PM NA CÂMARA
Alberto Dines
"As lágrimas de João Paulo", copyright Jornal do Brasil, 26/7/03
"Homem também chora, deputado também chora, presidente da Câmara dos Deputados também chora, mas as lágrimas de João Paulo Cunha na quinta-feira, além de marcar a sua biografia, poderão converter-se em símbolo de uma grave crise política.
Pior do que a permissão para a entrada do Batalhão de Choque da PM no recinto do Legislativo, mais grave do que acusar a imprensa de distorcer a realidade, é a constatação de que o país encaminha-se para a ruptura do pacto social, do pacto político e do Estado de Direito.
O deputado paulista não é apenas o presidente da Casa do Povo - a câmara mais autêntica e representativa do Poder Legislativo -, é o segundo na ordem da sucessão presidencial. Vice-presidência não é função, mera hipótese de vacância. Já a presidência da Câmara dos Deputados, mesmo no regime presidencialista, é poder legítimo, sustentação da República. As lágrimas de seu presidente têm peso político e lastro institucional.
Não está em jogo a pessoa do jovem parlamentar - honrado, idealista, corajoso, competente e, ainda mais, poeta bissexto - nem a demonstração pública de sensibilidade e franqueza que só o valorizam num cenário onde imperam a rudeza, a agressividade e o cinismo.
João Paulo chorou porque está irremediavelmente envolvido num dos lances mais dramáticos desde a redemocratização do país. Estamos diante de nova tentação totalitária, a diabólica política ‘na marra’ que nos empurrou para o poço da amargura e do qual só agora, 39 anos depois, começamos a sair. Em 1964, João Paulo Cunha tinha apenas seis anos da idade mas ao longo de sua militância política também pagou o preço da irresponsabilidade daqueles que apostaram no confronto e no vale-tudo.
João Paulo chorou porque o governo atrapalha-se entre o marketing e as estratégias, enquanto ele fica sozinho para desarmar uma crise cuja velocidade e dimensões não pode controlar. A direita sempre agarrou-se à lei e à ordem para burlar o Estado de Direito mas as esquerdas têm o compromisso histórico de fazer mudanças e preservar a democracia.
O fascismo de esquerda é tão perigoso quanto o fascismo de direita - ambos prometem milagres que jamais puderam realizar. Fome e miséria não podem servir de pretexto para golpes de mão, desordem só alimenta a injustiça. Putsch parece nome de sopa mas só enche a barriga daqueles que o organizam.
João Paulo chorou porque foi protagonista de um lance trágico: ou atentava contra a democracia, permitindo a baderna dos servidores em recinto onde deputados votavam a reforma da Previdência, ou comprometia a inviolabilidade do Legislativo com a entrada dos PMs. Tragédia é isso, situação sem saída nem escolhas - irremediável. A catarse deu-se no dia seguinte, quando as lagrimas embargaram a voz e toldaram-lhe a razão: culpar a imprensa é parte da perturbação generalizada, mais fácil caçar bruxas do que dar uma basta à escalada de arruaças.
João Paulo chorou porque, embora metalúrgico e não bacharel, sabe o que significa uma greve nacional de juízes. Mesmo como ameaça, representa uma intimidação inconcebível, mácula irreparável num processo baseado no equilíbrio, harmonia e respeito entre poderes e instituições.
Este ultimato togado não difere das exigências fardadas num passado não muito distante. Antes os generais fechavam a cara e mandavam ligar os tanques na Vila Militar, agora os magistrados fazem beicinho e avisam que recolherão as balanças da Justiça. Dá no mesmo, é o tacape em versão real e virtual.
João Paulo chorou porque percebe a extensão do caos, a imensa terra-de-ninguém onde o crime convive com a exclusão e um assaltante que roubou 62 reais de um posto de gasolina sabe que pode refugiar-se num acampamento dos Sem-Teto, assassinar o primeiro que lhe aparece pela frente e escapar impune. Não fosse a vítima repórter-fotográfico de uma revista importante, teríamos apenas um B.O. a engrossar as estatísticas. Nós, jornalistas, choramos por La Costa, pautado para fazer o retrato da crise brasileira e que acabou como retrato do Brasil.
O PSDB deveria chorar com João Paulo. Um partido que resultou de uma cisão ética e durante oito anos sentiu a responsabilidade de governar não pode entregar-se ao oportunismo rastaqüera açulando os descontentes e colocando lenha numa fogueira que, como todos, tem a obrigação de abafar.
A grande verdade é que João Paulo Cunha não deveria chorar sozinho."
Ranier Bragon
"João Paulo chora e diz que imprensa errou", copyright Folha de S.Paulo, 25/7/03
"O presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP), chorou ontem ao criticar a forma como a imprensa noticiou o confronto ocorrido anteontem entre a Polícia Militar e manifestantes que tentavam entrar à força na Casa para impedir a discussão da reforma da Previdência.
A convocação dos policiais foi autorizada por João Paulo.
‘A manchete foi assim: polícia ocupa o Congresso Nacional. Como ocupa? Foi como se a polícia tivesse entrado no plenário, determinado a pauta e impedido os deputados de entrar e falar. É uma coisa tão difícil de acreditar que não há outra palavra [para descrever] que não seja tristeza. Ontem o Congresso trabalhou absolutamente tranquilo’, disse João Paulo, com a voz embargada e demonstrando indignação.
A reação do deputado ocorreu na solenidade de lançamento da Frente de Defesa da Igualdade Racial. Segundo ele, a verdade é a ‘primeira a morrer na guerra da informação’.
‘Você fica impotente. Tem que ligar para a família, para os amigos. É uma coisa que contraria toda a sua vida’, disse ele, no momento em que abandonou o microfone para enxugar as lágrimas.
João Paulo assumiu a responsabilidade de ter autorizado a PM a entrar no Congresso. A interlocutores, disse que a situação saiu de controle quando um manifestante foi detido e arrastado pelos policiais para a sala dos seguranças.
O episódio foi tratado como uma truculência sem precedentes na história do Legislativo.
Uma das vozes discordantes foi o deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP), líder do governo na Casa: ‘Isso é uma tremenda bobagem. A PM já entrou aqui outras vezes. O Lindberg [Farias, deputado do PT] já foi arrastado pela tropa de choque como um porco aqui pelos corredores’. Lindberg confirmou à Folha que foi arrastado e jogado para fora da Câmara em 1993, quando foi à Casa protestar contra reformas do então presidente, Itamar Franco (1992-1994).
Após as lágrimas do presidente da Câmara, a ala esquerdista do PT desistiu de divulgar uma nota condenando de forma incisiva o episódio de anteontem.
João Paulo recebeu a visita de vários deputados, aliados e da oposição. O PP divulgou nota apoiando a atitude de João Paulo. Quando presidia a sessão, ouviu seguidos discursos de apoio.
‘O presidente da Câmara tem a obrigação de defender o funcionamento normal da Casa. Alguns manifestantes estavam agredindo os seguranças. Se tivessem entrado, a sessão poderia ter terminado de forma violenta’, disse o deputado Paulo Bernardo (PT-PR).
O grupo dos 28 deputados petistas mais à esquerda da sigla se encontraram com o presidente da Câmara. Disseram que não concordaram com a convocação da PM, mas desistiram de redigir a nota de repúdio. ‘Sabemos que o aconteceu ontem [anteontem] foi grave e não pode se repetir. Mas isso [as lágrimas] nos tocou, nos comoveu’, afirmou o deputado Chico Alencar (PT-RJ).
Mas houve críticas. ‘Eu vi os policiais arrastando um servidor. O João Paulo não viu’, afirmou o petebista Arnaldo Faria de Sá (SP)."