Zuenir Ventura, com certeza, não é uma unanimidade. Caso ambicionasse sê-lo, buscaria outro ofício que não o de jornalista. Aqui, ralou e tão bem se deu que foi à luta como cronista e escritor. Passando ao largo de qualquer tentação indutora de burrice, logrou conquistar raro e ambicionado pódio, exclusivo daqueles que ousam ter e expor idéias de forma a respeitá-las, integralmente, em sua peculiaríssima natureza de se desdobrar em imensurável diversidade de efeitos e reações tão logo aportem a destinos e ouvidos alheios: a de um homem do seu tempo.
Gente de tal estirpe dispensa, portanto, apresentações. Basta-lhe o patrimônio de milhares de leitores, carinho dos incontáveis amigos e o gratificante e merecedor aconchego dos familiares. Quem não conhece Zuenir Ventura siga em frente que dias melhores virão. Há, porém, quem conheça e não goste. A ponto mesmo de transformar sentimento de foro íntimo, de resto legítimo e inerente à espécie humana, em bestial, pública e recalcada investida.
Caso do coleguinha Diogo Mainardi, aqui mesmo ("Corrente chapa-branca", 22 de janeiro de 2002). Se ninguém é obrigado a gostar de Zuenir Ventura, por que nós, leitores de Veja, haveremos de comprar, feito trouxas, a torpe falsificação segundo a qual o sacrossanto direito de não gostar de fulano ou sicrano pode vir à tona, mesmo que emanada de alma tão sombria e atormentada, na conta de um ataque pessoal, estúpido e injustificável? Só mesmo uma overdose de ressentimento pode estar por trás da crocodilagem de Mainardi, de resto um atentado à ética profissional que, esperemos, tenha afrontado o manual de redação desta revista.
Quem não gosta, ou não curte, um pôr-do-sol em Ipanema só pode estar doente ao inimaginável e de péssimo prognóstico a ponto de agredir covardemente Zuenir Ventura. E quem mais goste e curta crepúsculos e demais manifestações da natureza, tão pródiga e generosa na feitura desta querida Cidade Maravilhosa; que, a despeito de coração do Brasil, cuida à perfeição de rejeitar certos intrusos, desses que, mal anunciam sua chegada, já tratam de desprezar seus encantos na vã tentativa de humilhar e fazer pouco dos nativos que se dão a saudá-la diariamente, oração maior dos que são permanentemente de bem com a vida.
O Rio é efetivamente tão maravilhoso que há muito, magnânimo, já se dispensou de cobrar a sua gente qualquer gesto de gratidão ou coisa que o valha. Cariocas, nascidos ou não, celebram o supremo atributo de ali viver em permanentes, criativas e internacionalmente reconhecidas homenagens à sua terra querida, magnificamente resumidas num jeito exclusivo, mágico e sedutor de falar, cantar e se relacionar. Se somos a pátria da miscigenação, da mistura de raças, o Rio guarda, com toda certeza, uma raça puro-sangue na alegria de viver.
Uma raça que não se avexa em aplaudir um pôr-do-sol, lembrança diária e sagrada de que viver vale a pena, a despeito de forasteiros que tentam miseravelmente desqualificar este mesmo pôr-do-sol pelo fato de se dar por trás da Favela do Vidigal. Inveja dá nisso: preconceito brabo e incurável, vilmente secretado na maior revista semanal do país. Uma raça que, não lhe bastasse o gesto maior de aplaudir o sol que se vai, ainda tem entre os seus alguém que tão fielmente confraterniza e conta a história no jornal. Não é para qualquer Diogo Mainardi, não.
O Rio é estóico, na exata medida em que sua raça também o é, cantando-o, aplaudindo-o e vivendo-o com todas as suas forças. Apenas por isto não sucumbe à sanha dos que, conquistada sua governança, sucessivamente tentam reduzi-lo às suas vontades mesquinhas. O Rio é forte, grande, poderoso. O Rio é encantado, é cidade de Deus, tanto que este escalou o próprio filho para por ele zelar desde suas alturas mais nobres. Merece, pois, que aplaudamos todo dia seu sol, seus mares, seu céu e suas estrelas e seus morros, incluídos os favelados. E que, como bons cariocas que somos ou de quem somos irmãos, sapequemos sonoríssima e irrecorrível vaia em quem tenta agredi-lo falando mal dos seus cronistas.