27/05/2003

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FRAUDE NO NYT
Tania Menai

"Mentira com longas pernas", copyright no mínimo (http://nominimo.ibest.com.br), 25/05/03

"O circuito Elizabeth Arden do jornalismo anda escorregando do salto-alto. Enquanto o episódio do jornalista-fake Jayson Blair veio à tona no New York Times, o periódico parisiense Le Monde, referência da imprensa na língua francesa desde 1944, também não tem deixado as manchetes. No dia 16 de maio, o diretor do jornal francês, Jean-Marie Colombani entrou na justiça por difamação contra os repórteres Pierre Péan e Philippe Cohen, que lavam a roupa suja do jornal em 630 páginas no recém lançado livro ‘La face cachée du Monde’ (A face oculta do Monde). O New York Times ainda não chegou a este ponto. Até agora, o caso Blair parece não ter afetado nada muito além do ego e da vergonha dos editores envolvidos, e enaltecido a árdua profissão dos ‘fact-checkers’ ou checadores de fatos. As ações do jornal na bolsa de valores não despencaram. Tampouco o número de assinaturas. Mas isso poderá mudar, ou não, dependendo do que Jayson Blair revelar no livro e no filme que ele está disposto a escrever.

Em matéria publicada do jornal semanal The New York Observer, o repórter e crítico de livros Joe Hagan, 32 anos, conversou com o agente literário David Vigliano, que dias após o escândalo do Times, que rendeu uma matéria de quatro páginas no próprio Times no dia 11 de maio, já escrevia uma proposta de cinco páginas para circular nas mãos de executivos de Hollywood. Depois disso, vai engatar a negociação para a publicação de um livro. Otimista, ele espera fechar um contrato em menos de duas semanas. O que tudo indica, a intenção de Blair, que é negro, é escrever sobre complexidades raciais tanto na redação do Times, quanto no mundo do trabalho em geral. Blair diz que ‘pretende ter a chance articular as razões que levaram a sua queda, sem se fazer de vítimas, mas escrevendo um conto que alerte outras pessoas’. Caso Blair esteja disposto a revelar o lado obscuro do Times, assim como fizeram os repórteres franceses, será que há alguma maneira de o jornal nova-iorquino impedí-lo? Segundo o advogado Marcello Hallake, da Coudert Brothers de Nova York, a Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos garante ao cidadão a absoluta liberdade de expressão. E isso é um ponto a favor de Blair. Não há como impedí-lo. Depois de o livro ser publicado, talvez seja o caso de entrar na justiça. Mas isso não pode acontecer antes.

O histórico de casos como este nos EUA já fizeram jornalistas-fake infinitamente mais ricos do que aqueles que permanecem honestos até o fim da carreira. Em 1981, Janet Cook do Washington Post chegou a ganhar um Prêmio Pulitzer por uma matéria inventada sobre um jovem viciado em drogas. O jornal devolveu prêmio, mas Janet embolsou 380 mil dólares vendendo os direitos de sua história para a Columbia TriStar Pictures. Michael Finkel, da revista Time, que também usou a ‘criatividade’ para escrever sobre o perfil de um negro americano e acabou vendendo os direitos de sua memória para uma editora por 300 mil dólares. Stephen Glass, outro nome lembrado em épocas de crise como esta, mentiu descaradamente nas revistas The New Republic, Rolling Stone e Harper’s. Descobertas as fraudes em 1998, ele passou anos fazendo terapia antes de lançar seu livro ‘The Fabulist’, uma ficção baseada em sua própria tragetória. Todos estes profissionais parecem ter esquecido a primeia lição de jornalismo, que, segundo ensina Jeff Greenfield, analista da CNN é a seguinte: ‘se a sua mãe diz que te ama, vá correndo checar esta informação’. E agora? O que resta para Jayson Blair, com suas 73 matérias do Times e seus 27 anos de álcool,drogas e mentiras? Joe Hagan, que escreve para o Observer há um ano, conversou com No Mínimo para tentar responder.

Como fazer os leitores acreditarem nas memórias de um jovem jornalista cuja reputação como escritor de não-ficção é das piores?

Em primeiro lugar, poucos livros passam sequer por uma checagem de fatos. Quando um livro é publicado, a veracidade do material depende do autor. Antes de comprar os direitos do livro, os editores literários, geralmente, fazem checagem minuciosas sobre autor ou autora e optam ou não em confiar nele ou nela, baseado em reputação. Não é claro se alguém jamais acreditará no que Blair escrever num livro, apesar de o agente dele insistir que por ele não estar reportando uma matéria jornalística, a credibilidade não entra em questão. A maioria dos editores com quem conversei disse que o histórico de Blair com a verdade é o suficiente para que eles recusem a compra dos direitos do livro. Mas isso não significa que ninguém irá comprá-lo - certamente, alguém o fará.

Se o livro for realmente publicado, o quão isso será ruim para o New York Times?

Depende do assunto sobre o qual ele escrever. Percebo que o livro irá focar mais em assuntos raciais no mundo profissional em geral, e não nas fofocas internas do New York Times. Acho que até o livro sair, muito deste burburinho já estará esquecido.

Segundo a sua matéria no Observer, Jayson disse que ‘ quer oferecer sua experiência como uma lição’, no que se trata de assuntos raciais, ambição e jovens jornalistas. Você acha que seu livro teria mais sucesso se levantar a questão social do problema, como a ação afirmativa, ou a questão jornalística do problema?

Ele disse que vai abordar o lado social do problema, o que, provavelmente, é a única maneira que ele tem de dar a história alguma credibilidade. Caso contrário, trata-se de uma história de fofocas que não encontra muitos interessados fora do mundo do jornalismo.

Será que este livro poderá torná-lo de vilão à vítima?

Isso depende totalmente de quão convincente serão seus argumentos. Acho que será muito difícil para ele convencer qualquer um que ele seja uma vítima de circunstâncias raciais. Mas alguma reabilitação de imagem poderá concertar o problema. Um profissional de uma editora chegou a sugerir que Jayson passasse um tempo trabalhando para alguma ONG.

Será que esta história daria mesmo um bom filme de Hollywood?

Não faço idéia.

Alguém já pensou em fazer uma série para a TV?

O agente me disse que Jayson esta focando num acordo com cinema. Mas acho que ele consideraria qualquer coisa caso o dinheiro for bom.

Você acha que Jayson Blair será lembrado no futuro como um jornalista que pisou na bola, como Janet Cook e Stephen Glass, ou será que ele acabará nas prateleiras como um ótimo escritor de ficção?

Apenas o tempo vai dizer. Que eu saiba, ele não tem nenhuma aspiração a escritor de ficção.

Como a redação do Observer reagiu ao saber do episódio?

Ficamos surpresos como todo mundo. Reagíamos como repórteres: ‘como podemos chegar no miolo desta história ?’ A reportagem agressiva do meu colega Sridhar Pappu nos rendeu uma entrevista com o Blair. Eu fui direto no agente literário.

Na sua opinião, como os jornais aqui estão cobrindo o assunto?

Exageradamente.

Será que o episódio receberia tanta atenção se não tivesse acontecido no New York Times?

Não.

Você compraria o livro ou viria o filme de Jayson Blair?

Se eu não tiver que pagar por isso, claro que sim."

 

Tatiana Bautzer

"Jornalismo ou ficção?", copyright Valor Econômico, 23/05/03

"Executivos presos por maquiar balanços, políticos corruptos e banqueiros condenados a multas milionárias não conseguiriam imaginar uma vingança melhor. O ‘The New York Times’, um dos jornais mais respeitados do mundo, reservou quatro páginas de sua edição de domingo, 11, para contar como um dos seus proeminentes repórteres sistematicamente inventou personagens, situações e declarações ou plagiou outros jornais. Jayson Blair, 27 anos, cometeu ‘fraude jornalística’, segundo o próprio Times, em 36 das 73 reportagens que publicou na editoria nacional. O auge foi assinar artigos de cidades do meio-oeste americano, enquanto os escrevia de seu apartamento em Nova York.

A repercussão foi gigantesca e promete deixar uma marca mais duradoura na imprensa americana. ‘Um escândalo como esse machuca a todos’, diz o ombudsman do Washington Post, Michael Getler. Na reportagem na qual narra os problemas do repórter, que chegou a ser dependente de cocaína e álcool, o Times admite que o episódio é um ‘ponto fraco’ nos seus 157 anos de história.

Em parte, Blair conseguiu enganar seus editores por tanto tempo porque muitos dos personagens de suas reportagens, mesmo quando caracterizados em situações que nunca existiram (como familiares de uma combatente na guerra do Iraque) não fizeram reclamações formais ao jornal, demonstrando não confiar de qualquer forma na imprensa.

‘Acho que os jornais precisam tirar disso uma lição, têm que construir uma ponte com seus leitores’, afirma Michael Hoyt, editor executivo da ‘Columbia Journalism Review’, revista bimestral de análise da imprensa americana editada pela Universidade de Columbia.

Não que o caso de Blair tenha, por assim dizer, inaugurado a fraude jornalística nos Estados Unidos. O mais rumoroso até agora havia sido o de Janet Cook, repórter do ‘Washington Post’ que teve de devolver um prêmio Pulitzer em 1981 depois de admitir ter inventado o personagem de sua reportagem, uma criança de 8 anos viciada em heroína. Há alguns anos foi demitido um editor do ‘The Wall Street Journal’ que vendia informações a um corretor sobre o que seria publicado numa coluna diária sobre mercado acionário. Mas a extensão do escândalo de Blair é maior, já que as mentiras envolviam reportagens sobre assuntos de importância nacional e em alguns casos processos judiciais.

O ‘New York Times’, seguido por diversos jornais em todo o país, está discutindo códigos internos de conduta e critérios para aumentar a exatidão das informações publicadas. ‘Ninguém mais vai ficar confortável ao ler uma reportagem que tem declarações boas demais’ (para serem verdadeiras), diz Hoyt, da Columbia.

Para o ombudsman do Post, os jornais vão passar a checar mais as referências de seus funcionários e tentar conhecer um pouco de sua história antes da contratação - já que a relação de confiança continua sendo imprescindível.

Com feridas abertas, sangrando publicamente, é possível que a imprensa perca algo de seu poder na relação com o governo ou com empresas privadas? ‘Sem dúvida, esse escândalo é uma arma nas mãos dos inimigos da imprensa’, diz Hoyt.

Alguns dias depois do escândalo de Blair ter sido capa de uma das grandes revistas semanais americanas (‘Newsweek’), numa entrevista a uma rede de televisão, o chefe de um departamento da polícia de Los Angeles respondia a uma denúncia feita por um jornal de que poucos processos contra policiais são levados à Justiça. Sem responder diretamente à questão, o entrevistado apenas acusou o repórter de ter cometido erros numa reportagem anterior.

Para o ombudsman do Post, o jornal que levantou o escândalo de Watergate, a administração Bush já está recebendo um tratamento muito menos crítico do chamado ‘Quarto Poder’ do que mereceria.

A ofensiva de relações públicas da Casa Branca para convencer a opinião pública da necessidade da guerra contra o Iraque surtiu efeito e o presidente mantém altos índices de aprovação desde o início do conflito. Mesmo após o fim da guerra e com os sinais de debilidade da economia, a popularidade de George Bush não foi afetada. A cobertura da guerra em si foi ostensivamente parcial nas cadeias de TV americanas, que deixaram de mostrar imagens de protestos contra o início do conflito ou de soldados mortos. Alguns repórteres de TV perguntavam se manifestantes não achavam ‘antipatriótico’ protestar.

Embora a cobertura dos jornais não tenha sido tão parcial, durante a guerra não houve tampouco arroubos de crítica. O fato de muitos dos repórteres terem se deslocado junto com as tropas ajudou na campanha do governo americano. Hoje, o noticiário sobre o novo governo iraquiano, a perspectiva de retomada da produção de petróleo e os contratos de reconstrução já ofuscou o fato de as buscas do Exércio não terem encontrado até agora provas da existência de armas de destruição em massa, motivo alegado para a guerra.

No escândalo Jayson Blair, algumas das informações inventadas pelo repórter foram atribuídas a fontes cujos nomes não foram divulgados - e que na verdade, não existiam. Hoyt, da Columbia Journalism Review, acredita que os editores dos jornais serão mais cuidadosos a partir de agora com a publicação de reportagens com fontes chamadas em ‘off’, no jargão jornalístico, e passarão a exigir que pelo menos internamente o nome das pessoas seja revelado.

O problema é que usar essa estratégia é praticamente imprescindível na cobertura independente de um governo, lembra o ombudsman do Post. O nome da fonte principal das reportagens do Post que resultaram na renúncia do presidente americano Richard Nixon até hoje não foi divulgado. Além dos dois repórteres envolvidos, só um diretor do jornal sabia sua identidade.

O fato de Jayson Blair ser negro e ter entrado no Times num programa que incentiva a diversidade na contratação de funcionários provocou alguma polêmica nos Estados Unidos. Na apuração de responsabilidades pelo caso, aventou-se que Blair, apesar de ter cometido muitos erros antes de ser finalmente desmascarado, teria escapado de demissão por ser negro. ‘Acho que essa é uma questão menor do episódio, tem sido um pouco exagerada’, diz Hoyt.

Um fator mais importante, na opinião do editor da Columbia Journalism Review, foi a habilidade de Blair na política interna do Times. Na reportagem que publica esta semana sobre o escândalo, a Newsweek credita boa parte da culpa ao sistema de favoritismo instituído por altos editores do Times.

Com a carreira jornalística encerrada, Jayson Blair, entretanto, não ficará sem dinheiro. Já começou a fazer contatos com editores e deve escrever um livro sobre o episódio. Também é possível que sua história inspire um filme. Talvez ele precise realmente de recursos para financiar advogados, já um dos atingidos por suas invenções, o advogado geral dos EUA, Thomas Di Biagio, está processando o ex-repórter por fraude.

Não será o primeiro a explorar a própria derrocada num livro. No início deste mês foi lançado o livro ‘The Fabulist’ (ou o Contador de Fábulas), do ex-free lancer da revista ‘The New Republic’, Stephen Glass. Demitido também por reportagens completamente fantasiosas que escreveu quando tinha 25 anos, Glass divide com Blair a ambição desmedida e a falta de escrúpulos para atingir os objetivos. Hoje, Glass está formado em direito e pretende iniciar a carreira de advogado.

Entretanto, a fraude melhor sucedida literariamente, digamos, é a de um corretor e não de um jornalista. Nick Leeson, autor do livro ‘Rogue Trader’, levou o centenário banco Barings à bancarrota em 1995 ao acumular mais de US$ 1 bilhão em prejuízos na unidade de Cingapura. O sucesso de vendas inspirou um filme, lançado em 1999, no qual Leeson é protagonizado pelo ator Ewan Mc Gregor."

 

Walter Ceneviva

"A mitomania no jornalista e nos outros", copyright Folha de S. Paulo, 24/05/03

"O mundo do jornalismo (ou o jornalismo do mundo?) se agitou com o caso do jornalista do ‘New York Times’ que inventou reportagens inteiras, criando fatos e fotos inexistentes, até ser desmascarado. Seja reconhecido, porém, que despertou escândalo pela sua raridade e, óbvio, por ser do sacrossanto ‘New York Times’, o jornal cuja respeitabilidade caminha para os 200 anos de existência.

Há e sempre houve jornalistas ‘inventores’. Talvez seja parte da empolgação do domínio dos fatos; não sei. A história aponta órgãos da mídia e empresas que estimularam o estardalhaço, ainda que falso no todo ou em parte, para atingir adversários. A prática, porém, é recusada pelo jornalismo sério, com seus manuais de redação e, no caso da Folha, com seu ombudsman.

O mal não é só de jornalismo e jornalistas. A mitomania é doença presente em todos os segmentos da sociedade. Para ela, são frágeis as armas do Direito quando se expressa em palavras, atos e até em gestos. É o que se constata, entre os exemplos mais evidentes, no mundo das artes -em particular no da literatura e de seus críticos-, no confuso universo da política, no esporte, com mitômanos do doping e cartolas.

Nem universos formais e severos escapam. É o caso das densas teses acadêmicas, apresentadas em respeitadas escolas e, às vezes, aprovadas com aplausos, mas, depois, escrachadas como plágios vergonhosos. Conta-se até de um candidato a professor que, lendo trabalho ‘seu’, em um certo momento começou a ser acompanhado, num jogral farsesco, pelo verdadeiro autor, que se encontrava na assistência, e passou a ler o original, em voz alta.

Fala-se, no mundo acadêmico -talvez o leitor não saiba-, de escolas superiores que são um ninho de muitas cobras, no qual as luvas de seda disfarçam -mas não excluem- os punhais afiadíssimos da crítica ferina pelas costas. Daí haver também acusações falsas de plagiarismo, pelos derrotados ou por seus amigos. Aqui também as barreiras do Direito não funcionam.

O que leva tanta gente à mitomania, à invenção, ao aproveitamento desonesto do trabalho alheio, até chegar ao crime, capitulado nos diplomas legais?

É a glória, o dinheiro, a respeitabilidade a todo custo, que, às vezes, se torna perene. Nesse campo, o abuso é parecido com o adultério: o adúltero se diverte até ser descoberto, quando passa a ser execrado.

Há graus de gravidade, que a lei reconhece ao descambarem para a criminalidade. No jornalismo, a prática é extremamente danosa quando ofende a honra, a vida, a privacidade, a imagem da vítima. Pior, ainda, quando praticada pela ambição de fama, do dinheiro ou por vingança. O jornalista, porém, está cada vez mais sujeito aos limites de sua liberdade. Livre de censura prévia, é submetido a avaliações posteriores que podem levá-lo a desastres penais e/ou econômicos. Por isso tende a ser cada vez mais cuidadoso, buscando a verdade na transposição de fatos em palavras.

O ‘New York Times’ assumiu o erro de sua editoria e aceitou as consequências. As universidades guardam histórias de concursos burlados por concorrentes ou cujos resultados foram distorcidos pelos meandros políticos do ‘establishment’. Preferem, em geral, a discrição. O risco evidente da exposição às penas sociais, civis e criminais nunca impediu a tentação dos minutos de fama, ainda que efêmeros. Parece que a natureza humana jamais eliminará tentações e tentados. Nas universidades e no jornalismo provocam estupefação por um traço comum: são raros. Ainda bem."


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