|
REPORTAGEM
Lourival Sant’Anna / Comunique-se
"‘Reportagem é um aprendizado contínuo"’, copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 22/1/03
"‘Reportagem se faz com a história de pessoas comuns’. Foi assim que o jornalista Lourival Sant'Anna definiu seu trabalho no Oriente Médio. Repórter especial do Estado de S.Paulo, ele foi designado, logo após o atentado do World Trade Center, para ir à terra dos Taleban. ‘O que a gente sempre sente nessas horas é um frio na barriga e muita pressa para chegar logo. O tempo passa de uma maneira diferente, e o coração bate mais rápido. É uma ótima sensação’, disse o jornalista que, graças a essa cobertura, escreveu o livro ‘Viagem ao mundo dos Taleban’.
Lourival disse a Comunique-se que O 'Papo na Redação' lhe deu uma oportunidade muito boa de trocar idéias com os colegas de profissão. ‘As perguntas fazem a gente parar para pensar sobre o nosso próprio trabalho. Acho que é disso que nós, jornalistas, precisamos: discutir o que fazemos e como podemos melhorar’, completa.
Leia a transcrição do 'Papo na Redação' com Lourival Sant'Anna:
[15:12:13] - Argemiro Garcia (Editor-Chefe / Coordenador de Conteúdo - Jornal de São José) pergunta: Boa tarde, Lourival. Como é cobrir uma guerra? Já chegou a sofrer algum tipo de perigo real na cobertura dos acontecimentos???
Lourival Sant'Anna responde: Boa tarde. Já passei por alguns apertos. Quando estava em Belém, antes de ir para o Paquistão e Afeganistão, os soldados israelenses abriram fogo contra jovens palestinos que atiravam pedras num assentamento judaico. O motorista e eu estávamos no campo de tiro dos soldados. Mas conseguimos arrancar. Também quando entrei no Afeganistão havia uma ordem para a população matar qualquer estrangeiro que entrasse. Fui diretamente até a cabana dos taleban e no fim deu tudo certo.
[15:15:02] - Marcelo Franzese (Freelancer) pergunta: Boa tarde. Lourival, gostaria de saber se vc acredita que o Taleban ‘se fez de louco’ ao deixar os Estados Unidos bombardear as montanhas, só para ‘sentir’ o poder de fogo americano.
Lourival Sant'Anna responde: Boa tarde. Acho que eles não tinham opção. Entregar Osama bin Laden naquelas circunstâncias, diante de um ultimato americano, seria uma humilhação grande demais para eles. E é claro que também havia uma ligação forte demais entre o mulá Mohammed Omar e o Bin Laden. Aparentemente, no nível da cúpula, taleban e al-Qaeda tinham se tornado quase sinônimos. Digo quase, e é importante esse quase, porque, para os afegãos comuns, a diferença era muito importante. Al-Qaeda era visto como o elemento árabe, um corpo estranho dentro do país.
[15:18:55] - Sabrina Martins (Freelancer - Freelancers) pergunta: Boa tarde! Gostaria de saber como você foi escolhido para cobrir a guerra e como se sentiu.
Lourival Sant'Anna responde: Boa tarde. Estávamos o diretor de redação do Estado, Sandro Vaia, o editor-chefe, Eleno Mendonça, e eu na sala do Eleno, assistindo à TV depois que o segundo avião bateu na segunda torre, no dia 11 de setembro de 2001. Daí a decisão inicial foi me mandar para o Oriente Médio, porque não se sabia ao certo do que se tratava, mas certamente tinha alguma coisa a ver com o terrorismo islâmico, cujo epicentro é o Oriente Médio. Sou repórter especial do Estado, com experiência relativamente longa em coberturas internacionais. Já tinha entrevistado Yasser Arafat, em 1992, na Tunísia, e Shimon Peres, e tinha boas conexões com palestinos e israelenses. O que a gente sempre sente nessas horas é um frio na barriga e muita pressa para chegar logo. O tempo passa de uma maneira diferente, e o coração bate mais rápido. É uma ótima sensação.
[15:28:53] - Auricélia de Paula Rodrigues (redatora/proprietária- Projeto Ler & Escrever) pergunta: Você poderia narrar o momento de maior suspense que você vivenciou durante a realização desse trabalho jornalístico?
Lourival Sant'Anna responde: O momento de maior suspense foi o da entrada no Afeganistão. Estávamos tentando havia três semanas. Como eu disse, havia uma ordem para matar estrangeiros no país. Entrei com três comerciantes que faziam negócios com os taleban e meu intérprete, que tinha conexões com militares afegãos. Quando entrei, esqueci de tudo e me concentrei no que estava vendo. Era um cenário fantástico, o de Spin Boldak, no sul do Afeganistão: um bazar da sucata do que sobrara no país depois de duas décadas de guerra.
[15:30:47] - Marcelo Franzese (Freelancer) pergunta: A guerra dos Estados Unidos contra o Iraque parece iminente. Vários países estão apoiando a decisão americana. A Coréia não está nem aí para o Bush, e já declarou que tem mísseis que podem chegar à América do Norte. Como vc vê a postura do Taleban, do Osama, em relação a essa guerra? Eles vão se aproveitar?
Lourival Sant'Anna responde: Acho que a al-Qaeda tem uma agenda terrorista própria, que ela procurará cumprir à medida em surgirem oportunidades de alvos americanos, tanto no território dos EUA quanto fora dele. Acredito que o taleban esteja num momento de recolhimento e provavelmente de rearranjo de suas alianças com grupos mujahedin no Afeganistão, que se opõem ao novo governo.
[15:33:25] - Ana Claudia Carletto (Profissional Contratado- VM Comunicação) pergunta: Lourival: qual é a sensação de estar entre os Taleban. Como é o dia-a-dia dessas pessoas?
Lourival Sant'Anna responde: Os taleban têm um modo de vida muito rudimentar. Vivem em cabanas de palha e cavernas. Comem uma comida muito simples, e muito gostosa, baseada em carneiro, arroz, quiabo e um tipo de cereal parecido com o milho, mas menor. Tudo é assado num forno de argila na forma de um cone, assim como o pão deles, delicioso, uma espécie de pão sírio, mas maior e mais fino. Eles viveram toda a infância e adolescência em escolas religiosas, segregados das mulheres, e não têm costume de conviver com elas. São pessoas simples, rurais, mas com uma fé indestrutível e, francamente, perturbadora.
[15:34:52] - Odir Cunha (Livre Pensador - My Mind) pergunta: Há ricos no Afeganistão? Como eles vivem?
Lourival Sant'Anna responde: Talvez a única pessoa rica, para os padrões ocidentais, no Afeganistão, fosse um estrangeiro: Osama bin Laden, herdeiro da fortuna do grupo saudita Bin Laden - ironicamente, especializado em construções. Há comerciantes, como os que eu conheci, que trabalham com exportação de frutas e importação de arroz, açúcar e chá. Mas eles estão muito longe do padrão de vida da classe alta ocidental.
[15:36:59] - Sabrina Martins (Freelancer - Freelancers) pergunta: Quais são as dicas que você daria para um jovem repórter que fosse escalado para cobrir uma guerra?
Lourival Sant'Anna responde: Acho que não seria conveniente escalar uma pessoa sem muita experiência para cobrir uma guerra. De qualquer maneira, acho que o essencial é planejar, fazer bons contatos, saber onde está pisando, não ir na dúvida, não arriscar além do necessário, ter em mente que não adiante chegar a um lugar e não poder depois voltar, e que o objetivo maior é poder mandar a matéria. O conhecimento do lugar, da cultura, dos valores, é importante, para fazer ‘alianças’ com as pessoas certas e não ofender nem provocar ninguém.
[15:39:02] - Anna Catharina Siqueira (Diretor - Comunique-se) pergunta: Oi Lourival, que tipo de experiência você ainda não teve - e gostaria de ter - dentro do Jornalismo?
Lourival Sant'Anna responde: Meu desejo é continuar fazendo reportagens, da forma como tenho feito no Estado. A reportagem é um aprendizado contínuo. Uma reportagem nunca é igual à outra, não existe rotina. A gente está sempre errando e aperfeiçoando. Por isso, responderia que gostaria de fazer tudo o que ainda falta fazer, na reportagem. Ainda há muitos países que me fascinam e que não conheço, como a China, por exemplo. Ainda tenho muito mais o que fazer do que o que já fiz.
[15:41:30] - Eduardo Entini (Freelancer – Freelancers) pergunta: Lourival, a Imprensa Brasileira quase não tem correspondentes estrangeiros, a não ser nos lugares de sempre (NY, Paris, Londres). Estamos perdendo algo ou as informações compradas (agências internacionais) que no chegam são suficientes? Seria interessante termos um correspondente no Oriente Médio?
Lourival Sant'Anna responde: Acho que os correspondentes são muito importantes. O problema é que a imprensa brasileira vende anúncios em reais e sustenta correspondentes - e enviados especiais - em dólares. Claro que seria muito bom se tivéssemos correspondentes em muitos lugares onde não temos. O jornal procura suprir isso com enviados especiais, em momentos de crise, mudanças, eleições, etc. O olhar do repórter enviado - ou correspondente - do jornal é muito valioso. Ele interpreta a realidade com o olhar do jornal e do leitor para os quais trabalha. Acho que isso é insubstituível.
[15:43:59] - Sabrina Martins (Freelancer - Freelancers) pergunta: Ao chegar ao Afeganistão como você era tratado? Aqui no Brasil falava-se muito que os jornalistas sofriam maus tratos. Isso é verdade?
Lourival Sant'Anna responde: Ser brasileiro é uma vantagem muito grande nessas horas. O Brasil é um país que não se mete nos assuntos dos outros. Talvez essa não seja a percepção, hoje, da oposição venezuelana. Mas quando estive lá, em abril, depois do golpe seguido de contagolpe, quando me identificava como brasileiro, era protegido da fúria popular que se voltava contra os jornalistas locais, que não estavam podendo nem sair às ruas. Mas, voltando ao Afeganistão: os loiros, identificados com americanos e europeus, eram os alvos. Eu, sendo moreno, e devidamente apresentado pelo intérprete, não tive nenhum problema.
[15:45:34] - Maria Cristina França (Gerente - IstoÉ) pergunta: Olá, Lourival. Vc tem conhecimento se, apesar do ‘recolhimento’, o Taleban já não esteja ensaiando alguns passos terroristas contra os EUA tão logo seja deflagrada a guerra contra o Iraque? Há algum sinal comprovado desse tipo de atitude?
Lourival Sant'Anna responde: Olá, Maria Cristina. Veja: os taleban não são terroristas. Eles abrigaram no Afeganistão a rede terrorista al-Qaeda. Essa, com certeza, continua mobilizada em busca de alvos, não só americanos, como ocidentais em geral, como mostra o atentado recente a uma discoteca em Bali.
[15:47:27] - Patrícia Melo e Souza (Repórter - O Dia - RJ) pergunta: Como você analisa hoje a cobertura internacional feita pelos jornais brasileiros?
Lourival Sant'Anna responde: Acho que temos muito o que aprimorar. Acho que sofremos da falta de recursos para fazermos uma cobertura rica, com mais correspondentes e enviados especiais. Mas acho também que, em comparação com jornais de países com nível de desenvolvimento equivalente ao do Brasil, não estamos fazendo feio.
[15:50:34] - Ana Claudia Carletto (Profissional Contratado - VM Comunicação) pergunta: Se essas escolas religiosas são apenas para os homens, o que faz e qual é o papel da mulher Taleban?
Lourival Sant'Anna responde: As escolas também recebem mulheres, mas elas ficam separadas dos homens, em prédios diferentes. Isso, nas madrassas (é assim que se chamam as escolas) paquistanesas, onde os taleban estudaram antes de conquistar o Afeganistão. No Afeganistão, sob o regime taleban, as garotas foram tiradas das escolas, assim como as mulheres foram afastadas do trabalho. Eles diziam que não havia escolas suficientes para todos, e deixaram só os meninos, estudando o dia inteiro, com professores homens. As professoras também tiveram que voltar para casa. A visão deles é a de que as mulheres devem cuidar da casa. E as meninas devem aprender isso com as mães.
[15:52:53] - Simone Andrade (Profissional Contratado- Associação Médica de Governador Valadares) pergunta: Para quem presencia uma guerra é diferente de quem é apenas telespectador. A partir da experiência vivida o que você acha que irá acontecer daqui pra frente com relação a ataques aos Estados Unidos? É provável que outra data seja marcada como 11 de setembro?
Lourival Sant'Anna responde: É difícil imaginar uma repetição do que aconteceu no dia 11 de setembro de 2001. Foi algo espetacular, que só poderia partir de alguém que pensa diferente, que vive num mundo à parte. Acho que até hoje nos EUA há um enorme estado de alerta, como reflexo ainda dos atentados. Demorará algum tempo para que os EUA baixem a guarda e pode ser que al-Qaeda esteja aguardando uma oportunidade de voltar a atacar.
[15:55:24] - Sabrina Martins (Freelancer - Freelancers) pergunta: Entre os estudantes e profissionais de jornalismo você é considerado um exemplo. Como você se sente?
Lourival Sant'Anna responde: Obrigado, Sabrina, mas não me vejo assim. Apenas gosto muito da reportagem e sou muito agradecido ao Estado pelas oportunidades que tem me dado. Condição de trabalho é essencial nesse caso, e tenho tido isso.
[15:58:36] - William Pereira Bezerra (Redator - Jornalistas Estudantes - SP) pergunta: Você acha que o sentimento anti-americano no mundo aumentou devido a políticas de George W. Bush, com a saída do Rio+10 e a recente ameaça de Guerra no Iraque, no qual é implícito os interesses no petróleo daquela região? 1 barril de petróleo vale mais de 100 vidas?
Lourival Sant'Anna responde: Sim, creio que haja um forte sentimento antiamericano. O presidente Bush tem um tipo de linguagem e de atitude que desperta enorme antipatia no mundo. Ele exerce a hegemonia americana sem disfarces, ao contrário do Clinton. Estou lendo Bush at War, do Bob Woodwards, que descreve o processo de tomada de decisão no pós-11 de setembro. E o que Bush sempre disse é que não ia jogar um punhado de mísseis de cruzeiro, como fazia Clinton. Ia bombardear maciçamente e colocar homens no terreno. É claro que Clinton não enfrentou uma situação como o 11 de setembro. Mas é pouco provável que reagisse com o vigor de Bush, não acha?
[16:01:39] - Sabrina Martins (Freelancer - Freelancers) pergunta: O que mudou na sua visão de mundo após vivenciar uma guerra?
Lourival Sant'Anna responde: Essa experiência confirmou com enorme força algumas coisas nas quais eu já acreditava: que vale a pena ser sincero e honesto com as pessoas. Que isso gera confiança e é possível ir mais longe dessa maneira. Senti uma grande empatia pelos pais de família que vagavam no Afeganistão, buscando uma saída diante do bombardeio iminente. E senti que a reportagem se faz com a história das pessoas comuns. Aí, certamente, está a verdade.
[16:05:05] - Anna Haddad (repórter - TV Assembléia MS) pergunta: Lourival, prazer em revê-lo, sou ex-foca e pude ouvir seu depoimento logo após seu retorno do Afeganistão. Qual é o perfil do jornalista que cobre internacional? Como se especializar em neste tipo de análise e reportagem?
Lourival Sant'Anna responde: Tudo bem? Acho que o jornalista de internacional deve gostar de estudar línguas. É conveniente que fale não só inglês e espanhol, mas também outras línguas, como francês, italiano, alemão, etc. Deve também gostar de estudar geografia e história. Deve ter curiosidade intelectual, interesse por culturas diferentes. Não deve ser arrogante. Deve saber respeitar as diferenças, saber ouvir, observar como as pessoas agem e evitar melindrar os sentimentos dos outros, fazendo coisas que lhes pareçam ofensivas, ainda que para ele sejam naturais. Também deve gostar de cultivar amizades e saber que, sem ajuda dos locais, é muito difícil chegar a algum lugar.
[16:07:40] - William Pereira Bezerra (Redator - Jornalistas Estudantes - SP) pergunta: Até agora não foi encontrada evidência de armas químicas naquela região (Iraque). Ao mesmo tempo temos na América Latina uma crise na Venezuela, 4º maior produtor de petróleo no mundo. Isso é mera coincidência?
Lourival Sant'Anna responde: Acho que a crise na Venezuela reforça a noção de que os EUA precisam garantir a existência de regimes amigos nas regiões produtoras de petróleo, como o Oriente Médio. Nesse sentido, a crise na Venezuela, que os EUA gostariam de ver resolvida, em favor da oposição, mas não encontram espaço para se intrometer, é um estímulo a mais para derrubar o regime de Saddam.
[16:08:45] - Sabrina Martins (Freelancer - Freelancers) pergunta: Como a sua família reagiu quando você os avisou que estava indo para o Afeganistão cobrir uma guerra?
Lourival Sant'Anna responde: Foi aos poucos. Primeiro, avisei que estava indo para o Oriente Médio. Depois, consultei minha mulher sobre se podia ir para o Paquistão. Depois, avisei que ia entrar no Afeganistão. Eles confiam em mim. Mas ficam preocupados, claro.
[16:11:20] - Sabrina Martins (Freelancer - Freelancers) pergunta: Como você se prepara para fazer este tipo de reportagem?
Lourival Sant'Anna responde: Fazendo o máximo possível de contatos. As embaixadas brasileiras são um bom ponto de partida. Procuro ler tudo o que encontro sobre a situação atual e a história do lugar e conversar com quem já esteve lá. Nem sempre dá tempo. O ideal é ter uma idéia geral do que se passa por toda parte, para estar mais ou menos pronto para ir para qualquer lugar."
Sérgio Rondino
"Saudades das redações", copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 22/1/03
"Por vontade de mudar, de experimentar novos caminhos, deixei pela primeira vez, em 2002, o ambiente nos quais vivi profissionalmente, sem interrupções, os últimos 35 anos: a redação.
Agora, alguns meses depois, mesmo satisfeito com minha decisão, posso confirmar o que me diziam colegas que tinham se aposentado ou mudado de rumo: redação faz falta. Não é vício, nem saudosismo, mas a verdade é que não existe nada melhor do que uma redação. De preferência, das grandes.
O melhor de uma redação é a convivência intelectual, a troca permanente de novidades, informações e idéias. Mas também é a própria mistura de comportamentos e tipos humanos – malucos, gênios, debochados, divertidos, ranzinzas... uma galeria vasta de seres fascinantes, com freqüência mais exóticos do que se poderia esperar.
Inesquecível mistura de comportamentos. Tome, por exemplo, esta cena dos primeiros tempos do Jornal da Tarde, de São Paulo: do meio daquele mar de gente debruçada sobre mesas e máquinas de escrever, explodiam de repente escandalosos espirros. Aaaattcchiiimm! Um dos redatores tinha acessos alérgicos de trinta, quarenta espirros seguidos, intermináveis. Pois a cada espirro, a redação ia contando, em coro: ‘Um! Dois!! Três!...’ Um gritaria maluca.
Ou esta cena, do velho Estadão dos tempos da rua Major Quedinho: um homem começa a cruzar lentamente a imensa redação, e a cada passo vai silenciando o matraquear das Remingtons e Olivettis. Para espanto geral dos senhores redatores, o homem vai puxando por uma coleira... um pinguim! Espanto maior ainda: o homem é ninguém menos que um dos donos do jornal.
Existem as redações maiores e menores, de jornal, de revista, de rádio e de tevê, mas o espírito, o clima, é geralmente o mesmo. Às vezes me pergunto se soldado gosta tanto de quartel, ou se médico se apaixona por hospital, ou ainda se pedreiros sentem, pelo canteiro de obras, a mesma atração que o jornalista tem pela redação. Duvido.
Só não sei até que ponto a modernização vai afetar esse espírito. Sem as Remingtons e Olivettis, trocadas por computadores, as redações mudaram – estão mais silenciosas, mais limpas, menos poluídas por cigarros. Cadê aquela bagunça? Nas redações de tevê, o clima ficou um pouco mais monótono – junto com os computadores, elas ganharam espaços para apresentação de telejornais e de programas jornalísticos. Foram transformadas em cenários vivos, e isso nos obriga a um certo bom comportamento, algum silêncio e muito cuidado para evitar a gritaria, o escândalo. Uma redação assim é como certas pessoas: lindas, mas um pouco sem graça... [Diretor de Comunicações da Assembléia Legislativa de São Paulo e ex-apresentador da Bandeirantes]"
|