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TRATOS À LÍNGUA
Para amar e servir "quente"

Afonso Caramano (*)

Sem querer meter o bedelho – e já o fazendo –, acrescento humildes apreciações ao artigo de José Carlos Aragão "Um outro caminho" que, por sua vez, faz referência a artigos de Deonísio da Silva e Alexandre Gennari. Que a língua pátria tem sofrido coices e pauladas não há dúvidas – e que o caminho para melhorar o trato seja o de investimento maciço (e eficaz) em educação é evidente – da educação básica ao nível superior. Ademais, esse assunto sempre suscita discussões acaloradas sob numerosos pontos de vista.

Os cursos de Letras, a priori, depositários dos conhecimentos lingüísticos, em sua maioria, nas diversas faculdades espalhadas pelo país, têm apenas formado professores, cabendo exclusivamente às universidades o papel fundamental de centros avançados de pesquisa. Seria necessário fazer uma ponte entre os vários conhecimentos, ampliando a atuação das universidades, além de possibilitar o intercâmbio entre os cursos de Letras.

Mas essa também é uma questão de política educacional. Não se nega aqui que não haja intercâmbios e troca de informações – mas isso não deve se restringir ao âmbito acadêmico, e sim se estender à sociedade (principalmente àqueles encarregados de formar cidadãos). Mais que instrumentalizar ou, se preferir, adestrar o professor com maçantes técnicas de prática de ensino há de se despertar a paixão pela língua, pela palavra e por um ensino criativo. A técnica, a capacitação são indispensáveis como meios para se alcançar o objetivo final que é uma educação satisfatória. Se jovens chegam ao curso de Letras (e outros) sem o gosto pela leitura quer dizer que foram crianças pouco estimuladas para essa prática – aqui os problemas também são de ordem social, econômica etc. – o que não deixa de ser trágico.

Confluência de caminhos

Alguma coisa está errada. Poder-se-ia perguntar por que a certa altura do processo educativo o aluno, a criança perde o interesse pela língua portuguesa e, conseqüentemente, pela leitura. Quão enfadonha e desinteressante parece a análise sintática. Por que aprendê-la – pergunta-se muitas vezes o aluno. Talvez seja hora de lhe dar uma explicação – e repensar a maneira de se ensinar nosso idioma. Já não basta a abordagem centrada na gramaticalidade da língua – talvez seja necessário ampliar esses horizontes – a lingüística muito pode contribuir para isso.

Quanto à leitura, o que se esperar de um professor que não dispõe de recursos para adquirir livros ou diz não gostar de ler? Terrível, não? Ocorre-me um depoimento de Ignácio de Loyola Brandão, que relata nunca ter esquecido uma professora de sua infância que "lia" para a classe – essas leituras o estimularam para a vida toda, daí sua gratidão.

Parece que o árduo caminho da leitura deve primeiro perder o caráter de aridez para tornar-se paixão, daquelas que fisgam o camarada de tal maneira que quando ele se dá conta já está viciado. Aí ele percebe que o caso é de amor mesmo. Amor para a vida inteira.

Na verdade, o caminho possível é a confluência de vários caminhos e possibilidades – e todos apontam para a palavra, para a leitura, passando necessariamente pela educação. Mais que preservada – como coisa, objeto de museu – a língua portuguesa merece ser tratada com respeito, além de ter assegurada a sua dinâmica, porque a língua é viva e deve ser amada e servida "quente" para que todos desfrutem de seu banquete democrático.

(*) Funcionário público municipal em Jaú, SP



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