo a Globo, está sendo feita em escolas de música e nos ambientes musicais e teatrais de várias cidades. A Som Livre, gravadora da casa, aceita inscrições até a próxima quinta-feira.

Os participantes receberão, durante nove horas por dia, aulas de canto, teoria musical, coreografia e marketing. Também farão shows que serão gravados em CD.

Na parte mundo-cão do projeto, serão avaliados e submetidos à doutrina de eliminação dos ‘reality shows’, um a um, por ação de um corpo de jurados, dos colegas postulantes e do público.

Na produção do programa estão o diretor de núcleo Luiz Gleiser, envolvido no ‘Big Brother Brasil’, e o produtor e compositor (de ‘Menina Veneno’) Bernardo Vilhena.

Ao explicar a intenção do projeto, Gleiser diz: ‘Queremos mostrar que ser artista não é só tocar violão de madrugada, mas sim estudar para caramba, muitas horas por dia’.

O patrocínio bancado pela rede por anos a fio da invasão de Carlas e Scheilas da axé music suscita indagações sobre que tipo de música o ‘Triunfo’ pretende revelar.

Decreta Gleiser: ‘Os candidatos devem tender a uma das quatro vertentes principais da música brasileira, que são MPB, sertanejo/romântico/brega, pop/rock e samba/pagode/axé/funk’.

Por fim, repele o temor de que tudo seja armado demais, suspeita que rondou ‘Big Brother’. ‘Embora se fale muito da manipulação global no mundo aí fora, não tenho essa visão. O que vendo à direção da Globo é a necessidade de inovação. Vamos procurar critérios de qualidade que dêem audiência e me permitam fazer uma segunda edição, mas com o faro no talento e evitando a pasteurização que achatou a MPB e tornou complicado o surgimento do novo nos últimos anos’, fecha."


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