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CASA DOS ARTISTAS
Laura Mattos

"A dor de cabeça da Globo", copyright Folha de S. Paulo, 20/11/01

"Pico de 46 pontos de audiência para o SBT contra 17 da Globo no último domingo; a primeira derrota do ‘Fantástico’ no Ibope, um banho de água fria em ‘No Limite 3’ e nos planos de produzir o ‘Big Brother’. ‘Casa dos Artistas’, o ‘reality show’ de Silvio Santos, é hoje a grande preocupação da cúpula da TV Globo.

E quem comanda esse fenômeno de audiência e repercussão é um mineiro ligeiramente tímido com pouco mais de dez anos de carreira. Aos 33, Rodrigo Carelli não é só o diretor do programa ‘inimigo número 1’ da Globo, como já esteve no centro de outro furacão que perturbou a emissora este ano. Foi ele quem dirigiu, em maio, o ‘Acústico MTV’ de Roberto Carlos, que até hoje não foi ao ar porque a Globo detém os direitos de imagem do cantor e não entrou em acordo com a MTV.

Por que tanta encrenca com a Globo? Carelli ri: ‘Todo mundo me pergunta isso, mas foi pura coincidência’. E continua, agora sério: ‘Não fui eu que procurei. E minha posição é ser responsável pelo material que vai ao ar. Nem posso me envolver em disputas alheias ao produto’. Evitando polêmica, desvia: ‘Gosto mais de ver a questão por outro ponto de vista. Em um mesmo ano, tive a oportunidade de conhecer Roberto Carlos e Silvio Santos, e de trabalhar com os dois’.

Assim, nessa atitude sempre diplomática, fala sobre o disputado ‘Acústico’ do ‘rei’: ‘É chato não ter ido ao ar, mas teria sido pior não ter gravado. O importante é que está registrado, é histórico e não podia deixar de ser feito. Um dia as pessoas vão ver’.

Mas, hoje, acústicos e VJs parecem bem distantes do novo rumo que tomou a carreira de Carelli. Depois de trabalhar nove anos na MTV, onde dirigiu Thunderbird, Maria Paula, Cuca, criou programas moderninhos e trabalhou sempre com aquela linguagem de videoclipe, ele agora dorme e acorda pensando no que andam fazendo Alexandre Frota, Mateus Carrieri, Mari Alexandre e outros famosos do quinto escalão.

Carelli, publicitário formado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing, tinha acabado de dirigir o ‘Acústico’ de Roberto Carlos, quando recebeu propostas de ‘outras emissoras’ e decidiu deixar a MTV. Em agosto, foi convidado por Paula Cavalcanti, diretora artística do SBT, para comandar ‘Casa dos Artistas’.

Encontrar Silvio Santos, ouvir suas idéias e, principalmente, ser ouvido por ele é algo que chega a confundir a cabeça do diretor. ‘É impressionante trabalhar com uma pessoa que, na verdade, é um mito, uma imagem.’

Empolgado com os resultados do programa e vizinho do local onde é gravado, Silvio Santos costuma ‘dar uns pulos’ por lá para ver o que anda acontecendo. No centro de uma equipe de 106 profissionais, trabalhando 24 horas por dia, Carelli recebe sem aviso prévio as visitas do patrão. Ele está de olho nos monitores, falando ao celular, quando Silvio Santos toca em seu ombro para fazer uma pergunta qualquer. ‘A relação de trabalho é completamente diferente. É lógico que há um respeito diferenciado porque, enfim, ele é o dono do canal. Mas não dá para misturar o mito com o patrão. Tento na medida do possível, porque não é tão simples.’

Além da relação de ‘vizinhança’ com o chefe, Carelli tem uma reunião aos domingos, quando discute o roteiro do programa. É nessa edição especial, com participação de Silvio Santos, que os candidatos do ‘reality show’ são eliminados. O apresentador tem o comando do jogo. Ele faz as regras e as altera quando bem entender. Carelli sabe disso e não discute. Mas já suou a camisa tentando convencer o patrão. ‘Ele sempre me ouve. Mostro o que preparamos, e ele diz o que acha que deve entrar e nós discutimos a melhor solução. É legal porque ele está muito empolgado, feliz.’

A escolha de Carelli para o comando de ‘Casa dos Artistas’ foi uma das principais armas para manter o projeto em segredo. Na imprensa, sabia-se que o ex-diretor da MTV andava pelos arredores do Morumbi em uma van, com uma equipe que planejava um novo programa para a TV. Mas quem poderia imaginar que Carelli e sua trupe descolada estariam armando uma atração para o SBT, campeão da breguice?

Frequentador de cineclubes (‘Este ano, por causa do projeto, não consegui ver nenhum filme da Mostra...’), fã de ‘Seinfeld’, Carelli tem conseguido mesclar o clima de ‘colegas de auditório’ com a linguagem moderna da TV, que começou a aprender na Gazeta, nos anos 80, quando a emissora tinha ar de vanguarda. Talvez por isso, acredita, ‘Casa dos Artistas’ tenha se transformado no programa mais cult da TV.

No auge da carreira, Carelli não consegue mais se desligar da vida dos ex-quase famosos e atuais celebridades nacionais. No início, chegava a sonhar com o programa. ‘O projeto é absorvente. Ligo para lá, quando não estou, para saber como estão as coisas.’

Mas, confessa, não é só para dar as coordenadas de chefe. Carelli quer saber quem beijou quem, quem brigou com quem. ‘Tenho a curiosidade de telespectador.’ Morra de inveja, auditório: ele é o homem que sabe tudo o que rola na ‘Casa dos Artistas’. Tudinho."

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"Romance vira o centro da trama", copyright Folha de S. Paulo, 20/11/01

"Ao editar as 24 horas de fitas diárias de ‘Casa dos Artistas’, Carelli assume papel que passa bem perto do de autor de novela. A idéia agora, diz, é investir no romance de Supla e Bárbara Paz.

O início do romance entre o filho da prefeita Marta Suplicy e a atriz de teatro também teve um dedo indireto do diretor.

O primeiro beijo do casal aconteceu em uma festa armada pela produção do programa, quando foi liberada bebida alcoólica para o ‘elenco’. Ninguém assumiria isso, mas o objetivo, claro, é descontrair os concorrentes, deixá-los à vontade para protagonizar as melhores cenas.

‘Não há nenhuma intervenção direta na atuação dos concorrentes. Mas é claro que tudo é pensado para tornar a convivência mais interessante. Desde a escalação do elenco até as provas’, diz Carelli.

O processo para a edição final não é simples. Todas as 33 câmeras da casa são monitoradas 24 horas por algum membro da equipe. Assistentes têm a tarefa de ir anotando ao vivo cada passo dos concorrentes. ‘Nana abre a geladeira, Supla pega a pasta de dente. Frota cai na piscina.’ Esse mesmo profissional já marca no papel as melhores cenas.

Dessa decupagem, faz-se a pré-edição. São três turnos, três pré-edições, que passam pelas mãos de Carelli para se transformar na meia hora que vai ao ar diariamente, às 21h. A equipe de produção que trabalha na parte da frente da ‘Casa dos Artistas’, no Morumbi, tem seus momentos de tédio (‘Os concorrentes ficam sem fazer nada muito tempo, dormindo, lendo’) e de vibração (‘Todos comemoram quando rola alguma coisa legal, algum beijo...’).

Carelli se diverte observando a relação do grupo com as câmeras. ‘É engraçado porque às vezes eles se lembram de que estão sendo filmados, mas em muitos momentos se esquecem disso. Quando querem aparecer, fazem alguma coisa e dizem: ‘Acho que isso vão filmar’ e, quando não querem, ficam quietinhos num canto, como se não estivéssemos filmando tudo, o tempo todo.’"

 

Lúcia Valentim Rodrigues

"‘O Sobrevivente’ explora fórmula de série da TV", copyright Folha de S. Paulo, 20/11/01

"Pegando carona no ibope dos ‘reality shows’, entra em cartaz no dia 30 em São Paulo ‘O Sobrevivente’, estréia do norte-americano Daniel Minahan na direção de longas.

O filme cria um fictício ‘game show’ em que cinco concorrentes são sorteados para disputar com a ganhadora das outras edições do programa. O objetivo é eliminar -literalmente- os outros oponentes. Entre os jogadores, estão uma grávida prestes a dar à luz, um artista com câncer, uma enfermeira e um aposentado. Quem sobreviver não ganha nada, nenhum prêmio, só o direito de mudar de fase."


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