05/08/2003 8/11

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NOTAS DE UM LEITOR
Cobrindo ficção

Luiz Weis

O trabalho do repórter Cassiano Elek Machado, de que o exemplo mais recente foi a cobertura da 1ª Festa Literária Internacional de Parati (Flip), na semana passada, vem garantindo na "Ilustrada" da Folha de S.Paulo espaço para a literatura como notícia.

Já era mesmo tempo de a imprensa se ocupar da ficção e da poesia não apenas em resenhas, ou nas críticas mais ambiciosas e artigos acadêmicos dos cadernos culturais, mas também em reportagens regulares sobre o ofício e os seus praticantes.

Cassiano dá conta do recado com distinção e louvor: escreve bem, pelo visto lê bastante e faz entrevistas ao mesmo tempo inteligentes e atraentes para o grande público.

Os seus editores bem que poderiam incumbi-lo ainda de fazer matérias sobre o business do setor editorial. Geralmente, o assunto entra em pauta empurrado pelas feiras de livros. É pouco.

A produção literária também tem mais ganchos do que parece. Daria uma boa reportagem, por exemplo, as freqüentemente tensas relações entre os escritores e os preparadores de seus textos, nas editoras.

No Brasil não existe, como nos Estados Unidos e na Inglaterra, o editor de textos literários, que não se limita a revisar, em sentido estrito, os originais recebidos, mas checa incoerências e repetições na história, propõe formas melhores de dizer o que está dito em certas passagens, quando não mudanças no próprio enredo.

Quem viu o excelente filme O tempo de cada um ("Personal velocity: three portraits"), de Rebecca Miller, em exibição em São Paulo, deve ter se impressionado, em um dos episódios, com os poderes de uma editora capaz de fazer de um bom romance uma obra de primeira.

Muitos escritores não gostam disso. No suplemento Mais! (Folha, 3/8), o artigo "Língua solta", do historiador da arte Jorge Coli, começa dizendo que "não existe o MAO, Movimento dos Autores Oprimidos, mas deveria".

O artigo é uma pauta pronta para uma reportagem que certamente chamará a atenção dos leitores – de periódicos e livros. Chamem o Cassiano.

 

Uma presa esquiva

Nenhum episódio importante da história contemporânea americana foi tão virado e revirado pela imprensa como a invasão da sede do Partido Democrata, no conjunto Watergate, em Washington, em junho de 1972, para a instalação de um grampo – e tudo o que se lhe seguiu.

O episódio tornou familiar a inumeráveis leigos o termo "jornalismo investigativo", promoveu da pornografia para a política o apelido "garganta profunda" e transformou em clichê a expressão "todos os homens do presidente", título do best seller dos celebrados repórteres Bob Woodword e Carl Bernstein, do Washington Post.

Trinta e um anos depois do que o então presidente Richard Nixon chamara de "arrombamento de terceira categoria" e dos oceanos de tinta gastos na apuração e interpretação do assunto, fica-se sabendo que nem tudo o que se sabia era a verdade verdadeira.

No caso, que se podia dizer o que fosse de Nixon, menos que ele, em pessoa, tinha autorizado a operação.

Em um documentário da PBS (a TV educativa dos Estados Unidos), exibido na semana atrasada, Jeb Stuart Magruder, vice-presidente do comitê para a reeleição de Nixon naquele ano, aparece dizendo que ouviu o presidente dar a um de seus homens, John Mitchell, encarregado da campanha e depois secretário de Justiça dos EUA, o "go ahead" para o arrombamento.

Nixon, que renunciou para não ser cassado em 1974 e morreu vinte anos depois, nunca admitiu ter dado esse sinal verde – e ninguém conseguiu provar o contrário.

É claro que Magruder pode estar mentindo por alguma obscura razão, mas a sua tardia revelação faz sentido, como escreveu no New York Times (29/7) o historiador de Yale David Greenberg. "As afirmações de Magruder", comenta ele, "têm recebido atenção em parte porque afastam da mente o que sempre pareceu uma anomalia: a presunção, de longa data, da inocência de Nixon em relação à invasão".

Para os jornalistas, fica a desconfortável sensação de que a verdade pode ser uma presa mais esquiva do que se consegue admitir no dia-a-dia – para o ofício fazer sentido.

 

Homofobia e silêncio

Pelo menos até o domingo (3/8) nenhum grande jornal brasileiro tinha publicado um editorial sobre a decisão do Vaticano de condenar a legalização de uniões entre homossexuais, com um tom que faz lembrar os éditos da Santa Inquisição.

A Igreja, que nunca pecou por escassez de homossexuais nas suas fileiras, nunca aceitou também a separação entre religião e Estado, o que a leva a se comportar como se, além dos governos, as populações lhes devessem obediência, seja qual for a sua fé, ou nenhuma.

O reacionarismo medieval do pontificado de João Paulo II em relação a questões de comportamento e valores pessoais é arquiconhecido. Nem por isso as páginas de opinião da mídia deveriam passar ao largo de suas piores manifestações.

Melhor um editorial que dê razão aos curas do que o silêncio por medo de contrariá-los.

 

Para o bem da Europa

Não é trivial, como se diz, o que a revista londrina The Economist acaba de fazer com o premier italiano Silvio Berlusconi, presidente de turno da União Européia.

Ela concedeu ao homem mais rico da Italia e pezzonovante da mídia de seu país, cercado de acusações de corrupção por tudo quanto é lado, a duvidosa distinção de ser a capa da sua edição desta semana, com a chamada "Dear Mr Berlusconi – Our challenge to Italy’s prime minister".

Sob a forma de carta aberta, o desafio não apenas trata do tido e sabido – a lei sob medida recém-aprovada pela dócil maioria do Parlamento italiano para impedir que a Justiça ponha as mãos em seu líder –, mas se desdobra em 28 perguntas sobre os seus biliardários negócios.

Como se fosse pouco, a revista colocou na internet um dossiê de 8 mil páginas – isso mesmo: 8.000 páginas – contra aquele a quem qualifica de "capitalista que abusa da democracia".

The Economist é ardentemente pró-capitalista. Democrata também, ainda que tenha tomado o partido de Augusto Pinochet quando o procurador espanhol Baltazar Garzón tentou extraditá-lo de Londres, onde se encontrava.

E embora não seja a mais europeísta das publicações européias, é em nome da limpeza ética da Europa unificada que a Economist quer que Berlusconi seja posto para fora da cena política da UE.

Haja coglioni. Porque a revista corre o risco de pagar uma montanha de libras – o Reino Unido ainda não aderiu ao euro – a título de indenização, se ele ganhar a ação que prometeu abrir pelo "conteúdo difamatório" da matéria.

 

Ah, os lides diferentes

Nas páginas quase sempre pedregosas da imprensa diária brasileira, com os seus textos burocráticos – mesmo quando, dado o assunto, podiam ter uma pitada de sal – além dos maus-tratos de praxe ao português, é uma festa encontrar o avesso disso.

Vai para o trono, portanto, o lide da matéria "Brasileiro usa Teoria da Relatividade para resolver paradoxo do submarino", assinada por Ruth Helena Bellinghini, na pág. A 13 do Estadão de quinta-feira, 31/7. É assim:

"Gente que vive tranqüila neste mundo de três dimensões em que o tempo é marcado pelos ponteiros do relógio nem pensa nisto. Mas os físicos – ah, os físicos – são diferentes".

 

Ah, essa falsa cultura

Já na página A 6 da mesma edição do Estado, a matéria "Agenda social unificada deve sair até 3ª" informa que o ministro de Segurança Alimentar, José Graziano, ao dizer que "estamos fazendo o caminho, caminhando", parafraseava "o poeta Pablo Neruda".

Os famosos versos "Caminante, no hay camino, se hace el camino al andar" são do espanhol Antonio Machado (1875-1939).

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