6/6

Imprima esta página  Procure no arquivo

POLÊMICA NA BRAVO!
Não entendi

Não entendi por que esse texto foi colocado aqui. Para dar uma forcinha ao Alberto Dines na c... sobre o Olavo de Carvalho? Eu, como leitor dele há mais 20 anos, acho que ele não precisa disso. Se vocês colocam este texto, pelo menos por direito de resposta deveriam colocar, no mínimo, um link para as respostas de Olavo de Carvalho, publicadas na página dele na internet.

Fausto Lopes

Nota do OI: O texto não foi "colocado" aqui. Trata-se de carta enviada à caixa postal do OI, que é pública, pelo jornalista Argemiro Ferreira.


O ‘filósofo’ Joe McCarthy

Prezado Alberto Dines,

Noto que o Argemiro Ferreira se aproveitou da ocasião da minha troca de e-mails com você para dar uma divulgaçãozinha extra à polêmica que vem mantendo comigo na revista Bravo!. Só que, ao lhe remeter o artigo "A lista negra e o ‘filósofo’ Joe McCarthy", ele deveria, se fosse honesto, ter-lhe enviado também a minha resposta, que, embora incompleta (pois é escrita em série), consta da minha homepage <www.olavodecarvalho.org> há mais de um mês. Sem a resposta, o artigo fica parecendo o capítulo final da contenda, com o Argemiro no papel de vencedor. Puro teatro, evidentemente, como você verá em seguida.

Noto também que o Observatório reproduz a entrevista do prof. Carlos Nelson Coutinho ao jornal Valor Econômico de 24 de novembro de 2000, cuja menção à minha pessoa já foi respondida no meu artigo "Intelectuais orgânicos", publicado em O Globo de 26 de maio de 2001. Para a boa informação do público, convém que os dois lados sejam ouvidos, segundo o consagrado "direito de resposta".

Envio, pois, a seguir, minhas respostas a Argemiro e a Coutinho, com a ressalva de que a primeira continua a ser publicada em série na minha homepage. Agradeço a você a gentileza de publicá-las no Observatório. Um abraço e os melhores votos do

Olavo de Carvalho

Argemiro Ferreira: o estilo e o homem – I (2/6/01)

Olavo de Carvalho

Em dezembro de 2000, o jornalista Argemiro Ferreira publicou na revista Bravo! um necrológio do roteirista de cinema, Ring Lardner Jr., que o apresentava como vítima inocente da perseguição mccarthista. Na edição de fevereiro da mesma revista, contestei essa versão dos fatos. Agora, em junho, Argemiro respondeu à minha contestação. Como não quero que nada nessa disputa fique nebuloso, vago e sem conclusão, e como a plena elucidação do caso requer um exame longo e meticuloso, incompatível com as limitações de espaço da revista, colocarei em Bravo! apenas um aviso, chamando a atenção do leitor para as explicações que, nesta página, passo a apresentar em capítulos, que irei escrevendo à medida que me sobre tempo para consagrar a esse episódio, de escassa importância em si mesmo mas bastante oportuno pelo muito que revela da história contemporânea.

1. Estilística argemírica

§ 1. Argemiro, segundo ele mesmo

O estilo é o homem. Antes de entrar no mérito da questão, analisemos, pois, o estilo do sr. Argemiro Ferreira. Segundo ele, a contestação que ofereci ao seu artigo foi ‘uma diatribe’, ‘um assalto’, repleto de ‘ofensas’ e ‘insultos’ à sua pessoa – tudo isso sic. Mas a única menção que ali fiz a essa pessoa está na epígrafe, extraída de Boileau: ‘Un sot a toujours un plus sot qui l’admire.’ A palavra sot, como consta em qualquer dicionário da língua francesa, significa simplesmente ‘bobo’.

Um menino de cinco anos, chamado de ‘bobo’ por um colega de escolinha maternal, pode ficar profundamente magoado e achar que foi vítima de um insulto mortal, de uma ofensa intolerável, de um assalto à sua honra e dignidade mirins. Diria até que lhe desabou em cima ‘uma diatribe’, se conhecesse o vocábulo. Não conhecendo, pode substituí-la por um beicinho e pela ameaça temível: ‘Vô contá pa pofessôla.’

Um homem adulto, se reage assim, é louco ou está tramando alguma. Não insultei Argemiro nem vou insultá-lo agora. Vou apenas observar que sua afetação puerilmente espalhafatosa de brios ofendidos, se premeditada, depõe contra sua honestidade; se espontânea, contra sua sanidade; em ambos os casos, contra sua credibilidade. Mas nada se pode concluir com certeza desse detalhe estilístico isolado. É preciso verificar se, ampliando histrionicamente a expressão de seus próprios sentimentos, o sujeito não faz o mesmo com a dos alheios.

§ 2. Eu, segundo Argemiro

Vejamos portanto como ele descreve os meus sentimentos. Do senador Joe McCarthy fiz, no meu artigo, os seguintes julgamentos: 1) Inépcia: ‘Longe de ter intimado gente demais, o senador pode ser acusado de parar o serviço na metade... O mccarthismo... foi uma investigação mal feita, que não conseguiu provar a verdade.’ Estas frases referem-se ao seguinte fato: comparado à montanha de provas que investigações posteriores nos Arquivos de Moscou encontraram contra os suspeitos dos quais McCarthy, tendo as dicas certas, não conseguira provar nada de substancial, o seu belo Comitê de Atividades Anti- Americanas foi obviamente um fracasso.

2) Fraqueza moral: ‘Quanto a McCarthy, bem, ele não foi um herói. Sempre buscou mais brilho do que resultados. Quando atacado em sua vida pessoal (coisa que só um idiota não previria que os comunistas iriam fazer, sendo eles o que são), começou a beber e morreu de depressão. Também não foi homem de elevada moralidade: quando não tinha provas, permitia que sua assessoria as inventasse, (se bem que todos os incriminados fossem mesmo culpados, como se revelou depois).’

3) Ausência de culpa: ‘Mas não foi nenhum bandido, não mentiu em nada de substancial e, ao contrário, acertou em praticamente tudo.’ Para qualquer pessoa que saiba ler, esses parágrafos significam que McCarthy foi um idiota, um incapaz, vaidoso, fraco de caráter, indulgente com a mentira própria e alheia, o qual, querendo liderar uma causa patriótica que estava acima da sua capacidade, pôs tudo a perder embora tivesse, em geral, as informações certas contra as pessoas certas. Tal era e é minha opinião sobre Joe McCarthy. Traduzida para o argemirês, porém, ela fica assim:

‘A risível paixão do acusador [Olavo de Carvalho] pela ‘filosofia’ de McCarthy, quase guindado a panteão de herói e de grande pensador universal...’

‘A obstinação absurda de encarar o mccarthismo como escola de pensamento...’

‘O guru do sr. Olavo de Carvalho...’

‘O discípulo do ‘filósofo’ McCarthy...’

De vaidoso e fraco que comprou uma briga superior às suas forças, McCarthy transformou-se em herói. De idiota e inepto, em grande pensador universal e meu guru. O estilo é, de fato, o Argemiro Ferreira. É o estilo de um sujeito que não tem o menor senso das proporções nem o menor respeito pela realidade. É o estilo da ênfase forçada, do hiperbolismo fingido, o estilo artificiosamente bufo dos farsantes, mentirosos e difamadores. Mas, por favor, nada de conclusões apressadas. Nada de inferir, só do estilo, o homem. Antes de dizer que Argemiro é farsante, mentiroso e difamador, é preciso examinar a substância do que ele escreve. Pois, quando eu disser que ele é farsante, mentiroso e difamador, não quero dizê-lo como insulto. Quero dizê-lo como tradução exata da realidade, sem ênfases argemíricas.

Argemiro Ferreira, o estilo e o homem – II (18/6/01)

Continuo aqui publicando, sem preocupação de ordem, as notas que me ocorre tomar de vez em quando a propósito da contestação que Argemiro Ferreira ofereceu ao meu artigo sobre ‘as duas listas negras’. Se essas notas acabarem se prolongando além da dose de atenção que esse miúdo palpiteiro parece merecer, isto será devido somente àquele paradoxo tão precisamente assinalado por Rivarol: ‘Il ne faut souvent qu’un trait pour peindre les grands hommes, il en faut une infinité pour peindre les petits.’

1. O ‘modus arguendi’ de um charlatão

Passando do estilo ao conteúdo, noto que a técnica argumentativa de Argemiro é perfeitamente coerente com o seu uso da linguagem, ambos servindo ao mesmo propósito de ludibriar o leitor. Contestar uma argumentação é, simplesmente, transformar suas asserções em perguntas e mostrar que as respostas negativas funcionam melhor que as afirmativas. Convertidas em perguntas, as afirmativas que fiz no meu artigo sobre a lista negra ficariam assim:

1. É ou não verdade que, enquanto em Washington algumas centenas de pessoas eram interrogadas na Comissão McCarthy e liberadas, na Rússia eram fuzilados três milhões de dissidentes?

2. É ou não verdade que, nessas condições, nivelar essa Comissão aos tribunais soviéticos ou falar igualmente de ‘atmosfera de terror’ num caso e no outro é, na melhor da hipóteses, uma hipérbole de mau gosto?

3. É ou não verdade que, nessas condições, qualquer abuso que McCarthy possa ter cometido contra os que colaboravam com o regime soviético foi moralmente menos grave do que essa colaboração mesma?

4. É ou não verdade que os únicos comunistas condenados à morte nos EUA, Julius e Ethel Rosenberg, jamais passaram pela Comissão McCarthy?

5. É ou não verdade que, na época, informações sobre os massacres soviéticos eram abundantes na imprensa norte-americana e que, desta forma, Ring Lardner Jr. não podia tê-los ignorado?

6. É ou não verdade que o Partido Comunista Americano, como aliás qualquer outro partido comunista no mundo, colaborava ativamente com a espionagem soviética?

7. É ou não verdade que, para esse fim, a KGB usava (além de seus agentes profissionais, é claro) tanto os militantes do Partido quanto meros ‘companheiros de viagem’? É ou não verdade que a ambigüidade mesma da condição de ‘companheiro de viagem’ foi sempre usada pelos partidos comunistas como um instrumento de ação subterrânea nos países não-comunistas?

8. É ou não verdade que, nessas condições, muitos suspeitos interrogados pelo Comitê McCarthy se prevaleceram de uma ambigüidade de linguagem, alegando ‘não ser comunistas’ (no sentido de membros do Partido) sem deixar de ser por isso autênticos comunistas (no sentido de colaboradores informais da espionagem soviética)?

9. É ou não verdade que ninguém da ‘lista negra de Hollywood’ foi interrogado pela Comissão McCarthy?

10. É ou não verdade que a discriminação dos não-comunistas em Hollywood antecedeu a repressão aos comunistas?

Para contestar efetivamente meus argumentos, se quizesse fazê-lo com honestidade, bastaria a Argemiro Ferreira responder ‘Não’ a cada uma dessas perguntas e provar que esta resposta é melhor do que aquelas que ofereci. Não podendo fazer isso de maneira alguma, ele desliza para longe do assunto e, para dar à sua escapada um ar de resistência heróica, recorre aos seguintes expedientes.

1. Alterar grotescamente o que eu disse, recorrendo para isso ao hiperbolismo bufo que é o equivalente comunista do senso de humor. Uma vez assim maquiadas as minhas afirmações, negá-las a priori ou desmoralizá-las, evidentemente com a maior facilidade, já que foram preparadas para esse fim.

2. Revestir a farsa com um verniz de seriedade, dando uma profusão de detalhes sobre fatos marginais, irrelevantes para a essência da discussão.

3. Mentir pura e simplesmente, falseando datas, nomes e situações.

2. Dois exemplos

Como o uso do expediente número 1 já foi bastante denunciado no Capítulo I, e como o 2 requer explicações mais demoradas, que deixarei para depois, dou logo de cara dois exemplos do expediente número 3: mentir.

1. Afirmei que o Comitê McCarthy só interrogava funcionários do Estado. Argemiro responde: ‘Era assim que devia ocorrer, pelas regras internas da casa [o Senado]. Mas, na prática, ninguém conseguia impor limites ao senador.’ Para prová-lo, cita o caso do escritor James Wechsler, que, não sendo funcionário público, teria sido intimado ‘por vingança... pelas críticas feitas a McCarthy no New York Post’. Argemiro mente. Wechsler era funcionário público, sim. Era assessor do governador de Illinois, Adlai Stevenson, e foi nessa condição que foi intimado; pois o governador, jamais acusado de ser ele próprio comunista (ao contrário do que diz Argemiro), era declaradamente um protetor de comunistas e por isto McCarthy o considerava – com toda a razão, segundo o que hoje se sabe – suspeito de negligência em matéria de segurança. Argemiro – ou quem acredite nele – pode averiguar: a notícia, sem a mínima ambigüidade, está no New York Times de 28 de outubro de 1952. [1]

2. Para provar que ‘vítimas inocentes foram arruinadas’ pelo Comitê McCarthy, Argemiro apela à velha lenda da mulher humilde (e ademais negra) que ‘perdera o emprego ao ser intimada a depor’ e que McCarthy continuou a perseguir embora soubesse da sua inocência. É um dos cartões-postais clássicos que ilustram a lenda tenebrosa criada em torno de Joe McCarthy pelas ações conjugadas de milhões de Argemiros. Novamente, é tudo falso. A personagem dessa historieta comovente chamava-se Annie Le Moss. Era uma funcionária do Departamento de Sinalização do Exército, uma área de risco onde o regulamento militar proibia dar emprego a pessoas suspeitas de ligação com o Partido Comunista, em razão da óbvia colaboração deste com a espionagem chinesa e soviética. Na época, a imprensa anti-McCarthy fez de Annie o protótipo da vítima inocente, alegando que ela fora confundida com outra Annie Le Moss, branca, esta sim militante do Partido Comunista mas não funcionária do Exército. McCarthy, mesmo sem ter provas cabais, e confiado tão somente no testemunho de Mary Mackward, uma agente do FBI infiltrada no Partido, insistiu até o fim que Annie era comunista, o que foi explorado pela imprensa como prova de sua maldade, sublinhada por insinuações de racismo. Argemiro subscreve a acusação e a nuance. Só há um problema: Annie era comunista mesmo. A prova, porém, só veio tarde demais, quando McCarthy já estava morto e a lenda da sua perseguição a uma pobre mulher negra já havia se consolidado como artigo de fé na seita multitudinária dos Argemiros. Em 1958, o Departamento de Justiça divulgou os documentos do Partido Comunista, jamais contestados pelo Partido mesmo, onde constava, acima de qualquer possibilidade de dúvida, o registro da militante: Annie Le Moss, 72 R Street SW, Washington DC. Duas Annie Le Moss, uma negra e a outra branca, podiam coexistir no Partido. Mas não no mesmo endereço, caramba. [2] [Continua]

Notas

[1] V. Richard J. H. Johnston, ‘Senator Accuses Governor of Sympathy With and Aid to Communist Cause’, N. Y. Times, Oct. 28th 1958.

[2] V. Reports of the Subversive Activists Control Board, Vol. 1, Washington DC, Government Printing Office, 1966, pp. 93-94."

***

Intelectuais orgânicos

Olavo de Carvalho [O Globo, 26/5/01]

"Só agora li uma entrevista que o prof. Carlos Nelson Coutinho deu ao jornal ‘Valor’, na qual, forçando até onde é possível o sentido das palavras, ele me incluiu entre os que teriam ‘preconceito contra o marxismo’. Apesar da data já um pouco longínqua, vale a pena examinar o documento, que ilustra o peculiar ‘modus pensandi’ de um ‘intelectual orgânico’.

‘Preconceito’, caso alguém ignore, é opinião prévia a um exame racional. Na deterioração geral da língua, no entanto, a palavra tornou-se um estereótipo infamante que os mais preconceituosos usam para rotular qualquer conclusão adversa a seus preconceitos, à qual alguém tenha chegado após longo estudo e ponderação.

O prof. Coutinho aderiu ao marxismo militante na entrada da juventude, antes de ter examinado senão um fragmento infinitesimal da bibliografia marxista, e, passadas quatro décadas, ainda é marxista sem ter mais que um conhecimento periférico da argumentação antimarxista; ao passo que eu, tendo feito idêntica escolha prematura, coloquei minha opção entre parênteses uns anos depois e, abstendo-me por duas décadas de emitir opiniões políticas enquanto pesava criteriosamente os argumentos pró e contra o marxismo, emergi enfim do silêncio dizendo coisas que contrariam os sentimentos juvenis em que se fossilizaram a pessoa, a vida e os neurônios do prof. Coutinho.

Entre nós dois, obviamente, o preconceituoso é ele, que nunca escreveu uma linha senão para dar retroativamente ares de requinte intelectual às crenças a que já tinha aderido de corpo, alma e carteirinha antes de fazer qualquer uso revelante do intelecto.

Isso não quer dizer que hoje ele faça desse instrumento um uso mais intenso do que na aurora da sua militância. Pelo menos ele não o utiliza o bastante para perceber que não tem sentido afirmar que entrei na mídia ‘com grande respaldo’ e logo em seguida referir- se a mim como ‘uma voz isolada’, que ‘não é representativa de nada’... Ou bem eu, isolado, falo com a minha própria voz, ou alguém que me respalda fala pela minha boca. O prof. Coutinho que trate de decidir se quer me chamar de pau-mandado ou de excêntrico solitário. Se ‘entre les deux, son coeur balance’, isto só prova que ele quer me rotular de alguma coisa, qualquer coisa, não importa o que. Quando digo que o marxismo imbeciliza, é a esse tipo de fenômeno que me refiro. Nenhum esquerdista, até hoje, conseguiu dizer contra mim algo de inteligente. Ante a ‘voz isolada’ que os atemoriza, todos têm dado um show de inépcia, de covardia e de maledicência sussurrante. Tempos atrás desafiei para um debate sobre Gramsci, inclusive oferecendo troca de links entre nossas respectivas páginas na internet, o prof. Coutinho e seus oitenta fiéis escudeiros de um site devotado à beatificação do fundador do Partido Comunista Italiano. Fugiram, como de hábito, afetando ares de dignidade ofendida, e, em pleno dia de Natal, redigiram uma carta enfezada na qual denunciavam como imposição ditatorial a oferta do intercâmbio de links. É sempre aquela coisa do ‘1984’: democracia é ditadura, ditadura é democracia. Discussão é imposição, imposição é discussão. Conceito é preconceito, preconceito é conceito. O leitor desacostumado ao trato com comunistas pode estranhar a desenvoltura, a tranqüilidade de consciência com que posam de vencedores após uma debandada tão ostensiva. Mas, creia-me, o fenômeno não se explica pela simples cara de pau.

Eles conservam na fuga um ar triunfante porque não são intelectuais como os outros. São – e gabam-se de ser – ‘intelectuais orgânicos’, células de um vasto corpo combatente. Nunca agem sozinhos. Têm sempre o apoio logístico de uma rede inumerável de militantes obscuros, anônimos, que podem prosseguir o combate nos ‘bas fonds’ da intriga e da calúnia quando os porta-vozes mais respeitáveis do ‘coletivo’ se saem mal nos confrontos públicos.

Quando as vozes de cima se calam, as de baixo começam o zunzum nos porões. Agora mesmo, enquanto meus detratores mais notórios se recolhem para lamber as feridas das últimas refregas, um jornalista de São Paulo, mais comunista que a peste, deplorável farrapo humano que busca no ódio político o alívio de sua indescritível miséria de alma, está espalhando na internet avisos segundo os quais eu, Olavo de Carvalho, não trabalho há trinta anos e... vivo da exploração de mulheres.

Dito em voz alta, numa tribuna acessível aos olhos do público, isso exporia o fofoqueiro ao desprezo de todos. Sussurrado no mundo virtual, pode até funcionar. A intriga propaga-se por reflexo condicionado, não por adesão consciente. Não é preciso acreditar nela para passá-la adiante, repeti-la por automatismo e acabar tomando-a como premissa implícita de julgamentos e decisões.

A manipulação de automatismos mentais torna-se ainda mais fácil numa atmosfera infectada de ódios e temores coletivos contra alvos mais ou menos distantes, só conhecidos por ouvir-dizer. O ambiente de esquerda é o caldo de cultura ideal para esse tipo de bactérias. É por sempre contar com esse fundo de reserva que o ‘intelectual orgânico’ pode se sentir vitorioso mesmo quando perde. Ele perde, mas o Partido não perde nunca.

Não adianta nada você derrubar um desses sujeitos no ringue. Enquanto você recebe sua medalha, eles já fizeram a sua caveira entre os vizinhos. E quando você, imbuído de seu prestígio de campeão, vai pedir fiado um quilo de feijão no armazém da esquina, o português, desviando os olhos, lhe explica que os negócios vão mal e que você não tem mais crédito.

O mais pérfido em tudo isso é que o comunista famoso pode sempre sair bonito, alegando que desaprova os métodos imorais usados por seus companheiros anônimos. Mas, a partir do momento em que aceita ser um ‘intelectual orgânico’, ele não pode mais deixar de beneficiar-se dos métodos que desaprova. Não é uma questão de escolha. O Partido trabalha para ele como ele trabalha para o Partido, na unidade orgânica e indissolúvel da bela imagem pública com a safadeza escondida.

A imoralidade da militância comunista é intrínseca e independe de aprovação pessoal. E o máximo da imoralidade consiste precisamente em que o sujeito pode permanecer limpo no instante mesmo em que tira vantagem da sujeira praticada por outros, da qual ele nem precisa saber. É a síntese perfeita da boa consciência com a falta de consciência."

 

                         Mande-nos seu comentário


Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe