30/12/2003 6/16

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MÍDIA / EUA
Paul Krugman

"A mídia americana e a eleição", copyright The Washington Post in O Estado de S. Paulo, 27/12/03

"Durante a campanha presidencial de 2000, muitos jornalistas iludiram a si próprios e ao seu público ao acreditarem que não havia muitas diferenças, no aspecto político, entre os dois principais candidatos, e por causa disso centralizaram sua atenção nas personalidades (ou melhor, na percepção de personalidades) de George W. Bush e Al Gore. Desta vez, não pode haver ilusões: o presidente Bush levou este país acentuadamente para a direita, e a eleição de 2004 mostrará se a conquista do poder pela direita foi completa.

Mas será que a cobertura dessa eleição refletirá a sua seriedade? Com este objetivo, proponho aqui algumas regras para a cobertura política pela mídia.

1. Não fale sobre roupas. O apoio de Al Gore ao pré-candidato democrata Howard Dean foi um evento importantíssimo: o homem que ganhou a eleição de 2000 no voto popular manifestou seu apoio a um candidato que acusa o presidente de erroneamente levar o país a uma guerra. E o que alguns destacados comentaristas disseram a respeito? Bem, que os dois vestiam ternos azuis.

Infelizmente, isso não é incomum. Não sei por que alguns jornalistas parecem tão preocupados com as roupas dos políticos e menos, digamos, com suas propostas políticas. Contudo, a menos que você seja um repórter de moda, a obsessão com as roupas é um insulto à inteligência dos seus leitores.

2. Na verdade, concentre-se nas propostas dos candidatos. Comenta-se que uma proposta-chave do discurso sobre o Estado da União (que os presidentes americanos fazem todos os anos) será a criação de novos tipos de cadernetas de poupança isentas de impostos. A proposta virá embrulhada em belas frases sobre uma ‘sociedade de proprietários’. Mas os jornalistas sérios deveriam nos mostrar como o plano funcionaria, quem se beneficiaria e quem perderia com ele.

Uma versão inicial do plano veio a público há quase um ano, e foi cuidadosamente analisada pelo jornal Tax Notes. Portanto, não há desculpas para alguém deixar de informar que o plano provavelmente reduziria, e não aumentaria, a poupança nacional; que ele teria um impacto a longo prazo no Orçamento; e que ele beneficiaria principalmente a pequena parcela mais rica da população.

3. Cuidado com as anedotas. As anedotas que supostamente revelam o caráter de um candidato são um componente da reportagem política, mas elas deveriam vir acompanhadas de ‘sinais de advertência’.

O fato é que há muitas anedotas, e é muito mais fácil divulgar aquelas que reforçam os preconceitos do repórter. Um fato que ficou aceito pela mídia é que Bush é um cara aberto, honesto, e que diz o que pensa, e anedotas que se ajustam a esse perfil são divulgadas. Mas, se o fato admitido fosse o de que ele, ao contrário, é um impostor, uma pessoa que nasceu em berço de ouro e que finge ser caubói, os jornalistas teriam muito material à disposição.

Se o repórter precisa usar anedotas, é melhor que elas sejam verdadeiras.

Depois que Dean recebeu o apoio do ex-vice-presidente, inúmeros repórteres fizeram piada com o fato de Al Gore ter inventado a internet. Gente, ele nunca disse isso. Trata-se de uma distorção maldosa de uma declaração verdadeira, e nenhum jornalista que respeite a si próprio deveria repeti-la.

4. Observe os antecedentes dos candidatos. Um exame atento do passado de Bush como governador teria revelado que, ao contrário do que foi aceito pela mídia, ele não era um moderado. Um exame atento ao passado de Dean como governador de Vermont teria revelado que, ao contrário do que foi aceito pela mídia, ele não era um radical. Ele foi um líder conservador nas questões fiscais, cuja maior conquista política - a cobertura quase total do seguro-saúde para crianças, naquele Estado - resultou de uma série de medidas lógicas.

5. Não se deixe levar pelo histrionismo político. É inacreditável o volume de tinta jogado fora com a suposta mágoa de Joe Lieberman (outro pré-candidato democrata) por não ter recebido o apoio de Gore. Gente, estamos falando de guerra, paz e do futuro da democracia americana, e não sobre quem levou a garota ao baile.

Os profissionais da política se tornaram peritos em fabricar a aparência de ultraje. Nas últimas semanas, os suspeitos de sempre tentaram transformar os comentários, naturalmente ressentidos, de Howard Dean sobre a morte de seu irmão no Laos como uma espécie de insulto aos militares. É nossa obrigação com os leitores não cairmos nesses truques.

6. Não é com vocês. Lemos no The Washington Post que os repórteres que estão cobrindo a pré-campanha de Dean estão surpresos - e, subentende-se, aborrecidos - com o fato de que o ex-governador ‘nunca faz uma pergunta sobre eles’. Dá vertigem.

Na verdade, não espero que os meus colegas jornalistas sigam estas regras.

Sem dúvida, eu mesmo, nos momentos de fraqueza, quebro uma ou mais dessas regras. Mas a História não nos perdoará se permitirmos que a preguiça e a mesquinhez pessoal definam essa eleição crucial."

***

"O Cidadão Kane está de volta", copyright The New York Times in O Estado de São Paulo, 24/12/03

"A estarrecedora matéria publicada segunda-feira pelo The New York Times sobre o círculo próximo a Conrad Black, o presidente (que passa por uma fase difícil) da Hollinger International, o descrevia como ‘um barão da mídia do passado’. De fato, seu estilo lembra o de William Randolph Hearst.

Mas é um erro imaginar Lorde Black, não importam quais sejam seus problemas pessoais, como um exemplar de uma era que já se foi. Ele provavelmente representa a onda do futuro.

Hoje em dia, tudo o que é velho voltou a ser novo. A renda está novamente concentrada nas mãos de uma minúscula elite, e o dinheiro dita as regras da política numa amplitude não vista desde a Era de Ouro americana. A guerra no Iraque tem uma incrível semelhança com a guerra Hispano-Americana - jamais ficou provado que a Espanha estava ligada ao afundamento do encouraçado Maine. E o Cidadão Kane está de volta, sob a forma de um incestuoso complexo de mídia e política.

O império de Conrad Black inclui The Daily Telegraph, de Londres, The Jerusalem Post e The Chicago Sun-Times. Ele trocou a cidadania canadense pela britânica - o que o forçou a abrir mão do controle do National Post, no Canadá - quando o governo canadense o impediu de se tornar membro da Câmara dos Lordes.

Agora ele é um lorde em dificuldades. Acontece que a Hollinger pagou centenas de milhões de dólares em comissões para empresas controladas por Lorde Black e para executivos. Alguns desses pagamentos foram secretos, e não haviam sido autorizados pela direção da companhia. Ainda que encarado apenas como um escândalo corporativo, o caso é bem sério.

Mas o caso Black não é apenas uma história de má governança corporativa. Não é preciso dizer que Lorde Black, a exemplo de Rupert Murdoch, usou seu império de mídia para promover uma agenda política conservadora. O Daily Telegraph, em particular, tem o hábito de ‘descobrir’ documentos de autenticidade não comprovada que, por acaso, corroboram as alegações neoconservadoras para a guerra. Ficamos sabendo agora que Lorde Black também usou o fato de controlar a Hollinger para premiar amigos, incluindo jornalistas, que partilham de seus pontos de vista políticos.

Inevitavelmente, a lista inclui Henry Kissinger e Richard Perle, que na minha opinião (roubando uma idéia de Tim Noah, da revista eletrônica Slate), deveria ser o personagem de um jogo de salão sobre política para os amigos, na linha de ‘Six Degrees of Kevin Bacon’ (um jogo de salão, criado por estudantes da Pensilvânia, que se tornou extremamente popular nos EUA). Este ex-funcionário do Pentágono, que tem íntimos vínculos com o secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, exaltou entusiasticamente as vantagens de ser um empresário e alguém com influência política. Sua prestigiosa (embora não por tempo integral) posição na Câmara de Política de Defesa lhe dá credibilidade e no mínimo dá a entender que ele tem acesso a informações privilegiadas e influência política. Isso lhe possibilitou lucrativos contratos de consultoria e atraiu investimentos para o seu fundo de capitais de risco Trireme Partners.

Em agosto, Perle, usando a roupa de detentor de informações privilegiadas na área da Defesa, foi co-autor de um editorial do The Wall Street Journal elogiando o controvertido contrato do Pentágono para a compra de aviões-tanque da Boeing. Ele não informou que a Boeing tinha uma aplicação de US$ 2,5 milhões no Trireme.

É claro, a Hollinger também investiu US$ 2,5 milhões no Trireme, que tem como conselheiro Lorde Black. Para completar, Perle recebeu mais de US$ 300 mil por ano e US$ 2 milhões em bônus como diretor principal de uma subsidiária da Hollinger. É bom ter amigos.

Mas a verdadeira surpresa é que dois destacados jornalistas, William Buckley e George Will, também eram conselheiros regulares, e remunerados, da Hollinger. Bem, eu achei que houvesse regras nesta área. Primeiro, se você é um jornalista em tempo integral, você não deveria ter essa espécie de relacionamento. Segundo, não importa quem você seja, se você escreve um artigo favorável a alguém com quem você tem um vínculo pessoal ou financeiro - como o editorial de Perle sobre a compra dos aviões-tanque ou o elogio que Will fez, em sua coluna, à esperteza de Black -, este fato precisa ser revelado. Mas acho que as velhas regras não estão sendo mais aplicadas.

Essa é a moral desta história. Lorde Black pode ter destruído a si mesmo por ter sido um pouco descarado. Mas o seu rival mais poderoso, Rupert Murdock, vai indo bem, embora as posições principais no seu império tendam a ficar com seus filhos, e a News Corp. tenha feito muito mais do que a Hollinger para apagar a linha que divide a notícia da propaganda. E o império continua a crescer: na semana passada, a Comissão Federal de Comunicações aprovou a aquisição, por parte de Murdoch, do controle da DirecTV, cuja TV por satélite chega aos lares de 11 milhões de americanos.

Em outras palavras, Lorde Black pode estar a ponto de cair, mas o vínculo entre cobertura jornalística, influência política e ganhos pessoais provavelmente continuará a se fortalecer."

 

AOL / EUA
Howard Kurtz

"AOL faz parcerias para atrair leitores", copyright The Washington Post / O Estado de São Paulo, 23/12/03

"O site de notícias mais popular do mundo não emprega jornalistas, mas está prestes a ter grandes nomes fazendo cobertura e pontificando sobre a campanha de 2004. A America Online está formando parcerias com grandes organizações noticiosas e personalidades da televisão para promover-se como uma fornecedora de notícias séria, mas divertida. Hoje, a batalha pela atenção tem tudo a ver com fechamento de contratos.

Do lado mais sério, a AOL seleciona artigos do New York Times, Wall Street Journal, USA Today e ABC News, assim como de algumas co-irmãs da Time Warner como CNN e revista Time. Do lado mais leve, o site terá clipes de Jon Stewart, da Comedy Central, e vídeos e comentários de áudio de Bill Maher, da HBO, além de alguns cartunistas de jornais.

A AOL News já escalou sua parcela de especialistas, com análises em áudio de Mike McCurry, ex-porta-voz da Casa Branca de Clinton; Scott Reed, ex-coordenador da campanha de Bob Dole; Jonah Goldberg, da National Review; a colunista da Califórnia Arianna Huffington; e o ativista contra impostos Grover Norquist. Michelle Cottle, do New Republic, terá uma coluna regular.

As reportagens especiais começarão em janeiro.

‘Não estamos produzindo notícias’, diz o vice-presidente da AOL, Lewis D’Vorkin. ‘Estamos pegando notícias dos melhores provedores de conteúdo e dirigindo-as da forma que mais interessa a nossos clientes.’

O problema é que esse serviço está disponível só para assinantes do AOL, que somam 24,7 milhões nos Estados Unidos. Quando se inclui membros da família, isso dá à operação com sede em Dulles um reservatório bem profundo onde pescar.

A AOL não é o único portal de notícias. A Yahoo News se vangloria de ter mais de cem parceiros, apresentando conteúdos do Washington Post, New York Times, USA Today, U.S. News & World Report, Financial Times, Los Angeles Times, Chicago Tribune e National Public Radio. A Associated Press e a Reuters oferecem vídeos.

O que talvez possa dar vantagem a AOL na guerra online é a variedade de ofertas. O pacote diário inclui não só reportagens e vídeos, mas quadros de mensagens, blogs e pesquisas online.

Segundo a ComScore Media Metrix, que faz a medição no setor, a AOL News foi o site de notícias n.º 1 em outubro, com 24,8 milhões de usuários mensais, seguido pelo MSNBC, com 21,8 milhões, Yahoo News, com 21,06 milhões e CNN, com 20,98 milhões."

 

CASO MICHAEL JACKSON
O Globo Online

"Michael Jackson dá sua primeira entrevista após ser preso sob acusação de abuso sexual", copyright O Globo Online (www.oglobo.globo.com), 27/12/03

"Em sua primeira entrevista após ser preso sob acusação de abuso sexual de menores, o cantor americano Michael Jackson negou que tenha cometido o crime. No entanto, segundo a BBC News, ele declarou à rede de televisão CBS não ver problemas em dividir seu quarto com crianças.

- Claro (que dividiria o quarto com crianças). Por que não? Se você será um pedófilo, se será Jack, o Estripador, se vai ser um assassino, isso não é uma boa idéia. Mas eu não sou - disse Jackson, de 45 anos. Antes de machucar uma criança, prefiro cortar meus pulsos - disse Jackson na entrevista.

O astro do pop enfrenta sete acusações de conduta ‘lasciva’ e duas por dar álcool a um menor. Ele disse que as acusações são ‘uma grande mentira’.

Durante a entrevista, Jackson acusou a polícia de invadir sua privacidade e disse não pretende mais morar no racho Neverland (Terra do Nunca, em Português).

- Nunca mais vou morar lá. É uma casa agora. Não é mais um lar. Vou apenas visitá-la - contou."

 

ITÁLIA
Folha de S. Paulo

"Gabinete de Berlusconi aprova ajuda à sua TV", copyright Folha de S. Paulo, 24/12/03

"O gabinete italiano aprovou ontem um decreto de emergência com o objetivo de salvar um dos três canais de televisão controlados pela família do primeiro-ministro do país, Silvio Berlusconi, de um possível fechamento.

Os críticos do primeiro-ministro dizem que a medida, que já era esperada, é o exemplo mais gritante até agora do conflito entre os imensos interesses empresariais de Berlusconi e seu poder político.

O decreto é uma medida provisória que protegerá o grupo Mediaset, controlado pela família de Berlusconi, contra as consequências negativas da rejeição presidencial a um projeto de lei de mídia que, segundo os críticos, foi criado sob medida para beneficiar o império de mídia do primeiro-ministro.

‘O decreto para salvar a Rete 4 confirma o quanto é grande o conflito de interesses em nosso país’, disse Piero Fassino, que dirige a Democracia de Esquerda, da oposição.

Estima-se que Berlusconi influencie 95% da televisão italiana por conta de de seu cargo público -visto que tem influência sobre os canais da RAI, a rede pública de televisão- e de seus interesses empresariais.

O decreto bloqueia uma ordem judicial que forçaria a Rete 4, da Mediaset, um canal de TV aberta, a usar em lugar disso a transmissão via satélite -um beco sem saída comercial que, de acordo com a Mediaset, acabaria forçando o fechamento da Rete 4.

A medida concede à Rete 4 uma sobrevida de cinco meses, enquanto a controvertida lei de mídia é reformulada. O decreto permite igualmente que a um dos três canais controlados pela rede estatal de TV RAI continue a vender publicidade, enquanto a situação dos competidores é avaliada.

A mesma ordem judicial exigia que a RAI 3 deixasse de vender espaço publicitário.

‘O primeiro-ministro assina um decreto envolvendo sua empresa. Não posso conceber um exemplo mais claro e clamoroso de conflito de interesses’, disse Fassino, o dirigente da Democracia de Esquerda.

Posições dominantes

A crise deriva de uma decisão tomada, na semana passada, pelo presidente italiano, Carlo Azeglio Ciampi. Este decidiu não assinar uma controvertida lei proposta pelo governo para reformular o panorama da mídia na Itália e relaxar os limites ao controle acionário. A lei também serviria para salvar a Rete 4.

Ciampi pediu que o Parlamento revisse a legislação, alegando que, em sua forma original, ela não garantiria a pluralidade na mídia e poderia levar a posições dominantes -especialmente em termos de publicidade.

A maioria de direita que Berlusconi comanda no Parlamento poderá agora adaptar a legislação para atender às preocupações expressas por Ciampi ou aprová-la sem alterações, o que forçaria o presidente a assiná-la -uma situação que envenenaria ainda mais o já complicado jogo político italiano.

Maurizio Gasparri, ministro das Comunicações, disse que o decreto de ontem dá à autoridade nacional de telecomunicações um prazo até 30 de abril para decidir sobre as condições de competição. Caso seja determinado que não há concorrência suficiente, a Rete 4 terá de adotar a transmissão via satélite e a RAI 3 terá de abandonar a venda de publicidade (até 30 de maio).

Os críticos dizem que a nova lei abriria caminho para que Berlusconi expandisse seu império de mídia, elevando sua participação no bolo de receitas publicitárias.

O presidente da Mediaset disse que a lei daria ao grupo e à Mondadori, a editora controlada pela família de Berlusconi, acesso a 750 milhões em receitas publicitárias adicionais.

As ações da Mediaset fecharam ontem em queda na Bolsa de Valores, cotadas a 9,44. Com agências internacionais"

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