|
MIDIAGATE 2, VERSÃO IBÉRICA
Autoritarismo e conspiração de um insólito cartel
Lu Fernandes (*)

s acontecimentos recentes da vida política espanhola oferecem uma rara oportunidade para que jornalistas sinceramente preocupados com sua responsabilidade reflitam sobre o velho mas atualíssimo tema: a perigosa combinação entre a arrogância e ingenuidade da qual resulta uma espécie de monopólio da verdade e do bem.
Empunhando a poderosa espada do He-Man, jornalistas saem em missão "moralizadora" denunciando, denunciando, denunciando. Não querem investigar, analisar e questionar as fontes com um mínimo de tranqüilidade e distanciamento. O principal é sair espetacularmente, antes dos outros. Para reconduzir a opinião pública ao caminho do bem. Caminho que, do alto do seu travestido autoritarismo, julgam conhecer sempre melhor.
É espantoso que a discussão sobre a responsabilidade social da mídia e a busca do distanciamento crítico em relação às fontes denunciadoras pareça às vezes reacionária e atrasada. Quando não, como gostam os maniqueístas, a serviço do mal.
É pena. Não fosse assim os jornalistas e a opinião pública brasileira estariam acompanhando e debatendo o desenrolar da escabrosa conspiração articulada na Espanha a partir de 1994 e que há duas semanas veio à tona. É o grande escândalo público da Era pós-Felipe González. Está abalando a credibilidade dos principais órgãos da imprensa espanhola, maculou o Judiciário, o vitorioso PP (Partido Popular) de José Maria Aznar, a cadeia de rádio da Conferência Episcopal e conseguiu arrastar até a IU (Izquierda Unida, ex-PC), que oportunisticamente embarcou na aventura denuncista para acabar com a hegemonia do PSOE.
Um inusitado Cartel Denuncista articulado para derrubar o primeiro-ministro socialista e cujos detalhes, infelizmente, só podem ser conhecidos por brasileiros que se dispuserem a assinar jornais espanhóis ou consultar suas páginas na Internet.
Em entrevista concedida à revista Tiempo, publicada na edição de 16 de fevereiro, o diretor da Televisa na Espanha, Luís Maria Anson, intelectual e jornalista dos mais influentes, acabou confirmando velhas suspeitas de uma operação orquestrada pela mídia conservadora para desgastar o primeiro-ministro Felipe González e pôr um fim aos 13 anos de supremacia eleitoral dos socialistas.
Derrubar a qualquer preço
"Havia que terminar com González. Essa era a questão", revela Luís Maria Anson na polêmica entrevista. Confessa que, a partir de 1994, na sua sala, na sede do poderoso jornal ABC, foi arquitetada uma conspiração - "operación de acoso y derribo" – com a participação de dirigentes do El Independiente, Diário 16, El Mundo, Antena 3. Também estavam engajados populares locutores de rádio como Antonio Herrero (da rede COPE, da Conferência Episcopal Espanhola), juízes, membros do PP, o ex-banqueiro Mario Conde (implicado num dos maiores escândalos financeiros espanhóis) e uma lista que aumenta a cada dia.
Objetivo: elevar o tom das críticas, buscar incansavelmente novos escândalos e personalizá-los sempre na figura de González, independente do seu envolvimento. Deveriam agir em sintonia para amplificar a repercussão e o efeito de cada "investigação".
O cartel denuncista deu um combate sem tréguas a Felipe González e seu PSOE. "Havia que atiçar, havia que subir o tom das críticas e chegou-se a tal extremo que em muitos momentos se arriscou a própria estabilidade do Estado. Não havia maneira de vencer González com outras armas", declara Anson.
Embora negue hoje o sucesso total da operação ("a derrota de González deu-se pelo acerto do programa do PP, que ofereceu um projeto esperançoso aos espanhóis" ), alguns dias após a vitória de José Maria Aznar em março de 1996, o diário que dirigia, o ABC, estampava a seguinte manchete "ABC, la COPE y El Mundo, entre los causantes destacados de la derrota de González". Não fossem esses veículos e os seus informadores, González teria ganho as eleições, como venceu em 1993, explicou o ABC em suas páginas internas.
Os jornalistas e personalidades envolvidas pelas declarações de Anson negam a formação do cartel, ou "sindicato do crime", como o classifica El País. Apontam Anson como fantasioso e megalomaníaco. Aznar, beneficiário direto da campanha, desconversa e recomenda que não se perca tempo com esse tema. "E lhes peço um favor. Não me façam perder o meu".
O PSOE diz claramente que não tem intenção alguma de desclassificar ou colocar em dúvida a legitimidade do triunfo eleitoral do PP em 3 de março de 1996, mas exige explicações de Anson - que deve nomear cada um dos envolvidos - e do próprio primeiro-ministro José Maria Aznar. "Por higiene democrática, é preciso desmontar esse jogo sujo, e Aznar, como presidente da nação, deveria ser o primeiro interessado em esclarecê-lo", exorta Felipe González.
Investigar mais fundo
Faltam ainda dados, nomes e novos detalhes para se desenhar o quadro completo da conspiração. Luís Maria Anson acusa meios financeiros, juízes e opositores sem, no entanto, nomear todos os envolvidos. Segundo declarou, o cérebro da operação seria o banqueiro-playboy Mario Conde, às voltas com a Justiça e afastado da presidência do Banesto por administração desleal e fraudulenta. A pretensão não era apenas enterrar a liderança de González, mas instaurar um novo sistema de governo, uma nova constituição, de corte presidencialista, com um presidente forte eleito por sufrágio direto, com partidos e parlamento secundarizados.
A entrevista forçou um pronunciamento da rede mexicana Televisa, (representada na Espanha pelo ex-diretor do ABC, Luís Maria Anson). "Respeitamos o direito de cada um dos nossos executivos de manter posturas ou atitudes ideológicas de sua preferência, mas não necessariamente nos identificamos com elas", disse Felix Cortez, vice-presidente da divisão de notícias da Televisa.
Para o PSOE, ainda às voltas com explicações judiciais para a série de denúncias de corrupção que abalaram o último período de Felipe González, resta o consolo de ver confirmadas suas suspeitas sobre a formação do cartel conspirador. Mas agrava sua responsabilidade ao facilitar a ação dos conspiradores, deixando para a Justiça a apuração de escândalos ao invés de antecipar-se e punir os culpados.
Antes que se chegue ao final dessa escandalosa história, os espanhóis já estão diante de uma assustadora conclusão: o papel autoritário antes desempenhado pelo Exército e pela Igreja pode ser cumprido com maior eficácia e perigo pelos meios de comunicação. Quando decidem unir-se num esquema conspiratório, potencializam o seu poder de destruição e subvertem todos os valores democráticos.
"O espetáculo desses jornalistas que confabularam uma estratégia política comum é inimaginável em qualquer democracia avançada e provoca vergonha para uma profissão baseada na credibilidade e na independência", sentencia El País. O grande jornal espanhol, uma referência nacional, considerado dos melhores do mundo, evidentemente não participou deste Midiagate 2.
P.S.: Se os jornais brasileiros continuarem sem acompanhar o assunto, consultem El País na rede (http://www.elpais.es/). Nas grandes bancas brasileiras só se encontra o ABC.
(*) Lu Fernandes foi presidente do Sindicato de Jornalistas Profissionais de S. Paulo.
|