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BALANÇOS & PROGNÓSTICOS
Marcelo Billi

"Internet toma juízo para crescer em 2001", copyright Folha de S. Paulo, 21/01/01

"Depois de um ano de euforia e depressão, o mercado de Internet brasileiro deve entrar nos trilhos e iniciar uma fase de crescimento rápido com bases sustentáveis. Apesar de começar com um processo de consolidação, com falências, fusões e aquisições -e todos os traumas que isso pode gerar nas empresas-, o ano de 2001 deve entrar para a história da Internet no Brasil como o período em que o bom senso tomará conta dos negócios virtuais.

Analistas, executivos, consultores e empresários ouvidos pela Folha acreditam que um processo de ‘seleção natural’, que já começou, deve se intensificar nos primeiros meses do ano e que muitas empresas, sem capital ou abandonadas pelos sócios, vão desaparecer já no primeiro semestre.

‘Vamos ter muitas surpresas. Algumas agradáveis, outras desagradáveis. Muitos modelos inviáveis que conseguiram dinheiro de investidores vão desaparecer’, diz Caio Túlio Costa, diretor-geral do UOL (Universo Online).

As empresas que quiserem sobreviver, afirmam todos, precisarão passar pela prova que toda companhia tradicional sempre teve que enfrentar: as receitas geradas pelo negócio devem ser suficientes para gerar lucros para os acionistas.

Euforia

O ano de 2000 começou em ritmo de euforia. Com a Nasdaq -Bolsa eletrônica norte-americana que concentra ações de empresas da nova economia- atingindo níveis recordes e com as promessas de grandes lucros das empresas virtuais, todos os investidores procuravam por algum negócio virtual em que pudessem aplicar seus recursos.

A receita parecia simples: encontrar um site que tivesse um grande número de usuários e comprá-lo. Mais cedo ou mais tarde, as empresas conseguiriam transformar a audiência desses sites em receitas de publicidade e comércio eletrônico, de onde viriam os lucros.

O problema é que não havia publicidade para todos, tampouco volume suficiente de pessoas comprando pela rede mundial de computadores para justificar os grandes investimentos.

‘O que aconteceu foi completamente irracional, uma espécie de modismo. Essa idéia de dois mundos, um virtual e um real, não existe. O que existem são negócios que precisam gerar lucro para sobreviver’, avalia Sylvio Netto, sócio da Web Motors.

Otimismo

A consolidação do setor deve fazer muitos investidores perder dinheiro, mas não o otimismo com o futuro do mercado. Pesquisa realizada pela Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) estima que fundos que atuam no país devem investir, apenas no primeiro trimestre deste ano, US$ 453 milhões em novos negócios.

Os mesmos fundos, que administram cerca de US$ 4 bilhões, declaram que devem investir, no mínimo, US$ 2,1 bilhões este ano, valor semelhante ao que foi injetado em novos negócios em 2000. Entre as prioridades de investimentos estão as áreas de Internet, telecomunicações e logística.

Crescimento

A maioria dos gestores desses fundos avalia também que a tendência de negócios para este ano é de crescimento (45%) ou estabilidade (28%). Apenas 17% afirmam acreditar que deverá haver retração.

‘O dinheiro para investimentos existe. O que mudou foram os critérios. Os investidores serão mais rigorosos’, diz Bob Wollheim, da incubadora (empresa que acolhe idéias para a Internet e oferece condições para seu desenvolvimento) Ideia.com.

Ele avalia, no entanto, que a apreensão que a falência de empresas de Internet causa é injustificada. ‘Restaurantes vão à falência todos os dias, milhares de empresas desaparecem em número muito maior do que as empresas brasileiras de Internet. É normal, isso faz parte do jogo.’

As regras do jogo devem deixar os investidores mais cautelosos, mas eles não desaparecerão. ‘Pelo contrário, o resultado dessa depuração será positivo. Com a consolidação só ficarão no mercado as empresas sólidas. Os projetos serão melhores e haverá menos desperdício de dinheiro’, afirma João Bustamante, consultor do instituto de pesquisas IDC.

‘Essa consolidação é necessária. Os negócios que foram criados nos últimos dois anos são ocos’, avalia George Freund, vice-presidente da A. T. Kearney.

Aprendendo com erros

Freund acredita que o fato de a euforia ter durado menos no Brasil será positivo para a expansão das empresas. ‘Teve gente que deixou de ganhar dinheiro fácil, mas o Brasil como um todo ganha porque evitamos um desastre. Nós aprendemos com os erros dos outros.’

Para André Echeverria, diretor da Sun Microsystem no Brasil, os investidores ainda não souberam avaliar o impacto que as novas tecnologias terão nos negócios. ‘O mercado tende a superestimar o efeito de curto prazo e subestimar o de longo prazo.’

A Internet, de acordo com Echeverria, traz a oportunidade de realizar grandes ganhos, mas não imediatamente, como pareciam acreditar os entusiastas da nova economia. ‘Tudo está apenas começando, houve uma corrida muito forte e agora começa um processo seletivo, mas as empresas bem preparadas vão se reposicionar’, diz."



M.B.

"Virtuais apelam ao mundo real para aumentar receita e equilibrar conta", copyright Folha de S. Paulo, 21/01/01

"A linha que separa os negócios do mundo real do até agora chamado mundo virtual deve desaparecer. As marcas tradicionais estão cada vez mais presentes na Web e mesmo as empresas que nasceram como negócios puros de Internet devem começar a apelar ao mundo real para conseguir aumentar suas receitas e equilibrar suas contas.

A avaliação é de Paulo Chacur, cuja função desde o início de 2000 tem sido a de construir lojas virtuais para marcas como Lupo, Caloi, Dumont, Olivetti e Calvin Klein. Ele é sócio e fundador da Escalena, empresa que administra cerca de 45 lojas de comércio eletrônico de empresas tradicionais, como a Companhia Melhoramentos.

Descendente de uma família ligada à indústria têxtil desde os anos 20, Chacur resolveu trocar os negócios da velha pela nova economia, e transformou parte do prédio que abrigava a tecelagem da família no bairro da Barra Funda, em São Paulo, numa fábrica de lojas virtuais.

Novo canal

Sua previsão é que cada vez mais as empresas tradicionais apelem para a Internet como novo meio de distribuição. ‘As empresas já descobriram esse novo canal e não vão mais ignorá-lo.’

‘Mas as lojas virtuais, que nasceram na Internet, também descobriram que não basta ter tecnologia. Elas hoje sabem que precisam ser comerciantes: aprender a vender, ter estoques, infra-estrutura e logística’, avalia.

Para o empresário, as empresas pontocom passam hoje pelo que ele chama de paradoxo entre fluxo de caixa e investimento. Todas as empresas sabem que precisam crescer e para isso têm que investir. Ao mesmo tempo, os investidores cobram resultados rápidos: querem receitas e equilíbrio.

‘O resultado é que todos os empresários estão revendo seus planos de negócios. A idéia é: eu tenho que investir menos, mas vou crescer menos por causa disso e não vou atingir os objetivos que tracei no meu plano inicial.’

O paradoxo, diz, é que essas empresas estão, por definição, apostando no futuro. ‘Hoje o mercado brasileiro não tem massa crítica -número de usuários suficiente- para que essas empresas atinjam a escala ideal para garantir lucro, que o investidor quer que apareça o mais cedo possível. Mas o mercado está crescendo rápido. Quem se mantiver bem posicionado colhe os frutos depois.’

A saída encontrada pelas empresas pontocom puras, segundo Chacur, é apelar para o mundo real, principalmente para a parcela que ainda não chegou à Net.

Para ele, o resultado será que, cada vez mais, mundo virtual e real se misturarão."


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