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JORNAL NACIONAL
Nelson Hoineff

"Como nasce o preconceito", copyright Jornal do Brasil, 26/11/02

"Sábado passado, um anúncio da agência África publicado na Folha de S. Paulo revelou-se um primor de mau gosto e deu boas indicações de como se pode chegar a um discurso discriminatório procurando justamente atuar na defesa das minorias. O propósito do anúncio era saudar a estréia do repórter Heraldo Pereira como âncora do Jornal Nacional . No texto, a agência diz que o novo trabalho de Heraldo (por ela grafado Eraldo) ‘para os milhares de brasileiros negros que assistem ao Jornal Nacional toda noite é um passo gigantesco’. E que isso ‘eleva a auto-estima do país’. No final, o texto capricha: ‘A publicidade que era preto-e-branco teve que mudar quando a TV virou colorida. Novamente vai ter que mudar agora que a TV dá esse grande passo e torna-se preta e branca de novo’.

Manifestações de racismo não dependem da raça de quem as faz. No caso em questão, essa agência, que se autodenomina ‘uma agência de propaganda onde tudo é preto no branco’ e que parece voltada para a comunidade negra, não tem, ao que tudo indica, o propósito de agredir o jornalista da Globo. Mas é o que faz - em primeiro lugar jogando esse peso todo na manhã de sua estréia; depois, inferindo que a maior qualidade de Heraldo está na sua raça.

Supõe-se que não seja a cor de sua pele mas suas qualidades profissionais que o tenham elevado a âncora do Jornal Nacional. Seria insultuoso, para o correto jornalista que Heraldo é, pensar de modo contrário. Ele não está lá porque é preto, assim como Marilia Gabriela não ganhou seu programa porque é mulher, nem Boris Casoy está no Jornal da Record porque é judeu. Todos estão nas suas funções porque são bons naquilo que fazem.

O desastrado anúncio, no entanto, serve para mostrar como às vezes somos levados a subavaliar aquilo de que gostamos, por tentar lançá-lo em guetos. Os ‘tijolinhos’ de jornais, por exemplo, atribuem às vezes ao qualificativo ‘nacional’ a condição de gênero de filmes. Um filme pode ser drama, comédia, ou ‘nacional’, como se o cinema brasileiro não fosse capaz de produzir filmes de gênero, como qualquer outra cinematografia do mundo.

Tratamos outras vezes a produção regional de TV como se fosse ela uma intrusa necessária. Como se tivéssemos que aceitá-la apenas para garantir mercado de trabalho em vários Estados do país. Quando isso acontece, é como se não percebêssemos que a produção feita fora do eixo Rio-São Paulo pudesse ser tão boa quanto a que é feita dentro dos dois ou três maiores estúdios do país.

E no entanto, na maior parte das vezes, ela é tão boa ou melhor. Tão mais criativa, no mínimo, quanto o índice de sua pluralização - simplesmente porque 10 cabeças criam melhor do que uma. Tão ou mais competitiva que o produto tirado de tubos de ensaio que parecem contaminados, na melhor das hipóteses, pelo veneno da acomodação.

Encarar a produção independente de TV como o ente incômodo que tem que ser absorvido em nome do social não é muito diferente de achar que um bom jornalista só virou âncora porque é preto. É desconsiderar a qualidade intrínseca que está nessa produção - e induzir o público a acreditar que não existe um extraordinário ganho artístico e cultural nela, assim como não há um profissional competente num apresentador de TV que não seja branco."

Cristina Padiglione

"Pela primeira vez, um negro apresenta o ‘JN’", copyright O Estado de S. Paulo, 23/11/02

"A estréia de Heraldo Pereira na bancada do Jornal Nacional, hoje à noite, na Globo, dificilmente passará despercebida. Não só pelo fato de ele nunca ter estado naquele cenário, mas principalmente por ser o primeiro negro a ocupar a cadeira do noticiário de maior audiência do País. Por mais que seu currículo faça jus à competência exigida para a função, não há como fugir da sensação de que algo está efetivamente mudando no reino encantado da televisão. Afinal, a negritude sempre esteve mais exposta na vida real do que na telinha - durante longos anos, a televisão quase nos fez crer que a maioria da população brasileira era louríssima.

‘Tenho o maior orgulho de ser negro e de apresentar o Jornal Nacional’, diz Heraldo, que se revezará com outros apresentadores nas edições de sábado.

Após 22 anos como repórter nas ruas, o jornalista começou a conviver com o estúdio entre o fim de 2001 e o início deste ano, por sugestão de Carlos Schroder, Diretor da Central Globo de Jornalismo. Tem ancorado o Bom Dia Distrito Federal e o noticiário de Brasília no Bom Dia Brasil e do Jornal das Dez, da Globo News.

A estréia no JN coincide com a semana em que se festejou o Dia da Consciência Negra. Para ele, é só uma coincidência, não um feito da Globo para parecer politicamente correta.

‘No começo da minha carreira, em Ribeirão Preto, o Oliveira Andrade, a quem eu devo minha carreira na TV, queria contratar um negro para a reportagem da EPTV. E a escolha da minha carreira aconteceu por isso, por eu ser negro’, conta. ‘Agora, na estréia do Jornal Nacional, espero que não seja só por isso’, brinca.

Tanto é verdade que a TV nunca se preparou bem para colocar os negros em evidência, que Heraldo está à espera de um ponto eletrônico da cor de sua pele. O item, usado por todos os apresentadores de noticiários da Globo, foi basicamente criado para peles claras. ‘Mas já estão fazendo um para mim.

Aqui em Brasília, o equpamento não existe’, ele conta.

Há oito anos cobrindo o Palácio do Planalto, Heraldo esteve em todos os continentes e em toda a América Latina, no rastro do presidente Fernando Henrique, com quem conversou algumas vezes sobre a questão racial. ‘Ele é um doutrinador’, afirma.

Na Globo, conta, jamais sofreu qualquer limitação pela questão racial. Bom de papo, Heraldo é um mestre na arte de ganhar a confiança de seus interlocutores. Mas é um talento pessoal, avisa. ‘Não é algo que eu pratique para fazer média com os outros’.

Se já não bastasse a vocação para tanto, Heraldo, formado em jornalismo, deverá concluir no próximo ano o curso de Direito."


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