08/07/2003 11/11

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HILDEGARD ANGEL
Os descaminhos de uma coluna social

Álvaro Machado (*)

Sinto-me revoltado e na obrigação de divulgar o acontecido na sexta-feira, 4/7. Em sua página do Segundo Caderno do jornal O Globo, a colunista Hildegard Angel difamou gravemente o cineasta Rogério Sganzerla, embora sem citar o nome. Que jornalismo baixo e antigo esse de insinuar e envenenar, que maneira sórdida de ganhar a vida e que caráter covarde, em contraste com a extrema coragem que testemunhamos em sua mãe, a estilista Zuzu Angel, assassinada pelo regime militar. Ademais, qualquer estagiário de jornal sabe perfeitamente que não se deve publicar nota desse teor sem ouvir o "outro lado" e checar os fatos.

Reproduzo abaixo o trecho da coluna social em questão e, logo após, a carta enviada ao jornal carioca hoje, 5 de julho, pela companheira de Sganzerla, a atriz Helena Ignez. Acredito que esses documentos falam por si.

Aproveito para solidarizar-me com Rogério e parabenizá-lo pela finalização de O signo do caos, longa-metragem a que assisti em première no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo há uma semana, em companhia de cineastas, atores, artistas plásticos e jornalistas. É um filme digno de sua bela trajetória, e fala justamente sobre o descaso com a cultura em nosso triste país, descaso do qual é agente a "jornalista Hildezinha" (como essa senhora chama a si própria). E minha solidariedade também a Helena Ignez, uma das pessoas mais corajosas que já conheci, e às filhas do casal, Sinai Sganzerla e Djin Sganzerla, que interromperam suas atividades no Rio de Janeiro e em Londres para prestar auxílio ao pai neste momento difícil.

(*) Jornalista, São Paulo

Hildegard Angel em sua coluna de O Globo, de 4/7/2003

(...) "Uma vez uma amiga apareceu arrasada. O noivo estava com um tumor inoperável, e não queria contar pra ninguém, nem pra família. Tiveram que desmarcar o casamento. A moça definhou, mantendo seu terrível segredo. Até que, um dia, uma amiga dela viu uma foto do safado, abraçadinho à noiva nova, no interior do país...

Mantidas as devidas proporções, um renomado cineasta paulista acabou de fazer o mesmo. Ele andou espalhando que estava à morte, com dois tumores no cérebro. Desolados, os amigos tentaram ajudar de todas as maneiras, inclusive financeiramente. De repente: tchan! Era brincadeirinha. Ameaçado de processo pela Riofilme, por ter gasto um financiamento em cositas outras, o cineasta queria criar um clima de constrangimento para não ser processado. Mas será...

Dizem inclusive que esse moço foi a causa principal do enfarte sofrido pelo ex-dirigente da empresa, embaixador Carrilho, que empenhou sua palavra em seu favor, e acabou descarrilhando. Não é a primeira que ele apronta: no tempo da Embrafilme pegou uma grana para filmar a biografia de um sambista e até hoje ninguém viu o filme!...

A charada é: Quem será o infrator? Dou pista: ele é casado com atriz famosíssima dos anos 60 e foi tido por muito tempo como o enfant-gaté da vanguarda tupiniquim..." (...)

Carta da atriz Helena Ignez dirigida a O Globo, 5/7/2003 [e publicada em 8/7/03 sob o título "Para esclarecer"]

Que erro, Hildegard Angel!

Foi demais! A calúnia, difamação e injúria que você praticou em sua irresponsável e mentirosa notícia de sua coluna em O Globo de 4 de julho de 2003 sobre "um cineasta paulista"! Por que tanto veneno e má informação sobre um dos nossos mais brilhantes artistas dessa sofrida e gloriosa cultura brasileira?

Nessa vida de "atriz famosíssima dos anos 60" tenho tido a felicidade de conviver com pessoas de espírito nobre, os mestres, e com eles pude aprender que Judas, coitado, merece pena e não ódio. Pois é, Hilde, tenho pena de você, filha da mulher que foi sua mãe, chegar ao nível de obscuro pau-mandado escrevendo sucessivas infâmias sobre o "cineasta paulista", melhor, sobre um dos mais importantes cineastas brasileiros de todos os tempos, Rogério Sganzerla, nome que você não citou expressamente em atitude extremamente antiprofissional e anti-ética.

Que pena, Hildegard! Você não sabe o que fez! Podemos desmentir item por item dos seus desequilibrados e maldosos "negritos". O cineasta citado por você na sua coluna está doente sim, Hilde, com um tumor no cérebro, e nestes dias têm lutado pela vida com a bravura e a dignidade que lhe são características. Está lúcido, graças a Deus, e sua desastrosa nota foi lida por ele. Que vergonha para você, Hilde. Quem lhe informou tão mal, qual foi o canalha, seja de que sexo for? Sem mesmo checar a informação, obrigação mais rasteira de um jornalista, você afirmou com tanta leviandade e sem o menor respeito à nossa dor, que: "De repente: tchan! (a doença) era brincadeirinha". Que nojo!

Para o seu conhecimento e dos leitores do jornal em que você publicou essas calúnias, o "cineasta paulista" a que você se refere com tanta leviandade está completamente em dia com suas contas. Contas prestadas e aprovadas pela Riofilme, com a conclusão de seu belíssimo filme Signo do caos, já exibido em sessões especiais e no momento sendo traduzido e legendado para apresentações em festivais de cinema no exterior.

Quanto ao queridíssimo embaixador Arnaldo Carrilho, pelos seus serviços prestados ao nosso cinema desde sempre e pela sua natural dignidade, jamais "descarrilharia" como você, Hilde, e seus "asseclas-desinformantes" e mentirosos "descarrilharam" em sua irresponsável coluna. Chegar ao ponto de atribuir ao "cineasta paulista" o infarto sofrido pelo nosso querido amigo Carrilho é simplesmente monstruoso.

Finalizando este direito de resposta e defesa perante suas infamantes afirmações, o filme realizado no "tempo da Embrafilme sobre o sambista", nosso glorioso Noel Rosa, que você diz "que até hoje ninguém viu", foi exibido ainda no mesmo ano em que foi produzido, no Festival de Cinema de Brasília e em outros, rendendo muitos aplausos ao realizador.

Quanto a mim, "famosíssima atriz dos anos 60", continuo com meus companheiros do espetáculo Os sete afluentes do Rio Ota, emocionando São Paulo e recebendo entusiásticas manifestações de carinho do público paulista, que lota nosso teatro todas as noites e nos aplaude de pé, após cinco horas de duração deste belíssimo espetáculo.

Lastimo por você, Hildegard, e pelas injúrias, calúnias e difamação, que hão de ser reparadas pela Justiça. Helena Ignez, atriz

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