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MÍDIA EM CRISE
Eduardo Ribeiro

"Está difícil achar notícia boa", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 20/11/02

"Entra semana e sai semana e continua difícil achar notícia boa, aquela notícia que realmente venha a mexer positivamente com o astral dos jornalistas, aquele lançamento fantástico que poderia significar pelo menos duas dúzias de contratações, aquele resultado financeiro de encher os olhos, que poderia significar um suculento abono de final de ano. Ao contrário, estamos rodeados de más notícias, mesmo que aos jornalistas pouco ou quase nada caiba de responsabilidade nesta crise, que tem fundo muito mais gerencial (má administração e brutais erros de investimentos em outros negócios) do que mercadológico.

Com ou sem culpa, estamos pagando o pato. Dia-a-dia cresce a lista de demitidos e as conseqüências na qualidade dos produtos jornalísticos são visíveis a olho nu. Depois de chegar ao paraíso, no boom da internet, com salários de até R$ 40 mil (com o dólar no patamar de R$ 2), descemos ao inferno. Não faltam exemplos, mas vou tomar aqui um, vivenciado por um amigo, que considero oportuno e que demonstra a fragilidade atual do mercado. Me ligou ele acabrunhado, para pedir um conselho sobre o que deveria fazer: depois de deixar, há dois anos, um confortável e valorizado cargo de editor, numa publicação de prestígio, com salário da ordem de R$ 8 mil, ele foi convidado pelo diretor de uma outra grande editora para trabalhar num novo projeto, ganhando temporariamente R$ 6 mil, com perspectiva de chegar aos mesmos R$ 8 mil reais dentro de pouco tempo, mas como pessoa jurídica. O que era temporário arrastou-se por mais tempo do que o previsto e, recentemente ele foi chamado pela empresa para renegociar sua permanência ali, ganhando finalmente direito e registro em carteira, mas com cargo e salários inferiores.

O que dizer? Difícil, sobretudo para alguém que já não é mais menino, e numa situação de mercado como a que vivemos, que é, de longe, a pior de nossa história. Meu amigo, até onde sei, decidiu aceitar a proposta, na esperança de que possa renegociar seu passe no curto prazo ou mesmo encontrar uma nova colocação, dentro ou fora da empresa. Sem outra alternativa viável no horizonte, e diante do que poderia ser sua vida, meses depois, se ele não conseguisse emprego ou frilas decentes (e sua poupança acabasse), eu próprio opinei favoravelmente a esta decisão. Ela era, ao meu ver, a mais sensata, mesmo significando um recuo temporário em termos biográfico e financeiro. Mas seria a oportunidade de buscar uma mudança, em segurança e com maior tranquilidade.

Não é para se acautelar? Vejamos as últimas notícias, muitas delas dadas aqui mesmo no Comunique-se ou no Jornalistas&Cia (informativo que edito e que circula em redações e assessorias às quartas-feiras). Há pouco mais de duas semanas, o Grupo Folhas (Folha de S. Paulo, Agora e Folha Online/FolhaNews) promoveu corte de pessoal, com o objetivo de reduzir 6% da folha de pagamento, dispensando cerca de 20 profissionais. Na última semana o Correio Braziliense anunciou o fechamento da sua tradicional e histórica sucursal paulista, sacrificando cinco vagas. E neste início de semana foi a vez do DCI/Panorama Brasil anunciar corte de pessoal, dispensando sete jornalistas (dois deles em Brasília). Somados todos os cortes, temos mais de 30 vagas fechadas. Isso em pouco mais de 15 dias.

Aí, para completar a maré de azar, temos jornalista preso (Fábio Grellet, do Agora São Paulo), outro condenado (Luís Nassif, da Folha de S. Paulo) e um terceiro agredido (Adilson Fernandes, repórter policial do Cidade de Itapira, jornal do Interior de SP).

É muita urucubaca para uma categoria só, embora não sejamos a única a enfrentar dramas dessa natureza.

Falta pouco mais de um mês para o Natal e esse ano ovamos ganhar novamente - como no ano passado - um presente de grego: desemprego galopante, salários achatados, estresse total onde o emprego existe e muita, muita desesperança.

É aí que entra a questão política e o novo governo, o qual, convenhamos, vem recebendo da grande imprensa uma colher de chá impensável em outros tempos, em se tratando de um governo de esquerda. É uma meia lua-de-mel, certamente influenciada pelo desejo que a maioria dos veículos tem de ver suas dívidas perdoadas (ou na pior das hipóteses escalonadas a juros módicos), dentro do que já está se convencionando chamar de Proer para a mídia. Enquanto houver esperança de que venha algum socorro lá de cima, dificilmente alguém vai bater mais violentamente no governo. É ele, afinal, que tem a chave do cofre e a caneta que decide.

Não é isso obviamente o que se espera de um novo governo que chega ao poder com legitimidade e com o compromisso da moralidade e transparência. E oxalá isso não ocorra, para que não nos envergonhemos depois.

O que se espera - e se isso ocorrer será meio caminho andado - são ações firmes e consistentes com foco na produção e na geração de empregos, o que beneficiará toda a sociedade, inclusive o setor empresarial (a indústria da informação incluída). Ou seja, é preciso efetivamente mudar o foco - inclusive da cobertura jornalística - na busca de novos paradigmas."

***

"A indignidade das demissões", copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 22/11/02

"Voltando ontem à noite para casa, refletindo profundamente sobre o que anda acontecendo com o mercado de trabalho na nossa área, e que não é tão diferente assim do que está ocorrendo com o emprego em outras atividades, foi que me dei conta de como todos nós temos assistido de forma passiva, e até acovardada, esse festival de desemprego em que se transformou o Brasil, neste período pós-globalização, festival que chegou há cerca de um ano e meio na atividade jornalística e que insiste em não ter fim. Toda semana há má notícia. São 5, 10, 15, 50 demissões, de uma só batelada.

Não é possível, não é lógico, não é humano demitir tanta gente em nome da sobrevivência de um negócio, da viabilidade econômica de uma empresa, do equilíbrio entre receita e despesa, sendo que na outra ponta o que estamos assistindo é a morte das pessoas, a inviabilidade econômica dos cidadãos, o desequilíbrio fatal das famílias.

Não é sequer preciso citar esta ou aquela empresa, pois se for esse o caso teremos que procurar, qual agulha no palheiro, aquelas que não demitiram, aquelas que decidiram segurar o rojão, mesmo com a crise passando em seu quintal, aquelas que decidiram cumprir na plenitude o papel que cabe a qualquer organização que vive em função do consumo e da sociedade, e que deveria viver e até morrer por ela, se preciso fosse. Há essas empresas e quem nelas trabalha sabe disso e pode até se manifestar nos comentários abaixo.

É, sim senhor, é sim senhora, uma indignidade o que nossas empresas de comunicação estão fazendo com os jornalistas e demais funcionários. É sim uma cruel perversidade jogar na rua centenas de trabalhadores, a maioria integrada de gente honesta e honrada, em nome de conter custos, quando outros custos muito menos importantes são mantidos - e até ampliados.

Nunca vi nenhuma empresa demitir um equipamento novo, uma nova tecnologia, a não ser por obsolescência. Ora, quando uma empresa começa a entrar no vermelho, vão-se os dedos e ficam os anéis. Para garantir os equipamentos e a mais moderna tecnologia vale tudo - inclusive empréstimos, financiamentos, aditamentos de contratos, renegociação com fornecedores etc. Mas com gente é diferente. Não como cantou Vandré, na poética, rude e revolucionária Disparada, mas sim porque as empresas efetivamente tratam gente como gado. Na primeira dor de barriga, tendo necessidade de equilibrar as contas, tome gente na rua. E se a conta não fechou. Tome mais gente na rua. Tirar empréstimo para manter funcionário, aumentar em 1%, 1,5% o endividamente para garantir mais seis meses de folha de pagamento, ah, isso não. Nem pensar. Vem logo a ordem, sem direito a questionamentos, e cumpra-se.

Há até alguns veículos que conseguem uma maior margem de negociação, postergando as demissões ou diminuindo o número de demitidos, com alguns outros cortes periféricos. Mas o diálogo a que assistimos, regra geral, é o do manda quem pode, obedece quem tem juízo. Não há, nas redações, núcleos discutindo formas de ajustes que não impliquem demissões, urna de idéias, transparência nas decisões. Nada disso. O que há é a rádio peão, que descobre com antecedência que haverá o tal corte, e aí é o pânico. Todo mundo sabe que vem, mas não sabe a hora, o dia e nem o tamanho do estrago. E mesmo com esse estresse não há mole em relação à produção. Tem que se continuar trabalhando, esperando a hora da guilhotina, que, em geral, chega numa sexta-feira à tarde, no final do expediente (há exceções, o que só confirma a regra).

Cada um sabe o tamanho de sua encrenca e é fácil falar do dinheiro alheio, já que não é o nosso bolso que está doendo. Ninguém também é louco de advogar a morte de uma empresa, apenas para que ela não demita um punhado de funcionários. Claro, a sobrevivência é sagrada, e se é preciso cortar 50 para garantir o emprego de outros 500 seria até legítimo. Seria, eu disse, pois não há casos com essa gravidade no nosso universo profissional. E eu faço aqui esse desafio, em relação aos números. Mas não vale misturar nas contas os péssimos investimentos feitos com o dinheiro bom, que veio da atividade mãe, com o suor de todos esses profissionais.

Quem lê este Comunique-se e esta coluna, em particular, vê, semana a semana, que temos a maior boa vontade em procurar as saídas e brechas que surgem com a crise, as coisas boas que têm sido feitas. E elas existem e até minoram parte dos graves problemas existentes, mas estão longe de representar uma solução. É desanimador ver tanta demissão, ver o efeito dominó em que se transformou o mercado, ver o desmoronamento da moral e do brio de tantos cidadãos de e do bem. Onde procurar emprego? Como levar comida para casa? Como manter o mínimo de auto-estima para continuar motivado e esperançoso com a vida?

As crises vão e vem e isso é do ciclo da vida. Mas para que temos cérebro, para que existe a inteligência, para que serve a comunicação, se não para buscar saídas que levem bem estar e dignididade às pessoas? E o que fazer com esses milhares de jovens que, atraídos por um mercado promissor, investiram dinheiro e esperança numa profissão, num amanhã, e agora encontram o vento? Pior: não dá nem para reclamar no Procon.

Multinacionais são frias como o gelo, mas, de um modo geral, respeitam seus funcionários muito mais que as empresas brasileiras. Tratam funcionários como cidadãos. Várias delas, como acompanhamos pelos jornais, revistas e emissoras que demitem de forma selvagem, fazem malabarismos de toda a sorte para oferecer aos seus trabalhadores boas negociações, de preferência para a manutenção do emprego. Até porque têm, de um lado, em seu calcanhar, os sindicatos aguerridos dos trabalhadores, e, de outro, a prestação de contas à matriz, inclusive no que diz respeito à sua imagem. Faz-se pacto, diminui-se jornada, cria-se pdv, implanta-se férias coletivas, enfim um arsenal de alternativas para evitar ou diminuir o trauma das demissões. E até ajuda para encontrar um novo emprego existe. Se está longe do ideal, temos aí ao menos o respeito que se espera ao ser humano, à sua família, à sua vida.

É preciso que as empresas de comunicação, que seus donos, que seus executivos, revejam seus valores, sua filosofia e sobretudo suas atitudes. É preciso dar um basta na demissão fácil, porque fácil não será o caminho de uma nação engrandecida com atitudes tão mesquinhas e pequenas. Cortar gastos começando ou terminando pelas pessoas, sem esgotar todas as outras possibilidades, é indigno, indecente, imoral.

E desafio aqui qualquer empresa jornalística deste País a provar que se não tivesse demitido o número de empregados que demitiu, nesses últimos 18 meses, que teria fechado as portas ou estaria à beira da insolvência. Quando muito estariam com um endividamento um pouquinho maior do que o atual, nada, aliás, que agravasse a situação.

Garantir o emprego é garantir a cidadania, é dar dignidade às pessoas e suas famílias, é contribuir para o desenvolvimento da nação, é zelar pelo futuro de nossos filhos e das futuras gerações.

Se não for para isso, se não for para lutar a boa luta, porque existir?"


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