29/07/2003 19/25

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BBC & DAVID KELLY
Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa

"A bruxa de Blair", copyright Carta Capital, 30/7/03

"A crise que Blair agora tem nas mãos é a mais séria que já enfrentou. Quase 40% dos britânicos acreditam que ele deve renunciar. Mesmo que não fosse o país de Conan Doyle, Agatha Christie, Ian Fleming e John le Carré, os motivos eram mais do que suficientes para que o público exigisse uma investigação séria e profunda.

O primeiro-ministro indicou Lord Hutton, juiz da Câmara dos Lordes - o mesmo que declarou legal a extradição e julgamento de Pinochet por crimes cometidos após 1988 -, para investigar e se dispôs a depor.

Não quer, porém, ser questionado sobre as razões da guerra e as falsas evidências contra Saddam Hussein. Recomendou a Hutton, pela imprensa, restringir o escopo da diligência às circunstâncias da morte do microbiólogo David Kelly: ‘É importante que ele faça o que lhe foi pedido para fazer. Não acho que seria sensato fazer mais’.

O juiz, porém, reafirmou sua independência: ‘Esclareço que me cabe decidir os assuntos sujeitos à minha investigação’.

O dr. Kelly, de 59 anos, era consultor dos ministérios da Defesa e das Relações Exteriores e chefe do setor de microbiologia do governo desde 1984 - e veterano de inspeções de desarmamento na Rússia e no Iraque.

Em 1989, após ouvir um biólogo que havia desertado da URSS, revelou a extensão de um projeto de guerra biológica, que incluía mísseis de longo alcance com ogivas de peste bubônica. De 1991 a 1994, participou da fiscalização de tratados de desarmamento em laboratórios russos. De 1991 a 1998, revelou o programa de armas biológicas do Iraque e monitorou o seu desmantelamento, enquanto Saddam Hussein fazia pessoalmente o possível para expulsá-lo do país.

Na manhã da sexta-feira 17, foi encontrado morto em um bosque de Oxford a 8 quilômetros de casa, juntamente com uma faca e uma caixa de analgésicos, depois de sangrar até a morte de um corte profundo no pulso esquerdo.

No dia anterior, havia trabalhado em um relatório para o Ministério da Defesa e respondido a alguns e-mails. Como de costume, saiu para caminhar depois do almoço. Foi pouco antes da meia-noite que sua esposa comunicou seu desaparecimento à polícia.

Dois dias antes, fora convocado a depor em uma CPI. Investigava-se a afirmação do correspondente de defesa Andrew Gilligan, da BBC, de que uma fonte contatada em um hotel de Londres, ligada ao serviço de inteligência e que estava entre os encarregados de redigir o dossiê sobre a ameaça iraquiana, havia revelado que Alastair Campbell, diretor de comunicações de Tony Blair, maquiara (sexed up) os relatórios do MI-6 (o ramo do serviço secreto britânico que atua no exterior) para justificar a invasão.

Uma das distorções de autoria de Campbell teria sido o destaque dado a uma alegação contestada pelos especialistas e que o governo tinha quase certeza que era falsa: a de que Saddam Hussein seria capaz de disparar armas de destruição em massa em 45 minutos. Dias depois, a correspondente de ciência Susan Watts também relatou outra conversa com um funcionário graduado que revelou que o governo estava desesperado por argumentos e forçara os serviços de inteligência a incluir essa informação, na qual não acreditavam.

Desde 29 de maio, quando Gilligan fez suas revelações, o governo britânico atacou a BBC - uma rede pública de rádio e tevê, sempre ameaçada com cortes de verba - por basear uma denúncia desse porte em uma única fonte e exigiu a revelação do nome. A cúpula recusou e foi iniciada uma caça ao suposto informante.

Em 19 de junho, interrogado formalmente pelo comitê de Relações Exteriores do Parlamento, Gilligan recusou-se a revelar a fonte, que dizia conhecer muito bem e há muito tempo. Mas citou sua declaração de que havia uma chance de 30% de Saddam Hussein possuir armas biológicas.

Sabia-se que o dr. Kelly, então no Iraque, mencionava essa porcentagem e tinha pontos de vista semelhantes ao da fonte da BBC. Em 30 de junho, ao voltar de Bagdá e ser confrontado com uma transcrição do depoimento de Gilligan ao Parlamento, o cientista escreveu a seu superior admitindo que havia conversado sobre o assunto com jornalistas, uma semana antes da reportagem.

Segundo o jornal Sunday Herald, foi brutalmente interrogado por quatro dias e ameaçado com um processo por divulgar segredos de Estado, demissão e perda da aposentadoria a que teria direito dentro de mais um ano. Acabou repreendido oficialmente por seu encontro não autorizado com um jornalista, mas levado a crer que, em troca de sua cooperação, o assunto permaneceria confidencial.

Para o jornal The Independent, o ministro da Defesa, Geoff Hoon, de fato pretendia lidar com a questão internamente. Saiu do gabinete do primeiro-ministro a ordem de divulgar o caso - e depois o nome - à imprensa.

Era uma oportunidade de desmentir e desmoralizar a BBC, alegando que a rede havia mentido sobre a posição, a importância e o envolvimento de sua fonte na montagem do dossiê. O governo britânico contava com a cumplicidade de parte da mídia privada que quer privatizar a rede. Principalmente a comandada por Rupert Murdoch, que não desistiu de conseguir seu canal de tevê aberta na Inglaterra.

No dia 8, o governo trouxe a público que um consultor do governo havia admitido ser a fonte e era um perito em armas de destruição em massa, mas não era membro do serviço de inteligência, sua contribuição para o dossiê havia se limitado a explicações sobre inspeções de armas e desarmamento no Iraque (o que indicava ser um dos peritos que trabalharam com a ONU).

Divulgado o fato, o comitê de investigação do Parlamento quis interrogar publicamente a suposta fonte. Hoon pediu à BBC, por escrito, para confirmar ou negar se David Kelly era a sua fonte, o que ela recusou. Em seguida, conta o jornal The Guardian, a assessoria de imprensa do ministério o convidou a um absurdo jogo de quente-ou-frio. Informou estar pronta a confirmar ou negar se era do informante qualquer nome que lhe fosse perguntado.

The Guardian diz que perguntou por três nomes. Os dois primeiros foram rejeitados, o terceiro - o do Dr. Kelly - confirmado. O Financial Times também não teve dificuldades. The Times estava menos informado: apresentou 20 nomes antes de chegar ao certo.

O cientista disse a amigos ter sido surpreendido e traído pela divulgação de seu nome. O Ministério da Defesa o levou a uma ‘casa segura’. Segundo o governo, a acomodação alternativa foi-lhe oferecida para evitar a pressão da imprensa - mas por que separado da família?

À esposa, Janice, Kelly pôde falar:

- Não estou bem. Fui levado a uma casa segura e não gosto disso. Quero voltar para casa.

O jornalista Nicholas Rufford, do Sunday Times, perguntou-lhe como havia sido tratado pelo ministério:

- Para registro? Eles agiram muito bem... mas eu me sinto como se tivesse sido passado pelo espremedor - disse o microbiólogo.

Acaso o ministério o aconselhou sobre como lidar com os telefonemas da mídia, ou se ofereceu a enviar alguém da assessoria de imprensa para lidar com as equipes da tevê que chegavam à sua casa? Não. Simplesmente lhe disseram para não falar com a imprensa. ‘Acho que eles esperavam que eu lidasse com isso sozinho’, disse a Rufford.

À esposa, Kelly se disse furioso com o que se passou no Comitê. Conduzido ao Parlamento por dois policiais do ministério, que sentaram atrás dele para tomar notas e vigiar, o dr. Kelly já parecia quebrado. Sua voz estava quase inaudível: apesar do calor de um verão mais quente que o usual para a Inglaterra, foi preciso desligar o ar-condicionado para ouvi-lo.

- Você sabe de outros inquéritos em seu departamento para procurar uma fonte, além de você, ou em vez de você? - perguntou Andrew Mackinlay, deputado trabalhista hostil a Blair.

- Não. - respondeu o dr. Kelly.

- Nenhum, mesmo?

- Não, não.

- Não? Acho que você é uma cortina de fumaça. Você foi lançado para desviar nosso inquérito. Você já se sentiu como um boi de piranha? Você foi manipulado, não foi?

- Essa é uma questão que eu não posso responder.

- Mas você se sente assim?

- Não, eu aceito o processo que está se dando.

Disse não acreditar ser a principal fonte das informações usadas pela BBC. Admitiu ter conversado jocosamente sobre a insistência do governo nos ‘45 minutos’ e explicado que seria preciso mais que isso só para verter agentes químicos ou biológicos na ogiva de um míssil.

Mas negou cabalmente ter mencionado o nome de Campbell - que, nesse mesmo momento, comemorava o que considerava sua vitória sobre a rede pública de rádio e tevê - ou ter emitido comentários que autorizassem Gilligan a fazer afirmações tão categóricas sobre a elaboração do dossiê.

A BBC continuou a se recusar a confirmar ou negar se o dr. Kelly havia sido a sua fonte, mas seu depoimento a deixou em posição desconfortável. Se era toda a verdade, Gilligan e Watts haviam ‘maquiado’ o que lhes havia sido dito.

O cientista também não se sentia nada bem. À esposa, disse estar furioso com o que se passou na CPI. Estava tenso e infeliz. Ao voltar à ‘casa segura’, pretendia se preparar para continuar seu trabalho no Iraque, mas aparentemente deu-se conta de que estava sozinho, seu governo o havia jogado às baratas e sua carreira estava encerrada.

- Este não é o tipo de mundo em que eu quero viver - disse à esposa.

Na manhã de seu último dia, quando finalmente pôde voltar para casa, escreveu um e-mail à jornalista Judith Miller, do New York Times, que lhe havia perguntado sobre como havia sido seu testemunho: ‘Vou esperar até o fim de semana antes de julgar - muitos atores misteriosos fazendo seus jogos’.

A julgar por conversas anteriores, referia-se a pessoas do Ministério da Defesa e do serviço secreto. Pouco antes de sair de casa, enviou outro e-mail a um amigo, dizendo que retornaria a Bagdá no fim do mês, se as coisas voltassem ao normal.

Depois de confirmada a morte, a BBC revelou que o dr. Kelly havia sido mesmo a sua única fonte. Do ponto de vista ético, recusar-se a revelá-la foi correto - há quem julgue que seu silêncio devia ter sido mantido mesmo depois da morte. Mas terá comprometido décadas de tradição e seriedade para distorcer informações e atacar o primeiro-ministro e seu diretor de comunicações? A BBC diz ser capaz de provar que não, inclusive com a gravação da conversa de Watts com o microbiólogo e anotações feitas independentemente por ela e por Gilligan.

Mas, mesmo que as aspas colocadas em torno da palavra ‘suicídio’ por alguns jornais se provem desnecessárias, o governo tem mais a esclarecer.

O cientista teria sido obrigado a desmentir o que realmente disse e a fazer o jogo de Blair para proteger a si ou à sua família? Se não, por que a BBC foi desafiada por Adam Ingram, ministro das Forças Armadas, a negar que ele era sua fonte com o argumento de que ‘esperamos que isso permita ao dr. Kelly continuar sua carreira no Ministério da Defesa’?

Em nome de que valores Blair e Hoon expuseram de forma tão tortuosa um homem respeitado por seus pares e com uma longa carreira de competência e patriotismo? Por que o dossiê insistiu em brandir alegações que o dr. Kelly julgava tão ridículas? Não só ele: fora da BBC, pelo menos sete outros jornalistas citaram independentemente fontes do governo inconformadas com a assertividade exagerada do documento, pela qual só Campbell - abaixo de Blair - podia ser responsabilizado.

As pressões sobre a BBC e os extremos a que foi levada a batalha contra a rede caracterizam desrespeito à liberdade de imprensa? Pode estar em jogo, além do destino do Iraque, uma batalha global pelo controle da opinião pública que também inclui os ataques da Fox de Murdoch ao New York Times e o de Ann Coulter à mídia ‘liberal’ norte-americana."

 

Cassia Maria Rodrigues

"Juiz do caso Kelly proíbe TVs em inquérito", copyright O Globo, 25/7/03

"Um dia depois de anunciar que as emissoras de televisão poderiam transmitir ao vivo os depoimentos das testemunhas a serem ouvidas no inquérito que apura responsabilidades pela morte do cientista David Kelly, o juiz Brian Hutton recuou e anunciou ontem que jornalistas só poderão cobrir o evento nas bases a serem instaladas nas cortes de Justiça.

O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, e o ministro da Defesa, Geoff Hoon, devem ser chamados a depor. Câmeras de TV podem pôr os depoentes sob muita pressão, justificou Lee Hughes, que vai atuar como secretário do inquérito.

Depois de uma viagem de uma semana à Ásia, Blair reassumiu ontem o governo sob forte pressão para esclarecer as circunstâncias da morte de Kelly. O aparente suicídio do cientista provocou a maior crise do governo trabalhista, há seis anos no poder, e precipitou a ruptura das relações de Downing Street com a rede BBC. Kelly, um microbiologista que prestava consultoria ao Ministério da Defesa, foi a fonte da emissora na reportagem que acusou o governo de justificar a guerra no Iraque exagerando informações em relação às armas iraquianas.

No desembarque em Londres, na noite de quarta-feira, Blair voltou a negar que tenha autorizado o Ministério da Defesa a revelar que Kelly era a fonte da reportagem. Há quem aposte que o ministro da Defesa, Geoff Hoon, denunciado pela imprensa britânica como o responsável pelo vazamento da informação que teria levado à morte do microbiologista, estaria com um pé fora do governo.

Mas a imprensa não responsabiliza apenas Hoon. Alastair Campbell, braço direito de Blair e diretor de Comunicações do governo, teria armado previamente a estratégia com o ministro."

 

Carlos Heitor Cony

"Quando as fontes conspiram", copyright Folha de S.Paulo, 26/7/03

"Desde que o jornalismo encheu a boca com a palavra ‘ética’, o direito de preservar a fonte é tido como sagrado, a tábua da lei, a pedra angular da informação. Na maioria dos casos, a ética não passa de uma simplificação oportunista da moral comum.

Temos agora o exemplo de uma fonte que foi preservada pela BBC e pelo governo inglês, interessado em se aliar aos Estados Unidos na agressão ao Iraque. O caso acabou num suicídio, talvez num assassinato.

No episódio, que envolve o primeiro-ministro Tony Blair, o que menos importa é a veracidade e a importância da informação. O que conta foi o uso político e militar que dela se fez. Bem-intencionada ou não, nenhuma fonte deve ser mantida em segredo. Uma informação, seja ela qual for, antes de ser assumida pelo jornalista, que dela se aproveita prometendo resguardar a sua origem, deve ser assumida prioritariamente pela própria fonte.

De duas uma: ou a fonte diz a verdade ou mente. Ou tem autoridade para dar a informação, mas não pode se expor, ou funciona como agente duplo da informação, dela se beneficiando de algum modo. Se a notícia der o resultado pretendido pela fonte, ela ganha alguma coisa, pois foi essa a sua intenção: a de criar um bode para alguém ou para alguma causa. Se não der bode, tudo bem, a fonte continua preservada, lucrando com a situação ou com a pessoa que tentou denunciar ou condenar ao pelourinho.

Colocar a informação, que pode ser verdadeira ou falsa, acima de qualquer outro valor moral, é ético? Se a fonte tem a consciência de que a informação é verdadeira, que não se esconda no sigilo tático, lucrando seja qual for o resultado da notícia que dá. Caso contrário, tanto a fonte como o jornalista tornam-se cúmplices de uma conspiração que, para dizer o menos, é duvidosa."

 

Folha de S.Paulo

"Blair x BBC", editorial, copyright Folha de S.Paulo, 26/7/03

"Além de mergulhar Tony Blair na maior crise política de seus seis anos como premiê, a morte -aparentemente suicídio- de um especialista em armas de destruição em massa que servia ao governo britânico provocou um debate jornalístico que tem no centro a British Broadcasting Corporation (BBC).

Encontrado morto há uma semana, o microbiólogo David Kelly foi fonte de reportagem em que a rede acusou o assessor de imprensa de Blair de incluir informações duvidosas em dossiê sobre o arsenal de Saddam Hussein, de modo a exagerar a ameaça representada pelo ditador e obter respaldo para invadir o Iraque.

Levada ao ar em maio, a reportagem desencadeou uma onda de pressões sobre a emissora, da qual o governo passou a exigir ora desculpas formais, ora a identificação da fonte -até então mantida em sigilo. Diante de seguidas recusas, autoridades deixaram ‘vazar’ o nome de Kelly. Pouco antes de morrer, ele negou ter dado as informações ao repórter.

Ao reconhecer, depois da morte, que sua fonte era mesmo Kelly, a BBC tornou-se alvo de críticos para os quais foi ela, não o governo, que ‘esquentou’ as avaliações do especialista, levando-o ao desespero.

Financiada diretamente pelo contribuinte, a octogenária rede tem um estatuto que protege sua linha editorial de interferências governamentais. O caso Kelly é a mais recente de uma série de insatisfações de Blair com a emissora, também às turras com o governo de Israel, que a acusa de manter viés pró-palestino.

Seria ingênuo exaltar a independência da BBC sem ponderar que o ‘velho trabalhismo’ incrustado na emissora é visível na orientação de seu noticiário. Porém, num ambiente jornalístico de predominância conservadora, a ‘esquerda’ representada pela BBC contribui para a diversidade informativa. Sua cobertura da guerra foi um contraponto ao oficialismo da TV americana. Independentemente do que o inquérito em curso concluir, permanece o fato de que as armas alardeadas por Blair e Bush jamais foram encontradas."


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