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SUPERINTELIGÊNCIA
Upgrade do cocuruto
Luiz Carlos Pires
Se não pintar mais uma Era Glacial, se não vier nenhum meteoro para a Terra e se Itamar Franco não provocar a Terceira Guerra Mundial, a extinção da espécie, segundo alguns cientistas e filósofos, poderá ocorrer pela espetacular invenção que substituirá a internet. É a chamada superinteligência atualmente em discussão em avançados centros de pesquisa.
Segundo a definição de Nicholas Bostrom, do Departamento de Filosofia, Lógica e Método Científico, da Escola de Economia de Londres, entende-se por superinteligência "um sistema cognitivo que drasticamente ultrapassa os melhores humanos atuais em todos os sentidos, inclusive em inteligência geral, sabedoria e ciência criativa e, presumivelmente, arte e literatura e habilidades sociais".
A superinteligência utiliza pesquisas que envolvem cadeias de hardware neural, cadeia neural simulada, inteligência artificial clássica, tecido extracranialmente cultivado, computadores de quantum, grande computador interconectado, tratamento nootrópico do cérebro humano, sistemas de simbiose biológico-eletrônicos, nanotecnologia, aceleração da rede neural, biotecnologia, genética e um pouco de filosofia.
Bostrom levanta várias preocupações, como a existência ou não de uma identidade pessoal por estas supermentes, se elas viveriam uma realidade virtual, se haveria competição entre elas e nós e, por final, se nós emigraríamos para elas, deixando para trás a nossa própria mente e a consciência como hoje a entendemos.
Cinco milhões de anos depois do primeiro rolê pelas savanas africanas, o homem, que mal começou a mexer no mouse, agora está prestes a dar um imenso salto tecnológico que poderá levá-lo aos quintos do universo ou a um atalho mais rápido para a quinta essência, deixando aos vermes, aos golfinhos e aos lulus a responsabilidade da próxima civilização pensante.
A superinteligência eliminará as conexões, portais, bandas largas e downloads. Quem a possuir poderá conversar com portas, paredes, peixinhos e com as pedras de Marte. Mas poderá deixar de ser gente ou, pelo menos, como a conhecemos no momento, ou, pior, poderá desprezar aqueles indivíduos que o criaram, deletando-os para dar continuidade ao jogo. Será o maior desafio desde que inventamos o fogo e desejamos a mulher do vizinho. Consciência e inconsciente se encontrarão no ponto G, pois, se nós passarmos a ler o pensamento, a hipocrisia nos dará saudades da happy hour e dos embalos de sábado à noite.
O dilema será permitir ou não o upgrade no cocuruto, mas se o vizinho do condomínio ao lado fizer no filho dele, restará apenas a opção de emigrar para aquela comunidade alternativa na Amazônia. Lá, os homens andarão nus, acreditarão em Deus, trocarão a tevê pela fogueira e, com sorte, poderão ser vistos como espécimes exóticos capazes de produzir o seu próprio zôo. Um grupo de anciãos ditará as regras e proibirá qualquer idéia de desenvolvimento. Algumas gerações depois, um estranho ritual destruirá os bens excedentes, e o ócio contemplativo à luxúria selvagem substituirá o congestionamento das freeways.
Para ajudar a entender o perigo de extinção provocado pelo Cabeção, lembramos do Paradoxo de Fermi, do cientista italiano Enrico Fermi, segundo o qual nós ainda não fomos atingidos por qualquer onda de colonização extraterrestre, apesar dos ufólogos garantirem o contrário, porque toda civilização provoca a sua autodestruição quando atinge um avançadíssimo grau tecnológico. Bostrom ainda nos remete ao tempo e à escala evolucionista necessários à criação de vida inteligente em um planeta igual a Terra e os compara com estrelas e galáxias bilhões de anos mais antigas e, portanto, com capacidade de abrigar civilizações mais evoluídas e que já dominariam a tecnologia de longas viagens interestrelares.
O barato do juízo final passa pela nanotecnologia e pela sonda de Von Newman. Segundo Newman, uma civilização pode escolher conquistar as estrelas enviando uma sonda auto-replicante capaz de colonizar mais rapidamente vários planetas com máquinas que produzam outras máquinas através da nanotecnologia e da utilização da superinteligência. Outra opção, muito mais custosa e demorada, é a criação de ambientes capazes de manter a sobrevida humana, deixando meio que de lado o Cabeção, o que é, certamente, uma opção não condizente com a chegada às estrelas e com o nosso inexorável processo evolucionista.
Para conquistar as estrelas, o homem terá de vencer mais que a gravidade que sempre determinou a vida no planeta desde as primeiras moléculas. Ao se lançar ao espaço, terá de recompor-se física e psicologicamente, e as próximas histórias de colonização sideral estarão desassociadas de toda simbologia fálica encontrada até agora nas conquistas dos povos e nas relações interpessoais da espécie. Na ausência de gravidade, apesar dos experimentos programados pela NASA, a ereção perderá também sua função de mais-valia erótica e remeterá o homem à busca de uma nova simbologia representativa para suas aventuras espaciais.
Mas, por outro lado, não tem forma de escapar do Cabeção que abrigará esta superinteligência. Numa visão otimista da evolução, talvez não ocorra tanto sofrimento no rito de passagem para esta supermente que nos mostraria novas formas de prazer, talvez em outras dimensões, fora do processo de contato sexual entre a espécie. Talvez haverá um só sexo ou vários e com o delicioso barato de viajar virtualmente aos bordéis da antiga Grécia, mantendo plugados todos os sentidos, mesmo que tenhamos a aparência real de uma bola de basquete. Talvez as cartas do jogo serão dadas por aquela comunidade na Amazônia, onde os homens não discutirão qualquer paradoxo e continuarão a andar nus e de mãos dadas às mulheres com suas vulvas ao vento.
SIDNEY 2000
COI contra os avanços da net
A 27ª Olimpíada será lembrada pela luta entre aqueles que sustentam direitos de propriedade intelectual em eventos esportivos e os que procuram cobrir esportes, especialmente para o universo em expansão da internet.
Preocupado com o poder da internet de subestimar a fundação econômica do movimento olímpico moderno, o comitê agiu amplamente para controlar como e onde as imagens e contas de Sydney atingem o público. Segundo matéria de Felicity Barringer [The New York Times, 25/9/00], a ação do comitê apenas ecoa o que está acontecendo em outras áreas do esporte, seja amador ou profissional.
Grande parte da atenção do comitê foi voltada à internet. Temeu-se que a audiência da TV saísse defasada e que o valor dos direitos de transmissão fosse diluído. Além disso, a internet poderia fazer vazar as imagens olímpicas que a muitos custam caro, sem dar retorno ao comitê não-lucrativo.
O policiamento nos esportes vem sendo tão reverenciado que o Comitê Olímpico Internacional adotou a linha dura: sem diários de atletas e sem bate-papo online. Vídeos via internet também foram proibidos, mesmo reprises de eventos que ocorreram meses antes.
Dois meses antes do início dos Jogos Olímpicos, o comitê arquivou um conjunto de leis na Corte federal, retirando direitos de 1.800 sítios noticiosos que haviam registrado domínios utilizando termos de propriedade do COI. A lei está pendente, mas mais de 20 monitores privados da rede estão usando, em três continentes, a última tecnologia em ferramenta de busca para monitorar possíveis violações dos direitos de propriedade do COI.
Apesar de a definição de vídeos via internet ser muito baixa, o COI revira-se com a idéia de que suas imagens se aperfeiçoarão dentro de 4 a 8 anos.
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