02/09/2003 6/7

Envie para um amigo  Imprima esta página  Procure no arquivo

MÍDIA ESPORTIVA
Paysandu perseguido

Clóvis Luz da Silva (*)

Se alguma coisa revolta profundamente é a discriminação contra quem não tem espaço para se defender nas mesmas condições em que é ofendido. Explico. A mídia esportiva sempre se caracterizou por privilegiar notícias relacionadas aos grandes times de Rio e São Paulo. E sempre que um time de fora desse eixo ganha expressão por alguma conquista importante, o foco da mídia se volta para esse clube, mantendo sobre ele a atenção somente durante o tempo em que os efeitos da conquista ainda repercutem. Foi o caso do Paysandu. O clube paraense conquistou a Copa Norte, o Torneio dos Campeões, no ano passado, obtendo o direito de neste ano participar como um dos representantes brasileiros na Copa Libertadores da América.

Nesse torneio, o clube paraense foi o que teve o melhor desempenho na primeira fase, terminando em primeiro lugar de seu grupo, situação idêntica à de Santos, Corinthians e Grêmio, com a vantagem de ter tido maior número de vitórias e de gols. Pois bem, pouco antes da definição de que clube brasileiro pegaria o Boca Junior na segunda fase, o portal Terra destacava que a definição dos grupos e o rumo da competição indicavam um possível confronto com Corinthians, ignorando absurdamente que, àquela altura, quem jogaria com o Boca já na segunda fase seria o Paysandu, o provável primeiro lugar de seu grupo, visto que o Boca terminaria em segundo lugar no seu.

Mas, para que destacar esse confronto, se era um timinho do Norte do Brasil, e não o poderoso Timão quem enfrentaria o Boca no caldeirão de La Bombonera? Resultado: o Paysandu ganhou do Boca lá na Argentina, sendo infelizmente derrotado no Mangueirão, deixando a competição para decepção de milhões de torcedores não somente do Pará como também de todo o Norte desse grande país, que nunca antes tivera um representante na Copa Libertadores.

Agora, no Campeonato Brasileiro, a situação se repete, desta vez de forma mais escancarada, e novamente envolvendo os dois times: de um lado, o Corinthians como o centro das atenções, do outro, o Paysandu, como um patinho feio em meio aos lindos cisnes. Tudo começou quando o STJD puniu o presidente do clube, Arthur Tourinho, com 120 dias de suspensão por este ter ofendido o presidente da Federação Paraense de Futebol, Antônio Carlos Nunes. Amparado por liminar da Justiça comum paraense, Artur Tourinho assinou o contrato de dois jogadores, Júnior Amorim e Aldrovani. Esses jogadores participaram da partida aqui em Belém contra o Corinthians, que terminou empatada. Alertado não se sabe por quem, o clube paulista imediatamente recorreu ao STJD para ganhar os pontos da partida, alegando em sua petição a irregularidade na contratação dos citados jogadores.

Sem surpresa

A partir deste fato, coisas bizarras passaram a acontecer na mídia esportiva, como as matérias diárias da Agência Estado distribuídas a vários jornais do país, dando conta de que o Paysandu "deve" ser punido pelo STJD. Frases do tipo "o Corinthians aguarda a decisão do STJD, que deve (grifo meu) punir o clube paraense", têm aparecido quase que diariamente. É óbvio que esse deve, sintaticamente falando, não é uma declaração prévia da culpa do time bicolor, devendo ser entendida como "é quase certo" que será punido. Tal afirmação, nada imparcial, surge porém no rastro de um comportamento que deduz de antemão que não tem direito a defesa, nas mesmas condições e proporções em que é acusado, um clube pequeno e sem tradição como o Paysandu.

Isso foi perfeitamente materializado em afirmação do vice-presidente do STJD, de que o Corinthians não apenas tem direito a recorrer como, em o fazendo, ganhará os pontos pleiteados. Por sua vez, o presidente do STJD, Luiz Sweiter, ameaça suspender o Paysandu do campeonato, demonstrado uma predisposição condenatória incomum num magistrado cuja postura deve ser a de total imparcialidade diante de fatos ainda em julgamento, não dando margem a suspeições de vício, de favorecimento e de outras formas escusas de se obter vantagens judiciais.

Em nenhum momento os grandes jornalistas esportivos deste país questionaram esses fatos. A mídia se faz de surda quando alguém protesta contra episódios dessa natureza. A senadora do PT pelo Pará, Ana Júlia Carepa, subiu à tribuna do Senado para manifestar seu repúdio à forma discriminatória como o clube paraense vem sendo tratado pela mais alta corte da Justiça Desportiva do país. Torcedora declarada do Clube do Remo, rival local do Paysandu, a senadora atribuiu à tentativa de se beneficiar grandes clubes, como Grêmio e Fluminense, perto do rebaixamento, a manobra para tirar os pontos do Paysandu. Na esteira do Corinthians, também recorreram ao STJD Ponte Preta, Goiás e Vitória, para ganharem os pontos das partidas contra o clube paraense. Se esses pontos forem retirados do Papão será ele um dos prováveis rebaixados para a segunda divisão.

Nenhum veículo da mídia esportiva repercutiu o discurso da senadora paraense. Alguma surpresa nisso?

(*) Estudante de Letras, Ananindeua, PA

Mande-nos seu comentário


Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe