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NOVOS PROGRAMAS
Leila Reis
"Novos programas quebram velhas regras", copyright O Estado de S. Paulo, 24/11/02
"Algumas premissas vigentes na TV começam a ser quebradas com novas estréias. A primeira é a de que programa popular não cabe em TV Educativa. O show de auditório Alô, Alô, comandado pela atriz e humorista Fafy Siqueira na TV Cultura, é parecidíssimo com os similares da concorrência - no formato. Ou seja, tem uma animadora alegrinha, um auditório entusiasmado - com garotas saidinhas e portadoras de decotes generosos na primeira fila da platéia, perseguidas por closes insistentes da câmera -, uma parafernália como cenário e entrevistas apressadas.
O conteúdo é um pouco mais elaborado. Fafy persegue o despojamento da Hebe e a espirituosidade de Chacrinha (o Alô, Alô deve ter nascido dessa intenção), mas fica no meio do caminho. A proposta é legal, mas não original. Colocar artistas em cena dando conta de um repertório alienígena - tal como os forrozeiros do Fala Mansa cantando Bob Marley - foi feito por Fausto Silva quando ele ainda era revelação na TV. Entrevistar sem escutar direito a resposta anda tão comum no vídeo que não é por aí que Alô, Alô vai deixar sua marca na história.
O diferencial - ele existe - é misturar à algazarra do show de auditório esquetes de humor. Fafy não deixaria passar a oportunidade, afinal entre seus reconhecidos dotes está a imitação. Ao travestir-se de Xuxa (de peruca com maria-chiquinha e bonequinho no microfone) para cantar uma paródia (meio bobinha) do Doce Mel, a apresentadora aponta o caminho que pretende percorrer.
A melhor imitação da estréia, no entanto, foi a que encerrou o programa. Fafy surgiu de Elba Ramalho para cantar com o Fala Mansa. Nessa praia, a artista nadou de braçada. O esquete, em que ela interpreta o jogador Liminha, que está mais interessado no dinheiro do que nas partidas de futebol, foi prejudicado pela fragilidade do texto. Ou seja, a idéia é boa, mas o talento de Fafy poderia ser mais bem aproveitado com piadas mais engraçadas.
De qualquer maneira, o Alô, Alô vem movimentar a grade de programação da TV Cultura que não tem primado no setor de novidades. Mas mais importante do que isso é que mostra um modelo que pode inspirar outros: é possível construir shows populares sem apelação. Essa qualidade, no entanto, o público ainda terá de descobrir, porque, na estréia, o programa registrou o mesmo 1 ponto de média no Ibope (na Grande São Paulo) que as reprises de documentários que a Cultura exibia no horário antes.
Outra premissa a ser quebrada é a de que, pela TV, tudo se vende. Bom Dia Mulher tirou os programas de televendas das manhãs da Rede TV! - com Ney Gonçalves Dias, a atriz Solange Couto e a personal trainer Solange Frazão - e a emissora do traço. Não é muito, mas sair do zero para 1 ponto de média de audiência é um alento para os produtores e para o público. Por mais careta que seja o formato do programa, um arremedo do TV Mulher que revolucionou as revistas femininas nos anos 80, seu desempenho vem mostrar que o telespectador gosta de ver gente batalhando para entretê-lo e não apenas para vender-lhe algum badulaque.
Isso não quer dizer que a nova revista da Rede TV! seja inocente no métier dos camelôs. Um mercado de quinquilharias entrecorta os conselhos amorosos de Solange Couto, a malhação de Solange Frazão e os comentários de Ney sobre os assuntos do dia. Mesmo assim é um avanço, porque está dando emprego e animando a manhã da dona de casa."
FRAUDES & PUBLICIDADE
Paulo Nassar
"A mãe de todas as responsabilidades", copyright Gazeta Mercantil, 20/11/02
"As recentes denúncias de fraudes em balanços envolvendo megaempresas norte-americanas - a maioria delas com operações, empregados, responsabilidades e história no Brasil - demonstram de forma cabal a importância da responsabilidade comercial, a mãe de todas as responsabilidades. Isso porque o bom senso nos diz que uma empresa irresponsável em seus compromissos com acionistas, parceiros, aliados, fisco, consumidores - só para citarmos alguns dos principais stakeholders - dificilmente se comprometerá com outras responsabilidades, entre elas a histórica, a social e a ambiental.
Aproveito as notícias sobre fraudes corporativas dos anglo-saxões para lembrar da velha e boa responsabilidade comercial, porque é enorme o número de empresas no Brasil que estão transformando, em seus discursos, as responsabilidades social e ambiental em commodities. Não é difícil encontrar, entre dezenas de anúncios publicitário! s veiculados diariamente, aqueles que vendem comportamentos corporativos ligados às carências da sociedade e os processos de desenvolvimento sustentável, antes mesmo de apresentarem as qualidades materiais e comerciais de seus produtos e serviços. Se antes as corporações eram discretas em suas colaborações sociais - o que era chamado de filantropia -, agora existe uma massificação de causas e slogans (amigos dos miseráveis e dos carentes) à disposição das empresas de todos os portes.
Os sisudos comunicados financeiros vêm, cada vez mais, acompanhados de um número tão grande de selos que exaltam a responsabilidade social das empresas, que lembram as jaquetas de velhos militares congestionadas de todo o tipo de medalhas. O fato é que esses ícones da comunicação do politicamente correto sinalizam, na atualidade, a existência de uma verdadeira indústria de relatórios, balanços sociais e de todo o tipo de organizações que fazem da miséria do mundo, e de nosso país, um grand! e negócio.
A saturação das mensagens ‘bem-intencionadas’ está promovendo uma grande homogeneização entre as marcas e as imagens das empresas. A percepção desconfiada que essa publicidade do bom-mocismo provoca entre os consumidores desconfiados (me incluo entre eles) é que tudo não passa de uma grande jogada de marketing da alma.
Talvez, neste momento de grandes fraudes corporativas, o melhor que nós consumidores possamos fazer pelo mundo e pelo próximo é desconfiar e não comprar de empresas que estão persuadindo o consumidor por meio das mensagens administradas da responsabilidade social.
Quem sabe o momento é de confiarmos e comprarmos de empresas que não tenham vergonha de lucrar e que paguem os seus impostos e remunerem com transparência os seus acionistas. Que esbanjem a tal responsabilidade comercial e tenham os sinais de seu amor pelos desamparados revelados muito a contragosto.
Talvez estejamos, por obra dos embusteiros de comunicações financeiras, voltando ao tempo do publicitário norte-americano Claude Hopkins (sugiro a leitura de seu livro A Ciência da Propaganda), admirado por gente como David Ogilvy, que pregava, nos anos 20 do século passado, uma publicidade rústica, que tivesse como principal virtude a habilidade de revelar os produtos, seus preços e vender. Observe, como um exemplo dessa volta no tempo, uma grande montadora brasileira que atualmente transformou o seu presidente, por meio de anúncios de televisão e revistas, no seu principal vendedor. Melhor assim, já que muitos CEOs teimam em aparecer vestidos como pastores, padres e monges. (Paulo Nassar é jornalista, diretor-executivo da ABERJE- Associação Brasileira de Comunicação Empresarial)"
TVs SEM SINAL
Marcelo Bortoloti
"Emissoras menores e Embratel travam batalha", copyright Folha de S. Paulo, 24/11/02
"Na última segunda-feira a transmissão da TV Educativa, gerada no Rio de Janeiro, foi interrompida pela Embratel das 8h às 12h. A empresa, que transmite via satélite o sinal da emissora, tomou a medida alegando atraso no pagamento do serviço.
O corte se estenderia em outros dias da semana, mas foi brecado na Justiça pela TVE, que acusa a prestadora de ter aumentado a tarifa de forma abusiva. O aumento, de cerca de 250%, se aceito, inviabilizará a produção de programas, segundo a direção da emissora.
Situação parecida viveu a TV Amazonsat, de Manaus, voltada para a cultura e o turismo. A emissora só não teve sua transmissão interrompida porque conseguiu uma liminar.
A Embratel diz que o aumento é resultado de uma mudança na tecnologia de transmissão, do sistema analógico para o digital, e que está amparado por lei.
A maioria das grandes emissoras acatou o novo preço, mas ele atingiu em cheio as menores. ‘O custo do sinal é muito significativo para nós, e não há empresa que suporte um reajuste deste no meio do ano fiscal’, diz o diretor-executivo da TVE, Sylvio Renan de Medeiros.
Para o advogado da Amazonsat, Abraim Calil, a Embratel deveria praticar preços diferenciados de acordo com a situação e localização da emissora. ‘Eles não querem brigar com as grandes emissoras por terem medo de atitudes mais arbitrárias. Nosso público-alvo é pequeno para causar repercussão’, diz.
A direção da Embratel nega que privilegie as emissoras maiores."
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