|
COBERTURA DE GUERRA
Igor Gielow
"Jornalistas somem em emboscada", copyright Folha de S. Paulo, 20/11/01
"Quatro jornalistas desapareceram ontem ao tentar chegar a Cabul vindos de Jalalabad, cidade a cerca de 150 km a leste da capital afegã e principal entreposto até a fronteira do Paquistão. Com base em relatos não confirmados, a Cruz Vermelha afirmou que eles haviam morrido.
Eles são Julio Fuentes, 42, do jornal espanhol ‘El Mundo’, Maria Grazia Cutuli, 39, do italiano ‘Corriere della Sera’, e dois funcionários da agência de notícias britânica ‘Reuters’, um australiano chamado Harry Burton, 33, e o fotógrafo de origem afegã Azizullah Haidari, 33.
Os jornalistas viajavam em um comboio pela Província afegã de Nangarhar, quando homens armados abordaram os veículos em que viajavam perto de uma ponte em Tangi Abrishum, a cerca de 90 km de Cabul, de acordo com jornalistas que escaparam da emboscada. Dois carros que faziam parte de um comboio de oito veículos foram parados, seus ocupantes foram obrigados a deixar os veículos e, em seguida, teriam sido mortos, ainda segundo relatos não confirmados.
Um motorista afegão que chegou mais tarde a Cabul afirmou ter avistado um corpo durante o trajeto entre Jalalabad e a capital. Ele disse ter parado e, então, descoberto três outros cadáveres. Nenhum dos corpos tinha marcas visíveis. Um dos mortos era uma mulher. Os corpos ainda não tinham sido identificados até ontem à noite, e o relato do motorista não pôde ser confirmado por uma fonte independente.
Depois que os homens armados obrigaram o comboio a parar, os veículos que não estavam na linha de frente conseguiram fugir e retornaram a Jalalabad.
‘Eu passei cerca de 10 minutos depois e vi uma correria em Saroubi [perto de Tangi Abrishum]. Uma pessoa disse que o Taleban estava atacando, mas decidimos ir em frente. Fomos parados por três homens armados, que nos roubaram, mas fugiram assim que viram um ônibus aparecer’, afirmou o jornalista grego Nikolas Vafiadis, da Antenna TV.
O relato dele é impreciso, como tudo na história até a noite de ontem no Afeganistão. As embaixadas espanhola e italiana em Islamabad confirmaram as mortes.
Os culpados também são desconhecidos. Apesar de a Rádio Afeganistão ter de cara dado como certa uma ação do Taleban, a maior probabilidade é a de uma ação de mercenários ou voluntários abandonados pela milícia quando ela deixou Cabul.
A Província foi tomada por líderes tribais contrários ao Taleban na semana passada, mas combatentes da milícia extremista ou fiéis à rede terrorista Al Qaeda, de Osama bin Laden, ainda estariam na região.
Cerca de mil voluntários paquistaneses estariam soltos pela área entre Cabul e a fronteira de seu país. Anteontem, quatro jornalistas franceses já haviam sido roubados por salteadores armados com fuzis no mesmo local do incidente de ontem.
A estrada entre Saroubi e Cabul passa por desfiladeiros nos quais de um lado há montanha, do outro, rio. O território ideal para emboscadas. A ONU ofereceu ajuda aos governos para recuperar os cadáveres e, segundo o porta-voz Eric Falt, está estudando reabrir vagas em vôos seus para tirar jornalistas do Afeganistão em uma eventualidade.
Três jornalistas estrangeiros foram mortos no Afeganistão há cerca de dez dias. Foram os repórteres franceses Johanne Sutton, 34, e Pierre Billaud, 31, e o jornalista alemão Volker Handloik, 40, que estava trabalhando para a revista ‘Stern’."
Cassia Maria Rodrigues
"Curso ensina jornalistas a sobreviver na guerra", copyright O Globo, 25/11/01
"Num espaço de apenas oito dias, sete jornalistas foram assassinados no Afeganistão. Não por outro motivo, centenas de profissionais e empresas de comunicação do mundo inteiro já se conscientizaram de que cursos e treinamentos especiais para correspondentes de guerra podem evitar que o seu trabalho seja indesejado ou tragicamente interrompido.
A iniciativa pioneira de repassar experiência militar para jornalistas interessados na cobertura de guerras é de um grupo de ex-oficiais da SAS, as forças especiais britânicas que combatem lado a lado com os Estados Unidos no Afeganistão. Por menos de US$ 2 mil, o candidato a correspondente de guerra pode alistar-se nas fileiras da AKE (Awareness, Knowledge and Excellence, na sigla em inglês) para um curso intensivo de cinco dias nas trincheiras da empresa, criada há dez anos e localizada em Hereford, no centro-oeste da Inglaterra.
É onde eles são apresentados aos últimos lançamentos da indústria bélica, aprendem a se defender de tentativas de seqüestro, a se prevenir contra armas químicas e biológicas e, sobretudo, a escapar do fogo cruzado.
As estatísticas tornam-se alarmantes quando a memória registra que em 21 anos de guerra no Vietnã, a primeira mostrada pela televisão, 63 profissionais da imprensa foram mortos. Segundo a Federação Internacional de Jornalistas, só este ano 90 correspondentes de guerra tombaram no front. A organização Repórteres Sem Fronteiras lista 157 profissionais que encontraram a morte em 1994 nos conflitos de Ruanda, Bósnia e Argélia.
Jornalistas assassinados não receberam treinamento
A máxima de Napoleão Bonaparte, que desafiava cem mil baionetas, mas temia o poder de fogo resultante da união de três jornais, não deve ser usada mais como lema de guerra para jornalistas, como alerta Andrew Kain, diretor-executivo da AKE, em entrevista ao GLOBO.
- O fato de ser jornalista não o livra do perigo. Pelo contrário, jornalistas nesta missão são involuntariamente capazes de despertar a fúria dos dois lados em combate - adverte o executivo da empresa, hoje com escritórios também nos EUA, listando entre seus principais clientes as redes de tevê BBC, CNN, NBC e o grupo americano Time.
Pelos cursos de treinamento da AKE já passaram 800 jornalistas (600 britânicos e 200 de outros países, inclusive da América Latina). Entre eles estão rostos conhecidos da imprensa e televisão internacionais, como Chris Cramer, o britânico que dirige a CNN Internacional.
Jim Condon, ex-oficial da SAS, é um dos mais procurados instrutores. Em suas aulas, costuma narrar como um professor russo teve um dos dedos decepado por seus seqüestrados, acabando por ser assassinado. É uma tentativa de Condon de ensinar a seus alunos como proceder em casos de seqüestro. Os participantes do curso conhecem a identidade de seus instrutores, mas por questão de segurança, não sabem em quais conflitos eles atuaram.
- Nem a minha mulher conhece todas as minhas atividades militares - diz Condon, mantendo-se fiel ao protocolo militar britânico.
Ele dá um conselho para mulheres que são enviadas para a guerra:
- Nós ensinamos a todos os jornalistas a evitar riscos previsíveis numa guerra. Particularmente em relação às jornalistas, procurem se locomover sempre em companhia de homens - ensina Condon.
O veterano jornalista americano John Owen - ex-correspondente de guerra da rede canadense CBC, com passagens por Nicarágua, El Salvador, Cuba e Oriente Médio - recebeu o treinamento especial da AKE. Owen, hoje diretor do Fórum da Liberdade, critica a falta de preparo dos jornalistas assassinados no Afeganistão e particularmente a colega Yvonne Ridley, do jornal britânico ‘Sunday Express’, detida por dez dias pelo Talibã por entrar clandestinamente no país e depois solta.
- Ela foi estúpida. Em primeiro lugar, Yvonne Ridley nunca esteve no Afeganistão antes. Em segundo, ela também pôs em risco a vida do tradutor que a acompanhava. Numa guerra, se você contrata alguém para atuar com a sua equipe, você é responsável pela segurança dele. Dos quatro jornalistas que morreram no início desta semana, nenhum havia recebido treinamento especial. Por isso, considero indispensável esse tipo de curso. As empresas não deveriam enviar ao front jornalistas despreparados - conclui.
Situações perigosas
Seqüestro: não tente zombar de seus seqüestradores, enfrentá-los ou tentar obter pequenos privilégios, como, por exemplo, uma escova de dentes.
Dinheiro: correspondentes precisam dispor de muito dinheiro em espécie, pois cartões de crédito são inúteis em áreas de conflito. Não saia com todo o dinheiro na carteira.
Equipamentos: leve uma garrafa de água capaz de filtrar bactérias nocivas. E uma máscara de gás.
Sob fogo cruzado: abaixe-se imediatamente. Coletes à prova de balas devem ser usados com freqüência. O melhor lugar para se esconder é atrás de um carro, próximo às rodas dianteiras."
|