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IBM & NAZISMO
Valor Econômico
"Atuação no nazismo não afeta ações da IBM", copyright Valor Econômico, 13/02/01
"Um processo aberto na sexta em uma corte de Nova York acusa a IBM de tomar parte em ‘crimes contra a humanidade’ ao permitir que suas máquinas fossem usadas em campos de extermínio nazistas. A ação, em nome de sobreviventes do Holocausto, exige que a empresa abra seus arquivos relacionados ao período nazista e pague ‘os ganhos provenientes de sua conduta na Segunda Guerra’, disse o advogado Michael Hausfeld, que comanda o caso. Em valores de hoje, o dinheiro representa cerca de US$ 120 milhões.
O processo coincide com o lançamento mundial (inclusive no Brasil) do livro ‘IBM e o Holocausto’, do jornalista Edwin Black, que relata o relacionamento entre a empresa americana e o regime nazista. Segundo o livro, máquinas de tabulação fabricadas pela empresa foram essenciais para que os nazistas identificassem e selecionassem vítimas de extermínio. Apesar do impacto negativo do livro, as ações da empresa fecharam em alta na Bolsa de Nova York.
Nos últimos anos, foram iniciados dezenas de processos para compensar vítimas do nazismo, incluindo as que perderam dinheiro que estava em contas bancárias, trabalharam como escravos ou não receberam pagamentos de empresas seguradoras.
Em resposta a essas ações, governos e empresas da Europa criaram fundos de compensação em troca do compromisso de encerramento das ações judiciais.
Hausfeld disse que sua ação marca uma nova etapa nesse processo, mas que qualquer soma obtida não irá para indivíduos, mas será usada em projetos de educação relacionados ao Holocausto, por exemplo. Ele enfatizou que o processo é contra a IBM americana, e não sua subsidiária alemã.
‘A IBM dos EUA implementou, auxiliou, assistiu ou conscientemente participou de crimes contra a humanidade e violações de direitos humanos ... ao fornecer tecnologia, produtos e serviços que sabia que seriam usados para facilitar perseguição e genocídio’, afirma a ação.
Hausfeld disse que ainda não possui documentos provando que executivos da IBM americana sabiam do que ocorria na Alemanha, e esta é uma das razões pelas quais ele pede que os arquivos sejam abertos. Ian Colley, porta-voz europeu da IBM, disse que todos os documentos da companhia relacionados ao nazismo já foram doados a universidades.
A empresa afirmou que não comentaria o caso até tomar conhecimento do livro e do processo. Um comunicado distribuído aos funcionários da IBM, entretanto, diz que ‘se este livro trouxer informações novas e verificáveis que avancem na compreensão dessa era trágica, a IBM vai examiná-lo e pedir que especialistas e historiadores façam o mesmo’.
Stuart Eizenstat, ex-subsecretário do Tesouro e principal negociador do governo Clinton para a questão do Holocausto, disse que o impacto do processo contra a IBM deve ser amenizado pelo fato de a empresa já ter aderido a um fundo alemão de US$ 5 bilhões para compensar vítimas do nazismo em julho último."
Valor Econômico / Der Spiegel
"Livro destaca uso de tecnologia da empresa nos campos de extermínio", copyright Valor Econômico / Der Spiegel , 13/02/01
"Ao som de Beethoven, com suásticas enfeitando camarotes de honra, Herrmann Göring fez o discurso festivo. No Teatro da Ópera de Berlim, o regime nazista recebia dirigentes de empresas de todo o mundo, reunidos na capital para o congresso anual das câmaras de comércio internacionais. Quando Hitler entrou no teatro, foi aplaudido de pé pelos presentes. Entre eles, na fila da frente, estava Thomas J. Watson, presidente da câmara de comércio de Nova York e da maior empresa de processamento de dados americana, a ‘International Machines Corp.’, IBM.
Para Watson, esse fora um grande dia. À tarde fora recebido pessoalmente por Adolf Hitler, à noite recebera a mais prestigiosa condecoração do país, a Ordem de Mérito da Águia Alemã. O magnata admirava profundamente os novos chefes de Estado europeus. Em cima de seu piano, havia uma foto autografada de Mussolini; e de Hitler falava com grande simpatia e respeito.
Aparentemente, a Watson não incomodava o fato de que, na Alemanha, desde 1933, os judeus eram perseguidos, como o jornal americano ‘The New York Times’ quase diariamente noticiava. Para ele, contava mais o capital movimentado pelas três subsidiárias alemãs da IBM; estas eram responsáveis por mais da metade dos lucros de todas as subsidiárias internacionais juntas.
O regime nazista, seja para contagem da população, para produção de mercadorias ou para expansão do sistema ferroviário, pôde sempre contar com o apoio das calculadoras da Hollerith, a subsidiária assim batizada para homenagear o inventor dos sistemas de cálculo, o americano de origem alemã Hermann Hollerith. Mesmo depois que Hitler havia iniciado sua expansão européia, as máquinas de calcular que funcionavam com fichas perfuradas, precursoras do computador, continuavam a ser vendidas. A empresa continuou a fechar contratos com os alemães até mesmo depois que os EUA entraram na guerra, através da subsidiária suíça. E, finalmente, as máquinas serviram na organização dos trabalhos forçados e no Holocausto.
O autor americano Edwin Black, 51, acusa a IBM de dividir com os nazistas a culpa no extermínio dos judeus. O livro de Black foi lançado ontem em 25 países. Segundo o autor, a IBM teria ‘feito do programa de extermínio dos judeus uma verdadeira missão de sua subsidiária alemã, a qual o executava com êxito assustador’.
É verdade que, mesmo sem a ajuda das fichas perfuradas da IBM, Hitler teria conseguido administrar o massacre dos judeus. Black não afirma que os nazistas teriam deixado de levar a cabo o Holocausto caso não tivessem tido a ajuda da empresa e de sua subsidiária alemã. Mas os dirigentes da Hollerith foram de grande ajuda neste sentido.
Mesmo depois que os EUA entraram na guerra, a empresa americana continuou a fazer negócios com os nazistas, principalmente por meio de sua subsidiária na Suíça. O quanto os americanos e seus subsidiários europeus sabiam sobre a utilização da técnica por eles desenvolvida não se pode provar com exatidão. ‘É possível que nem ‘quisessem saber do pior’, diz Black.
O dirigente do conglomerado tinha também uma personalidade de líder, com traços carismáticos e brutais. Watson fascinava os políticos e jogava sujo com as empresas concorrentes. Subjugava os empregados; estes tinham que cantar o hino da IBM, saudando o chefe como ‘o maior de todos os homens’.
Watson apropriou-se da subsidiária alemã da IBM, a Hollerith Maschinen Gesellschaft (Dehomag). Em 1922, o dirigente, até então independente, Willy Heidinger tinha com a IBM uma dívida de US$ 100 mil dólares. Watson foi visitá-lo e ofereceu dispensa total da dívida contra 90% das ações da empresa.
No início do regime nazista o maior cliente da Dehomag eram os órgãos de estatística de população. Em 1934, na inauguração de uma fábrica do grupo, o dirigente da Dehomag, na presença de altos oficiais nazistas, elogiou em seu discurso ‘o médico de nosso corpo alemão’, Adolf Hitler, e prometeu: ‘Cada característica individual de nossos concidadãos será determinada numa ficha’. Em Nova York, Watson recebeu o texto de Heidinger e congratulou-se imediatamente com ele por telegrama.
Em 1933, quando sua subsidiária recebeu o pedido para fazer o recenseamento do país, Watson foi pessoalmente à Alemanha; na central de operações em Berlim, por ele visitada, havia grandes cartazes intimando os cidadãos registrados sob a designação ‘jüd.isr’ (judeu, israelita) a marcar a linha 3, na coluna 22. A transcrição das fichas de contagem durou quatro meses. Depois disso pôde-se, pela primeira vez, determinar o número de habitantes judeus por cidade, por grupo de profissão ou bairro.
Os americanos sabiam que a técnica desenvolvida pela Hollerith era a peça de resistência da ‘máquina de informação’ com a qual o Exército, e mais tarde o Ministério dos Armamentos, controlavam a logística da guerra.
Conforme o esperado, o regime nazista fez encomendas em massa à Hollerith e demonstrou-se realmente ‘amigo das estatísticas’.
Mas quanto exatamente sabia a IBM sobre o uso de suas máquinas? Até agora os dirigentes da IBM têm recusado a responsabilidade. ‘Tudo o que sei é que os alemães utilizavam o sistema Hollerith da empresa Dehomag’, diz Robert Godfrey, do arquivo americano da IBM; e Merry Madway Eisenstadt, especialista sobre o nazismo do mesmo arquivo: ‘Não temos documentos relativos ao Holocausto’.
Em abril de 1942, o comandante nazista Wilhelm Keitel baixou um ‘decreto secreto’ ordenando que toda a atividade ‘relativa às fichas perfuradas ficasse sob o comando do Exercito’.
Mas as pesquisas de Edwin Black demonstram que os gerentes da IBM eram minuciosamente informados sobre o paradeiro de suas máquinas.
Depois que os EUA entraram na guerra, em 1941, a Dehomag passou a ter sua administração supervisionada pelos alemães, e em 1943 passou a ser dirigida diretamente pelos nazistas. Mas a central americana nada tinha a se queixar, pois, segundo relatórios de junho de 1943, ‘a empresa continuava a cumprir seu papel com grande lealdade’.
Por sua ligação ‘ideológica e tecnológica com o regime nazista’, o presidente da IBM - Watson - começou a tornar-se suspeito. Mas, quando a derrota já se tornara certa, a IBM já havia mudado de lado; a infra-estrutura do regime alemão era tão dependente da tecnologia da Hollerith que, sem ela, seria impensável controlá-lo.
Enquanto a subsidiária alemã ainda estava a serviço do inimigo, a IBM americana já colaborava no planejamento da tomada militar no flanco ocidental.
Várias centrais da Dehomag foram poupadas dos bombardeios aliados. Após o final da guerra, 2.348 máquinas foram encontradas em perfeito estado. E empregados alemães ajudaram a reconstruir o que havia sobrado da Dehomag. Para Black: a IBM conseguiu um verdadeiro golpe de mestre; antes, uma das maiores fornecedoras do regime de Hitler. Depois, um dos maiores parceiros de sua liquidação. (‘IBM e o Holocausto’, de Edwin Black. Lançamento da Editora Campus; 624 páginas, R$ 54,00)"
Folha de S. Paulo
"Para IBM, livro que a acusa não traz novidade", copyright Folha de S. Paulo, 13/02/01
"A IBM divulgou nota ontem em que diz considerar ‘horrendas’ as atrocidades do regime nazista e na qual condena ‘qualquer ação que tenha contribuído para que elas tenham se tornado realidade’. O comunicado foi uma resposta ao livro ‘IBM e o Holocausto’, lançado ontem em vários países, inclusive no Brasil.
No livro, do jornalista norte-americano Edwin Black, a gigante da informática é acusada de ter fornecido à Alemanha nazista a tecnologia de que o regime precisava para acelerar a matança de judeus.
Na nota, a IBM alega não ter tido acesso ao livro antes de seu lançamento e que, portanto, não está preparada para rebater adequadamente as acusações de Black.
A empresa afirma, porém, que a utilização de sua máquina de cartões perfurados (antepassado do computador) pelos nazistas, para recensear judeus e administrar campos de concentração, já era conhecida antes do livro.
‘Se o livro mostrar novas informações que acrescentem novos dados à história da tragédia causada pelo nazismo, a IBM irá examiná-los e pedirá a catedráticos e historiadores que façam o mesmo’, disse o comunicado.
A IBM argumenta também que a Dehomag, sua subsidiária na Alemanha nazista, passou a ser controlada pelo governo de Adolf Hitler, assim como ocorreu com outras companhias estrangeiras que mantinham negócios no país.
Segundo a empresa, parte do material que indica as ações realizadas pela Dehomag naquela época foi destruído antes do fim da Segunda Guerra. O restante, contendo informações sobre as operações da companhia durante o nazismo, foi doado pela própria IBM à Universidade de Nova York e à de Hohenheim, em Stuttgart, na Alemanha.
Anteontem, um grupo de judeus vítimas da perseguição nazista entrou com uma ação contra a IBM em um tribunal de Nova York. A ação exige indenizações da empresa com base nos lucros obtidos pela IBM em seus negócios com o Terceiro Reich."
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