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GRANDE IRMÃO / EUA
James Bamford
"‘Grande Irmão’ está de olho nos americanos", copyright O Estado de S. Paulo / The New York Times, 25/05/03
"O céu estava quase sem nuvens no dia 19 de agosto de 1960, quando o capitão Harold E. Mitchell decolou do Havaí em seu pequeno C-119 Flying Boxcar. Pouco tempo depois, na escuridão do espaço, um satélite em órbita ejetou uma pequena cápsula de filme, que caiu em direção à Terra protegida por um escudo térmico. Quando a cápsula entrou na atmosfera, um pára-quedas se abriu, iniciando uma lenta descida sobre o Oceano Pacífico. Então, como um defensor que apanha a bola rebatida no beisebol, Mitchell recolheu o objeto cadente - na terceira tentativa - com um aparelho parecido com um trapézio no nariz de seu avião.
Naquele instante, nasceu a espionagem por satélite. Dentro da cápsula estavam milhares de imagens do território soviético inéditas para a inteligência dos EUA.
Passados 43 anos, imagens de satélite similares às coletadas pela CIA estão disponíveis para qualquer pessoa munida de um cartão de crédito. De tomadas detalhadas de instalações nucleares da Índia a fotos em alta resolução do quintal do vizinho, imagens de satélites de reconhecimento se tornaram tão fáceis de obter quanto um livro da Amazon.com. Na verdade, muitas delas podem ser encontradas de graça na internet.
Este mês, num esforço para melhorar a cobertura de inteligência por satélite de alvos de alta prioridade, o presidente Bush ordenou que as agências de espionagem começassem a comprar quantas imagens conseguissem de companhias privadas. As razões eram qualidade e quantidade. A resolução das imagens dos satélites comerciais de hoje é comparável à do mundo da espionagem, e seus números crescem constantemente.
Mas a alta qualidade e a disponibilidade de tais imagens também levantam questões. Por mais de quatro décadas, a inteligência dos EUA apontou suas câmeras quase exclusivamente para alvos estrangeiros. Mas hoje as lentes estão focalizando também os cidadãos americanos.
Minutos depois de alguém começar a atirar contra passageiros no Aeroporto Internacional de Los Angeles no dia 4 de julho, por exemplo, agências policiais passaram a receber imagens detalhadas do aeroporto e as coordenadas exatas do local do ataque. As fotos vieram da Agência Nacional de Imagens e Mapeamento, responsável pela análise das imagens dos satélites espiões. Suas imagens também foram usadas na Olimpíada de Inverno, em Salt Lake City, para ajudar o Serviço Secreto e o FBI na segurança.
Mas, enquanto as câmeras fecham o ângulo sobre alvos domésticos, as questões legais, políticas e éticas continuam em aberto. ‘Nossa posição definitiva sobre como responder a isso ainda está em elaboração’, disse James Clapper, diretor da agência de mapeamento, numa entrevista publicada no ano passado pela Signal Magazine.
Enquanto isso, as capacidades de imagem por satélite crescem exponencialmente. Além do uso expandido dos satélites comerciais, que podem servir para vigilância no exterior e em casa, há planos em andamento para aumentar o número de satélites espiões. Sob um programa conhecido como Arquitetura de Imagem Futura, as agências de inteligência planejam lançar cerca de dez satélites para substituir os quatro ou cinco atualmente em órbita. Embora menores que os antecessores, estes modelos, graças a seu maior número, permitirão a cobertura mais constante dos alvos.
Com os satélites comerciais e espiões em número suficiente, complementados por aeronaves e um sistema terrestre para unificar todo o esquema, a comunidade de inteligência poderá um dia obter o máximo em cobertura: vigilância constante e em tempo real de todo o planeta.
Mesmo sem essa cobertura, as imagens e outras tecnologias de satélite já entram em choque com a privacidade. Considere a constelação de satélites de posicionamento global que fornecem precisas informações de localização a receptores portáteis. Muitas pessoas os usam para determinar suas posições quando dirigem, navegam ou fazem caminhadas. O presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, carrega um desses o tempo todo, para o caso de ser seqüestrado ou ser alvo de uma tentativa de assassinato.
Mas o xerife do condado de Spokane, Washington, encontrou outra utilidade para o receptor, chamado de GPS. Esperando descobrir onde um suspeito de assassinato escondera o corpo da vítima, um de seus agentes colocou um dispositivo de rastreamento via satélite no carro do homem.
Involuntariamente, o suspeito levou o xerife direto para a cova da vítima.
Permitir que a polícia ‘plante’ tais aparelhos em suspeitos sem um mandado é motivo de preocupação para muitos.
‘Desejamos realmente a capacidade de rastrear todo mundo o tempo todo, sem qualquer suspeita ou sem causa provável?’, perguntou o advogado Doug Klunder no jornal The Seattle Post-Intelligencer. ‘Quão perto estamos do Grande Irmão?’
Semanas atrás, a Corte Suprema do Estado de Washington ouviu argumentos sobre a questão da necessidade ou não de mandado para rastrear em segredo os movimentos de uma pessoa usando um dispositivo GPS.
Testes legais desse tipo quase com certeza continuarão. Tão certo e constante quanto o fato de a tecnologia de satélite ter migrado do setor militar para o mercado será o questionamento de seu uso nos tribunais.
Há dois anos, o uso policial da imagem térmica - uma tecnologia também intrusiva - virou tema na Corte Suprema dos Estados Unidos. A tecnologia detecta padrões de calor dentro de edifícios. Sob as condições certas, um dispositivo altamente sofisticado pode ‘enxergar’ as marcas de calor das pessoas numa casa e seguir seus movimentos.
A polícia usa a tecnologia ocasionalmente para localizar maconha detectando o calor das lâmpadas de alta intensidade usadas para o cultivo. A Corte Suprema americana decidiu que um mandado é necessário.
Adotar qualquer outra posição, argumentou o juiz Antonin Scalia, ‘deixaria o morador à mercê dos avanços tecnológicos - incluindo tecnologia de imagem que poderia discernir todas as atividades humanas dentro da casa’.
Em casa, acrescentou Scalia, ‘todos os detalhes são íntimos, pois a área toda é protegida dos olhos intrometidos do governo’. (James Bamford é autor de Body of Secrets: Anatomy of the Ultra-Secret National Security Agency (Corpo de Segredos: Anatomia da Ultra-Secreta Agência de Segurança Nacional), Anchor, 2002)"
LE MONDE EM XEQUE
Daniela Fernandes
"O risco de deitar sobre a glória", copyright Valor Econômico, 23/05/03
"Poucos jornais no planeta têm o prestígio e a notoriedade do diário vespertino francês ‘Le Monde’. Considerado uma referência jornalística na França, ele é aguardado com ansiedade no início das tardes nos gabinetes dos ministérios e escritórios de grandes empresas. O público em geral também se interessa pela publicação: basta tomar o metrô à tarde em Paris e observar o número de pessoas com o ‘Le Monde’ nas mãos. Mas este jornal reputado sofreu recentemente um bombardeio de graves acusações contra a sua integridade, reunidas no livro ‘La Face Cachée du Monde - Du Contre-Pouvoir au Abus de Pouvoir’ (A Face Oculta do Monde - Do Contra-Poder ao Abuso de Poder), de autoria dos jornalistas de investigação Pierre Péan e Philippe Cohen.
Este não é o primeiro livro publicado sobre o célebre jornal, um dos maiores da Europa, mas é o primeiro a acusá-lo de pôr em risco a democracia francesa por meio de tráfico de influência, abuso de poder e arrogância editorial. O ‘Le Monde’, segundo os autores, seria dirigido por uma espécie de máfia ‘que detesta a França’ e que instalou na redação do jornal um sistema totalitário. Seu conteúdo teria sido desviado por ‘piratas do jornalismo’. As acusações são feitas contra Jean-Marie Colombani, presidente do grupo Le Monde e diretor da publicação, Edwy Plenel, diretor de redação, e Alain Minc, presidente do Conselho de Fiscalização, responsável pelas contas da empresa. O trio realizou as reformas iniciadas a partir de 1994 e que resultaram no que os autores chamam de ‘novo Le Monde’, que apresentaria hoje, segundo eles, ‘todos os traços da impostura, mesmo se se trata de uma impostura moderna’. Para eles, o novo Monde não tem mais a filiação moral, política e cultural do jornal de Hubert Beuve Méry, seu fundador há 59 anos.
É fácil imaginar como o assunto despertou a curiosidade dos franceses. No primeiro dia de seu lançamento, no final de fevereiro, o livro, que custa ? 24 (R$ 85) e foi publicado pela Éditions Mille et Une Nuits, já estava esgotado. O sucesso da publicação foi comparado ao do livro ‘Versos Satânicos’, de Salman Rushdie, uma das melhores performances de lançamentos editoriais na França. Naquele dia, os caixas da Fnac em Paris registraram a venda de centenas de exemplares de ‘La Face Cachée du Monde’ por hora. Uma segunda edição foi feita às pressas e, atualmente, 280 mil exemplares já foram vendidos no país e uma tradução para o grego, por enquanto, está sendo negociada pela editora.
Os autores discorrem nas 637 páginas do livro inúmeros exemplos que comprovariam as ‘traições’ feitas pelo jornal sob a forma de denúncias sem ouvir a outra parte, cinismo, abuso de poder e autocracia. O jornal teria, por exemplo, contribuído para a derrota do ex-primeiro ministro socialista Lionel Jospin, nas eleições presidenciais de 2002, ao revelar sob forma sensacionalista o passado trotskista de Jospin, que este escondera do Partido Socialista. O jornal teria também contribuído para a queda do poderoso Jean Marie Messier, ex-presidente da Vivendi Universal, e apoiado a candidatura de Eduard Balladur contra Jacques Chirac nas eleições de 1995.
Segundo os autores, a direção do ‘Monde’ passa da função editorial à empresarial ‘de acordo com seus interesses’. Eles reconhecem que isso ocorre com freqüência na imprensa em geral, mas ressaltam que pelo fato de o ‘Monde’ ser um jornal de referência, seu conteúdo editorial não deveria sofrer influências nessas proporções. ‘O livro mostra que o ‘Le Monde’ exerce funções que não são tradicionais de um jornal’, afirma Pierre Péan, autor de outra publicação de bastante sucesso na França, ‘Une Jeunesse Française’, que revelou as ligações do ex-presidente socialista Mitterrand com partidos da direita durante sua juventude. Os autores citam o exemplo das subvenções governamentais obtidas para resolver um problema de distribuição dos jornais parisienses, intermediadas por Colombani, presidente do grupo Le Monde. Ele teria pedido depois ao poderoso sindicato dos gráficos, beneficiários dos recursos do governo, uma ‘comissão’ por ter auxiliado na negociação.
Colombani, de origem córsega, é acusado também de apoiar os nacionalistas da ilha, que defendem a independência, e de ter usado sua influência junto a Lionel Jospin para a realização de um projeto de lei que daria mais autonomia à Corséga. Além disso, segundo o livro, Colombani teria treinado políticos para participarem de debates na TV, aceito viagens gratuitas ao Festival de Cannes e aumentado seu próprio salário em 85%, para quase ? 30 mil (R$ 105,7 mil). Edwy Plenel, diretor de redação, é acusado de ter trabalhado, na época em que era repórter de polícia do diário, também para o jornal do sindicato da polícia francesa e de ter tido relações bastante próximas com o chefe da polícia nacional, comprometendo sua independência profissional.
Para a direção do jornal, este livro é motivado pela ‘inveja e pelo ódio’. O próprio ‘Le Monde’ contribuiu para o sucesso das vendas, já que o jornal comprou 130 exemplares para distribuir à redação. No início de abril, o ‘Monde’ entrou na Justiça contra os autores e a editora pedindo uma indenização de ? 1 milhão (R$ 3,5 milhões) por calúnia e difamação. ‘O livro é cheio de montagens que podem ser contestadas e é um conjunto de calúnias’, disse Colombani, diretor do ‘Monde’, durante um programa na TV francesa. Para participarem da emissão, Colombani, Plenel e Minc exigiram que os autores não estivessem presentes. Após o lançamento, o ‘Monde’ publicou uma série de artigos diários contestando as informações do livro. No primeiro deles, a maior parte das explicações se referiu a erros de ortografia nos nomes das pessoas citadas.
Segundo Francis Balle, professor da Universidade Paris II e ex-diretor do Instituto Francês de Imprensa, autor do livro ‘Mídias e Sociedade’ (que está em sua 10ª edição), práticas como privilegiar interesses econômicos da publicação ou relações pessoais entre dirigentes de jornais e autoridades não são restritas somente ao ‘Monde’. ‘O Monde é mais vulnerável a essas críticas porque trata-se de um jornal de referência. Os mesmos comentários em relação ao ‘Figaro’ ou ao ‘Libération’ teriam tido uma repercussão muito menor’, diz ele. Para Balle, os leitores do jornal tiveram curiosidade em relação ao livro de Péhan e Cohen, mas não teriam perdido a confiança no jornal, deixando-o de comprá-lo ou lê-lo. ‘É perfeitamente normal e mesmo desejável que uma instituição possa ser objeto de críticas se elas são resultantes de uma enquete feita com seriadade’, diz o professor. ‘Certamente as acusações do livro, pelo menos parte delas, têm um fundo de verdade. O problema é a maneira como isso foi revelado ao público’, conclui o professor, para quem um jornal tido como de referência se expõe a dois riscos: repousar sobre os louros da glória e sofrer contestações em excesso e, muitas vezes, injustas."
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