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ELIO GASPARI / AS ILUSÕES ARMADAS
Marcos Sá Corrêa
"1964, o tempo que enfim terminou", copyright No Mínimo (www.nominimo.com.br), 23/11/02
"Nada de sério aconteceu no Brasil durante o dia 31 de março de 1964, data oficial de nascimento do regime militar que mandou no Brasil por 21 anos. Sacando telefones em vez de armas, chamando os quartéis à disciplina e não à rebelião, mais preocupados em segurar suas dragonas do que em derrubar o governo João Goulart, os generais passaram aquelas 24 horas em manobras de auto-preservação política. Só começariam a avançar no dia seguinte, depois que o presidente deu todos os sinais de que sua reação seria voar para o Uruguai. Assim Jango caiu num 1o de abril.
Nada demais aconteceu também no dia 12 de outubro de 1977, quando o presidente Ernesto Geisel demitiu o ministro do Exército Sylvio Frota, que chocava uma campanha sucessória nos porões onde o Estado policial virara uma máquina autônoma de moer adversários e quebrar hierarquias, capaz de funcionar até sem inimigos. Sedado pelos longos anos de censura e repressão política, naquele feriado o país não se mexeu. E os civis, que só ouviram falar desse duelo de generais depois que Frota estava de pijama, sequer foram mobilizados naquele feriado em que a ditadura se feriu mortalmente. Entrariam em marcha quando começaram os oito anos de estertor, primeiro com a convocação de Geisel para a chamada abertura política, em seguida no governo do general João Figueiredo, quando tudo o que o regime ainda conseguia fazer era paródia de si mesmo.
Esta é, contada em 237 palavras, a história de um tempo em que o Brasil se dividiu ao meio e até hoje não foi contada porque os dois lados mentiam. Para emendá-la o jornalista Elio Gaspari levou dezoito anos e por enquanto as 924 páginas do que chamou de ‘preâmbulo’. Há outras mil a caminho. No total, dá quase uma página para cada três dias de vida da ditadura, porque Gaspari avisa logo na introdução que dispensará, por irrelevantes, os seis anos do general Figueiredo. Por que tantas páginas? Porque nelas pela primeira vez se atravessa o labirinto de mentiras, meias-verdades e dissimulações que, no avesso do regime, unia o país inteiro.
No caminho fica o mapa definitivo de uma época que metade dos brasileiros não chegou a ver e a outra metade, que viu, não chegou a enxergar. Mas, antes que o tamanho da empreitada afugente leitores, aqui fica o aviso: o que saiu é tão bom que parece pouco. O grande defeito destes dois primeiros volumes está na página 464 do segundo. Acaba-se o último capítulo, que desfolha a guerrilha no Araguaia, alinhada entre os massacres de Canudos e do Contestado como exemplo do que a civilização brasileira é capaz de fazer quando pega em armas no fim do mundo, e se desemboca no apêndice ‘Breve Nomenclatura Militar’, sinal de que será preciso esperar alguns meses para ler o resto.
Fora esse contratempo, o livro de Elio Gaspari, que virou quatro livros, é daqueles que se lê depressa. Às vezes, com rapidez vertiginosa, como nas duas frases em que ele decifra o enigma de Geisel, o general duro e mandão que, por falta de vocação para a democracia, restaurou-a: ‘Quando assumiu, havia uma ditadura sem ditador. No fim de seu governo, havia um ditador sem ditadura’. Ou seja, ‘porque o regime militar, outorgando-se o monopólio da ordem, era uma grande bagunça’ e, vistos de dentro, seus presidentes eram fracos.
Há parágrafos curtos que valem capítulos inteiros. Por exemplo, a biópsia do ‘Brasil Grande’, o coquetel de crescimento econômico com medo político que embebedou o país no governo Médici: ‘No regime do AI-5 um parlamentar não valia nada, mas todos os parlamentares valiam alguma coisa. Com os empresários ocorria o contrário: um por um, valiam alguma coisa, mas todos juntos não valiam coisa alguma’. Quer dizer: com as federações patronais entregues a áulicos, cada um se entendia no varejo com as autoridades desconstituídas.
Não é para menos. Quem o conhece das redações de jornais e revistas sabe que Gaspari escreve em velocidade prodigiosa, como se, em vez de procurar palavras, afastasse as palavras do caminho das idéias. Que um redator como ele tenha levado duas décadas escrevendo um livro - va lá, uma coleção de quatro livros - é uma medida espantosa do trabalho que enfiou nessas duas mil páginas, debulhando cinco mil documentos nas 25 caixas de arquivos do general Golbery do Couto e Silva, as doze fitas que guardaram suas vintes sessões de entrevistas com Geisel, as trezentas horas de conversas gravadas pela própria equipe nos gabinetes onde em 1973 o grupo preparava a volta ao poder ou as anotações de consultas a mais de duzentas fontes.
O resultado de tamanha pesquisa é uma obra em que cada frase tem pelo menos uma informação e cada informação está ancorada numa nota de pé de página, com um certificado de origem controlada. Produto da conspiração entre uma memória lendária, capaz de devolver intata, anos mais tarde, uma história que alguém lhe contou e esqueceu, Gaspari pôs mais notas de pé de página em seus livros do que Gilberto Freyre em Casa Grande&Senzala, onde elas ocupam um terço do espaço dado ao texto. Mas Freyre as usava principalmente para comentários. Gaspari, como instrumentos de precisão.
Tudo isso para cortar ao meio uma história que parecia irremediavelmente cindida e ele conseguiu juntar em todos os seus fragmentos. Se a ditadura de 1964 dividiu o Brasil, os livros de Gaspari juntaram, mostrando que seu outro lado não estava no poder nem nas prisões, mas na democracia que ficara de fora. Para isso, foi preciso desbastar biografias e reputações à esquerda e à direita. Para começar, João Goulart, a primeira vítima, ‘era um dos mais despreparados e primitivos governante da história nacional’. Quem discordar que discuta com a atribuição embaixo da página: Celso Furtado, seu ministro da Fazenda, na revista Playboy em abril de 1999.
Em compensação, contra Olympio Mourão Filho, o general estabanado que o botou em retirada, nem foi preciso sacar adjetivos. ‘Nunca abaixei minha crista para ninguém, nunca curvei minha espinha para fazer pedidos na carreira e nunca deixei desviar da Fazenda Nacional’, Mourão escreveu numa espécie de testamento, ao deflagrar o golpe. Quase 30 anos depois, Gaspari responde: ‘Não há registro de que Mourão tenha curvado a espinha, mas pedidos fazia. Em novembro de 1960, quando presidia a Comissão Técnica de Rádio, um cargo de natureza civil, escrevera ao ministro da Guerra, pedindo que não fosse retirado do quadro de oficiais, porque nesse caso ‘perderia, além de outras vantagens, automóvel, gasolina, ajudante de ordens e a quantia de 870 cruzeiros (o equivalente a 45 dólares)’.
Na queda, o professor Darcy Ribeiro, chefe da casa Civil de Goulart, tentou a resistência, chamando a um palácio do Planalto dois dirigentes do Partido Comunista Brasileiro. Um deles era o deputado federal Marco Antonio Coelho. Vamos ao livro: ‘Para esse encontro há duas versões e uma elipse. Uma, que circulou na época, foi confirmada ao autor em julho de 1969 por Darcy e em 88 por Marco Antônio. O professor teria oferecido aos comunistas submetralhadoras e uma lista de políticos que deveriam ser executados. Nela estariam os nomes do presidente do Supremo Tribunal Federal (Álvaro Ribeiro da Costa), do presidente do Senado (Auro de Moura Andrade) e de alguns parlamentares, entre os quais Milton Campos e Bilac Pinto. A oferta foi rejeitada. Darcy não registrou esse fato em suas memórias. Na elipse, lembrou-se que, nessa tarde, deu ordens incumpríveis. Em 1999 Marco Antônio concluiu suas memórias e, duvidando de sua lembrança, registrou uma situação diferente’. Nela, as armas se resumiriam a um fusil-metralhadora e a lista era só de prisões.
De avesso em avesso, chega-se à metástase do regime com o terrorismo. ‘Seja qual for o nome que se dê ao surto terrorista de 1968’, escreve Gaspari, ‘o que houve de essencial nele foi a instrumentalização daquilo que se denominou guerra revolucionária. Para Marighela e outras organizações de esquerda que usavam a mesma expressão, ela pretendia significar um salto de qualidade no combate ao regime. Havendo a guerra revolucionária, a luta armada deixava de ser uma tese, tornando-se uma inevitabilidade. Para os comandantes militares, havendo guerra revolucionária, o regime constitucional deixava de ser um constrangimento, tornando-se um estorvo’.
Quando o regime bateu no fundo do poço, supunha-se que seus pontos extremos fossem a tortura e o terrorismo. Feroz engano. Ambos geraram uma história que, depois, não puderam contar, por horrorosa. E os dois inimigos, cada um a seu modo, convergiram na vitória e na derrota para o puro banditismo. ‘Desde 1964’, segundo Gaspari, ‘quando a polícia paulista sumira com um casaco de peles da casa de Luiz Carlos Prestes, os agentes que invadiam aparelhos dispunham de uma carta de corso sobre os bens que lhe interessassem. Furtavam até anéis de presas’. Deles saiu Aílton Guimarães, o capitão condecorado que assaltava contrabandistas e, livre da farda, virou bicheiro.
E para os militantes da luta armada, os assaltos adotados como tática revolucionária aos poucos se transformaram em expediente de subsistência: ‘É difícil caracterizar o comportamento de militantes de grupos esquerdistas como quadrilheiros, pois diversas camadas de racionalização mascaram a decadência política das organizações insolventes. Mesmo assim., quando um pequeno grupo de militantes reduz sua atividade política a assaltos destinados apenas a sustentar-lhe a precária clandestinidade, pouca diferença há entre um revolucionário e um assaltante’.
Matou-se muito: ‘Para cada cinco mortos na esquerda ligada a ações armadas nas cidades, essa mesma esquerda matou duas pessoas’. E mentiu-se tanto para desovar os cadáveres fabricados pelos interrogatórios militares que a mentira perdeu o compromisso até com a verossimilhança. ‘Tamanha onipotência na manipulação da realidade produziria dois casos patéticos. De acordo com a documentação oficial, o ‘cubano José de Oliveira chegou morto ao IMI, com três balas na cabeça, dezoito horas antes do tiroteio em que teria sido alvejado. Outro ‘cubano’, Frederico Eduardo Mayr, morre três vezes. A primeira, ‘a caminho do hospital’ depois de um tiroteio na avenida Paulista. A segunda, no dia seguinte, fugindo de um ‘ponto’ no Jardim da Glória. A terceira, no mesmo dia, alvejado pelos colegas quando estava dentro de um carro, preso. Na verdade, Mayr foi para o DOI, preso, onde o fotografaram e ficharam, dando-lhe o número 1112. Tinha uma bala alojada debaixo da pele da barriga. O ferimento era tão superficial que se podia apalpar o projétil. Conversava normalmente. Mataram-no com três tiros no peito, perfurando-lhe os dois pulmões’.
No Araguaia, onde o PCdoB tentou plantar o ‘grande sonho da guerra popular amazônica’ e acabou recrutando meninos de até dez anos de idade, seu comandante Ângelo Arroyo fugiu para São Paulo e a guerrilha fracassou, abandonando 30 militantes à política de extermínio das patrulhas militares. Na selva, morria-se assim: ‘Na tarde de 5 de fevereio de 1974 Osvaldão estava sozinho, escondido na floresta. Arlindo Vieira, o Piauí, um jovem camponês que colaborara com os guerrilheiros, vinha à frente de uma patrulha militar. Viu-o numa capoeira, sentado num tronco. Matou-o com um só tiro. O corpo enorme e depauperado do guerrilheiro morto foi pendurado num cabo e içado por um helicóptero. Despencou. Amarraram-no de novo, e assim o povo da terra viu que Osvaldão se acabara. Antes de sepulta-lo, cortaram-lhe a cabeça’.
Desperdiçou-se uma juventude, egressa das manifestações estudantis de 1968, em que ‘a idade média dos guerrilheiros estava abaixo de trinta anos’. Deles, ‘cinco passaram por faculdades de medicina. Três estudaram física e um deles, astronomia. Duas jovens abandonaram cursos de letras, uma das quais matriculada nas cadeiras de alemão e japonês. Outro tinha três anos de química e um de teoria musical, o que o tornaria flautista do grupo’.
Eram 71 guerrilheiros. ‘Cada guerrilheiro tinha um revólver com quarenta balas. O conjunto dispunha ainda de quatro submetralhadoras, duas de confecção doméstica, mais 25 fuzis e rifles. Eram essas suas armas de guerra (menos de uma para cada dois guerrilheiros)’. Enfim, ‘cada patrulha tinha mais poder de fogo que toda a guerrilha junta’.
O Exército pagava mil cruzeiros por guerrilheiro e a população, que os guerrilheiros queriam sublevar, ajudou a liquidá-los. Por exemplo: ‘O lavrador Pernambuco delatou Carlito, que parara num castanhal. Uma fístula de leishimaniose na perna impedia-o de caminhar e ele pedira aos companheiros que o deixassem. Foi visto surrado, em cima de um burro. Mataram-no três dias depois. Quando seu cadáver foi fotografado, ainda tinha no pescoço a bússola que sempre trazia pendurada. Outro camponês, João Coió, tocaiou sua amiga Maria’. Os presos, ‘rendidos e submissos’, foram assassinados. Puseram alguns deles em aviões tripulados por equipes do Centro de Informações da Aeronáutica e jogaram-nos no oceano’.
A última guerrilheira morrer se chamava Walkíria: ‘Chegara ao mato em 1971 e dois anos depois estivera no pelotão de quatro muilheres que assassinaram um funcionário da Companhia de Terras de Goiás. Segundo o registro da Marinha enviada ao Congresso, Walk foi a última combatente executada. Morreu no dia 25 de outubro de 1974. O mateiro Sinésio Martins Ribeiro viu-a presa na base de Xambioá: ‘Ela estava bem cuidada, limpa, com roupa nova, um vestido, falando com o doutor. O doutor não gostava de falar com guerrilheiro sujo’. Um soldado levou-a para o mato, carregando uma lata de biscoitos com cal virgem. Dias depois, quando Sinésio perguntou ao soldado onde ela estava, ouviu: Já era’.
Depois que tudo acabou, os dois lados tinham muito o que esconder. Segundo Gaspari, porque ‘o Exército nunca contou o que aconteceu e o PCdoB nunca reconheceu a derrota militar de sua iniciativa política’. Em 1975, dois anos depois do massacre, seus propagandistas ainda proclamavam: ‘Do ponto de vista da luta do nosso povo e do papel do partido, no que respeita aos sucessos do Araguaia, é altamente positivo’. Em resumo, ‘enquanto os capas-pretas do PCdoB combatiam numa guerrilha que não tinha mais história, o CIE combatia a História, para que nela não existisse guerrilha. Apagava o registro do extermínio’
Apagava, não. Como se vê. Com o lançamento dos livros de Gaspari, o regime militar dá sua segunda volta no túmulo. Ele tinha acabado de acabar quando Zuenir Ventura fez, com ‘1968, o ano que não acabou’, o país acertar as contas com um regime que lhe roubara uma idade de ouro em que o mundo era mais divertido e o Brasil mais sombrio. Era um livro sobre uma época que os mais velhos precisavam lembrar e os mais moços conhecer. Agora sai seu complemento definitivo, a história de um tempo que os mais velhos ainda precisavam conhecer e os mais moços esquecer."
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