Indice A imprensa em questao O circo da noticia Caderno da cidadania Entre aspas Caderno do leitor

DIRETÓRIO ACADÊMICO

 

Desagravo antecipado

Victor Gentilli

 

O debate sobre ensino de Jornalismo, novas diretrizes curriculares, o Exame Nacional de Cursos, as Comissões de Especialistas que correm nos bastidores das escolas de Comunicação e de Jornalismo alcança o paroxismo no irracionalismo e na incapacidade de contendores com pensamentos e posições distintas debaterem com serenidade e respeito.

O Observatório da Imprensa vem sendo, nos últimos dois anos, um espaço aberto para este debate. Todos se expressam livremente. As opiniões dos observadores são claras e públicas.

O texto de Afonso de Albuquerque, pela sua importância, está aqui publicado. Ficam todos os leitores advertidos, no entanto, de que o Observatório repele e repudia as acusações proferidas pelo autor. As difamações e calúnias são de inteira responsabilidade do autor. Hélio Schuch e Nilson Lage recebem, antecipadamente, o desagravo do Observatório. E também o testemunho de que são profissionais sérios, competentes, produtivos, independentemente das posições que defendam.

 

A criação da Comissão de
Especialistas em Jornalismo

Nilson Lage (*)

 

Dois de outubro de 1997. Numa sala do antigo prédio do Conselho Federal de Educação, onde funcionava o Instituto Nacional de Pesquisas e Estudos Educacionais (Inep), reunia-se pela primeira vez a comissão incumbida de fixar critérios e normas para o primeiro Exame Nacional de Cursos de Jornalismo. Ali estavam pessoas com experiência profissional e acadêmica no ramo, indicadas por entidades de classe e órgãos governamentais: José Salomão Amorim, da Universidade de Brasília; Ricardo Ferreira Freitas, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro; Edson Faxina, da Universidade do Paraná; Gérson Moreira Lima, da Universidade Católica e da Santa Cecília, ambas de Santos; e eu. A reuniões seguintes compareceriam outros membros da comissão: Alberto Dines, da Universidade Estadual de Campinas, e Antônio Fausto Neto, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Faxina se afastaria da comissão durante os trabalhos.

Começamos a traçar perfil e habilitações dos formandos de Jornalismo. E à medida que os dados foram se arrumando, encontro após encontro, colocou-se uma questão central: são essas as pessoas que saem das escolas de Comunicação, habilitação em Jornalismo? A resposta evidente era que não. Tínhamos, então, duas saídas: ou forjar perfil e habilidades fictícias, mas conformes a realidade dos cursos, ou manter perfil e habilidades reais de um jovem jornalista e afrontar o imenso poder de retaliação do meio acadêmico.

Teoria e contexto

Unanimemente, resolvemos pela segunda hipótese. Se tivéssemos optado pela primeira, estaríamos hoje recebendo aplausos da platéia douta e os donos de escolas particulares estariam nos dando tapinhas nas costas. Teria saído uma prova perguntando, por exemplo, qual a diferença entre saber, poder e prazer, os libertinos e os perversos, na sociedade do suplício e na sociedade disciplinar; ou, então, um exercício de comparação entre o Relatório Hyte e o best seller "As 207 maneiras de enlouquecer um homem na cama" – para citar alguns dos temas apaixonantes das aulas mais populares aplicadas aos adolescentes de nossos cursos. Talvez tarô, dinâmica de grupo, expressão corporal ou "por que ser jornalista é estar a serviço dos poderosos"?

A prova que resultou de nosso trabalho, pelo contrário, foi um exame simples, constituído, em 60%, da redação de notícia para jornal, rádio e televisão e pela discussão de uma questão ética. E, no restante, por perguntas relacionadas, na maioria, à rotina da profissão.

Preocupamo-nos em recomendar a quem iria preparar as questões (uma empresa, contratada por licitação) que permitisse aos estudantes contextualizar a informação a ser redigida – porque é nesta hora, na hora do contexto e não em outra, que entra a formação teórica do jornalista.

Sabíamos que o resultado seria um desastre. A média final, abaixo de 4,0, não nos surpreende. Nenhum de nós tinha dúvidas quanto à má qualidade do ensino do Jornalismo neste país em que o número de escolas de comunicação passou de cem para 300 em um passe de mágica e onde os cursos tradicionais, mantidos por instituições sérias – principalmente por universidades públicas – foi há muito invadido por acadêmicos que nada sabem de Jornalismo, não querem saber e, na verdade, o odeiam.

No relatório final da comissão – documento impresso e distribuído aos milhares, por todo o país – está escrito: "Evidenciou-se mais uma vez a unanimidade da comissão em perceber o provão como um recurso limitado de aferição da qualidade dos cursos, caso ele não seja associado a diversas outras formas de avaliação. Além disso, a Comissão insiste em recomendar à Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação e do Desporto que crie uma Comissão de Especialistas em Jornalismo, independente da Comissão de Especialistas em Comunicação Social".

Esmiuçando: primeiro, o provão deve ser complementado pela avaliação dos cursos – titulação, habilitação e experiência dos professores, os laboratórios, o regime de ensino, os conteúdos... Segundo, essa avaliação deve ser conduzida e orientada por jornalistas, não por comunicólogos.

Na sua primeira reunião, após o exame, mesmo superficial, de perfil e habilitações, a comissão constituída para os critérios e normas do segundo provão, de 1999, reafirmou esses dois pontos. É constituída pelos professores Alberto Dines, Gerson Moreira Lima, José Salomão Amorim, Ricardo Ferreira Freitas, por mim e mais Tupã Gomes Corrêa, da Universidade de São Paulo, e Luís Custódio da Silva, da Universidade Federal da Paraíba.

Em suma, o MEC designou uma comissão para o provão do Curso de Jornalismo – e não para o Curso de Comunicação Social, ou para o Curso de Comunicação Social, habilitação em Jornalismo – e recebeu dessa comissão, reiteradamente, o pedido para que instituísse uma comissão de especialistas em Jornalismo, independente da Comissão de Especialistas em Comunicação Social. Não parece surpreendente, assim, que tenha sido essa exatamente a providência que o MEC tomou. Espantoso e suspeito seria se não a tomasse. Como se poderia adotar uma política de melhoramento dos cursos, com a o provão conduzido no sentido da avaliação do desempenho profissional e as avaliações da Sesu orientadas pelos critérios da comissão dos comunicólogos, totalmente alienados da realidade das redações?

Complicador das diretrizes

Nessa altura dos acontecimentos, surgiu um complicador. A Comissão de Especialistas em Comunicação Social, cumprindo cronograma determinado pelo MEC, editou um projeto de diretrizes curriculares. Definido como "estudo preliminar e parcial", o documento foi "disponibilizado para a comunidade acadêmica, profissional e estudantil, para efeito de análise, com a expectativa de recebimento de críticas, sugestões, propostas de acréscimo, de retirada, de alteração, de substituições, de revisões de redação, ou qualquer outra modificação".

Sua principal fragilidade residia na extrema vagueza com que abordava a questão da formação técnica das habilitações, que correspondem a profissões tradicionais. Essa formação técnica, que implica a exigência de laboratórios, professores especializados e turmas menores, tem-se tornado mais ainda essencial em decorrência da revolução tecnológica por que passa o setor de comunicação. É exigida pelo mercado de trabalho, fundamental para o exercício das profissões e para a competitividade do país no setor de informação, altamente estratégico e em processo de globalização.

Como não existe unidade, nem filosófica nem técnica, entre os ofícios (bastando confrontar as esquematas de pensamento de jornalistas e publicitários, por exemplo), os perfis, competências e habilidades propostos nas diretrizes eram irreais e os conteúdos mal-delineados, permitindo que, em tese, se formassem profissionais sem qualquer habilitação real.

Ao reportar-se sempre à profissão inexistente de "comunicador social", o documento retomava o discurso da Ciespal, que propunha para a América Latina, na década de 60, a formação de comunicadores polivalentes. De fato, a regulamentação que instituiu os cursos de Comunicação Social, em 1968, de autoria de um egresso da Ciespal, o professor Celso Kelly, dava ênfase à formação polivalente, a qual, já naquela época, teve que ser abandonada, por absoluta rejeição do mercado.

A divulgação das diretrizes, no sítio do MEC na Internet, gerou intensa reação no meio profissional e entre os professores de Jornalismo, por não terem sido consideradas as propostas da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares de Comunicação (Intercom), bem como por não terem sido consultadas outras entidades interessadas, como a Associação Brasileira das Escolas de Comunicação (Abecom), a Associação Nacional dos Jornais (ANJ), a Associação Brasileira de Empresas de Rádio e Televisão (Abert), a Federação Nacional dos Publicitários, a Federação Nacional dos Radialistas e outras. Em decorrência, foi convocado um seminário, dias 24 e 25 de abril, na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, São Paulo. Entre os promotores desse encontro figuravam, além do Curso de Jornalismo da PUC-Campinas, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), o Fórum de Professores de Jornalismo, o Observatório da Imprensa e o Grupo de Trabalho de Jornalismo da Intercom. Compareceram mais de 200 especialistas, incluindo representantes da Associação Brasileira das Escolas de Comunicação, da Associação Nacional dos Programas de Pós-graduação em Comunicação (Compós), da Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação (Enecom) e da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares de Comunicação (Intercom).

Presentes ao encontro, os integrantes da Comissão de Especialistas em Comunicação Social da SESu-MEC comprometeram-se a acatar as deliberações ali tomadas. No entanto, não o fizeram, a julgar pelo documento que me foi encaminhado para obtenção de parecer, pelo ofício 6143 SESu99, de 12 de maio de 1999.

O que muda nos cursos

A criação da Comissão de Especialistas em Jornalismo não provocará, de imediato, mudança nos raros cursos que oferecem a formação técnica adequada. Dos demais, será exigido que o façam – isto é, que tenham laboratórios, professores jornalistas habilitados e dimensão de turmas compatíveis com o aprendizado de técnicas, das quais a principal é a de redação em língua portuguesa para os diferentes meios. Mas as escolas deverão também oferecer os conhecimentos básicos necessários à apuração e ao processamento de informações, planejamento, gerenciamento e edição em publicações impressas, rádio, televisão, Internet e a futura Internet 2. E ampla oportunidade de análise e debate das questões éticas que são fundamentais em Jornalismo.

O que se pretende dos conteúdos da área teórica – falando a esta altura em termos pessoais, já que os critérios ainda não foram discutidos na comissão de que participo com os professores Hélio Schuch, da Universidade Federal de Santa Catarina; Tupã Gomes Corrêa, da Universidade de São Paulo; e Victor Gentilli, da Universidade Federal do Espírito Santo – é que contenha um núcleo de reflexão sobre o Jornalismo fundado na Teoria da Comunicação e em outros aportes relacionados à mídia – como a Teoria da Informação, por exemplo, ou a Teoria da Relevância. A esse núcleo (que esperamos enriquecer, em nível de pós-graduação, no rumo de uma Teoria do Jornalismo consistente) deve somar-se a mais ampla e honesta abordagem dos fatos recentes e das idéias que se movimentam nos cenários da Ciência, da Política, da Economia e da Cultura.

Caberá à comissão estabelecer padrões de qualidade e critérios de avaliação que serão aplicados por equipes de jornalistas e estudiosos e jornalismo, treinados especialmente, com o objetivo de ajudar as escolas a melhorarem a qualidade do ensino, objetivando a formação de profissionais capazes de desempenhar dignamente suas funções nos setores público, privado, institucional (associações e sindicatos) e comunitário. Os cursos que não atingirem padrões mínimos de qualidade serão punidos, na forma da lei.

Essa meta será mais viável na medida da compreensão e do apoio que granjearmos na categoria e nos setores institucionais da Imprensa, das empresas aos sindicatos e associações.

(*) Coordenador do Curso de Jornalismo da UFSC

 

O Provão, a Comissão e
o ‘Farol do Jornalismo’

Afonso de Albuquerque (*)

 

Lembro-me de ter lido certa vez que Enver Hoxha, o líder supremo da Albânia, anunciara a descoberta de uma conspiração, envolvendo agentes americanos, russos, chineses e iugoslavos, para sabotar uma hidrelétrica de seu país. Uma história curiosa, sem dúvida, mas uma dentre tantas outras que preenchem nossos jornais e revistas diariamente. Mesmo assim, ela me voltou à mente, após tantos anos, face à atual polêmica sobre a criação da Comissão de "Especialistas em Jornalismo". Mas, afinal, o que uma coisa tem a ver com a outra? Em ambos os casos, um punhado de "iluminados" reivindica para si o dom exclusivo da verdade, enquanto vocifera contra todo o resto da humanidade. De um lado, a Albânia, o Farol do Socialismo; do outro, os professores de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, o Farol do Jornalismo.

Através da Internet, tenho acompanhado o debate sobre as Diretrizes Curriculares do Curso de Comunicação. Durante algum tempo, confesso, acompanhei o debate de modo desinteressado. Simplesmente lia os e-mails que vinham dar em minha conta. Minha atenção, porém, foi despertada por um intrigante e-mail enviado pelo professor Marques de Melo, no qual ele se solidarizava com os professores de Jornalismo da UFSC por sua disposição em resistir a algo que ele denominou "Pensamento Único". Confesso que estranhei. Afinal, o que uma discussão tão ampla como a das Diretrizes Curriculares teria a ver com algo tão pontual como o Curso de Jornalismo da UFSC? Resolvi investigar e, nas homepages do Observatório da Imprensa e do próprio Curso de Jornalismo da UFSC, obtive respostas interessantes. E ainda mais intrigantes.

Comecemos pelo Observatório da Imprensa. Na seção "Diretório Acadêmico" me deparei com inúmeras cartas que lamentavam a má qualidade da formação dos jornalistas brasileiros, atribuindo a responsabilidade por isto a seres diabólicos a quem denominam "comunicólogos" (entre aspas mesmo). Tais cartas sugeriam que todos os cursos do país são fracos. Todos menos o da UFSC. Isto porque, diferentemente dos outros cursos do país, eles souberam pôr os "comunicólogos" em seu devido lugar… Agora, sugerem, é hora de ir além: sob a liderança do curso da UFSC, o Farol do Jornalismo, os jornalistas finalmente poderão romper com os grilhões que lhes foram impostos pelos malditos "comunicólogos".

"Professores de Jornalismo, uni-vos!!!" [ver remissão abaixo]. Não é brincadeira não. Este é realmente o título de um artigo publicado no Observatório da Imprensa, pelo professor Scotto. Nele, o professor Scotto defende a idéia de que a "academia sente ódio dos jornalistas". E faz mais do que isso: submete os jornalistas a todo tipo de torturas e humilhações. "É sob a chibata do discurso dos comunicólogos que bons professores de Jornalismo se submetem", afirma textualmente o professor Scotto. Exige-se deles coisas absurdas como titulação, consciência crítica da sociedade etc.

Há inúmeros pontos do texto do professor Scotto que merecem atenção. O primeiro deles refere-se ao modo como ele usa a categoria "comunicólogos". Nem vou falar aqui do seu caráter ofensivo. O que importa notar é que se trata de uma categoria fundamentalmente elástica, que serve para qualificar todos aqueles que discordam do professor Scotto e sua turma. Mesmo quando se tratam de jornalistas ou estudiosos do jornalismo como o professor Faro. Autor da tese "Realidade: 1966-1968, tempo da reportagem na imprensa brasileira", o jornalista Faro é inapelavelmente "rebaixado" ao status de "comunicólogo" porque defende idéias diferentes das do professor Scotto.

Ainda mais interessantes são os argumentos que o professor Scotto usa para sustentar a sua tese de que os jornalistas são perseguidos pelos "acadêmicos". Ao mencionar Nelson Rodrigues, o professor Scotto mistura alhos com bugalhos. Dizer que as críticas ao teatro de Nelson Rodrigues se deviam ao fato de ser ele um jornalista é um insulto à inteligência. Está certo que o professor Scotto não ensina Literatura, mas dizer que o que tornava peças como Vestido de noiva ou o Anjo negro chocantes para a sociedade do seu tempo era tão-somente o seu realismo "jornalístico" é um bocado demais. Até porque há muito pouco em comum entre o jornalismo que Nelson Rodrigues fazia e o que se pratica atualmente. Afinal não foi ele quem criou a expressão "idiotas da objetividade" para caracterizar os profissionais que tolhiam as liberdades literárias dos jornalistas?

Para ilustrar como a perseguição aos jornalistas continua até os dias de hoje, o professor Scotto relata o caso de um professor, candidato ao título de Notório Saber, que não conseguiu obter pontuação mínima pelo "simples fato" de não ter doutorado, publicações em revistas indexadas, trabalhos em encontros e seminários, ou livros com "objetivos claros" e "sustentação científica".

Certo. Este tipo de coisa realmente ocorre. Mas ocorre apenas com os jornalistas? Existem no Brasil excelentes engenheiros e médicos que não têm mestrado ou doutorado, trabalhos em encontros e seminários, publicações em revistas indexadas etc. Estes profissionais terão, provavelmente, grande prestígio entre seus pares – um prestígio merecido, sem dúvida – mas provavelmente encontrarão dificuldade igual ou maior do que o jornalista citado para ingressar numa universidade pública. Por quê? Porque os acadêmicos detestam os médicos e os engenheiros? Se é este o caso, o título do artigo do professor Scotto poderia ser "Professores de Jornalismo, Medicina e Engenharia, uni-vos!!!"

Obviamente o caso é outro: uma pessoa pode ser um excelente profissional em seu campo e, mesmo assim, não dispor das qualificações necessárias para ensinar sua profissão. Sim, porque saber fazer não é o mesmo que saber ensinar. Não fosse assim, porque seriam necessários os "Professores de Jornalismo" do título? Para que seriam necessárias as universidades? Não seria o caso simplesmente de abolir o curso de Jornalismo e enviar os candidatos a jornalistas diretamente para as redações, para aprender com os profissionais mais experientes? E para que criar cursos de pós-graduação em Jornalismo? Se o aprendizado adquirido na redação é a única base legítima do professor de Jornalismo, por que sair dela para aprender mais?

A esta altura, começamos a desconfiar que o problema por detrás do texto do professor Scotto é outro: não são os acadêmicos que odeiam os jornalistas; são o professor Scotto e sua turma que detestam a universidade. "Quando ouço falar em cultura, saco o revólver." A frase, atribuída a Goebbels, caberia perfeitamente no discurso do professor Scotto.

Verdade absoluta

Na medida em que o sistema universitário se consolida, e havendo cada vez mais doutores e mestres disponíveis, é natural que os critérios de seleção de professores para as universidades se tornem mais rigorosos. Isso não é resultado de um plano maquiavélico dos comunicólogos ou dos acadêmicos em geral, mas uma conseqüência normal do processo de amadurecimento do ensino universitário, no Brasil e no Mundo. O artigo do professor Scotto é, talvez, o exemplo mais acabado da auto-suficiência dos professores de jornalismo da UFSC. Alguns outros exemplos podem ser encontrados no mesmo Observatório. O editor da Gazeta Mercantil César Valente (e, por uma dessas coincidências do destino, ex-professor de Jornalismo da UFSC) escreveu um artigo denominado "Um aparte, companheiro" (olha a linguagem militante aí outra vez…), em que aconselha "aos seus amigos jornalistas cujos filhos insistem em ser jornalistas" "mandarem-nos para a UFSC, em Florianópolis". Segundo Valente, além de sol, mar e surf, eles encontrarão um ensino que os transformarão num equivalente humano do i-Mac (sério!!!): "É só ligar na tomada e começar a trabalhar". Eis o que a UFSC se propõe a formar: autômatos, e não seres humanos com consciência crítica (coisa de comunicólogo, argh!!). É ainda pior do que as "focas amestradas" do curso do Estadão [SP]…

Até o momento, estamos lidando apenas no nível das idéias. Se alguns professores de Jornalismo da UFSC resolvem achar que o seu curso é um oásis em meio a um deserto de incompetência generalizada, fazer o quê? Opinião é algo a que todo mundo tem direito. O problema é quando um punhado de professores toma a sua opinião como verdade absoluta e pretende impô-la na marra a toda a comunidade acadêmica.

Como se trata de uma verdade absoluta, não é preciso convencer a ninguém da necessidade de reformas de tal ordem. Para que perder tempo com argumentos se o que se tem é a verdade em sua forma mais cristalina? Argumentos são para sofistas (desculpem a citação, deve ser coisa de comunicólogo…).

Democracia é para os medíocres. Diálogo, para os derrotados. O curso de Jornalismo da UFSC, por sua (auto) reconhecida excelência, está evidentemente acima de tudo isso.

Então é só se dirigir ao governo e reivindicar cargos nas comissões que definem o que é a excelência na área. Assim, o grande líder do jornalismo da UFSC, Nilson Lage, se torna um dos membros da Comissão Avaliadora do Provão.

Segundo ele nos informa, o objetivo da prova era excluir da avaliação tudo aquilo que diz respeito à formação teórica do aluno de comunicação. Do contrário "teria saído uma prova perguntando, por exemplo, qual a diferença entre saber, poder e prazer, os libertinos e os perversos, na sociedade do suplício e na sociedade disciplinar; ou então, um exercício de comparação entre o Relatório Hyte e o best seller, as 207 maneiras de enlouquecer um homem na cama – para citar alguns dos temas apaixonantes das aulas mais populares aplicadas aos adolescentes de nossos cursos". Goebbels, lá do inferno, deve estar sorrindo e levantando os polegares em aprovação.

Edição não-linear

Pelo menos no que se refere a acesso ao governo, a UFSC não tem do que se queixar: dos quatro membros da Comissão de Especialistas em Jornalismo, nada menos do que dois – Nilson Lage e Helio Schuch – pertencem aos quadros da universidade. É o que se chama "profecia auto-realizável": se a comissão define os parâmetros do Jornalismo ideal com base no Curso de Jornalismo da UFSC, então o curso da UFSC finalmente será reconhecido como o melhor do país. Fácil, não?

É inevitável que se fique curioso sobre a razão de os "Especialistas em Jornalismo" estarem tão concentrados na UFSC. A se crer em uma seleção criteriosa, é de se esperar que os professores da UFSC que constam da Comissão tenham currículos invejáveis, excepcionalmente superiores aos dos seus colegas de outras universidades. Para tirar a prova, resolvi conferir o currículo de um dos especialistas da UFSC, Helio Schuch, tal como apresentado na homepage do curso. O resultado é impressionante: no quesito "publicações" só encontrei a referência a dois artigos: "Jornalismo e ambiente econômico competitivo" e "Jornalismo e mercado: análise da competição entre veículos jornalísticos". Dois artigos! E não há nenhuma referência à revista em que eles foram publicados. Se é que o foram.

Descontada assim a possibilidade de que o título de "Especialista em Jornalismo" se deva ao brilhantismo da carreira acadêmica do professor Schuch, resta ainda uma possibilidade: o título homenageia a sua extraordinária carreira como profissional. Bingo! A homepage da UFSC informa que Helio Schuch tem no seu currículo passagens por dois dos mais vibrantes e conhecidos órgãos da imprensa brasileira: os jornais O Interior e Contrifactos… É inevitável, portanto, a pergunta: com carreiras acadêmica e profissional tão medíocres, como Schuch pôde ser nomeado "Especialista em Jornalismo"? Por eliminação, a resposta só pode ser uma: porque ele é professor de Jornalismo da UFSC… Há mais, porém. A observação detalhada do conteúdo da última avaliação do Provão e dos comentários feitos acerca dela na homepage do Curso de Jornalismo da UFSC também pode ser bastante reveladora. Já sabemos que foram excluídas do Provão questões teóricas. Algo providencial para um curso que conta com 17 professores de Jornalismo e apenas 7 de Comunicação (dados da homepage). Algumas evidências sugerem, porém, que algumas questões do Provão foram feitas sob medida para os alunos da UFSC.

A mais gritante delas é fornecida pela própria homepage da UFSC. Para evitar mal-entendidos, passo a citar textualmente um trecho da matéria "Alunos de Jornalismo da UFSC acharam Provão fácil": "A professora Maria José Baldessar elogiou a questão sobre edição não-linear em rádio e TV. Ela disse que muitas faculdades se comprometem a trabalhar com novas tecnologias, mas não têm equipamentos de edição não-linear: ‘Os alunos que viram essa questão do Provão vão passar a exigir mais dos seus cursos’". Se eu trabalhasse com Análise do Discurso poderia dizer, talvez, que a professora está confundindo o lugar de fala do avaliado (o curso da UFSC) com o do avaliador (o autor da prova).

Como essa não é a minha praia, vou no popular: a declaração é um escândalo! Ela sugere que a prova foi feita para privilegiar cursos que dispõem de equipamentos de edição não-linear (a UFSC tem, é claro). Dado que o Provão se presta, ao menos em teoria, para avaliar os conhecimentos básicos dos jornalistas, qual a pertinência de se formular uma questão tão específica? A resposta é dada pela própria professora Baldessar: "Os alunos que viram essa questão do provão vão passar a exigir mais dos seus cursos". Não é preciso conhecer Análise do Discurso ou Frame Analysis para entender o que há por trás disto: a questão não foi feita para avaliar os cursos, mas sim para impor como universal o modelo do Jornalismo da UFSC. Está claro: os equipamentos que a UFSC tem são tão importantes que se tornam o padrão de avaliação do que todo curso deveria ter. E os equipamentos que a UFSC não tem? Estes não são relevantes… até que a UFSC os adquira… E assim a vida prossegue. Pendurados em cargos criados pelo governo, os professores do Curso de Jornalismo da UFSC caminham para definir o seu próprio curso como o modelo da excelência, independentemente da opinião do resto da comunidade acadêmica. Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se uma imensa… Albânia.

(*) Professor da Universidade Federal Fluminense; e-mail <afonsoal@iis.com.br>

 

Mais lenha na fogueira

João Brant (*)

 

A polêmica da criação da Comissão de Jornalismo tem sido tratada sob os mais diversos aspectos, mas me parece que o cerne da questão está sendo abandonado. Mais do que o mérito – a separação ou não da área de Jornalismo –, o que tem incomodado os estudantes é a forma como a comissão foi criada. E não precisamos repetir aquela frase que o professor Scotto já tentou desqualificar: "Dirão – minto, já estão dizendo – que é uma atitude autoritária do MEC. E a Comissão de Especialistas de Comunicação Social, é o quê? Alguém, por acaso, chegou a ser consultado quando da sua criação?" Comento os detalhes mais adiante, mas é realmente uma atitude autoritária não só do MEC, mas da meia dúzia de professores que concorda com a idéia.

A tática da desqualificação do discurso, aliás, foi adotada em quase todas as manifestações. Em primeiro lugar, os defensores de cada uma das posições são apresentados como os "comunicólogos" e os "jornalistas". Os primeiros, professores viajantes, sempre no mundo da lua, que querem estudar a influência dos golfinhos no texto de Cláudio Abramo. Os "jornalistas"? Ah! Estes sim. Os verdadeiros profissionais, plugados com a realidade, sabem o que o mercado exige, não ficam perdendo tempo com bobagens.

Ora, será que precisaremos sempre nos amparar nesse tipo de discurso? Vamos ter que ficar discutindo pérolas como se a "academia" sente ou não ódio dos "jornalistas"? Que distinção é essa? Quem é a academia? São os jornalistas que se dedicam à pesquisa? E os "jornalistas puros"? Talvez aqueles que estão apenas nas redações? Sinceramente, não compreendo esta forçosa separação. Já se faz necessário também deixarmos de lado esse anacrônico e burro divórcio entre teoria e prática, que se torna visível até quando se tenta negá-lo. A teoria é sempre tratada como estudos vagos e desnecessários, e a prática como se fosse apertar botões e mexer em câmeras. Novamente voltamos a essa falsa dicotomia, muito confortável para quem quer afirmar apenas um dos lados.

O dono da bola

Essas considerações se fazem necessárias para que possamos partir do mesmo ponto. E vamos lá. Fazendo uma retrospectiva de como tem sido a discussão na área de Comunicação nos últimos tempos, enxergamos o Movimento Nacional pela Qualidade da Formação democraticamente debatendo os temas pertinentes à área. É verdade, não chegamos ao estágio ideal. Continuamos tentando aumentar a representatividade do Movimento pela aproximação de entidades ligadas a todas habilitações. Isso, contudo, não tira em nenhum momento a legitimidade do Movimento. No Seminário realizado na Escola de Comunicações e Artes da USP, em maio de 1998, temos a retomada das discussões por Fenaj, Compós, Abecom, UCBC, Intercom e Enecos. Ali se dá o convite, pela presidente da Comissão de Especialistas em Comunicação Social, para aquelas entidades participarem da elaboração das Diretrizes Curriculares para a área. A reunião se dá efetivamente em fevereiro [de 1999], depois de alguns adiamentos. Chega-se a um documento preliminar que deve ser discutido amplamente.

Surgem então diferentes opiniões sobre o texto; alguns defendem o não-detalhamento das habilitações, outros consideram o texto genérico demais. A Fenaj e o Grupo de Trabalho de Jornalismo da Intercom chamam um Seminário na PUCCamp sobre o tema, voltado para o Jornalismo. A louvável iniciativa levanta uma discussão consistente sobre o Jornalismo, em que são apontadas sugestões de inclusão no documento preliminar. Nessa reunião o professor Nilson Lage declara que existe uma proposta da Comissão do Provão de que se separe a área de Jornalismo. O documento, então, deveria considerá-la. E é o que se faz. Apesar da ampla maioria dos presentes discordar da idéia, a possibilidade é considerada no documento que sai do Seminário.

E aí vem o fato mais grave. Esse pequeno grupo favorável à idéia cansou de brincar com todo mundo (e sempre perder) e resolveu ir brincar só entre eles. Só que chamou o dono da bola (o MEC). E o dono da bola, que nunca foi flor que se cheire, tirou a bola do grupo grande que brincava e foi jogar só com a meia dúzia, porque assim corria menos risco de a bola furar.

Prisma único

Justificar o autoritarismo da criação dessa comissão pelo que foi a criação da Comissão de Comunicação é, no mínimo, vergonhoso. Quer dizer que o fato de o MEC ser autoritário legitima que esse pequeno grupo também o seja? Do MEC não podemos esperar outra postura (quem sabe a eleição de 2002 possa resolver). Mas o que diremos dos professores de Jornalismo? E repare que, na criação da Comissão de Especialistas em Comunicação Social, pelo menos o MEC ouviu as entidades para definir os nomes. Além do mais, sob essa visão, o que é então a Comissão do Provão? Uma comissão criada de forma autoritária, para criar uma prova autoritária, que impõe um modelo autoritário de educação para o país. E sai dali uma proposta de um grupo de seis professores que, sem nenhum debate, entregam-na ao MEC.

Por diversas vezes a Enecos já deixou clara sua posição sobre as habilitações. Parece-nos extremamente retrógrada a visão das habilitações como campos separados, já que ela não considera a realidade em que vivemos hoje. Cada vez mais é necessário que enxerguemos o Campo da Comunicação de maneira ampla, e que as habilitações sejam vistas sob o prisma desse campo. E isso não significa dar mais espaço à "teoria" ou à "prática". Nem significa desconsiderar a realidade das habilitações hoje definidas. É simplesmente conseguirmos vislumbrar o que está acontecendo no mundo e qual a responsabilidade da universidade na formação de profissionais de Comunicação (qual será o problema com a expressão comunicadores? Por que ela é sempre usada de maneira pejorativa?). Será que queremos uma universidade que reproduza o "mercado de trabalho"?

Isso não significa discutir se a faculdade é mais ou menos prática, mais ou menos teórica. Significa pensar que tipo de prática e que tipo de teoria queremos em nossas salas de aula. E é na relação entre a realidade que vivemos e o papel que tem a universidade que enxergamos o motivo para as habilitações estarem sendo pensadas sob o mesmo prisma: a Comunicação Social (sem medo desta expressão).

O apelo que fazemos é que possamos confrontar idéias e opiniões, e aceitar a decisão da maioria. Não queremos impor nosso ponto-de-vista, mas debatê-lo. Se essa não for a posição da maior parte da área, vamos acatar. Só não queremos é que a cada partida jogada o perdedor abandone o campeonato.

(*) Estudante, coordenador geral da Executiva Nacional de Estudantes de Comunicação; e-mail: joaobrant@yahoo.com

 

CURSOS SEQÜENCIAIS
O.I. abre novo debate

Marinilda Carvalho

 

A Fenaj anunciou que não concederá registro profissional aos egressos dos cursos seqüenciais de Jornalismo, cursos curtos voltados para o exercício prático e imediato da profissão de jornalista.

O Observatório da Imprensa – que já vem divulgando aqui no Diretório Acadêmico, sob o comando do professor Victor Gentilli, a polêmica criada em torno da proposta de separação dos cursos de Jornalismo da área de Comunicação Social – abre espaço também para o debate sobre esses cursos, que vêm provocando protestos convulsivos na área acadêmica.

A presidente da Fenaj, Beth Costa, foi convidada a expor aqui suas razões para a não-concessão do registro a esses novos formandos. Por enquanto, não obtivemos resposta, e o convite continua valendo.

Mas dois especialistas atenderam ao convite do Observatório: a jornalista Ana Lagôa, que inaugurou nas páginas do Jornal do Brasil a discussão pela mídia sobre a exigência imperiosa de transformações nos rumos da educação brasileira, e o professor Felipe Pena, diretor da Faculdade de Comunicação Social da Estácio de Sá, escola que acaba de lançar no mercado sua primeira turma de alunos de seqüenciais.

O debate está aberto!

 

Vocação, instrução, formação.
A pedagogia da profissão

Ana Lagôa (*)

 

Não cabe aqui fazer um balanço da crise dos paradigmas do conhecimento e das transformações que estão sendo demandadas da escola pela revolução tecnológica, que colocou o conhecimento como capital/mercadoria e ameaça implodir as paredes (positivistas sempre) da bem organizada universidade do século 19, que teve seu momento brilhante no século 20 e será obrigada, sob pena de desaparecer, a se transformar na Multiversidade. Tudo isso vem sendo discutido por especialistas e não-especialistas, inclusive no espaço das entrevistas dominicais do caderno Empregos e Educação para o Trabalho, do Jornal do Brasil.

Falar das transformações a posteriori é fácil. Vivê-las como sujeito histórico é mais emocionante, mas também mais complicado e conflitante. E, portanto, gerador de inseguranças. Estamos todos inseguros. Os campos serão cercados e ninguém quer ficar com as ovelhas. Mas a cidade oferece riscos enormes e muitos ficarão pelo caminho. Tenho dito que jornalistas e educadores guardam muitas semelhanças. Uma delas é o papel social – que me parece prioridade 1 – de educar/informar/formar. Se antes essas ações estavam cada uma no seu departamento, bem delimitada e segura, hoje se misturam.

Sintetizando:

  • O conhecimento muda a altas velocidades (o conteúdo do curso de Engenharia fica obsoleto a cada dois anos e meio);
  • O conhecimento não é mais cumulativo, passando por rupturas cíclicas;
  • Saber não é ter a cabeça cheia de dados – os fatos em si;
  • Técnica sem tecnologia não tem utilidade no mundo da mecatrônica;
  • Tecnologia sem entendimento da sociedade em que se vive não permite seu emprego útil;
  • Habilidades e conhecimentos – finalmente a escola começa a aceitar o que qualquer avó do começo do século já sabia – se constróem historicamente, na interação entre indivíduos e grupos sociais;
  • Ninguém ensina a ninguém;
  • O educador/comunicador será sempre um facilitador da apropriação que cada um faz do que o cerca e do que busca, retrabalhando isso com seu próprio repertório de construções anteriores;
  • Ninguém se forma e escolhe uma carreira e nela fica por 35 anos;
  • O século 21 será o século da auto-instrução permanente;
  • O ensino como treinamento ou transmissor de conhecimentos a alguém que chegava como uma tábula rasa não tem sentido algum na sociedade em mudança;
  • O desenho das universidades e seus departamentos já está mudando e essa mudança será cada vez mais rápida, sob pressão das necessidades do sistema de produção (não estou usando produção como sinônimo de fábrica, campo, loja, porque também este desenho está sendo desmontado);

Um momento como este não poderia deixar de fora a maneira como se constrói o jornalista nesta sociedade. Quando entrei para a profissão, aos 17 anos, os mais velhos "ensinavam" aos mais jovens. A técnica aprendíamos em uma semana, tempo que meu primeiro chefe dava para identificar quem tinha "jeito pro negócio". A tecnologia cada um buscava como podia e o quanto quisesse. Muitos de meus contemporâneos foram para cursos universitários que não eram de Jornalismo, muitos fizeram especializações e alguns chegaram a tirar títulos no exterior. Fizeram isso certamente pressionados pela necessidade de entender o mundo sobre o qual escreviam. A imposição do curso de Jornalismo como única forma de colocar esse profissional no mercado foi tão polêmica quanto está sendo seu questionamento.

Afinal, o que se aprende no curso de Jornalismo? Técnica, tecnologia, cultura geral? Que cultura, que técnica, que tecnologia, para que sociedade?

Responder a estas questões responde à questão da qualidade do que se está fazendo.

Em 1969 como hoje, há basicamente duas questões em jogo:

  • Disputa pelo mercado do ensino, que pode resultar em melhor oferta;
  • Insegurança pedagógica, que pode resultar na construção de novas formas de escolas.

A primeira é mais fácil de mapear. Estamos habituados a esse exercício. A segunda é mais complicada, porque na verdade ninguém sabe, neste momento, em qualquer área do conhecimento, da Engenharia à Culinária, como ensinar, para que ensinar, a quem ensinar e, mais grave, se ensinamos.

Ao lado dessa grande questão que parece teórica, mas definirá o nosso futuro e o de nossos filhos e netos, temos outro problema – nossa herança colonial perversa.

Nossa sociedade herdou da colonização o preconceito contra o trabalho. Somos um povo que trabalha muito, mas sonha com o não-trabalho o tempo todo. Engendrou-se então uma forma de "fugir" do trabalho, separando essa atividade humana em trabalho braçal e trabalho intelectual. Com isso, organizamos a sociedade dos que trabalham em duas classes. Em seguida, depositamos no ensino, no saber, na apropriação de erudição, a chave para a mobilidade social. Podemos ganhar pouco e nem ter dinheiro para os livros, mas se somos intelectuais transpusemos o fosso dos crocodilos e podemos freqüentar o castelo.

O que o curso de Jornalismo tem a ver com crocodilos e castelos?

Alguns cursos estão entre os que nos podem levar ao castelo e outros nos deixam fora da cidadela. Uns se formaram como centros de discussão teórica da comunicação. Outros se dedicaram a passar a técnica, sonhando com a tecnologia. Na sociedade de fossos e castelos, as escolas de Comunicação Social (esse estranho campo que me remete a tempos cinzentos) são a meca. Como a ECO-UFRJ, a ECA-USP e sua excelente produção acadêmica e a disputa de vagas nos vestibulares.

As outras tentaram encontrar seu papel na formação desse profissional ambíguo. Algumas são bem-sucedidas, outras não, e para discutir cada uma delas teríamos que montar uma pesquisa que começasse na sala de aula e perseguisse os formados por pelo menos 10 anos. Em educação não se avaliam os resultados (aquisição de habilidades, apropriação de conteúdos, construção de conceitos, mudanças de atitudes) com uma prova discursiva ou de múltipla escolha, por mais bem elaborada que seja). Alguém se candidata a essa pesquisa?

Por conta do preconceito com o trabalho, falar em formar jornalista-prático se desenhou como um rótulo para as escolas que não se preocupam com a teoria. Ao mesmo tempo, vindos de uma escola fundamental de péssima qualidade (públicas ou privadas, não nos iludamos, porque todas estão defasadas, formando para um mundo que não mais existirá, como disse há muito tempo McLuhan), os jovens profissionais foram sendo acusados ano após ano de malformados pela faculdade, e não pelo sistema como um todo (e aí está nosso principal erro).

Essa corrida não aconteceu apenas com jornalistas; repetiu-se e continua em todos as carreiras ainda desenhadas pelo modelo positivista/taylorista/fordista + colonização.

Quem faz a prática, é olhado com desprezo.

Quem faz a teoria se protege da checagem da prática.

Lá fora, o mercado gritando por um novo profissional.

Quando surgiram os cursos profissionalizantes e os recentes cursos seqüenciais (que não são sinônimo de politécnicos), o mundo acadêmico veio abaixo.

Mas não podemos continuar enfiando a cabeça na areia. A moçada (e os pais que assinam os cheques) estão por um fio diante dos cursos de graduação de qualquer área. Os índices de evasão no quarto semestre são altíssimos. Para onde vai o investimento feito até aí? O que fazer?

Nós não temos as respostas. Sabemos apenas que teoria e prática operando esquizofrênicas não levarão a elas.

Mas podemos buscar com os outros profissionais, que estão vivendo em suas áreas os mesmos problemas, o intercâmbio de tentativas de solução. Cresce a cada dia a idéia de certificação em lugar do diploma. Se o conhecimento muda, se o mundo sobre o qual escrevo muda, e se a velocidade é enorme e se vou ter que estudar sempre, com processos rápidos de auto-instrução (auto-instrução que se valerá de produtos educativos produzidos por educadores, não podemos esquecer, pois auto-instrução não é mais sinônimo de autodidatismo sem rumo), por que não mudar nossa faculdade e abri-la para a multiversidade?

A idéia do seqüencial vai nessa direção. Você está bem formado no fundamental, é capaz de identificar suas demandas e monta sua formação como escolhendo num cardápio. Se a qualidade desses cursos é boa ou não, cabe ao MEC e a nós, sociedade civil, usuária dos cursos, analisar e exigir.

Já os cursos politécnicos caminham direcionados para as tecnologias, sob inspiração da velha idéia marxista de educação, que teve sua aplicação na Alemanha principalmente e – como experimento – já legou muitas pistas do que fazer. Mas politecnia é um outro capítulo, extenso, envolve uma visão de mundo, de trabalho, de autonomia, que prefiro deixar para especialistas. No Brasil há o Gerson Moura e o professor-visitante da UFRJ Werner Market, de Frankfurt.

De qualquer forma, seria hipocrisia nossa – para não dizer burrice – limitar essa discussão à disputa de mercado das escolas ou ao corporativismo duvidoso. E limitar a discussão a nós mesmos. Poderíamos usar essa energia para construir um novo espaço e novas formas de aprendizado da nossa profissão. Pode parecer uma proposta Poliana, mas em outros setores isto está acontecendo.

(*) Editora do caderno Empregos e Educação para o Trabalho do Jornal do Brasil, jornalista não-graduada em Jornalismo, mas em História, e pós-graduada em Educação

 

O nó górdio e os cursos
de Comunicação Social

Felipe Pena (*)

 

Este artigo pode estar no centro de uma polêmica, mas ele só está sendo escrito porque todos que participam desta discussão partem de um ponto comum: a universidade deve repensar seus pressupostos e reavaliar sua metodologia. Práticas, conceitos e epistemologias estão em xeque nesta virada de milênio. Correm o risco de seguir o poema de T.S. Elliot, formando "homens ocos, empalhados, um elmo cheio de nada". E não há nada mais aterrorizante para um educador do que ler estes versos como reflexo de sua própria pedagogia.

Não consigo enxergar outro remédio para a formação empalhada que não seja a constante autocrítica e a incansável renovação. Os avanços tecnológicos, as mudanças no perfil do estudante e as novas demandas do mercado são apenas algumas das questões que devem ser abordadas. E, pasmem, não me refiro a elas como as mais importantes. Há outras, ainda mais graves, que passam convenientemente despercebidas. Como, por exemplo, a inércia acadêmica diante de discursos herméticos produzidos por uma "elite docente" preocupada em perpetuar seu poder institucional. Estou, é claro, falando das famosas panelinhas, aquelas pesquisas e discussões intelectuais a que só três ou quatro professores têm acesso porque são efetivamente destinadas ao que se chama de "nossos pares" (e não me excluo desta situação).

A maior crítica que se faz aos cursos seqüenciais está centrada no direcionamento exclusivo para o mercado e na falta de uma formação acadêmica que permita uma reflexão sobre o ofício escolhido. Mas como exigir que o aluno reflita sobre o que ele não entende? Ou melhor, sobre o que não lhe é acessível pela própria linguagem? No caso específico do Curso de Comunicação Social, disciplinas do ciclo básico, como Sociologia, Antropologia e Filosofia, entre outras, acabam se transformando em martírio para o aluno porque, na maioria dos casos, são ministradas sem a devida inserção no contexto do curso. E quanto àquelas que se referem às pesquisas na área, o resultado é ainda pior, pois a mensagem esbarra no hermetismo do código.

Só para citar um exemplo, em uma recente prova da disciplina Estética e Cultura de Massas, aplicada por um digníssimo colega doutor de outra universidade, a última questão era a seguinte: "Em uma perspectiva sintética, analise o cotejo do nó górdio de Latour com a implosão das narrativas mestras na pós-modernidade." Não sei como seria a "análise sintética" do aluno de terceiro período, mas o nó górdio só pode estar na cabeça do professor.

Registro profissional

Sou diretor da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Estácio de Sá, no Rio. A graduação é feita em quatro anos e contempla toda a carga horária exigida pelo MEC. Não tenho nenhuma ingerência ou responsabilidade sobre os cursos seqüenciais que são ministrados aqui. Mas não encaro com preconceito este tipo de formação, que tem como objetivo atender a demandas imediatas do mercado. Só o fato de mexer com a velha estrutura acadêmica já me parece positivo. Estamos no cerne de uma mudança estrutural em todo o ensino superior, e não poderia ser diferente no curso de Jornalismo.

Na verdade, todas estas discussões vão nos fazer amadurecer sobre o tipo de universidade que queremos, e, espero, contribuirão para a erradicação dos vícios de nosso sistema de ensino. Por tudo isso, ainda é muito cedo para tecer análises sobre que tipo de profissional será formado por esses cursos. Portanto, negar registro aos formandos me parece uma atitude precipitada da Fenaj, uma miopia diante de outras questões mais urgentes, um nó górdio na carreira dos estudantes.

(*) Professor, diretor da Faculdade de Comunicação Social da Estácio, mestre e doutorando em Letras

 

CARTAS
"Estado da arte"

Prezado Victor, Parabéns pela recuperação do debate – e de suas vicissitudes – no seu artigo do Observatório. É o "estado da arte", como se diz.

J. S. Faro

O que é isso, ministro?!

A propósito do artigo de Sheila Grecco, "A mídia e a escola do giz e lousa" [ver remissão abaixo]: Paulo Renato de Souza, durante a campanha de reeleição de FHC, declarou que "os últimos quatro anos o nosso ministério tomou medidas que vêm de encontro aos anseios de estudantes, professores e sociedade". Pelo jeito o ministro não sabe que "vir de encontro" quer dizer contra, e nunca a favor. Se sabe, pode ter sido um arroubo de sinceridade sobre o que foi feito com a educação no primeiro mandato.

Leciono pelo governo do estado de São Paulo, e o que vejo é triste: classes com mais de 40 alunos (qualquer pedagogia vai pro espaço) nas quintas e sextas séries; classes com 25 ou 30 alunos nas oitavas séries; não sabem ler um texto; não se esforçam em aprender; dizem que não precisam se esforçar, pois terão o diploma de qualquer jeito; desrespeitam os professores; cada dia de aula é uma batalha; temos que brigar para poder explicar a matéria; não há limites na indisciplina.

Falta de limites começa em casa (constatamos isso ao chamarmos os pais). Essa é a realidade das escolas estaduais da periferia da grande São Paulo.

João Evangelista Domingues

Sheila Grecco responde: Caro missivista, entendo o seu drama como professor da escola pública de São Paulo. Também já lecionei e sei o que é ouvir dos alunos, até mesmo dos pequenos, "para que estudar se passarei de qualquer jeito?" A desmotivação é geral, tanto dos alunos quanto dos professores. Pior mesmo é ouvir da diretoria da escola aquele discurso: "Todos merecem a mesma chance". Leia-se: teremos aprovação 100%, custe o que custar. Só dessa forma é que o governo pode melhorar os índices da educação no Brasil – negócio para inglês ver. Como escrevi em outro artigo para o Observatório, na edição de 5 de maio, Fernando Henrique Cardoso e sua trupe esqueceram os mestres da Sociologia para terem como livro de bolso Lair Ribeiro, o discurso do otimismo. Fica difícil viver nessa ilha utópica, não é? Abraços, S. G.

Jornalismo comunitário

Caros amigos, meu nome é Heloisa Juncklaus Preis e sou formanda em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul). Estou começando a desenvolver um trabalho na área de jornalismo comunitário. Gostaria de saber se vocês têm material que possa me ajudar no embasamento teórico. Abraço,

Heloisa Juncklaus Preis

Nota do O.I.: Prezada Heloisa, o seu pedido está fora de nosso alcance. Mas caso algum leitor queira ajudá-la, aí está o seu e-mail.

 

LEIA TAMBEM

Professores de jornalismo, uni-vos!!!

Um aparte, companheiro

A mídia e a escola do giz e lousa



Mande-nos seu comentário

Início do Diretório acadêmico





Observatório | Índice da edição | Busca | Objetivos | Purposes
Caderno do Leitor | Edições anteriores | Observatório impresso
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe | Quem é você