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AUTOFAGIA NELA!
Quando a mídia for grampeada, bye-bye credibilidade

Alberto Dines

Na última edição televisiva deste Observatório (terça, 25/2) alguns jornalistas, felizmente nem todos, pronunciaram-se a favor da transcrição de grampos, legais ou ilegais. É um serviço público, alegaram, mesmo quando o veículo limita-se a reproduzir o conteúdo das fitas sem qualquer trabalho investigativo. A discussão é
interminável mas os leitores podem ter um resumo da argumentação nos links fornecidos adiante.

Para escapar do impasse sugere-se uma situação hipotética: quando um juiz desmoralizado e vingativo, um político avacalhado mas doido por uma desforra, ou o policial chantagista resolverem grampear um colunista, diretor de jornal, revista, dono de empresa jornalística, como é que fica? Transcreve-se o grampo a bem da verdade, aciona-se a solidariedade corporativa, denuncia-se o concorrente (quando for o caso), põe-se a boca no trombone contra a invasão da privacidade ou a quebra do segredo de Justiça?

Na verdade, a situação está longe de ser hipotética, já aconteceu quando a revista Veja publicou – em junho de 2001 – um grampo ilegal que acabou envolvendo o então colunista do Globo, Ricardo Boechat [veja remissão abaixo] .

O episódio tenderá a multiplicar-se com a crescente participação de políticos na mídia, a intimidade de repórteres e colunistas com círculos "grampófilos" e o vale-tudo que breve será deslanchado quando empresários "barra pesada" assumirem o comando de empresas jornalísticas. É preciso não esquecer que a mídia está passando por maus momentos e, nestas circunstâncias, os escrúpulos são inversamente proporcionais ao tamanho das inadimplências. Magistrados que já foram grampeados terão enorme prazer em autorizar grampos "legais" em jornalistas-desafetos.

O recente ataque desfechado contra o Le Monde dá uma idéia de como a antiga disputa nas bancas ganhou novas armas e transferiu-se para outras esferas. O sensacionalismo não tem limites. Uma mídia "grampodependente" cria um público "grampodependente". Como nas rinhas de galos, leitores assim querem ver sangue.

No affaire em que foi envolvido o colunista Boechat, os adversários que disputavam o controle de um banco não estavam preocupados com as conseqüências ou respectivas imagens. Arranhada saiu a mídia. Mais um par de casos como este e os jornais brasileiros precisarão encomendar em Miami doses cavalares de credibilidade.

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