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ELEIÇÕES
Os óculos de Bourdieu

Jorge Félix
(*)

Faltam cinco meses para a eleição. A imprensa aquece as rotativas para entrar na cobertura da campanha. A disposição da mídia está mais afeita a noticiar os escândalos de corrupção do que os projetos e propostas administrativas. E está certa. Até porque compromissos e promessas são as armas mais inconseqüentes da política brasileira. Nenhum político perde voto na eleição seguinte por esquecer o que prometeu no pleito anterior. (Se bobear, ainda corre o risco de ganhar mais uma chance do eleitor.) O problema é a lama. Ou melhor, como se noticia esse mar de lama.

O pensador Pierre Bourdieu, do Collége de France, nos ilumina para esta reflexão. Diz ele em seu Sobre a televisão que um dos erros mais habituais da imprensa é revelar um fato isoladamente, ou apenas dar parte de suas ilações mais importantes, deixando assim a impressão de que só "mais aquele dado" já é o suficiente para o público entender e analisar o caso. É uma fraude com aparência de algo honesto. É a tática do peixeiro da feira-livre. E entende-se tudo isso melhor com apenas uma conclusão de Bourdieu: é denunciar sem esclarecer nada.

Vamos direto aos casos mais quentes. Nicéa vs. Celso Pitta. (Antes, um parentêses: como a imprensa é aquiescente com quem lhe nutre de denúncias! No primeiro pedido, aceitou de pronto trocar o nome da mulher e vários jornais adotaram um incompatível Camargo, que não convencia nem a Velhinha de Taubaté, mas era dito e escrito com um ar de verdade absoluta.)

Nicéa denuncia Pitta, envolve o senador Antonio Carlos Magalhães e o ex-prefeito Paulo Maluf. A imprensa dá o naco de informação a que o público parece ter direito: as ligações de Maluf com Pitta, de Antonio Carlos com o ex-senador Gilberto Miranda. E, principalmente, de Pitta com toda a turba de yunes e martins.

Outro exemplo: Luiz Estevão. O senador é acusado, investigado e, possivelmente, será cassado. A imprensa amarra seus laços e aparecem PMDB, Jáder Barbalho, Joaquim Roriz e uma turba de fábiosmonteiros.

Mais um: Garotinho, no Rio, e seu governo collorido. E voltam à cena nomes badalados nas páginas de escândalos do passado.

A origem dos escândalos

Antes de tudo isso, porém, espontaneamente, sem esperar perguntas e aproveitando o clamor das ruas no melhor estilo "contra tudo isso que está aí", aparece um Fernando Henrique Cardoso que ninguém sabe de onde tinha saído tão de repente, e mancheta: "Tenho nojo de tanta corrupção".

E aí voltemos a Bourdieu, que diz: "Os jornalistas têm óculos especiais a partir dos quais vêem certas coisas, e não outras. Eles operam uma seleção e uma construção do que é selecionado". Desta vez, todos os veículos e os colunistas políticos decidiram selecionar só a parte do escândalo que interessa, coincidentemente a mesma que vende mais jornal e jamais prejudicará os negócios cada dia mais pródigos no setor de telecomunicações. Esta seleção colocou o presidente da República e todo o passado, presente e futuro do governo federal fora dos escândalos. Deu uma amnésia coletiva ou uma epidemia de ingenuidade.

Nenhuma campanha política terá uma cobertura digna de uma democracia amadurecida se a imprensa insistir em olhar tudo com os óculos de Bourdieu. É preciso que se diga, antes da eleição, que quem sustentou – pelo menos politicamente – o esquema Pitta/Maluf, o Estevão/Roriz e as fênixes do governo do Rio foi o governo federal e o projeto da reeleição do presidente Fernando Henrique. Sem esta ambição de poder, o quadro político-corruptivo seria outro. A reeleição está no topo da árvore genealógica que originou todos esses escândalos.

A imprensa brasileira vinha escrevendo a história recente do país com a fúria de um estudante com um ovo na mão. Agora precisa tirar os óculos e mostrar ao eleitor tudo de que é capaz. Afinal, a gente tem nojo de quê?

(*) Jornalista, 33 anos

 

VEJA vs. MST
Carta para a Redação

Segue mensagem que enviei para a Veja e a resposta recebida.

Rafael Ramos Ribeiro

"Como estudante de Jornalismo e assinante da revista ‘Veja’, quero explicações da publicação sobre as supostas fraudes jornalísticas (falta de ética, seriedade, falhas de apuração e informações precisas, fotomontagens, entre outras ‘falhas’) cometidas na matéria sobre o MST (‘A tática da baderna’/ ‘Sem terra e sem lei’ publicada na edição 1648, de 10/05), denunciadas pelo site do Observatório da Imprensa, em sua edição do dia 20/05 (www2.uol.com.br). Aguardo explicações de ‘Veja’. Rafael Ramos Ribeiro."

 

Resposta de Veja:

"Caro Rafael,

Veja publicou uma reportagem assinada sobre as ações do MST naquela semana e falou dos documentos que dão as diretrizes do movimento. Nenhum dos argumentos de Veja foi contestado. A reportagem é opinativa e traz a assinatura de seu autor, que se responsabiliza pelo seu conteúdo. Portanto, não existe nenhuma falha de apuração ou problema ético. Fotomontagens são usadas como ilustração na imprensa desde que ela existe, como recurso gráfico. Não se pode confundir uma fotomontagem óbvia com a fraude fotográfica, que é outra coisa. Uma fotomontagem que deixa claro do que se trata não envolve nenhum problema ético. Ou alguém pode achar que o líder do MST e o James Bond são a mesma pessoa? Atenciosamente, Julio Cesar de Barros, Secretário de Redação."

 

Informação fraudulenta

Alberto Dines

O secretário de Redação de Veja admite com todas as letras que tratou-se de uma reportagem opinativa. Isto não existe em nenhum manual profissional ou acadêmico sobre gêneros jornalísticos. Ou é reportagem ou é opinião.O fato de ser reportagem assinada não exime a direção da revista de suas responsabilidades porque os autores não são colunistas ou editorialistas, mas repórteres.

A fotomontagem é fraudulenta. Assim como é fraudulenta a afirmação de que fotomontagens sempre existiram e portanto temos que conviver com elas. A Guerra da Secessão nos EUA foi coberta por ilustradores, assim também o Caso Dreyfus. Era a visão do artista. E ninguém a contestava. A fotografia como reprodução rigorosa da realidade significou não apenas um avanço tecnológico mas, sobretudo, um compromisso ético. E remeteu qualquer fotomontagem para a esfera da infração. Cartier-Bresson na sua integridade como fotojornalista sempre recusou usar teleobjetivas ou grande-angulares porque achava que distorcem o objeto fotografado. O leitor desprevenido – em princípio todos o são – não tem obrigação de saber que tratava-se de uma brincadeira com uma foto de Sean Connery. Veja publicou um documento onde João Pedro Stedile está com uma poderosa pistola na mão. Isto é manipulação da informação. Não interessam as idéias do MST ou de seu líder. Interessa que o maior semanário brasileiro tenta combater a baderna com baderna.

 

CARTAS
Métodos semelhantes

Como milhares de leitores de Veja, fiquei indignada com a matéria, a capa e os outdoors sobre o MST. Enviei uma carta de protesto à revista e recebi uma resposta, por e-mail, acusando o recebimento. Publicar que é bom, nada. Também li o tal panfleto apócrifo que circulou na Internet e acompanhei, aqui pelo OI, a repercussão da matéria. Mas o que me levou a escrever para vocês foi a carta do Tales Alvarenga para o André Motta, na qual ele espinafra o panfleto apócrifo [veja remissão abaixo].

Uma das críticas do Tales ao autor do panfleto diz respeito a afirmações contidas no e-mail que, segundo Tales, só poderiam ter sido testemunhadas se ouvesse uma escuta telefônica. Diz que o autor do panfleto deveria estar fantasiado de árvore na redação. É muito engraçado; afinal, o tal panfleto usa exatamente o mesmo expediente de Veja, o mesmo estilo onisciente e onipresente que caracteriza a revista.

Quem lê Veja com freqüência cansa de deparar-se com afirmações que são descaradamente fantasias de seus autores, desvario puro. Mas, pela ótica da revista, deveríamos todos acreditar que há sempre uma fonte misteriosa que dá o serviço inteirinho única e exclusivamente para Veja. Algumas afirmações, nenhuma entre aspas ou com indicação de ter sido repassada por uma terceira pessoa, chegam a abordar questões íntimas que, provavelmente, não foram contadas pela vítima. Então eu pergunto: se Veja pode, por que o autor do panfleto, não?

Rosa Leal

 

Assinatura cancelada

Quanto a matéria sobre o MST de Veja (sem comentários), cancelei minha assinatura, convenci outras 5 pessoas a também cancelarem a assinatura, mandei cartas, recados, e-mails, mas considero pouco. O que um leitor pode fazer para diante do "estilo Veja", que vem se consolidando há 20 anos? Mesmo assim, não se pode perder de vista que estamos falando de pessoas que, teoricamente, devem sensibilizar-se com a opinião dos leitores. Mas será que isso acontece mesmo? O que fazer?

(Gostaria de dizer que não sou militante do MST. Tenhos muitas ressalvas sobre o movimento, mas estamos falando de crime, travestido de informação especializada, que atinge milhares de pessoas que, com absoluta certeza, acatam a informação como realidade). Parabenizo o Observatório, até por ser a única tentativa no Brasil de ver [a mídia] pela perspetiva do cidadão; e, como tal, pessoas que não são idiotas, medíocres, mas que simplesmente não têm um trabalho ligado diretamente ao poder.

Roroka Chica

 

Fontes vendidas

Causa muita indignação o fato de que as principais fontes de informação do país são vendidas a uma elite irresponsável e entreguista. Tanta indignação, que não podemos ficar calados. As pessoas de senso crítico logo percebem que a melhor forma de ler certas revistas como Veja sem se alienar é "ler ao contrário". Sim, pois em muitas das vezes em que essa revista se põe a criticar uma idéia ou organização, o faz porque tal idéia tem força bastante para ameaçar a estrutura desumana vigente. Temos, por exemplo, as críticas feitas ao MST e às FARC, organizações que a cada dia ganham mais força para destronar os vergonhosos gorilas neoliberais.

A estratégia é sempre a mesma: cria-se um fato sujo, e depois são feitas suposições do tipo "tudo indica que foram eles mesmo". Ou então, temos a impressão de voltar no tempo, para a década de 30, quando os fascistas do Estado Novo manipulavam a opinião das pessoas com acusações absurdas, do tipo "comunista come criancinhas e corta seus braços".

O conteúdo da revista citada é realmente uma agressão à nossa dignidade de brasileiros. Sabemos que ela convence muita gente. Mas você, leitor, pode começar a mudar essa história.

Julio Moreira, Núcleo Secundarista da União da Juventude Socialista, em Goiânia

 

Prof. José de Souza Martins

Fiquei indignada. E ainda fazer uso do sociólogo José de Souza Martins! É muita ousadia [veja remissão abaixo]. Trata-se de um dos cientistas sociais dos mais lúcidos e merecedor de respeito que já conheci. Competente, sério e enormemente comprometido com o social. Fui sua aluna na Faculdade de Ciência Sociais da USP. É um dos que mais tem contribuído com seus estudos sobre a condição da terra e da luta dos sem terra nesse país. Trabalho que o FHC, sua patota, Veja e toda a imprensa deveria conhecer, pelo menos os prefácios... Pelo menos para constatarem que a questão da terra é motivo de estudos sérios, há décadas. Um contraste abismal com as ações policialescas sofridas pelo MST por parte dos que governam e dos que se proclamam representantes da fala do povo.

Maria da Consolação Gomes Cerqueira

 

Críticas abafadas

Se o MST invade fazendas, produtivas ou não, é uma "luta pelo direito do homem à terra"! Se um ladrão invade uma casa, faz reféns, agride os moradores, estupra, é "um resultado de uma sociedade injusta etc. etc. etc.". Se o morador dessa casa, para defnder sua família, mata o ladrão ele é um "assassino", que matou um "pobre infeliz produto do meio", da "sociedade capitalista e neoliberal", da "injusta distribuição de renda", etc. Um grupo de estrangeiros compra uma terra improdutiva, torna-a um modelo de produção, é expulso delas, estas terras são dadas aos "sem terra", tornam-se improdutivas, e ninguém diz nada em defesa de quem, com seu trabalho, desenvolveu anteriormente essa mesma terra e perdeu tudo. O MST arrebanha elementos sem emprego na cidade, para aumentar o movimento, e estes na primeira oportunidade vendem seus assentamentos e retornam para a cidade por que não são gente do campo, são homens urbanos, e simplesmente preferem viver mal na periferia a viver no campo seja de que maneira for, e ninguém diz nada. A própria Igreja, contrariando os mandamentos de Jesus, apóia lutas armadas hoje (e critica aquelas de 500 anos atrás, sem se preocupar com o contexto histórico de então), e no fim das contas, usa os mesmos métodos da Inquisição: se você não está comigo, está totalmente contra mim, e vai ser punido por isto, através dessa vez da massa de bucha de canhão que forma o MST e outros movimentos. E críticas a isto não se ouvem jamais, ou são abafadas. Me desculpem, mas isto é tão nazismo, ou fascismo, como aquilo contra o que se apregoa lutar.

Ricardo L. Tombi

 

Justiça social no campo

Não li a Veja, tampouco assisto na TV os programas mencionados, mas gostaria de deixar minha opinião. Não considero justa a distribuição de rendas, ou de terra, mas sou totalmente contra o método do MST. Por mais que falem, conheço muitas pessoas que são manipuladas dentro desses movimentos para beneficiar uma minoria. O governo é porco sujo e corrupto, mas os líderes desse tipo de movimento são piores que eles, porque utilizam a massa pouco informada e não dão condições de se aprimorarem. Também porque sabem que pessoas com opiniões próprias são perigosas. Conheço assentamentos de "sem terras" que não viraram nada, apenas pequenos monopólios nas mãos de alguns "não sem terra", que, espertos, acabam comprando e se beneficiando com isso.

Por que não fazem ao contrário? Criar uma lista de espera e treinar os futuros proprietários das terras "improdutivas" que vocês conseguem do governo, para que eles não as abandonem futuramente?

Por que não deixam aparecer na mídia assentamentos que deram certo? E que produzem com os "sem terras"?

Por que não mostram seus projetos? E mobilizam a população para uma coisa legítima que realmente iria beneficiar esses pobres coitados, que vocês utilizam para chantagear o governo?

Por que vocês não os ensinam a respeitar as leis? Porque um país (ou uma comunidade) só se estabelece quando todos respeitam as leis. Ou vocês pesam ao contrário?

Eu sei que nem sempre as leis são justas, mais isso se muda no Congresso, através de voto. Por que não ensinam a eles a conquistarem as pessoas, para terem aliados?

Alguma terras invadidas pelo movimento são depredadas e saqueadas, como nos tempos antigos. Não há liderança e, às vezes, nem a plantação que o proprietário plantou é colhida: deixam apodrecer e vão para outras terras, lógico, invadir... O que é isso amigos?? Essa é a justiça social que querem implantar no meu país??

Marinete

 

Mandem pra mim!!

Por favor, gostaria muito de ler "A verdade sobreo crime de Veja". Mandem-me o texto ou algum endereço em que eu possa achá-lo. Sou estudante de jornalismo e me vejo na obrigação de estar [informada] sobre questões da imprensa. Grata.

Flávia Mendonça

 

A verdade dos fatos

É lamentável para mim a forma como os jovens estão sucumbindo tão facilmente as ilusões do mundo capitalista selvagem. Assisti, meio que na inércia, ao debate e quase chorei de tristeza. É assustador a manipulação, a desinformação, a inércia. O foco principal do problema passou a ser o direito à propriedade privada; o movimento político (como se o movimento por si só já não fosse político); as lideranças rarefeitas; a radicalização...

O que questiono são as pessoas, a verdade dos fatos. Será mesmo que o MST tem essa postura de carrasco, que as pessoas são interesseiras e que haja gente com intuitos pessoais guiando o movimento? Tenho dúvidas. Vi, algumas vezes de perto, o movimento. Tenho visto na televisão. Há uma distância exata da realidade para o que vemos na TV. Recebi uma vez um jornalzinho, contribuí com livros para a formação de uma biblioteca nos acampamentos, já conversei com alguns sem-terra. A realidade é outros 500.

Essa discussão de que as invasões ferem os direitos à propriedade privada me parece um pouco equivocada. O que o MST parece querer discutir é exatamente isso. A estrutura fundiária falida. Esse governo patriarcal dos tempos de colônia que favorece os grandes latifundiários, produtores ou não.

O que o movimento questiona é que direito é esse que mantém essa elite corrupta e burguesa no poder há 500 anos com intuitos que fogem ao patriotismo? Que direito à propriedade privada é esse que exclui milhares de cidadãos brasileiros, homens, mulheres, mães, crianças? Que governo é esse que rege ao norte do dólar?

E tem gente passando fome. Tem gente que quer justiça. Terra e investimento em produção que possa incluir o trabalhador rural à estrutura econômica do país. O que anda acontecendo no Brasil é histórico. É o povo em todos os sentidos se manifestando contra uma estrutura política-social arcaica. Que governo e direito à propriedade são esses que induzem a repressão? Que ordenam "descer o cacete" em estudantes e professores que protestam pacificamente e de repente se vêem numa situação de lutar contra a truculência assassina, o sadismo de policiais que jogam pimentas, balas de borracha e bombas no futuro da nação, cujo crime foi protestar, exercer o verdadeiro direito à liberdade de expressão, à liberdade de ir e vir, de ser cidadão brasileiro e de ter direitos.

Sinceramente, eu não entendo e não concordo. E principalmente, não esqueço. Não esqueço dos "oficiais" 19 mortos no Pontal de Paranapanema. Não esqueço da repressão à marcha nas comemorações dos 500 anos do país. Não esqueço da cachaça do sr. Presidente. Não esqueço que esse mesmo sr. errou o Hino Nacional da nação que, segundo ele, governa. Não esqueço dos "vagabundos", dos "caipiras", do desrespeito ao aposentado, do massacre contra os índios. Não esqueço que o nosso ex-ministro do Turismo Rafael Greca deu uns trocados reais aos caciques das tribos para que eles participassem das comemorações de cabeça baixa. E nem das manifestações contidas à força. Dos comentários do ministro da Cultura, ex-secretário-geral do PT, assessor direto de Lula na campanha presidencial de 94, que se vendeu a FHC, antes mesmo de que o primeiro voto começasse a ser contado.

É deprimente, mas difícil de esquecer das trapalhadas, das CPI’s arquivadas, das sujeiras, roubalheiras, do favoritismo político, do despotismo de FHC, da truculência de ACM, dos gatunos fascistas das secretarias de Segurança Pública do país, do sadismo dos coronéis que "seguem ordens" dos grandes homens.

E quando acontece um debate desse, me vejo na situação de ouvir os jovens falarem de direito à propriedade privada que só fortalece essa imensa "Matrix" em que estamos imersos. E o direito de ser cidadão? E o direito à saúde , a educação de qualidade e gratuita? E o direito a existir, de ser, de pensar? O direito a saber das coisas sem que se passe uma espécie de "filtro" da censura; afinal é preciso defender os interesses, é preciso não gritar contra os direitos à propriedade privada. É preciso... Estado, então?

Maísa Nascimento

 

CASO VERA CRUZ
Sensacionalismo e malícia

Anna Paula Sotero
(*)

Não sei se indignação é a palavra que melhor reflete a sensação causada pela desastrosa maneira com que a imprensa tratou o ocorrido no Colégio Vera Cruz, em São Paulo. Com certeza, preocupação, sim, é o que fica com relação ao comportamento da mídia, que distorceu e destacou o que lhe conveio, em detrimento da informação do que é essencial e real. Esse comportamento, que lembra o caso da Escola Base, também em São Paulo, felizmente sem o mesmo desdobramento, acabou expondo profissionais e uma instituição que merecem respeito pelo trabalho e história.

Para os que ainda não sabem, explico: em fevereiro, os alunos do terceiro colegial do Colégio Vera Cruz, situado na Vila Leopoldina, fizeram apresentação teatral sobre os Movimentos de Vanguarda do início do século 20. Esses movimentos ambientaram importantes correntes literárias e artísticas, que representavam as idéias mais avançadas e consistentes tanto do meio artístico e cultural quanto do político e científico.

Denominados dadaísmo, fauvismo, surrealismo, impressionismo, modernismo, cubismo, futurismo, expressionismo e antropofagia, esses movimentos foram a imagem do repúdio aos valores da civilização ocidental, aos seus conceitos e pré-conceitos e ao autoritarismo. Nesta época surgiram grandes nomes na pintura, na música, na literatura. Os movimentos de vanguarda buscavam a renovação dos valores morais, políticos e filosóficos.

Três meses de atraso

Esses movimentos e suas escolas foram tema de estudos e discussões na disciplina de Língua Portuguesa e Literatura no Colégio Vera Cruz. Fruto de longas pesquisas, os alunos realizaram um surpreendente trabalho teatral, rico em ação e conteúdo, com situações que revelaram real compreensão do significado contestador e crítico dos movimentos de vanguarda. Tarjas na boca mostravam a castração da liberdade de expressão. Línguas de boi penduradas nas escadas do colégio fortaleciam a idéia de angústia, presente no expressionismo. Seios descobertos retratavam o devaneio, o sonho e a fantasia presentes nas naturezas idílicas do fauvismo. Beijos na boca, como uma incorporação da Sininho, das histórias de Peter Pan, demonstravam o espírito irreverente e infantil presente no dadaísmo.

Essas manifestações, principalmente as mais "ofensivas à moral e aos bons costumes", provocaram notas maliciosas e reportagens deturpadas na imprensa, o que, felizmente, foi contido a tempo pelo posicionamento forte de pais, professores, alunos e ex-alunos.

A imprensa jogou meia dúzia de palavras e títulos apelativos como "Alunos usam nudez em trabalho escolar" (Folha de S.Paulo, 9/5/00, no caderno Cotidiano). O destaque para o nu das meninas e o beijo na boca, como se esses fatos pudessem ser desvinculados de todo o restante do trabalho, mostra a disposição para o sensacionalismo gratuito. A imprensa tem sua função social, que deve cumprir, não omitindo fatos ou realizando julgamentos precipitados. Indubitavelmente, atitudes irresponsáveis por parte da imprensa trazem sérias conseqüências à vida das pessoas. O que nos chama ainda a atenção é o fato de a apresentação no Vera Cruz ter ocorrido em fevereiro. O evento – ou melhor, parte dele – foi noticiado apenas em maio, e da maneira mais especulativa por alguns jornais.

Pais solidários

Felizmente, boa parte dos jornais soube dar a dimensão correta do evento pedagógico do Colégio Vera Cruz, com reportagem objetiva na informação e adequada na interpretação. É o caso do Jornal da Tarde (13/5/00), da IstoÉ (17/5/00) e do Fantástico (20/5/00).

Faltou explicitar que os pais estavam cientes das performances dos filhos. Faltou dizer que o fato de que nem todos os professores sabiam ao certo o que seria apresentado fazia parte da linha de atuação adotada pelo colégioN – nesse caso em particular, pela disciplina de Língua Portuguesa e Literatura –, e que os alunos queriam com isso causar um efeito-surpresa. Mas isso foi mais uma brecha para a imprensa especular sobre a falta de controle dos professores nas salas de aula. A original representação dos alunos, que deveria ser encarada como um processo moderno, crítico, ativo, e responsável no aprendizado, na construção do conhecimento e na socialização, apareceu para o público, por obra da nossa imprensa, como algo imoral, irresponsável e de mau gosto.

É importante ressaltar que após a publicação das notícias o colégio recebeu cartas de pais e ex-alunos aprovando a continuidade de sua linha de atuação, que investe na liberdade, na inovação, na reflexão, na ação e na experimentação em educação.

(*) Física, com doutorado em Engenharia Elétrica na área de Microeletrônica e pesquisadora do Labjor/Unicamp

 

PÉROLAS
Mercedes Sosa vive!

Wilson Guimarães Cavalcanti

Tenho quase certeza de que ouvi Boris Casoy noticiar, ao término da edição do Jornal da Record de quinta-feira, 27/4/00, a morte da grande cantora argentina Mercedes Sosa, que "estaria internada de grave doença há muito tempo".

Na mesma noite busquei confirmaçãoo da notícia em outras emissoras. Nada! No dia seguinte, nada nos jornais, o que me levou à busca na internet. Em 29/4, acessei a Gaceta de Tucuman e achei a notícia de fato sobre a cantora: quem morreu foi a mãe de Mercedes Sosa!

Como não vi desmentidos na Record nem em nota alguma nos jornais, enviei dois emails a Boris Casoy, para dizer-lhe que achava correto que ele (se eu não estivesse equivocado!) fizesse alguma entrevista com a grande cantora, desse-lhe algum espaço, alguma visibilidade em seu jornal, de forma a divulgar a notícia verdadeira sobre ela.

Terminei dizendo que os admiradores de Mercedes Sosa (e de Boris Casoy), como eu, agradeceriam por essa iniciativa.

Até hoje estou aguardando resposta. Mercedes Sosa está viva, graças a Deus e apesar do Boris.

 

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