CAIXOTINS
Mordaça, não
Carlos Brickmann (*)
Muita gente na imprensa está furiosa com a mal-denominada Lei da Mordaça, que pune autoridades pelo vazamento de informações em processos sob sigilo judicial. Alegam que, com isso, seria cerceado o trabalho dos promotores.
Engano: se o processo é sigiloso, é sigiloso. E quem violar o sigilo deve estar disposto a enfrentar as conseqüências de seu ato. Permitir vazamentos praticados por pessoas que, em decorrência da posição que ocupam, têm acesso aos processos, é desleal. Cada processo tem pelo menos dois lados, com direitos iguais. Se um deles pode vazar informações e o outro não, está rompida a igualdade de todos perante a lei.
E se um jornalista chegar à conclusão de que tem informações essenciais para o esclarecimento público? Simples: deve divulgá-las, responsabilizando-se por seu ato.
Quem jogou?
Paulo Roberto Falcão, o lendário volante da Seleção brasileira, surgiu para o estrelato na Copa São Paulo de Futebol Junior. E só os torcedores mais fanáticos, aqueles que freqüentam o estádio mesmo em jogos de amadores, tomaram conhecimento de seu grande futebol. Naquela época (e até hoje) a imprensa mal toma conhecimento deste torneio que revela craques: quando muito, publica o resultado dos jogos, e olhe lá. Quem fez o gol? Não. Qual a escalação dos times? Não. Quais os craques que podem estar surgindo? Nem pensar. Só quando estiverem profissionalizados, com empresário e tudo, já pensando em ofertas do futebol europeu.
Um exemplo: no domingo (25/1), o Corinthians ganhou a Copa São Paulo, derrotando o São Paulo. Em todo o transcorrer do torneio, o jogador-sensação do Corinthians foi um baixotinho de 1,57 metro chamado Elton, ou Maradoninha – um pequenino que resolve. Pelos jornais, a gente não consegue saber nem se Elton foi ou não escalado no jogo final.
Erodicção
Mas difícil de agüentar, mesmo, é quando a imprensa tenta mostrar erudição. Outro dia, comentando o livro de Paul Burrell, mordomo da princesa Diana, o autor cita o gosto inglês por assombrações, e lembra o pai de um famoso príncipe, Hamlet, que o atormenta sobre a podridão do reino. Tudo muito bom, tudo muito bem. Mas Hamlet, personagem do mais conceituado autor britânico, William Shakespeare, não é inglês: é dinamarquês.
Quanto ao piloto americano que fez um gesto obsceno ao ser fichado em São Paulo, um jornal o chamou de "mau educado". Ou seja, é uma má pessoa, mas consegue disfarçar sua condição com uma capa de civilidade.
Quem paga?
Todo mundo publicou, ninguém comentou. Entre os passageiros do vôo da FAB que deveria ir para o Maranhão, levando personalidades do governo para as últimas homenagens a dona Kyola, mãe do senador José Sarney, estava o advogado brasiliense Antônio Carlos de Almeida Castro.
Por que ele pode voar pela FAB, de graça, e o caro leitor não pode?
Preconceito
A mulher que vive seis anos com um homem e tem uma filha com ele deve ser chamada de "esposa" ou "namorada"? No caso do prefeito assassinado de Santo André, o preconceito venceu: toda a imprensa a chama de "namorada" – apesar dos anos de convivência, apesar da filha.
(*) Jornalista; e-mail <carlos@brickmann.com.br>