TOM GLACIAL
Sem raiva nem pudor
José Antonio Palhano (*)
Laudos e demais exames médicos, por mais implacáveis que sejam em seus resultados, são protocolarmente comedidos e secos, tão frios quanto a própria fatalidade que emana dos seus textos, a despeito da carga de comoção que possam descarregar sobre o paciente, seus familiares e seus amigos. O estilo ali utilizado nada tem a ver, portanto, com aquele adotado no jargão jornalístico, ao menos numa acepção deste último capaz de preservar a ética, a compostura e o rigor profissional. A noção de imparcialidade, tão cara às boas redações e às salas de aula das universidades, no entanto, não impede que de um bom texto de jornal brote indignação e revolta, por exemplo, sem prejuízo da sua integridade. Vai daí que não é à toa que insistimos tanto, sejamos jornalistas, escritores, críticos ou leitores, em exercitar a comparação entre literatura e jornalismo.
Consolida-se agora a tendência a adotar um estilo tanto mais seco, burocrático e definitivo em nossos jornais quanto maior for a degradação moral e ética que avança, à guisa de um arrastão carioca, sobre as nossas frágeis e deslumbradas instituições. A medular e dramática dependência do oficialismo – seja a favor ou contra, não importa – está por trás do processo. Na ânsia de acompanhar o poder dia e noite, capa-se o texto justo na sua alma, na estúpida e alienada tentativa de se fazer passar por "independente e imparcial" às custas de uma assepsia caricata cuja falsidade lembra bem um uísque paraguaio. Urge acompanhar a disputa pelas presidências do Senado e da Câmara de maneira a fechar a página independentemente da podridão que emana das suas respectivas bandas, de resto molecagens siamesas grudadas pela promiscuidade comum aos seus genitores. E aí só é preciso ter estômago para tocar o barco. Ou a pauta.
Observe-se, por exemplo, a crônica da busca por um salário mínimo mais decente (afinal, 180 reais é algo bem próximo da cabalística marca de 100 dólares, tão cara aos progressistas e opositores do regime de maneira geral). Pela primeira vez, tratou-se de assunto de tamanha magnitude social com civilizada precedência e responsável motivação na garimpagem de receitas. Mas apenas quando se chegou à maravilhosa idéia de quebrar o sigilo bancário nos casos suspeitos de sonegação fiscal, nada além de uma velha bandeira ridicularizada pela condenação que a confinou amarfanhada em alguma gaveta corrupta de Brasília. Num átimo, parte da bancada governista pura e simplesmente se sublevou, indignada com a acintosa atropelada legal aos interesses dos banqueiros.
Bancada da Febraban
E a mixórdia tem sido escrita e contada como se fosse a coisa mais natural do mundo. O contra-ataque ganhou ares de "normalidade" no exato instante em que veio ao mundo, expondo a patológica compulsão de noticiar o mundo político independentemente do grau de putrefação que o caracterize. A bem-informada, comedida e sempre ágil em citar literaturas Tereza Cruvinel, de O Globo, por exemplo, gastou mais da metade de uma sua coluna tratando do assunto. O tom glacial adotado – exemplo da biópsia jornalística tão em voga –, longe de condená-la por insensibilidade social (ou por incurável simpatia à rapinagem dos banqueiros), revela antes de tudo a inadequação do assunto ao espaço. Se deputados já perderam o que lhes restava de auto-estima e de dignidade a ponto de não se coçar com a pecha de "Bancada da Febraban", qualquer bom jornalão deveria era sapecar um editorial de capa numa situação dessas (e não botar suas damas em constrangedoras saias justas).
Mas as corporações preferem um joguinho pra lá de safado. Delegam aos colunistas a tarefa de criticar o fulano, o sicrano ou o contexto. Márcio Moreira Alves e o decano Villas Bôas-Corrêa foram dois deles que rodaram a baiana. O primeiro, por fazê-lo, ganhou biliosa crítica do colega Cláudio Humberto, que interpretou uma sua coluna sobre Jader Barbalho na conta de mera resposta a determinada baixaria deste último contra sua pessoa. Ótimo. Cidadãos, sejam jornalistas ou não, devem se abster de se indignar contra Barbalho como se houvesse outra maneira de se referir ao homem, com a exceção de seus familiares e de seus vassalos. Indignar-se contra o senador paranaense deve ser atributo dos jardins, das pombas e do concreto de Brasília. Ora, Jader Barbalho passou a vida a encher as burras dedicando solene e ruidoso desprezo por razões éticas e morais. Se insistimos tanto em pautá-lo como "normal", e mesmo debochar a seu favor quando é atacado por alguém da folha corrida de Moreira Alves, então quem está certo é o ilustre senador. Locupletemo-nos todos e vida que segue. Tereza Cruvinel acaba ficando com uma batata quentíssima (ou gelada) nas mãos por culpa da sua natureza delicada, que pressupõe um ambiente mais sadio na política que cobre diariamente.
A fim de que não persista a suspeita de uma implicância exagerada com Brasília, vale a pena uma escala no Rio de Janeiro. Até o sábado (1/12), somavam cinco as ocorrências com artefatos explosivos contra instalações policiais na cidade, algo que por si só já merecia o tal editorial de capa. O tráfico na Cidade Maravilhosa há muito é o protagonista de um contexto no qual se pratica terrorismo explícito e pronto. Não reconhecê-lo é fruto de uma deformação segundo a qual essas coisas só podem ser praticadas por agentes de ditaduras de direita ou, numa interpretação mais lúdica, porque o Estado é governado por um Garotinho?
(*) Médico, editorialista e colunista político da Folha do Povo, em Campo Grande, MS
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