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DIAGNÓSTICO
Idéias de um empresário de ensino

Victor Gentilli

Uma leitura desatenta da entrevista do maior empresário da educação privada no Brasil [Folha de S.Paulo, 4/8/02, pág. C 8], João Carlos Di Gênio – proprietário da maior universidade brasileira (Unip), da maior rede de colégios de ensino médio (Objetivo) e de cursinhos vestibulares – pode iludir o leitor e levar à impressão de que o entrevistado tem preocupações sociais e interesse verdadeiro na qualidade de ensino no Brasil. Nada mais falso.

O crescimento do ensino superior privado, bem maior do que o público, fez com que o empresário afirmasse que a capacidade de fornecer ensino superior no Brasil ultrapassou seus limites. É praticamente unânime a conclusão de que é preciso dar ensino superior a pelo menos 30% dos jovens em idade escolar, o mesmo índice da média da América Latina.

Mas Di Gênio, do alto de sua sabedoria, informa: "Em 2010, haverá sete milhões de alunos na faixa de 18 a 24 anos aptos para o ensino superior, mais dois milhões fora dessa faixa etária. Dos três milhões existentes hoje, teremos nove milhões. Mas só 1,8 milhão podem pagar escola. Como foi cortado o aumento de vagas na escola pública, como é que esses alunos vão fazer?"

Não é verdade que foi cortado o número de vagas na escola pública. Aliás, apesar de todas as dificuldades, o número de vagas nas escolas públicas cresceu nos últimos anos. É verdade, cresceu bem menos que a quantidade de vagas nas escolas privadas, mas daí a falar em corte vai grande distância.

O que preocupa Di Gênio é a única palavra que ele não pronuncia na entrevista: o mercado. Quando afirma que só 1,8 milhão de jovens entre 18 e 24 anos podem pagar ensino superior, no fundo o que Di Gênio diz é que da população dos 9 milhões de jovens aptos ao ensino superior apenas pequena parte pode pagar. Como qualquer ramo de negócios, ele vê a educação sob conceitos como inadimplência, capacidade de pagamento e outros termos mercantis.

O erro do profeta do ensino superior, erro primário aliás, é acreditar que a atual política educacional vai se manter intacta nos próximos oito anos.

A solução? Cursos seqüenciais! Ora, cursos seqüenciais foram concebidos para que os alunos já formados tenham alternativas rápidas e eficientes de reciclagem. Tanto que uma instituição só pode oferecer seqüencial em área com graduação normal.

O excepcional do seqüencial, que é atender a uma demanda específica do mercado, agora é visto por Di Gênio como o fundamental. A saída para crescer seu mercado de ensino privado.



MERCADO
ECA-USP e Folha criam disciplina

V. G.

A mesma edição da Folha que traz no caderno Cotidiano a entrevista com Di Gênio apresenta, no caderno Brasil, mais nobre, nota sobre a criação de uma disciplina optativa na ECA-USP, sobre a Folha de S.Paulo.

Em princípio, a idéia é excelente. Afinal, a universidade não pode deixar de se relacionar com o mercado. Mas, ao mesmo tempo, não pode perder seu espírito crítico.

A disciplina será ministrada basicamente num conjunto de cerca de 30 palestras, permitindo ao aluno conhecer os mais diversos aspectos do jornal. Com um palestrante diferente a cada aula – e o nome é palestrante mesmo, não professor – e turma inicial de 60 alunos (ampliada para 63 alunos), a capacidade de diálogo e de questionamentos fica questionada.

A experiência da Universidade Federal de Santa Catarina, que criou duas cátedras – RBS e Fenaj – me parece mais adequada. Vamos aguardar para ver os resultados da experiência.


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