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JUCA KFOURI CONDENADO
Comunique-se

"Juca Kfouri condenado a pagar 300 salários", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 22/11/02

"O jornalista Juca Kfouri foi condenado pela 15ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro a pagar indenização de 300 salários-mínimos em um dos processos movidos pelo presidente da CBF, Ricardo Teixeira. O motivo, desta vez, é o artigo ‘Mentiras que não pegam’, publicado em dezembro 1999 no jornal Lance!. O Tribunal considerou as palavras usadas pelo jornalista uma agressão à honra de Ricardo Teixeira.

A decisão desfavorável a Kfouri foi em primeira instância e o jornalista, que recebe apoio jurídico do Lance! em todos os processos movidos por Teixeira, avisa que vai recorrer. Ser processado pelo presidente da CBF não é novidade para Kfouri: ‘já houve mais de 30 processos, há uns 10 em andamento, ganhei a esmagadora maioria e perdi, agora, pela segunda vez, em ações cíveis, não criminais. Como em ambos os casos cabem recursos, significa dizer que não é coisa liquidada’.

Segundo Kfouri, a CPI do Futebol apurou que Ricardo Teixeira mantém um advogado contratado apenas para seguir o que o jornalista escreve e fala. ‘Quem paga este advogado é a CBF, como consta no relatório’, conta. Kfouri contou ainda à redação de Comunique-se que nesta quinta-feira (21/11) o advogado disse que ele havia tratado a justiça esportiva, que tem dois desembargadores cariocas, como ‘corja de ladrões’. ‘Jamais fiz isso e o resultado foi que os três desembargadores votaram pela minha condenação’, desabafa."

DENUNCISMO

Bernardo Kucinski

"Imprensa faz justiça com as próprias mãos", copyright Agência Carta Maior, 25/11/02

"Uma nova avalanche de histórias de corrupção tomou conta dos jornais e revistas dos últimos dias. Em quase todas a imprensa fez justiça com as póprias mãos. As exceções foram ‘Carta Capital’ e ‘Veja’, mais recatadas. Carta Capital conta em tom brando a curiosa história de como a Receita Federal passou o pente fino nas declarações de tucanos notáveis, entre eles, Bresser Pereira e Ricardo Sérgio. O ministro explicou as irregularidades de sua declaração, mas Ricardo Sérgio não.

‘Veja’ conta uma história de políticos paraguaios que financiam suas campanhas com o contrabando para o Brasil de marcas falsificadas de cigarros. Traz também um estudo de dois economistas do Banco Mundial sobre os custos econômicos da corrupção e sua incidência no mundo. O Brasil está na turma dos países muito corruptos, em que fiscais arrancam propinas gordas de empresas para fechar os olhos à sonegação. ‘Época’ traz transcrições de novas fitas envolvendo o governador do distrito Federal Joaquim Roriz em grilagem de terras.

A ‘Folha’ saiu no domingo com mais uma das histórias de Josias de Souza sobre mordomias e gastos extravagantes no setor que ele chama de ‘para -fiscal’, o sistema Sesc/Senai/CNI. Nesta segunda-feira (25/11) a ‘Folha’ acusa políticos do Tocantins de receberem propinas para aprovar emendas do orçamento; o mesmo esquema dos ‘anões do orçamento’.

E o jornalismo de dossiê

Tanto as reportagens da ‘ISTOÉ’ como a da ‘Folha’ de hoje são baseadas em dossiês vazados aos jornalistas por procuradores ou pela Polícia Federal. ‘ISTOÉ’ resolveu fazer justiça sumária. Deu capa a uma denúncia ainda não comprovada de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo políticos importantes do Nordeste, entre eles Vilma Faria, eleita governadora do Rio Grande do Norte pelo PSB e Inocêncio Oliveira, líder do PFL na Câmara. A história da ‘ISTOÉ’ uma das mais perfeitas manifestações do jornalismo denuncista baseado em dossiês, que proliferam na nossa imprensa nos últimos anos: é baseada exclusivamente num dossiê que chegou pronto e acabado às mãos dos jornalistas, e adota o tom condenatório, mal disfarçado com uma ou outra frase de que ‘não há provas definitivas.’ As negativas dos acusados são registradas pró- forma num pequeno compacto. A história, no entanto, é bastante convincente pela riqueza de detalhes. O caso de Tocantins traz documentos que aparentemente comprovam as denúncias.

Histórias de impunidades

Quase todas essas histórias deixam mais interrogações do que explicações. As denúncias contra políticos são oriundas de procedimentos abertos por procuradores da Justiça ou pela Receita Federal e, no entanto, não se explica como e porque chegaram às mãos dos jornalistas. Os procedimentos na Receita Federal são protegidos pelo sigilo. Como e por que foram quebrados os sigilos? Os procedimentos contra políticos não foram levados nem ao conhecimento dos acusados, mas já chegaram aos jornais. Em todos esses casos a presunção da inocência, salvo prova em contrário, foi desprezada.

E a instrumentalização das denúncias

Na reportagem da ‘ISTOÉ’ há um detalhe mais grave; os procuradores da República na Paraíba admitem que seguraram a informação durante a campanha eleitoral para não haver influência. Isso indica que as denúncias foram feitas no contexto da campanha eleitoral com óbvios objetivos eleitoreiros e (b) que a justiça condiciona seus procedimentos a interesses políticos, escondendo ou vazando denúncias à imprensa segundo seu próprio julgamento. Em São Paulo aconteceu o oposto; o Procurador-Geral de Justiça do Estado, Luiz Antonio Marrey, montou uma força tarefa especialmente para denunciar administração petista de Santo André no período eleitoral. Causou um grande estrago pela mídia, vazando cuidadosamente os seus inquéritos. Depois das eleições, foram todos anulados por decisão unânime do Tribunal de Justiça do Estado, porque os próprios indiciados não eram ouvidos e ficavam sabendo apenas pela imprensa, do que estavam sendo acusados. Como parece ter sido o caso da reportagem da ‘IstoÉ’. Um procedimento estalinista ou kafkiano.

Denuncismo como substituto da justiça

As histórias também impressionam porque em sua maioria tratam de casos e personagens e processos já conhecidos. E que não deram em nada. Foram arquivados, esquecidos em alguma gaveta, adiados ou abafados. Percebe-se que há um vazio deixado pela inoperância da justiça no combate à corrupção e aos crimes de colarinho branco. Nesse vazio, floresce o jornalismo denuncista. Esse jornalismo acusa, julga e pune, tudo ao mesmo tempo. É uma modalidade de rito sumário, que se realiza no espaço midiático, na qual não há o direito o contraditório, na qual a defesa é uma farsa que apenas legitima a acusação. É justiça cruel, e na qual não há direito de apelação porque não há segunda instância.

A imprensa como justiceira

A história de Paula Milhim Monteiro Alvarenga que a ‘Folha’ conta na edição deste domingo é bom exemplo dos estragos de uma imprensa justiceira. Paula foi uma das proprietárias da Escola Base, acusada com os outros professores de abusar sexualmente das crianças. A acusação, que a mídia proclamou em manchetes de primeira página era falsa, fruto de ilações precipitadas de um delegado ignorante sobre o lugar da fantasia na imaginação infantil. A Escola Base foi destruída, a casa em que Paula morava foi apedrejada, ela foi agredida nas ruas por desconhecidos.

O efeito duradouro da destruição midiática

Hoje, nove anos depois, Paula não consegue emprego, perdeu a linha telefônica por falta de pagamento e corre o risco perder a água pelo mesmo motivo. Enfim, a imprensa acabou com a vida de Paula. Destruiu a imagem que tinha perante pais, alunos e vizinhos. Construiu em seu lugar a imagem de um monstro, provocando com isso a ira popular. Os americanos chamam a esse fenômeno do poder da mídia ‘character destruction’. Em geral é aplicado contra personalidades políticas, como parte do jogo de poder. Mas ocasionalmente é aplicado contra pessoas simples, como Paula.

E a falta de sensibilidade da ‘Folha’

A ‘Folha’ foi um dos jornais que participou desse linchamento, liderado por outro jornal da mesma empresa , o ‘Noticias Populares’. Seu propósito, desta vez, foi o de cobrar do Estado o não oferecimento a Paula por ‘perda de prazo’ de uma indenização oferecida às outras vítimas do episódio. Na entrevista ao jornal, Paula disse à ‘Folha’ que antes ainda conseguia trabalhar por alguns meses, ‘até que me reconhecessem. Aí eu precisava procurar outro emprego’. Só que a ‘Folha’ não resistiu a um pouquinho mais de espetáculo às custas de Paula e publicou de novo sua foto, com destaque e tratamento sombrio. Precisava? Além de sua vida continuar estragada, sem que ela tenha direito à indenização, a ‘Folha’ expôs de novo sua face à violência da malícia coletiva. Um dois problemas desse tipo de jornalismo é que ele deixa sempre um resíduo de suspeita sobre a pessoa, mesmo se sua inocência for plenamente comprovada."


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