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CRIANÇA NA MÍDIA
Pequeninas luzes no fim do túnel

Marinilda Carvalho

** "Gostaria de assistir a mais programas informativos, que falassem dos jovens, que falassem sobre drogas, violência. Assim, o adolescente não precisaria entrar nesse mundo para saber como é." (Débora Cristina Mateus dos Santos)

** "Você liga a televisão, hoje, e só vê baixaria, quase não vê algo que preste. Tem que mudar tudo. Gosto de ver programas educativos, informativos, que falem a linguagem dos jovens de hoje." (Loruana Martins Mendes)

** "Gostaria de assistir a programas que influam na educação, em que as crianças possam se interessar pelo esporte, que é uma coisa muito boa, programas que passem informações sobre livros, que incentivem a criança a ler." (Priscila de Sena Miranda)

** "Gostaria de um programa voltado para os jovens, que aborde naturalmente assuntos como as drogas, violência, prostituição, menstruação, porque muitos pais não conversam com seus filhos sobre esses assuntos e eles ficam meio desorientados. Programas com os caras falando palavras obscenas, ou que ficam brigando, aquele show de baixaria, eu não gosto muito, não." (Thatielly Gomes França)

** "Para mim, programa de qualidade seria aquele que não exibe baixaria e que mostre para o adolescente o que significa o consumo de drogas, mostre para eles assim, como é que é, porque tem muita gente que usa e não sabe o que está usando." (Salem Milena da Costa)

** "[A televisão tem] obrigação de ensinar a gente a prestar atenção nas coisas. Por exemplo, um canal de trânsito ensinaria que a gente pode atravessar na faixa, que não se deve atravessar fora da faixa, que tem que prestar atenção no semáforo etc.." (Francisco Ivanildo de Oliveira)

** "Gostaria de assistir a programas com mais informações para jovens e também para os pais aprenderem a lidar melhor com os filhos." (Thamara Lorena da Silva Amaral)

** "Queria ver mais coisas sobre a natureza e sobre a escola também, um programa que ajudasse quando a gente tivesse pesquisa, programas com menos violência, programas com menos fofoca também." (Camilla da Costa Silva)

** "Eu vejo [telejornal], porque o meu pai sempre vê jornal, não deixa a gente ver outra coisa. Eu preferiria ver filme de ação (...) porque eu fico muito concentrada e acho muito maneiro." (Ana Paula Gonçalves dos Santos)

** "Em vez de eles ficarem perdendo tempo com essas coisas [baixaria, violência], deviam passar mais programas educativos, os desenhos animados também. Programas que ensinem mais, para que as crianças de hoje em dia tenham uma cabeça melhor." (Jaqueline da Silva Torres)

** "Gostaria de ver programas educativos para os adolescentes e para as crianças, que tenham jogos e esportes, incentivem os jovens a estudar, que expliquem para os jovens como são as drogas. E expliquem para os pais também, porque muitos pais não têm responsabilidade para criar seus filhos, e um programa ajudaria." (Kelly Cristina Pontes Pinheiro)

Comparados a alguns e-mails que o Observatório da Imprensa recebe de estudantes de Jornalismo de todo o país, os depoimentos acima renovam as esperanças no futuro, como pequeninas luzes no fim do túnel. São de alunos de ensino fundamental da Escola Municipal Silveira Sampaio, em Curicica (Zona Oeste do Rio), ou da Escola Municipal Arthur da Costa e Silva, em Botafogo (na Zona Sul), e mostram uma surpreendente visão crítica da televisão. Essas vozes foram ouvidas ao longo da semana passada, como parte da programação especial da MultiRio na TV pelo Dia Internacional da Criança na Mídia, celebrado em 8 de dezembro.

A MultiRio é a empresa de recursos multimídia da prefeitura do Rio – recursos esses voltados prioritariamente para as escolas, em apoio aos Pólos de Educação pelo Trabalho e da Divisão de Mídia e Educação. Nesta programação especial sobre a mídia os alunos foram roteiristas, repórteres, atores, diretores e editores dos vídeos que realizaram, sobre temas escolhidos por eles mesmos. Claro, com ajuda de professores e técnicos, mas as crianças é que puseram a mão na massa. Um dos programas da semana passada mostrou o making off desse projeto e trechos dos vídeos de cada escola. Foi emocionante assistir: crianças fazendo filmes de quatro minutos – ótimos! – como gostariam de ver na TV. Nos jornais do dia seguinte, nem uma palavra. Por quê?

Interesse é quantitativo

"A grande imprensa se recusa a ver a escola fora do foco da marginalidade", resume o escritor e diretor João Alegria, que dirige dois programas da empresa, Abrindo o Verbo e Nós da Escola. "Já fizemos matérias sobre os projetos, inscrevemos em prêmios, mas nunca vencemos, porque falam bem da escola", diz a jornalista Ana Lagôa, assessora da MultiRio. "Tudo que está em nosso sítio se refere às escolas públicas, que são 1.030, mas a imprensa só dá notícia da umazinha que deu problema."

As páginas do sítio na internet [ver endereço abaixo] estimulam o professor a criar projetos multimídia de todo tipo – os equipamentos estão à disposição dos educadores –, mostrando a importância de se produzir mídia na sala de aula como forma de desmistificar a própria mídia e sua enorme influência na sociedade. Tudo o que já foi realizado pelas crianças está lá: fotografias, vídeos, programas de rádio, jornais, animações. "É ouro em pó", diz Ana Lagôa. Não é notícia que crianças da escola pública tenham acesso a equipamentos normalmente disponíveis na rica escola privada? Um comentário cativante partiu do menino que editou as imagens: "Quando a gente senta na frente da ilha de edição é que vê como é tudo complicado."

O papel anônimo dos professores também emociona: na Costa e Silva, é o professor Artur que bota a moçada para filmar. Quando ainda não havia câmeras comprou uma com seu próprio dinheiro. A professora Luciene fez um sítio todo em PowerPoint, porque não tinha os programas de edição de websites. A professora Carmem, da Silveira Sampaio, que ensina Língua Portuguesa, usa a câmera de vídeo em suas aulas. O sino toca para o fim do turno, e a criançada permanece em classe muito além da hora, deslumbrada, aprendendo. Graças ao trabalho desses batalhadores, que tiram leite de pedra, para essas crianças a inserção no mundo adulto será provavelmente mais fácil, menos traumática. Isso não dá notícia boa de jornal?

Aparentemente, não. Esses e outros temas foram discutidos em novembro, no Rio, em seminário paralelo à Pré-Conferência sobre a Cúpula Mundial de Mídia para Crianças e Adolescentes, que a cidade vai sediar em abril de 2004. A imprensa praticamente ignorou o evento. Será que pais e mães não se interessariam em ler nos jornais e ver na TV notícias sobre as atividades de seus filhos na escola, ou debates sobre o uso/abuso da criança pela publicidade? “A visão da mídia não é qualitativa, e sim quantitativa, o que vale é o tamanho da audiência”, diz João Alegria.

O jeito é crescer depressa

Pesquisa da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi) revelou que em 1999 o número de matérias sobre crianças e adolescentes cresceu 83,52% em relação a 1998 – mas apenas 30,83% do material produzido pela imprensa contribuiu de alguma forma para a busca de soluções dos problemas. Ou seja, a massa de matérias não aponta solução alguma. Os dados podem ser antigos, mas certamente ainda retratam a postura da nossa mídia em relação à criança.

"A criança não é atendida, não está satisfeita com o conteúdo que recebe, mas isso não comove a TV, porque ela parte do pressuposto de que o espectador é passivo", Diz João Alegria, que conhece bem a incrível capacidade da meninada para se exprimir artisticamente. "Os conteúdos são desprovidos de identidade cultural", afirma. "Então, é difícil a criança se ver neles." Ele conta que colheu depoimentos impressionantes de crianças num projeto de educação infantil promovido pelo Sesc-Tijuca, no Rio: os pequenos se queixaram, por exemplo, do Programa do Ratinho. "Alguns viram e não conseguiram esquecer, ficaram chocados, tinham pesadelos à noite."

Fazer a criança reconhecer a si própria como produtora de mídia potencial é mais que um trabalho, é um dever da escola. A garotada quer e precisa se reconhecer nos programas, como mostram os depoimentos no alto desta página. Quer ligar a televisão para saber mais sobre seu mundo, e espera deste veículo não só entretenimento, como também orientação. Se alguma coisa os projetos da MultiRio vêm provando é que a criança e o adolescente não são passivos: basta verificar o acervo dos alunos disponível no sítio. Tudo ouro em pó.

É difícil entender por que esse ouro não brilha na imprensa. Seria porque a prefeitura do Rio é do PFL? Mas prefeituras do PT também se queixam de que parecem inexistir para as mídias locais. A conclusão possível é que os agentes da mídia não estão qualificados para detectar metais nobres. À criança, que não tem partido, resta crescer depressa para ocupar o lugar deles todos.

MultiRio na TV

Net Rio, canal 3, e Band-Rio (ver horários no sítio)

MultiRio na web

< http://www.multirio.rj.gov.br>

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