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ELIO GASPARI / AS ILUSÕES ARMADAS
Zuenir Ventura

"Fim de semana de imersão", copyright No Mínimo (www.nominimo.com.br), 23/11/02

"Quando Luiz Schwarcz, com a concordância de Elio Gaspari, me chamou para fazer essa ‘Reportagem Especial’ sobre os dois volumes de ‘Ilusões armadas’, eu reagi como um foca e quase amarelei: achei que não daria conta do recado. Afinal, o autor passara 18 anos de sua vida escrevendo o livro. Como resumir num press-release uma obra que se sabia portentosa, gigantesca? Acho que o que me salvou foi ter passado um fim de semana em São Paulo, num hotel perto do apartamento de Dorrit e Elio, onde eu chegava de manhã e saía tarde da noite. Almoçávamos e jantávamos juntos em casa ou fora, e durante o tempo todo conversávamos sobre o período. Elio não só me ajudou, quase que reescrevendo oralmente o livro para mim, como permitiu que eu fuçasse o tesouro em que se baseou a sua pesquisa: papéis, documentos, arquivos, diários, segredos que finalmente ganharam a luz do dia. Foi uma experiência profissional única. Sou grato a Luiz por ter permitido que eu fizesse por obrigação o que fiz por invejável prazer.

1 - Um portentoso painel

De tão esperado, o livro que Elio Gaspari começou a escrever em 1984 e terminou 18 anos depois corria o risco de não conseguir um resultado à altura da expectativa criada. De tão trabalhoso, havia o perigo de que o trabalho pesasse sobre a leitura. De tão pesquisado, temia-se que os meios virassem fim e que os dados prevalecessem sobre o texto. Nada disso aconteceu: ‘As ilusões armadas’ saiu melhor do que se imaginava. Pelo conteúdo, o livro constitui um portentoso painel dos anos mais tormentosos da história contemporânea do país —de 1964 a 1974 (os dois primeiros volumes); e destes até 1977 (os dois volumes a sair)*. Em quantidade de informação, não há nada parecido. Pelo estilo, trata-se de uma obra de arte. Por uma coisa e por outra, é uma obra-prima da reportagem de reconstituição histórica.

Encontram-se aí alguns dos momentos em que a prosa jornalística atinge seus mais altos níveis de excelência estética. O texto é a prova de que numa narrativa se pode usar leveza e graça sem perda de densidade; que é possível oferecer prazer de leitura sem sacrifício de substância; que um admirável equilíbrio permite a coexistência de fatos e interpretação, relato e opinião, análise e síntese. Para a construção dessa monumental obra, o autor leu cerca de 500 livros e publicações, entrevistou mais de 200 pessoas, consultou outras tantas e examinou os cinco mil documentos do Arquivo Golbery, sem falar no diário de Heitor Ferreira, ‘o mais minucioso e surpreendente retrato do poder já feito em toda a história do Brasil’, segundo o próprio Elio. Heitor foi secretário particular dos dois principais personagens dessa história: os generais Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva.

Apesar da busca exaustiva, descobre-se que ele pesquisou em vários lugares, menos dentro do texto. Suas análises são meticulosas e as sínteses, repletas de ironia. A uma se segue sempre a outra. Depois de se assistir à decomposição do esquema de Jango Goulart, tem-se o resumo: ‘O Exército, que no dia 31 dormira janguista, acordaria revolucionário, mas sairia da cama aos poucos’.

Em apenas duas linhas Elio é capaz de desmontar um círculo vicioso: ‘O SNI caía em sua própria armadilha. Fazia qualquer coisa porque era capaz de tudo e, como era capaz de tudo, terminava metido em qualquer tipo de coisa’. Sobre Geisel, depois de analisar o seu governo e sua complexidade, essa síntese: ‘Quando assumiu, havia uma ditadura sem ditador. No fim de seu governo, havia um ditador sem ditadura’.

Sobre a queda de um general conspirador, um resumo machadiano: ‘Quando o dia acabou, Frota estava fora do ministério, da política e da farda’. Do general Lyra Tavares, que escrevia ‘naturesa’, ele diz: ‘entrou para a Academia Brasileira de Letras sem jamais ter feito a paz com a gramática’. Sobre os efeitos da promiscuidade entre militares e policiais torturadores: ‘O delegado Sérgio Fleury não ficou parecido com um oficial do Exército. Eram oficiais do Exército que ficaram parecidos com ele’.

Com um simples deslocamento de palavras, o autor resume o que significou a Guerrilha do Araguaia, quando os radicalismos ideológicos chegaram a seu clímax: ‘A esquerda armada supusera que estava no caminho da revolução socialista, e a ditadura militar acreditara que havia uma revolução socialista a caminho’. As imagens e metáforas de ‘As ilusões armadas’ costumam quebrar a solenidade de uma situação ou de uma frase: ‘Eles passaram de um regime constitucional a uma ditadura distraídos como quem vai à igreja para um batizado, erra de capela e entra numa missa de corpo presente.’

Os que estão acostumados a ler Elio Gaspari na imprensa, um analista político que evita as auto-referências, que nunca fez uso para si de pronomes pessoais, vão se surpreender no início, na ‘Explicação’, quando o autor conta como, ‘encabulado’, teve que confessar um ‘fracasso’, justamente o que acabou gerando o livro. Bolsista do Wilson Center for International Scholars, de Washington, ele pretendia escrever um ensaio de cem páginas intitulado ‘Geisel e Golbery, o Sacerdote e o Feiticeiro’. O propósito era mostrar como o ‘sacerdote’ Geisel e o ‘feiticeiro’ Golbery, ‘tendo ajudado a construir a ditadura entre 1964 e 1967, desmontaram-na entre 1974 e 1979’.

Já tinha 30 páginas escritas quando descobriu que devia desistir ou trabalhar muito mais. Ao entrar sem jeito na sala do diretor do Centro para pedir desculpas pela indecisão e por não ter terminado o ensaio, foi surpreendido com o incentivo para que escrevesse o livro. Poucas vezes, se é que houve outras, alguém flagrou uma situação em que estivessem juntos publicamente os elementos de uma construção gramatical tendo Elio Gaspari como sujeito e, como objeto direto, um ‘fracasso’. Chega a ser irônico que essa obra enciclopédica nasceu de um momento de incerteza de quem não se caracteriza propriamente pela falta de segurança.

É difícil destacar algum trecho do livro entre tantos admiráveis. Se tivesse que fazer, escolheria os capítulos que tratam da tortura, por ter sido este o mais abominável flagelo daqueles tempos e por ser a primeira vez em que se reuniu uma massa de informações como nunca fora reunida antes — confissões e depoimentos publicados ou ainda inéditos, bibliografia nacional e muitos livros sobre a guerra da Argélia e do Vietnam, laboratórios dessa prática. ‘Ao se meterem com a tortura’, diz a primeira frase do segundo volume, ‘os comandantes militares da época levaram as Forças Armadas brasileiras ao seu maior desastre’.

Gaspari faz uma análise insuperável da ‘gangrena’ — suas motivações, seus efeitos, suas implicações, sua eficácia e abjeção. É um documento definitivo essa descida ao inferno dos porões da ditadura, com seus vários círculos de tormentos e castigos. No capítulo ‘O Exército aprende a torturar’, conta-se como ‘na 1a Companhia da PE, na tarde de 8 de outubro de 1969, oficiais do Exército brasileiro escreveram uma triste página da história da corporação’.

Nesse dia, um tenente deu uma aula prática de tortura em que, tendo dez presos como cobaias, ensinava a uma platéia de oficiais do Exército, da Marinha e da Aeronáutica a aplicar modalidades de tortura como choque elétrico, palmatória e pau-de-arara. Nessa altura, como diz Elio Gaspari, ‘não só o regime se impusera à sociedade, mas a tortura se impusera ao regime’.

Como um médico que não discrimina a doença por feia, o autor não deixa que a idiossincrasia o afaste de uma fonte por repulsiva. Sempre que a procura de exatidão exigiu, ele não negou ouvido nem mesmo aos vilões da história, os torturadores. Para checar uma informação como a de que não se pode permanecer no pau-de-arara apanhando por mais de meia hora, sob risco de paralisia renal, ele recorreu a várias fontes, até descobrir que nos casos em que a musculatura mole do preso é espancada repetidamente o organismo libera uma toxina chamada mioglobina.

Por mais abrangente que seja a perspectiva e panorâmico o olhar, por mais transcendentes que sejam os fatos, a narrativa está sempre atenta às circunstâncias: não perde de vista os detalhes que ilustram o caráter de um personagem nem joga fora pequenos registros, desde que significativos para os acontecimentos. Graças a um olhar que por hábito da profissão e imposição da vida já percorreu dos becos pobres da Lapa aos salões da alta sociedade carioca, dos bandejões do Calabouço aos mais sofisticados restaurantes, do Partido Comunista ao Palácio do Planalto, o texto de Elio não discrimina temas nem informações: há comédia e drama, o sórdido e o sublime, o trágico e o ridículo, o patético e o épico.

Haverá quem vá preferir, pela importância que o episódio teve nos destinos da abertura, a cena da demissão em 1977 do ministro do Exército, Sylvio Frota, numa audiência que durou cinco minutos, e uma tentativa de golpe, que não passou de um dia. Tudo sendo resumido assim pelo vencedor, o presidente Geisel: ‘O Frota queria me emparedar, mas eu emparedei ele’.

O capítulo sobre a perseguição e morte de Carlos Lamarca, talvez o mais pungente, e ‘A floresta dos homens sem alma’, o mais selvagem, sobre a guerrilha do Araguaia, preferido do autor, podem sair daí direto para uma antologia dos melhores momentos de reconstituição jornalística. São primorosos.

Elio Gaspari adverte que em nenhum momento ‘passou pela minha cabeça’ escrever uma história da ditadura militar: ‘Falta ao trabalho a abrangência que o assunto exige’, justifica. Vindo dele, a afirmação não pode ser atribuída à modéstia. Em compensação, se não conseguiu isso, conseguiu fazer com que a gente termine o livro acreditando na sua principal tese: ‘a ditadura militar era uma bagunça’.

* Um quinto volume está para ser escrito, indo até o atentado terrorista do Riocentro, em 1981.

2 - Amizade é pacto de sangue

Para dar conta de uma empreitada como a desse livro, pesquisando e escrevendo sozinho as suas 1048 páginas, não basta ter uma cabeça privilegiada, uma memória extraordinária e uma insuperável capacidade de trabalho — é preciso ser Kid Megalô, como Elio gosta de se chamar, para em seguida provocar: ‘O sistema é eliocêntrico, e não fui eu quem disse, foi Copérnico’.

Elio trabalhou no projeto praticamente todos os dias desses últimos 18 anos, ou melhor, todas as noites. ‘Esse livro foi feito de noite e de madrugada’, diz a jornalista Dorrit Harazim, com quem está casado há 20 anos. ‘Ele era capaz de sair, jantar, tomar vinho, voltar para casa, ver televisão, trocar de roupa e, à meia-noite, dizer: ‘bom, agora vou trabalhar’ Isso depois de ter passado o dia trabalhando como jornalista para ganhar a vida’. Seu expediente costuma ir até as 5/6 horas da manhã, quando então dorme até a hora do almoço.

Um exemplo dessa capacidade de trabalho, inclusive físico, são as 28.176 fichas que criou e guardou no computador. Durante mais de cinco anos, diariamente, ele pegava as pastas do Arquivo Golbery e as ia registrando em forma de ficha no seu Mackintosh. Do que arquivou, não há um nome, um acontecimento entre os anos de 1964 e 1984 que não possa ser encontrado em alguns segundos. Se alguém lhe pergunta por que não preferiu pagar uma secretária, ele responde: ‘porque era divertido’. É mais fácil ouvi-lo dizer ‘me diverti muito’ do que ‘trabalhei muito’. O prazer de pesquisar e escrever quase o levou a não publicar agora os dois volumes. A muito custo, demoveu-o da decisão o editor Luiz Schwarcz. Pelo gosto do autor, o livro continuaria sendo escrito até sabe Deus quando.

A diversão em geral dita o que faz. Procura sempre uma forma prazerosa de resolver os problemas. Uma de suas últimas invenções foi a da chave. Um dia, resolveu trocar as seis ou sete chaves que carregava no bolso — das portas da frente e de trás dos apartamentos do Rio e de São Paulo, da casa de Guarapiranga, do escritório, da ‘Biblioteca Malan’ — por uma única, que serviria a todas as fechaduras. ‘Mas e em caso de perda?’, alguém objetou. ‘Melhor ainda, porque aí só tenho que mandar fazer uma’.

Há soluções no livro que são boladas por essa mesma cabeça rápida e prática, que gosta de subverter os conceitos consagrados, de se descolar das idéias feitas, de um dia se perguntar: ‘por que não uma chave só?’ Entre essas soluções, está a própria estrutura narrativa do livro: em momento algum, por exemplo, um fato sobre o qual você está lendo tem embutida a compreensão posterior dele. Ou seja, o narrador conta a história como se fosse contemporâneo do que escreve.

Elio não provoca só escrevendo, mas também vivendo. Fanático por polêmica, as suas guinadas de raciocínio são desconcertantes. Ele tem o gosto da contradição e da franqueza, esteja onde estiver. No Partido Comunista, do qual foi membro, ele se divertia em abalar as certezas ideológicas. Armênio Guedes, um histórico dirigente do PC, lembra-se: ‘Nós tínhamos aquele péssimo hábito de ideologizar a política. O Elio chegava e nos afogava com a realidade e as informações concretas, às vezes desagradáveis. Ele politizava a ideologia’. Na Escola Superior de Guerra, onde já esteve mais de uma vez, manteve um bate-boca desconcertante com um oficial sobre excessos na Guerrilha do Araguaia. Quem estava lá pôde ouvir:

— oficial: ‘Mas aquilo era uma guerra’.

— Elio: ‘Não era guerra e o senhor tem conhecimento suficiente para saber que as pessoas eram mortas depois de presas’.

— oficial: ‘Era uma guerra não declarada’

— Elio: ‘Guerra não declarada não elimina a possibilidade de eu afirmar que um major do Exército como o senhor que matou daquele jeito é um assassino’.

Com sua antipática mania de falar mal pela frente, ele cultiva o prazer da inconveniência. Uma vez, levando o deputado Delfim Neto para jantar em sua casa, os dois encontraram no elevador uma moradora do prédio. Ao avistar o ex-ministro, a senhora não se conteve: ‘Ah, ministro, que saudades! Eu era feliz e não sabia’. ‘A senhora está maluca’, interrompeu Elio. ‘Esse homem arruinou o país’. Delfim, que já conhecia o número, achou graça; a senhora emudeceu.

Nascido em Nápoles, na Itália, Elio veio com a mãe para o Brasil no pós-guerra aos cinco anos. Permaneceu parte de sua infância num internato em Mangaratiba, enquanto a mãe trabalhava. De volta ao Rio, passou a fazer o científico na ACM (Associação Cristã de Moços) e a comer no Calabouço, um restaurante para estudantes pobres. Até os 19 anos, quando puderam alugar um apartamento, os dois moraram em quartos alugados na Lapa boêmia e malandra da época.

Foi com essa idade também que ele se apresentou ao jornal do Partido Comunista Novos Rumos, pedindo emprego. Depois da primeira matéria, com o pseudônimo de Elio Parmegiani, o chefe da Redação, Luiz Mário Gazzaneo, previu: ‘Essa cara vai ser um grande jornalista’. A segunda já o autorizava a dizer o que diz agora: ‘Aquelas duas matérias já revelavam o talento e o gênio jornalístico de Elio’.

Do Parmegiani ao Gaspari de agora, uma variada trajetória: setorista no aeroporto do Galeão, onde cobria a chegada de personalidades, repórter do jornal popular ‘A Notícia’, auxiliar da coluna social de Ibrahim Sued, para a qual trabalhou de 1965 a 68, fuçando a vida mundana do Rio, até editor de veículos como Veja e Jornal do Brasil e, agora, colunista do Globo e da Folha de S. Paulo.

As histórias que se contam dele nesse período parecem lendas. Ele era capaz de dar conta sozinho de cinco, seis páginas de jornal ou revista com a mesma facilidade com que devorava às 7 horas da manhã uma pizza grande antes de pedir o prato principal, que podia ser uma feijoada completa.

Com os amigos, Elio mantém uma relação que eles classificam de ‘lealdade mafiosa’, especialmente os que na época pertenciam ao andar de baixo, à choldra e à patuléia, para usar expressões que consagrou. A viúva de um deles, a professora Dora Henrique Costa, resume com uma frase uma história de desprendimentos, que incluem financiamentos sem retorno, doações, pagamento de viagens, asilo em sua casa de perseguidos políticos e até a perda de um então único apartamento, numa desastrada operação financeira conduzida por um amigo de quem nunca reclamou o prejuízo. Ela diz: ‘O Elio não faz amizade, faz pacto de sangue’.

3 - Os segredos da Malan

Os mais de 500 livros que Elio consultou para escrever ‘As ilusões armadas’ fazem parte dos seis mil títulos da ‘Biblioteca Malan’, um apartamento de sala e três quartos no primeiro andar do prédio onde mora no Jardim Paulista, em São Paulo. Ele só se refere a ela como ‘a Malan’; ‘vou para a Malan’. O por quê do nome vai-se descobrir depois. Antes, é preciso abrir um livrinho de capa vermelha na primeira estante, ‘Para entender la corrida de toros’, e ler o trecho que diz: ‘El toro es el alma de la fiesta. El torero fué creado de acuerdo con las exigencias del toro’. É uma advertência à maneira de Elio para que não se acredite em tudo o que se lê.

A visitação começa pela esquerda: aqui, a coleção de dedicatórias. Há um volume de poemas de Mao Tse Tung para João Goulart; um de John Kennedy, com capa de couro, dedicado por Jacqueline (o marido já tinha morrido) ao general Castelo Branco; há um exemplar de Casa Grande & Senzala, oferecido por Gilberto Freyre a Jean-Paul Sartre. Como vieram parar ali? Pelo menos para o de Sartre há uma explicação: quando o filósofo francês esteve no Rio, em 1960, ficou hospedado no Hotel Excelsior, onde a mãe de Elio era empregada. Ao sair, largou no quarto os livros ganhos: dois de Freyre, um de Josué de Castro e um de Djacir Meneses.

Em seguida, as outras estantes, classificadas conforme o período: Colônia, Independência, Primeiro e Segundo Reinados, Proclamação da República, República Velha, Estado Novo, Democracia, JK. Numa outra sala, Democracia pré-golpe, Golpe, Lacerda, memórias e biografias da direita, estrepolias da direita, milicos. Agora, esquerda: memórias e livros em geral. Aqui, a redemocratização, Igreja, Partido Comunista... e assim por diante.

Entre as peculiaridades dessa biblioteca está a de que não tem cadeiras: quem quiser que pegue o livro e vá ler em outro lugar. Pendurados nas paredes, devidamente emoldurados, estão fac-similes, reproduções e originais de documentos. Há desde a capa de uma Revista Ilustrada, de Ângelo Agostini, de 1887, até o manuscrito da ‘Princesa Imperial Regente’, de 20 de julho de 1871, passando por um documento de 2 de julho de 1964, em que a Comissão de Correição da Faculdade Nacional de Filosofia pedia a expulsão, por ‘insubordinação e indisciplina’, de dez alunos, entre os quais Elio Gaspari, que viu assim interrompido para sempre seu curso de História.

No parede do corredor que leva à cozinha, há um quadro de quase um metro de largura por meio de altura, com três fotos: FH ao centro, com a fita verde-amarela cruzando o peito; Gustavo Franco à direita e Pedro Malan à esquerda. Embaixo uma faixa com letras grandes: ‘Eterna gratidão’. Trata-se de uma manifestação típica do humor de Elio. Ele atribui à política de câmbio dos três, com ênfase para o ministro da Fazenda, o fato de ter podido comprar um apartamento para montar sua biblioteca.

A cozinha não apresenta mais cara de cozinha, pois um revestimento de madeira cobriu o espaço que seria do fogão e da pia. Aí está o tesouro mais valioso: são sete arquivos de aço com 28 gavetões, guardando os cinco mil papéis do Arquivo Golbery, além do Diário de Heitor Ferreira (na verdade, são cópias. Os originais estão em outro lugar). Se você pegar ao acaso a pasta H50/60A, por exemplo, vai encontrar um telegrama secreto vindo da embaixada brasileira em Havana, em 6 de julho de 1963, comunicando os encontros que Luiz Carlos Prestes e Francisco Julião tiveram, em separado, com Fidel Castro. Diz: ‘Seus pontos de vista divergiram totalmente, pois enquanto Julião sustentou que no Brasil existem condições necessárias para uma revolução, Prestes afirmou aos líderes cubanos que seria ‘criminoso’, repito, ‘criminoso’, tentar esse caminho. Prestes explicou aos cubanos que, apesar de algumas contradições, no Brasil respira-se democracia, não há presos políticos e é possível atrair a burguesia’.

Há de tudo naqueles arquivos: bilhetes de Heitor para Golbery, deste para Geisel e vice-versa, cartas e documentos ou meras curiosidades. Em uma pasta, lê-se a circular aos condôminos do Edifício Parente, informando que a caixa d’água do prédio apresenta vazamento e que há seis medidas a serem tomadas. A circular, de 16 de janeiro de 1961, é assinada pelo síndico: Ernesto Geisel. Em outra, um deputado conta em carta a Gaspari que, três meses antes do atentado do Riocentro, ele advertira o governo sobre uma operação terrorista comandada por três generais. Um bilhete sem assinatura e sem data, provavelmente de Heitor para Geisel, informa: ‘Ney teve um encontro com Chico Buarque e vai mandar um relato para o senhor’.

São muitos também os papéis de outras fontes. Numa pasta estão os documentos sobre o interrogatório e enforcamento de Cláudio Manuel da Costa, graças aos quais Elio pode provar que a descrição da cena da morte do inconfidente é mais detalhada do que a de Wladmir Herzog nos anos 70.

No lavabo do apartamento, pendurado na parede, está registrado o fim da era Golbery, num papel com o brasão da República Federativa do Brasil: ‘O presidente da República, de acordo com o artigo 81, item 6, da Constituição, resolve exonerar a pedido o Senhor Golbery do Couto e Silva do cargo de Ministro de Estado Chefe do Gabinete Civil da Presidência da República. Brasília, 7 de agosto de 1981; 160o da Independência, 93o da República, João Figueiredo’. Ao lado, escrito à mão, um bilhete: ‘Caro ministro Golbery: não é preciso ser grafólogo para perceber o estado de espírito do PR ao assinar este decreto... Para seu arquivo pessoal. Abraço do Carvalho. Ele se refere à letra meio tremida do presidente, ‘PR’.

Em matéria de Figueiredo há uma peça engraçada: um telegrama a ele dirigido em 6 de agosto de 1982: ‘A Associação de Docentes da Unicamp apresenta veemente protesto V.Excia. contra medida de expulsão professor Reynaldo Cue, da Universidade Federal Ceará, reiterando exigência permanência do professor no Brasil: Eliéser Riso de Oliveira’. Uma caneta sublinhou duas vezes as palavras ‘reiterando exigência’, puxou a linha até embaixo, escreveu e rubricou o que seria a resposta: ‘Vão à merda!’

Uma viagem ‘pela Malan’ equivale a um mergulho nos bastidores e porões de um país que na época não chegava às páginas dos jornais e que agora ‘As ilusões armadas’ escancara. Se o visitante atravessar a rua e chegar ao escritório de Elio, poderá ouvir no seu Mackintosh muito do que leu nas pastas: certas gravações de reuniões e diálogos ocorridos entre 1973/74 e que jamais se suspeitou que existissem. O mais surpreendente é um segredo desses permanecer guardado por mais de 40 anos, sem nunca ter vazado uma linha sequer.

4 - Um desafio constante

Foi uma megaoperação editorial que mobilizou uma equipe especializada composta por cerca de 15 profissionais, alguns em dedicação exclusiva, por mais de um ano: revisores, checadores, preparadores e editores de texto, pesquisadores de fotos, conferentes de fontes e de bibliografia. O editor Luiz Schwarcz acha que nunca a Companhia das Letras trabalhou tanto em um livro de autor único quanto em ‘As ilusões armadas’. ‘Se fosse funcionar assim com todos os que publicamos, a empresa quebraria’.

Obcecado pelo rigor da informação, Elio deu muito trabalho. Cada citação foi checada e, se era de publicação estrangeira, cotejada com o original. Só o índice onomástico e temático, com 1 mil e 100 verbetes, foi refeito três vezes. Maria Emília Bender sentiu-se ‘coordenando uma enciclopédia’, tal a variedade de assessorias a que teve que recorrer. Márcia Copola, por exemplo, passou mais de um ano só fazendo a revisão e a preparação do texto. ‘Foram revisões sem fim, incalculáveis’, informa Maria Emília. Rosangela de Souza Mainente dedicou-se durante mais de seis meses à checagem das notas de pé de página. A Miguel Said Vieira coube a tarefa de buscar a grafia correta de centenas de nomes. O que eles não contam, e é preciso recorrer ao próprio Elio para saber, é que evitaram a permanência de alguns erros primários, já que esse autor de um texto tão brilhante não sabe acentuar corretamente as palavras e tem dificuldade em pontuar as frases.

Graças aos conhecimentos históricos e à memória visual de Vladmir Sacchetta, Elio pôde selecionar, entre as mais de mil fotos que lhe foram apresentadas, as... que compõem o port-fólio. As exigências não eram apenas em relação ao texto. De repente, ele podia pedir: ‘não, não, eu quero o Delfim triunfante’. E lá ia o pesquisador atrás do pedido.

A sua idéia inicial era entregar o livro pronto para a impressão. ‘Ele sempre teve na cabeça que ia apresentá-lo assim a várias editoras’, conta Luiz, que era obrigado a ouvir: ‘Quando terminar, eu vou a uma papelaria, encaderno e mando um pacote também pra você’. O autor, no entanto, acabou cedendo à persistência do editor. ‘Nunca desisti; sempre que o encontrava nesses 18 anos, perguntava: ‘e aí, como está o livro?’ Acho que o convenci mostrando o quanto eu desejava publicar essa obra’.

‘As ilusões armadas’ é o projeto que mais fez Luiz Schwarcz se sentir testado como editor. ‘Foi um desafio de perfeição constante’. Ele está convencido de que esse livro de 464 páginas, o primeiro volume, e 584, o segundo (50 mil exemplares cada), tem ‘uma dimensão extraordinária’. Não está nem aí para o fato de que o autor, por não gostar de noite de autógrafos, nem de dar entrevistas, muito menos de aparecer na televisão, possa dificultar a carreira comercial do livro. ‘Ele vai fazer do jeito que quer. Não preciso do Elio promoter’."

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